V – REENCARNAÇÃO

V – REENCARNAÇÃO

 

 

Uma vez que, nas primeiras etapas de sua evolução (ou aprendizado), os movimentos mais sutis não conseguem afetar a alma, ela tem que juntar ao seu redor vestimentas de matéria mais densa, através das quais possam fluir as vibrações mais pesadas; e assim ela toma sobre si sucessivamente o corpo mental (concreto, ou inferior), o corpo astral e o corpo físico.

 

Isso é um nascimento ou reencarnação – o começo de uma vida física. Durante essa vida, ocorrem diferentes tipos de experiências através do seu corpo físico; dessas experiências, ela (a alma) deve aprender algumas lições e desenvolver algumas qualidades dentro de si mesma.

 

Após algum tempo ela começa novamente a se recolher para dentro de si mesma, e gradativamente vai se desfazendo das vestimentas de que fez uso. A primeira delas a ser descartada é o corpo físico, e a sua retirada desse corpo é o que chamamos morte.

 

Isso não é o fim das suas atividades, como tão impropriamente supomos; nada poderia estar mais distante da realidade. Ela está simplesmente se afastando de um esforço, levando com ele os resultados; e após um certo período de comparativo repouso (e assimilação), fará novamente um novo esforço do mesmo tipo.

 

Assim, como foi dito, aquilo que geralmente chamamos de sua vida é apenas um dia na vida real e mais ampla – um dia na escola, durante o qual ela aprende muitas lições.

 

Mas, visto que uma curta vida de setenta, oitenta ou noventa anos, não é suficiente para lhe dar uma oportunidade de aprender todas as lições que esse belo e maravilhoso mundo tem a ensinar, e visto que Deus deseja que ela as aprenda todas no tempo de que dispõe, é necessário que ela retorne muitas vezes e viva muitos desses dias escolares que chamamos de vida, em diferentes classes e sob diferentes circunstâncias, até que todas as lições sejam incorporadas; e então o seu trabalho escolar mais inferior terminará e ela passará a algo mais elevado e mais glorioso – a verdadeira vida divina de trabalho, para a qual toda essa vida escolar na Terra a está capacitando.

 

É a isso que se chama doutrina da reencarnação, ou do renascimento – uma doutrina que foi amplamente conhecida nas civilizações antigas e que hoje em dia é ainda mantida por grande parte da raça humana. Sobre isso, Hume escreveu:

 

“O que é incorruptível deve também não ser gerado (nascido junto com o corpo físico). A alma, portanto, é imortal, existia antes do nosso nascimento (…) A metempsicose é, portanto, o único sistema desse tipo a que se pode dar ouvidos.” (David Hume. Essay on Immortality, Londres, 1878). (1)

 

E também sobre isso Huxley escreveu:

 

“Como a própria doutrina da evolução, a doutrina da transmigração tem suas raízes no mundo da realidade; e pode reivindicar suporte tal como o grande argumento da analogia é capaz de fornecer.” (Thomas H. Huxley, Evolution and Ethics, p. 61, 1895 ed.) (2)

 

Assim, pode-se ver que tanto os escritores modernos quanto os antigos reconhecem essa hipótese como merecedora da mais séria consideração. Ela não deve, por um instante sequer, ser confundida com a teoria, sustentada por algumas pessoas, de que é possível para uma alma que atingiu a humanidade em sua evolução retornar à condição de animal.

 

Nenhuma regressão desse tipo está dentro dos limites da possibilidade; uma vez que o homem veio à existência – uma alma humana, habitando o que chamamos em nossos livros de corpo causal (mental abstrato, ou superior), – ele jamais poderá novamente retroceder ao que em verdade é um reino inferior da natureza, quaisquer que sejam as faltas que possa cometer, ou se vier a falhar em aproveitar suas oportunidades.

 

Se ele for indolente na escola da vida, poderá precisar repetir a mesma lição muitas vezes, antes de realmente a ter aprendido; mas, ainda assim, no geral o progresso é constante, embora possa muitas vezes ser lento. Há alguns anos a essência dessa doutrina foi belamente exposta numa revista:

 

“Um menino frequentava a escola. Ele era muito pequenino. Tudo o que sabia adquirira juntamente com o leite materno. Seu professor (que era Deus) o colocou na turma mais atrasada e lhe deu estas lições para aprender: ‘Não matarás. Não roubarás.’ E assim, o homem não matou; mas ele era cruel, e roubava. Ao final do dia (quando sua barba estava grisalha – quando a noite chegara), seu professor (que era Deus) disse: ‘Aprendeste a não matar. Não causarás dor a nenhum ser vivente. Mas as outras lições não aprendeste. Volte amanhã.’”

Na manhã seguinte ele voltou, um menininho. E o seu professor (que era Deus) o colocou numa turma um pouco mais adiantada, e lhe deu estas lições para aprender: ‘Não causarás dor a nenhum ser vivente. Não roubarás. Não trapacearás.’ E assim o homem não causou dor a nenhum ser vivente; mas ele roubou e trapaceou. E ao final do dia (quando sua barba estava grisalha – quando a noite chegou), seu professor (que era Deus) disse:

‘Aprendeste a não matar, não causarás dor a nenhum ser vivente. Mas as outras lições tu não aprendeste. Volte amanhã.’

Na manhã seguinte, ele retornou, um menininho. E o seu professor (que era Deus) o colocou numa turma ainda mais adiantada e lhe deu estas lições para aprender: ‘Não roubarás. Não trapacearás. Não cobiçarás.’ E assim o homem não roubou; mas trapaceou e cobiçou. E ao final do dia (quando sua barba estava grisalha – quando a noite chegara), seu professor (que era Deus) disse: ‘Aprendeste a ser misericordioso. Mas as outras lições não aprendeste. Volte, minha criança, amanhã.’

É isso que eu tenho lido nos rostos de homens e mulheres, no livro do mundo, e no pergaminho dos céus, que é escrito com estrelas.” (Berry Benson, em The Century Magazine, maio, 1894.)

 

Não é necessário que eu me estenda com os muitos argumentos em favor dessa doutrina da reencarnação; eles estão expostos bastante pormenorizadamente literatura relacionada com a Filosofia Perene. Aqui direi apenas isto. A vida nos apresenta muitos problemas que, sob qualquer outra hipótese fora essa da reencarnação, parecem completamente insolúveis; mas essa grande verdade os explica e, portanto, permanece irrefutável até que uma outra hipótese mais satisfatória possa ser encontrada. Como o resto do ensinamento, essa não é uma hipótese e sim uma matéria de conhecimento direto para muitos de nós; mas naturalmente que o nosso conhecimento não serve de prova para os outros.

 

Todavia, homens verdadeiros e bons têm tristemente sido forçados a admitir que eram incapazes de conciliar o estado de coisas que existe no mundo à sua volta com a teoria de que Deus tanto é onipotente quanto todo-amoroso. Eles sentiram, quando vislumbraram toda a angustiosa tristeza e sofrimento, que ou Ele não era onipotente e não podia evitar, ou que não era todo-amoroso e não se importava.

 

A Filosofia Perene sustenta de forma inequívoca que Deus tanto é onipotente quanto todo-amoroso, e concilia isso com aquela certeza existente nos fatos da vida, por meio da doutrina básica da reencarnação. Certamente, é a única hipótese que nos permite, de maneira razoável, reconhecer a perfeição do poder e amor na Deidade, bem como aquela que é digna de verificação pela experiência cuidadosa.

 

Pois entendemos que a nossa vida atual não é a nossa primeira vida, mas que cada um de nós tem atrás de si uma longa linha de vidas, por meio de cujas experiências evoluímos da condição de homem primitivo à nossa condição atual. Certamente que nessas vidas passadas devemos ter feito tanto o bem quanto o mal, e de cada uma de nossas ações uma proporção definida de resultado deve ter seguido sob a infalível lei de justiça. Do bem sempre resulta felicidade e oportunidade futura; do mal sempre resulta dor e limitação.

 

Desse modo, se nos sentimos de qualquer maneira limitados, a limitação foi causada por nós mesmos, ou é simplesmente devida à juventude da alma; se temos de suportar dor e sofrimento, somente nós somos responsáveis. Os destinos múltiplos e complexos dos homens respondem com rígida exatidão ao equilíbrio entre o bem e o mal de suas ações prévias; e tudo move-se para a frente sob a ordem divina, rumo à consumação final da glória.

 

No seu conjunto, entre as doutrinas da Filosofia Perene, talvez a reencarnação seja o item que tenha recebido as mais violentas objeções; todavia ela é, na verdade, uma doutrina muito reconfortante, pois nos dá tempo para o progresso que está adiante – tempo e oportunidade para “nos tornarmos perfeitos, como nosso Pai no céu é perfeito.” [Mateus 5:48]

 

Os opositores fundamentam seus protestos principalmente no fato de que passaram por tantos problemas e dor nessa vida que não ouvirão qualquer sugestão de que possa ser necessário passar por tudo isso novamente. Mas, obviamente, isso não é argumento; estamos em busca da verdade, e quando ela é encontrada nós não devemos recuar, quer seja ela agradável ou desagradável, embora, realmente, como dito acima, a reencarnação corretamente compreendida seja profundamente reconfortante.

 

Além disso, as pessoas sempre perguntam por que, se tivemos tantas vidas prévias, não nos lembramos delas. De maneira sucinta, a resposta para isso é que algumas pessoas realmente se lembram; e a razão pela qual a maioria não se recorda é porque suas consciências estão ainda focalizadas em um ou outro dos veículos inferiores. Não se pode esperar que esse veículo se lembre de encarnações anteriores porque ele não as teve; e a alma, que as teve, não está ainda totalmente consciente no seu próprio plano.

 

Mas a memória de todas as vidas passadas está armazenada no interior dessa alma e se expressa aqui como qualidades inatas com as quais a criança nasce; quando o homem tiver evoluído suficientemente para ser capaz de focalizar sua consciência lá, em vez de somente nos veículos inferiores, toda a história daquela vida real e mais plena estará aberta diante dele como um livro.

 

A totalidade dessa questão está trabalhada de maneira bela e completa na obra sobre Reencarnação, de Annie Besant; em Reincarnation, de Jerome Anderson; e nos capítulos sobre esse assunto no livro A Sabedoria Antiga, de Annie Besant.

 

NOTAS

 

(1) David Hume, Essay on Immortality, Londres, 1878.

(2) Thomas H. Huxley, Evolution and Ethics, 1895.