VI – A PERSPECTIVA MAIS ABRANGENTE

VI – A PERSPECTIVA MAIS ABRANGENTE

 

 

É fácil perceber a mudança radical introduzida na vida do homem que compreende que a sua vida física não é nada mais que um dia na escola, e que o seu corpo físico é simplesmente uma vestimenta temporária arranjada para o propósito de aprender através dele. Ele de imediato vê que esse propósito de “aprender a lição” é o único que tem alguma importância, e que o homem que se permite ser desviado desse propósito por qualquer consideração está agindo com ignorância.

 

Para aquele que conhece a verdade, a vida da pessoa comum devotada exclusivamente a objetivos materiais, à busca de riqueza ou fama, parece uma simples brincadeira de criança – um sacrifício insensível de tudo o que vale a pena ter para a gratificação de uns poucos momentos da parte inferior da natureza do homem.

 

O estudante da Filosofia Perene coloca sua afeição nas coisas elevadas, e não nas coisas da Terra, não apenas porque ele percebe que é a coisa certa a ser feita, mas porque compreende muito claramente como são passageiras as coisas terrenas. Ele sempre tenta alcançar o ponto de vista mais elevado, pois vê que o inferior carece totalmente de confiança – que os desejos e sentimentos inferiores o cercam como um denso nevoeiro, tornando-lhe- impossível ver qualquer coisa com clareza, a partir daquele nível.

 

Mesmo que ele esteja totalmente convencido de que o caminho mais elevado é sempre o correto, e esteja totalmente determinado a segui-lo, irá ainda algumas vezes encontrar tentações muito fortes para seguir o caminho inferior, e estará consciente de uma grande luta dentro de si. Ele descobrirá que há “uma lei dos membros em guerra com a lei da mente”, como diz São Paulo, “porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.” (Romanos VII, 19)

 

Ora, as boas pessoas religiosas geralmente cometem os equívocos mais sérios sobre essa luta interior que todos nós já sentimos, em um nível maior ou menor. Elas geralmente aceitam uma das duas teorias sobre o assunto. Ou elas supõem que o sinal verde para as coisas inferiores vem de demônios tentadores externos, ou então deploram a terrível maldade e negrume de seus corações, já que um mal tão incompreensível ainda existe dentro delas. Realmente, muita gente boa, homens e mulheres, passam, por causa disso, por um sofrimento enorme e totalmente desnecessário.

 

O primeiro ponto a ter claro na mente, quando se deseja compreender esse assunto, é que o desejo inferior na verdade não é de modo algum o nosso desejo. E nem é obra de algum demônio tentando destruir as nossas almas. É verdade que às vezes há entidades malévolas que são atraídas pelos baixos pensamentos do homem, e agem para intensificá-los: – mas tais entidades são criadas pelo homem, todas elas, e são impermanentes. São somente formas artificiais chamadas à existência pelo pensamento de outros homens malévolos, por um período que parece quase o de uma vida, proporcional à força do pensamento que as criou.

 

Mas o imediatismo indesejável dentro de nós, via de regra, vem de outra fonte. Foi mencionado, anteriormente, de que forma o homem atrai ao redor de si vestimentas de matéria de diferentes níveis para que possa descer à encarnação.

 

Essa matéria não é matéria morta (na verdade, a Filosofia Perene, nos ensina que em nenhum lugar existe tal coisa chamada matéria morta), mas está carregada de vida, embora seja vida num estágio de evolução muito anterior ao nosso – tão anterior que ainda está se movendo num curso descendente para se tornar matéria inferior, em vez de estar novamente ascendendo da matéria inferior para a superior. Consequentemente, sua tendência é pressionar para baixo, em direção à matéria mais densa e às vibrações mais pesadas, que para ela significam progresso, e que para nós significam regressão; assim, acontece que o interesse do homem verdadeiro com frequência entra em rota de colisão com o da matéria viva, em alguns dos seus veículos.

 

Esse é apenas um esboço a respeito do curioso conflito interno que muitas vezes sentimos – um conflito que trouxe às mentes poéticas a ideia dos anjos bons e maus em conflito a respeito da alma do homem. Uma consideração mais detalhada poderá ser encontrada na obra O Plano Astral, de minha autoria.

 

Mas, por ora, é importante que o homem compreenda que ele é a força superior, sempre se movendo para o bem e lutando por ele, e que essa força inferior não é ele de modo algum, mas apenas um fragmento desgovernado de um dos seus veículos inferiores. Ele deve aprender a controlá-la, dominá-la totalmente e mantê-la em ordem; mas não deve, apesar disso, pensar nela como algo ruim, e sim como uma efusão do poder divino movendo-se em seu curso regular, embora esse curso, nesse estágio, ocorra para baixo, em direção ao interior da matéria, em vez de para cima e para longe dela, como é o nosso.