VII – A MORTE
Um dos resultados práticos mais importantes de uma profunda compreensão dos princípios da Filosofia Perene é a completa mudança que ela necessariamente provoca em nossa atitude com relação à morte. Não podemos calcular a vasta quantidade de dor verdadeiramente desnecessária, de terror e de miséria que a humanidade em conjunto tem sofrido, devido simplesmente à sua ignorância e superstição com respeito a este assunto chamado morte. Há entre nós uma quantidade enorme de crenças falsas e tolas a esse respeito, que causaram um mal indizível no passado e que estão causando um sofrimento indescritível atualmente; sua erradicação seria um dos maiores benefícios que se poderia oferecer à espécie humana.
Esse benefício é imediatamente conferido pelo conhecimento da Filosofia Perene àqueles que, por causa do seu estudo dessa filosofia em vidas passadas, acham-se agora capazes de aceitá-lo. Ele imediatamente retira da morte o seu terror e muito da sua dor, e nos permite vê-la em sua verdadeira proporção, entendendo o seu lugar no esquema da nossa evolução.
Enquanto a morte é considerada o fim da vida, como um portal para um país sombrio, amedrontador e desconhecido, não é sem razão que seja considerada com muito temor, senão com inegável terror. Uma vez que, apesar de todo ensinamento religioso em contrário, tenha sido essa a visão universalmente adotada no Ocidente, muitos horrores terríveis surgiram em torno da morte, tendo-se tornado assuntos usuais, aceitos às cegas por muitas pessoas que deveriam ter melhor compreensão sobre eles.
Toda a horrível parafernália lúgubre relativa ao luto não representa mais que um anúncio da ignorância de grande parte das pessoas. O homem que começa a entender o que significa a morte de imediato deixa de lado toda essa falsa aparência, por considerá-la infantil. O ato de chorar a morte de um amigo simplesmente porque envolve, para si mesmo, a dor de uma aparente separação, torna-se, logo que reconhecido, uma mostra de egoísmo. Ele não pode deixar de sentir a angústia da separação temporária, mas pode evitar que a sua própria dor se torne um empecilho para o amigo que morreu.
O homem que começa a entender o que significa a morte sabe que não precisa haver temor ou pesar pelo falecimento, caso ocorra com ele mesmo ou com aqueles a quem ama. Já aconteceu com todos eles tantas vezes antes que nada há de incomum nisso. Em vez de representá-la como uma terrível rainha dos horrores, seria mais apropriado e mais sensato simbolizá-la como um anjo empunhando uma chave dourada para nos admitir nos reinos gloriosos da vida superior.
Esse homem compreende de maneira muito definida que a vida é contínua, e que a perda do corpo físico nada mais é que deixar de lado uma vestimenta, o que de modo algum modifica o homem real, que é o usuário da vestimenta. Ele vê que a morte é simplesmente uma promoção de uma vida que é mais de cinquenta por cento física para outra que é totalmente astral, e portanto muitíssimo superior.
Assim, para si mesmo, ele com toda a sinceridade lhe dá as boas-vindas; e, quando diz respeito àqueles a quem ama, ele imediatamente reconhece a grande vantagem que é para eles, embora não possa deixar de sentir uma certa ponta de lamento egoísta, por estar temporariamente separado deles. Mas ele também sabe que essa separação é só aparente, e não real. Sabe que os assim chamados mortos estão ainda próximos a ele; e que basta livrar-se temporariamente do seu corpo físico, durante o sono, para estar lado a lado com os mesmos e conversar com eles como fazia antes.
O homem que começa a entender o que significa a morte vê de maneira clara que o mundo é uno e que as mesmas leis divinas regem a sua totalidade, seja ele visível ou invisível à visão física.
Consequentemente ele não tem muitos sentimentos de angústia, nervosismo ou medo ao passar de uma parte para a outra, e poucas incertezas quanto ao que irá encontrar do outro lado do véu. O mundo invisível está tão claramente mapeado para ele, pelo trabalho de gerações de investigadores, que esse se torna quase tão bem conhecido quanto a vida física; desse modo, ele está preparado para adentrá-lo sem hesitação, quando possa chegar o melhor momento para a sua evolução.
Para detalhes mais abrangentes dos vários estágios dessa vida mais elevada devemos remeter o leitor aos livros especialmente direcionados a esse assunto. Aqui basta dizer que as condições pelas quais o homem passa são precisamente aquelas que ele preparou para si mesmo. Os desejos e pensamentos que ele incentivou dentro de si durante a sua vida terrena tomam forma como entidades vivas definidas, pairando à sua volta e reagindo sobre ele até que a energia que ele armazenou dentro delas se esgote.
Se tais pensamentos e desejos tiverem sido poderosa e persistentemente maus, os acompanhantes assim criados podem ser deveras terríveis; mas, felizmente, tais casos formam uma diminuta minoria entre os habitantes do mundo astral. O pior que o homem comum geralmente provê para si mesmo após a morte é uma existência inútil e insuportavelmente tediosa, destituída de todo interesse racional, que é a sequência natural de uma vida desperdiçada em auto indulgência, trivialidades e diz que me diz aqui na Terra.
A esse tédio, sob certas circunstâncias, pode-se juntar um efetivo sofrimento. Se o homem, em sua vida física, permitiu que um forte desejo físico se impusesse a ele – se, por exemplo, ele se tornou escravo de vícios como avareza, sensualidade ou embriaguez – ele preparou para si muito sofrimento expiatório após a morte. Pois, ao perder o corpo físico, ele de modo algum perde seus desejos e paixões; esses permanecem tão vívidos quanto antes, ou melhor, eles se tornam ainda mais ativos quando não têm mais as partículas pesadas da matéria densa para pôr em movimento.
O que ele perde é o poder de satisfazer essas paixões, de modo que elas permanecem como desejos torturantes, atormentadores, não satisfeitos e sem possibilidade de satisfação. Ver-se-á que isso se torna um verdadeiro inferno para o desafortunado, embora temporário, uma vez que, com o passar do tempo, tais desejos devam se autoconsumir, despendendo sua energia no próprio sofrimento que produzem.
Um destino terrível, é verdade; todavia há dois pontos que temos de reter na mente com relação a esse aspecto: – primeiro, que o homem não apenas se impôs isso, mas que ele próprio determinou a sua duração e intensidade. Ele permitiu a esse desejo alcançar uma certa força durante a sua vida na Terra, e agora deve enfrentá-lo e controlá-lo. Se, durante a vida física, ele fez esforços para reprimir ou resistir a esse desejo, terá agora tanto menos dificuldade em sobrepujá-lo. Ele criou para si o monstro contra o qual tem de agora lutar; qualquer que seja a força que o seu antagonista possua, é justamente a que ele lhe deu. Portanto, sua sorte não lhe é imposta de fora, mas é simplesmente obra sua.
Segundo, o sofrimento que ele desse modo se impõe é, para si, a única maneira de escapar. Se lhe fosse possível evitá-lo e atravessar a vida astral sem esse desgaste gradual dos desejos inferiores, qual seria o resultado? Obviamente, ele adentraria sua próxima vida física inteiramente sob o domínio dessas paixões. Seria um alcoólatra nato, um sensualista, um avarento; e muito antes de ser possível ensinar-lhe que deveria tentar controlar tais paixões, elas teriam se fortalecido demais para serem controladas – elas o teriam escravizado, corpo e alma, e assim uma outra vida seria desperdiçada, outra oportunidade seria perdida. Desse modo, ele entraria num círculo vicioso do qual parece não haver escapatória, e sua evolução seria retardada indefinidamente.
O esquema divino não é imperfeito assim. A paixão se exaure durante a vida astral, e o homem retoma à existência física sem ela. É verdade que a fraqueza mental que permitiu à paixão dominá-lo ainda está lá; verdade, também, que para essa nova vida astral ele construiu para si um corpo astral capaz de expressar exatamente as mesmas paixões que anteriormente, de modo que não seria difícil para ele voltar à sua antiga vida prejudicial.
Mas o Ego, o homem verdadeiro, teve uma lição terrível, e certamente fará todo esforço para evitar que sua manifestação inferior repita aquele mesmo erro, de novamente cair sob o domínio daquela paixão. Ele ainda possui os germes daquela paixão dentro de si, mas, se fez por merecer bons e sábios genitores, esses o ajudarão a desenvolver o que de bom há nele e a evitar o mal; os germes permanecerão sem dar frutos e atrofiarão, e assim, na vida seguinte após essa, eles não mais aparecerão. Dessa forma, lentamente o homem supera seus defeitos e desenvolve virtudes para substituí-los.
Por outro lado, o homem que é inteligente e prestativo, que compreende as condições dessa existência não física e que cuida de se adaptar a elas e fazer delas o melhor, descobre a descortinar-se ante ele uma vista esplêndida de oportunidades, tanto para a aquisição de conhecimento novo quanto para a execução de trabalho útil.
Ele descobre que a vida além desse corpo denso possui uma nitidez e brilho diante dos quais todas as alegrias terrestres são como o luar ante a luz do sol, e que, através do seu conhecimento claro e sua calma confiança, o poder da vida eterna brilha sobre todos ao seu redor. Ele pode tornar-se um centro de paz e alegria inexprimível para centenas de seus semelhantes, e pode fazer mais bem em poucos anos daquela existência astral do que jamais poderia ter feito na vida física mais longa.
Ele está bem ciente, também, de que diante dele encontra-se um outro estágio ainda maior dessa maravilhosa vida post-mortem. Assim como, por seus desejos e pensamentos inferiores, ele construiu para si o ambiente de sua vida astral, da mesma maneira construiu, com pensamentos elevados e aspirações mais nobres, uma vida no mundo celeste.
Pois o céu não é um sonho, mas uma realidade viva e gloriosa; não é uma cidade distante além das estrelas, com portões de pérolas e ruas de ouro, reservada para a habitação de uns poucos favorecidos, mas um estado de consciência pelo qual todo homem passará durante o intervalo entre suas vidas na Terra.
Não é um lugar de moradia eterna, verdadeiramente, mas uma condição de indescritível felicidade que se estende através de muitos séculos. E não é só isso, pois embora contenha a realidade que permeia todas as melhores e mais espirituais ideias de céu que foram propagadas em várias religiões, não deve, de modo algum, ser considerado somente a partir desse ponto de vista.
É um reino da natureza que é de extrema importância para nós – um mundo vasto e esplêndido de intensa vida, no qual estamos vivendo, agora como nos períodos entre as encarnações físicas. E apenas a nossa falta de desenvolvimento, apenas as limitações que nos são impostas por essa veste de carne, que não nos permitem compreender completamente que toda a glória mais elevada do céu está à nossa volta aqui e agora, e que as influências que emanam daquele mundo estão sempre agindo sobre nós; basta que as entendamos e recebamos. Por mais impossível que possa parecer ao homem comum, essa é a mais plena das realidades para o investigador esotérico (verdadeiro ocultista). Para aqueles que ainda não compreenderam essa verdade fundamental, podemos apenas repetir o conselho do Instrutor budista (Senhor Gautama, o Buda): –
“Não reclame nem chore nem ore,
porém abra os olhos e veja.
Toda a luz está ao seu redor
se você simplesmente retirar a venda dos olhos e olhar.
É tão bela, tão maravilhosa, tão além
do que qualquer homem possa ter sonhado ou suplicado,
e está aí para todo o sempre.”
[The Soul of a People (A Alma de um Povo)]
Quando o corpo astral, que é o veículo do pensamento inferior e do desejo, gradualmente se desgasta e é deixado para trás, o homem vê-se residindo naquele veículo superior de matéria mais refinada a que temos chamado corpo mental. Nesse veículo, ele é capaz de responder às vibrações que lhe chegam vindas da matéria correspondente no mundo externo – a matéria do plano mental.
Acabou o seu tempo de purgatório, a parte inferior de sua natureza exauriu-se, e agora permanecem apenas os pensamentos e as aspirações superiores que ele desenvolveu durante a sua vida na Terra. Esses o cercam, criando uma espécie de concha à sua volta, de modo que ele é capaz de responder a certos tipos de vibrações nessa matéria mais refinada.
Esses pensamentos que o cercam são os poderes pelos quais ele atrai a riqueza do plano celeste. Esse plano mental é um reflexo da Mente Divina – um reservatório de extensão infinita do qual a pessoa que está desfrutando do céu é capaz de extrair somente aquilo que está de acordo com o poder de seus próprios pensamentos e aspirações gerados durante as vidas física e astral.
Todas as religiões falam da bem-aventurança do céu; todavia, poucas colocaram diante de nós, com clareza, essa ideia pioneira que explica racionalmente como tal felicidade é possível igualmente para todos – que é, realmente, a chave-mestra da concepção: – o fato de que cada homem cria o seu próprio céu, pela seleção dos inefáveis esplendores do pensamento do próprio Deus.
Um homem decide por si mesmo tanto a extensão quanto o caráter da sua vida celeste, de acordo com as causas que gera durante sua vida terrena; portanto, ele não pode obter senão exatamente aquilo que mereceu e exatamente a qualidade de alegria que melhor condiz com as suas peculiaridades. Esse é um mundo no qual todo ser, devido ao fato de sua consciência estar ali, deve estar desfrutando a mais elevada bem-aventurança espiritual que seja capaz – um mundo cujo poder de resposta à sua aspiração é limitado apenas pela sua capacidade de aspirar.
Maiores detalhes quanto à vida astral serão encontrados em O Plano Astral; a vida celeste está descrita em O Plano Mental, dois livros de minha autoria. Informações sobre ambas são dadas em O Que Há Além da Morte, também de minha autoria, e em A Morte e Depois, de Annie Besant.