IV – A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM
O surpreendente materialismo prático a que fomos reduzidos neste país (Inglaterra) não poderia ser mostrado de maneira mais clara do que pelas expressões que empregamos na vida do dia a dia. De maneira bastante comum, falamos do homem como tendo uma alma, de “salvar” as nossas almas, etc., evidentemente considerando o corpo físico como o homem real e a alma como um mero complemento, algo vago a ser encarado como propriedade do corpo.
Com uma ideia tão pouco definida como essa, não é de surpreender que muitas pessoas se adiantem ainda mais e duvidem de que esse “algo” vago realmente exista. Desse modo, parece que o homem comum é, via de regra, bastante inseguro quanto a ter uma alma ou não; menos ainda sabe ele que essa alma é imortal. Que ele deva permanecer nessa condição lamentável de ignorância parece estranho, pois muitas evidências podem ser encontradas, mesmo no mundo exterior, para mostrar que o homem tem uma existência inteiramente à parte do corpo, capaz de ser vivida distante desse corpo enquanto ele ainda vive, e também inteiramente sem esse corpo quando ele está morto.
Até que tenhamos nos desembaraçado inteiramente dessa extraordinária ilusão de que o corpo é o homem é absolutamente impossível que, de algum modo, apreciemos os fatos reais relacionados com o caso em questão. Uma investigação com seriedade nos mostra de imediato que o corpo é apenas um veículo por meio do qual o homem se manifesta em conexão com esse tipo particular de matéria densa da qual o nosso mundo visível é constituído.
Ademais, isso mostra que outros tipos de matéria mais sutis existem – não apenas no nível etérico (matéria física mais sutil do que o nível gasoso), que desde muito tempo se supunha interpenetrar todas as substâncias conhecidas, mas outros tipos de matéria mais sutil ainda, que por sua vez interpenetram até o nível etérico, e que são muito mais sutis que o éter, tanto quanto esse o é em relação aos níveis da matéria física sólida, líquida e gasosa.
Naturalmente surgirá para o leitor a questão de como será possível para o homem tornar-se consciente da existência de tipos de matéria tão maravilhosamente sutis, subdivididos em partículas cada vez menores. A resposta é que ele pode se tornar consciente dos mesmos da mesma maneira como se torna consciente da matéria inferior – recebendo e tornando-se sensível às suas vibrações.
Nesse ponto do texto da obra do Sr. Leadbeater, que estamos adaptando, como uma introdução à Filosofia Perene, nos parece oportuno inserir – sobretudo devido aos gráficos retirados da obra do Dr. I.K. Taimni (Autocultura à Luz do Ocultismo), expondo os planos da natureza e os veículos do ser humano – alguns parágrafos do Capítulo 7 de nossa obra Teosofia, a Lei da Fraternidade Universal e os Problemas Mundiais:
A FILOSOFIA PERENE E A LEI DA FRATERNIDADE UNIVERSAL: A DIVERSIDADE DE CAPACIDADES MANIFESTADAS
– “É necessário compreender que essa fraternidade de todas as almas é muito semelhante às relações que existem numa família, onde os irmãos não têm todos a mesma idade, porém são todos filhos dos mesmos pais.” (C. Jinarajadasa, Teosofia Prática, p. 142; grifos nossos)
– “O grande princípio da Reencarnação corre parelho com o princípio ou lei da Fraternidade, porém isso ocorre se o aplicamos e o convertemos em uma coisa positiva na vida quotidiana. Porque dessas diferenças de idade surgem todas as possibilidades de uma Sociedade ordenada e feliz.” (Annie Besant, “A Fraternidade Aplicada às Condições Sociais”, em O Teosofista, p. 260, mar-abr/1939; grifos nossos)
Passemos agora ao exame da Diversidade, a qual existe de forma simultânea à Unidade, e que também é um aspecto fundamental da Lei da Fraternidade Universal da Humanidade. Embora também seja um de seus aspectos fundamentais, a sua importância dentro dessa lei não é, nem de longe, tão reconhecida quanto a importância do aspecto da Unidade essencial. Nisso, segundo procuraremos demonstrar, reside a origem da maioria das interpretações equivocadas dentro da Soc. Teosófica acerca da lei da fraternidade universal, bem como da incapacidade da maioria dos membros perceber claramente a sua imensa importância para as soluções dos problemas mundiais. E por essa razão é que nos alongaremos bem mais na análise desse aspecto.
A Constituição Interna do Homem
Não é possível alcançarmos uma compreensão precisa sobre a importância fundamental desse aspecto (da Diversidade manifestada), para o princípio ou lei da fraternidade de toda a humanidade, sem levarmos em conta os conhecimentos acerca da constituição interna do homem, bem como do processo da evolução da Alma humana por meio de sucessivas reencarnações. E, nesse sentido, o primeiro fato importante para uma adequada visão do ser humano como um todo, que nos é revelado pela Filosofia Perene, é aquele da existência da matéria em muitos níveis de densidade mais sutis do que aqueles que são cientificamente já conhecidos.
O fato importante para o nosso estudo é que o homem possui veículos para manifestação em todos esses planos, ainda que, segundo seu nível de evolução, alguns possam estar muito pouco desenvolvidos. Desse modo, o ser humano é essencialmente um Raio ou Centelha do Sol da Consciência Divina Una, radicado no plano mais elevado ou divino. A partir daí, essa Consciência Divina do homem vai revestindo-se de veículos apropriados à sua expressão em todos os planos e sub-planos de densidade da matéria, até o físico.
Segundo a Filosofia Perene, ao observarmos desde o seu veículo mais denso para o mais sutil, a constituição total do homem seria a seguinte: (1) um veículo físico denso, de carne e osso, correspondente aos níveis sólido, líquido e gasoso do plano físico; (2) um primeiro veículo invisível ou aura, chamado duplo etérico, correspondente aos quatro subníveis etéricos do plano físico; (3) um veículo (corpo ou aura) astral ou emocional, composto de matéria dos sete subníveis do plano astral; (4) um veículo mental concreto, composto de matéria dos quatro subníveis mentais mais densos; (5) um veículo mental abstrato, composto de matéria dos três subníveis de matéria mental mais sutil; (6) um veículo intuicional ou búdico, com matéria de todos os subníveis desse plano; (7) um veículo da volição espiritual ou átmico, composto de matéria dos quatro subníveis inferiores do plano átmico; (8) uma Mônada ou Chispa Divina, reflexo da Trindade Divina no homem, a qual se expressa a partir dos três subníveis átmicos mais elevados, até as alturas do plano divino.
De acordo com a famosa classificação trina de São Paulo o ser humano compõe-se de um corpo, uma alma e um espírito. Analogamente, segundo a Filosofia Perene (ou Esotérica), o homem é integrado por uma personalidade transitória (do grego persona = máscara), um Eu imortal e um Espírito Divino. Essa personalidade é composta pelo quaternário inferior (o conjunto integrado pelos veículos físico denso, duplo etérico, astral e mental inferior), o qual é perecível, ou renovável, a cada nova encarnação. O Eu Superior é composto pela Tríade Superior (o conjunto integrado pelos veículos mental superior ou causal, búdico e átmico). Este Eu é imortal e é um reflexo ou manifestação da Mônada, ou Espírito Divino do homem, o qual é sempre uno com a Divindade.
A constituição total do homem acima descrita pode ser visualizada mais facilmente com o auxílio das duas Figuras abaixo (retiradas da obra Autocultura à Luz do Ocultismo do Dr. I.K. Taimni). No contexto dessa obra não podemos aprofundar ainda mais esse fascinante conhecimento a respeito da constituição interna do homem, o qual encontra-se nas obras dedicadas a esse fim, a exemplo de O Homem e seus Corpos de Annie Besant, ou O Homem Visível e Invisível, de C.W. Leadbeater.
A Evolução do Eu Superior do Homem
O ponto seguinte a ser considerado é como esses veículos se comportam no processo das sucessivas reencarnações, pois isso nos permitirá compreender melhor o aspecto principal da Diversidade na lei da fraternidade humana, que é o fato da humanidade estar composta de seres de diferentes idades, ou diferentes níveis de evolução psico-espiritual. Isso porque esse processo das reencarnações explica o acúmulo diferenciado de experiências, o qual está na base dos diferentes níveis de maturidade ou desenvolvimento psico-espiritual dos seres humanos.
As energias divinas, numa primeira etapa, criam e envolvem-se em níveis de matéria cada vez mais densos, até alcançarem o plano físico. A partir daí, conforme já foi mencionado, essas energias sofrem uma inflexão, por assim dizer, e animam os reinos mineral, vegetal, animal, humano e super-humano, até retornarem, agora plenamente conscientes, ao seio da Divindade Una. Aqui uma analogia com a Parábola do Filho Pródigo é quase óbvia. Os seres humanos, portanto, têm imediatamente atrás de si o reino animal, de onde surgem como seres que adquiriram uma individualidade própria, ao se libertarem das limitações da consciência grupal, que é típica dos instintos animais.
Nesse ponto da evolução, no início da etapa humana, o Eu Superior do homem recém tornou-se uma entidade espiritual individual, adquirindo assim uma liberdade de pensamento e uma consciência de si mesmo muito maior, em comparação com aquela que possuía no reino animal. Esse Eu Superior, contudo, apresenta-se muito pouco desenvolvido quanto às suas imensas capacidades latentes. Ele vai gradualmente desenvolvendo estas potencialidades à medida que o ser humano vai passando por sucessivas reencarnações.
No início de cada encarnação o Eu Superior (relativamente imortal, ou, mais precisamente, eônico) cria um novo quaternário inferior para poder colher mais experiências nos planos físico, astral e mental inferior.
A vida física é, normalmente, a mais curta, embora a mais significativa, pois é a única na qual o ser humano encontra-se com todos os veículos e, assim, possui maior independência e potência para gerar novas causas e buscar novas experiências.
Depois de seus anos de existência no corpo físico o homem chega à passagem chamada morte, quando abandona o veículo físico denso e o duplo etérico, normalmente já desgastados e pouco úteis para amealhar mais experiências, e parte para uma vida no plano astral, por meio de seu veículo astral. Essa vida astral dura, normalmente, duas ou três vezes mais do que a vida física e então esse veículo astral é abandonado em uma segunda passagem (ou “morte”), a qual nada mais é do que uma outra passagem para uma vida, normalmente, ainda mais longa, no plano mental inferior. Ao final deste ciclo o Eu Superior recolhe os resultados, ou as lições, das experiências vividas por meio de seu quaternário inferior nos três planos mais densos.
Esse, em grossas linhas, é o processo pelo qual o Eu Superior vai desenvolvendo suas infinitas potencialidades, até alcançar um estágio de amadurecimento e perfeição no qual esse ciclo de reencarnações não é mais uma necessidade compulsória. Ao final desse longo (ou eônico) percurso de centenas de reencarnações o ser humano alcança, portanto, uma Libertação e a consciência ingressa na etapa super-humana de desenvolvimento, onde uma das características é o fato de ter conquistado uma consciente imortalidade, e outra é a unificação com a Vontade Divina. Um dos nomes dados para esta Libertação é “Adeptado” ou, no Cristianismo, “Ressurreição”. Os Adeptos ou Mahatmas que inspiraram a fundação da Soc. Teosófica seriam exemplos de Seres que já alcançaram esse nível evolutivo.
Todos os seres humanos encontram-se nesse processo de desenvolvimento de suas potencialidades divinas, pois, como já foi dito, todos são essencialmente divinos. No entanto, os bilhões de seres humanos encarnados, bem como aqueles seres humanos (em número ainda bem maior) sem corpo físico na vida astral ou mental do ciclo reencarnatório, não iniciaram sua jornada humana ao mesmo tempo.
Uns tantos iniciaram a jornada muito antes de outros. E assim, enquanto alguns já chegaram à meta e outros estão próximos do término dessa jornada, o grosso da humanidade distribui-se ao longo desse caminho, alguns estando mesmo próximos do seu início. Esse fato é da maior relevância pois explica a enorme diversidade de estágios de desenvolvimento psico-espiritual (que se reflete como diferenças de caráter e de capacidades) entre os seres humanos.
Em vista disso, não é difícil percebermos que esse aspecto da enorme Diversidade de níveis de desenvolvimento psico-espiritual é quase tão importante para que se possa compreender as reais características da Lei da Fraternidade Universal da Humanidade, quanto o aspecto da Unidade subjacente a todos os seres.
O Corpo Causal: O Único Registro Verdadeiro da Evolução
Vejamos, agora, algumas passagens de Geoffrey Hodson, que foi um grande clarividente da Soc. Teosófica, onde ele trata do veículo mental superior (Corpo Causal), bem como do seu desenvolvimento. Estas passagens ilustrarão de uma forma mais vívida o que foi explanado nos parágrafos anteriores: –
“Em sânscrito o corpo causal é conhecido como o Kãrana Sharira, Kãrana significando “causa”. Resumidamente, o corpo causal tem duas funções principais:
(1) Funcionar como um veículo para o Eu Superior: o Corpo Causal é o “corpo de Manas”, o aspecto forma da Individualidade, o verdadeiro homem, o Pensador.
(2) Agir como um receptáculo ou armazém para a essência das experiências do homem em suas várias encarnações. O corpo causal é aquele no qual são incorporadas todas as coisas que podem durar, e no qual estão guardadas as essências das qualidades que serão levadas para a próxima encarnação. Assim sendo, podemos ver que as manifestações inferiores do homem, isto é, sua expressão nos seus corpos mental, astral e físico, depende fundamentalmente do crescimento e desenvolvimento do próprio homem real, aquele “para quem a hora nunca soa”.
No começo, o corpo causal, ou o aspecto forma do verdadeiro homem, é descrito como um película delicada de matéria muito sutil, quase invisível, denotando o início da vida separada do indivíduo. Essa película delicada, quase incolor, é o corpo que perdurará ao longo de toda a evolução humana. E nesse, como em um cordão – o cordão do ser, ou “Sutrãtmã”, como às vezes é chamado – serão amarradas todas as futuras encarnações.
O corpo causal, como foi dito, é o receptáculo de tudo aquilo que é duradouro – isto é, somente aquilo que é nobre e harmonioso e de acordo com a lei do espírito; pois cada pensamento grande e nobre, cada emoção pura e elevada é retida, e sua essência transformada em substância do corpo causal. Portanto, a condição do corpo causal é um verdadeiro registro – o único registro verdadeiro – do crescimento do homem, ou do estágio de evolução que ele atingiu. (…)
No Pensador, residindo no corpo causal, estão todos os poderes que classificamos como Mente, isto é, memória, intuição e vontade. O Pensador reúne todas as experiências das vidas terrenas, pelas quais ele passa para serem transmutadas dentro dele mesmo, por meio de sua própria divina alquimia, naquela essência da experiência e conhecimento que é a Sabedoria. Mesmo em uma breve vida terrena distinguimos entre o conhecimento que adquirimos e a sabedoria que gradualmente – com frequência muito raramente – destilamos desse conhecimento. A sabedoria é o fruto da experiência de vida, a posse mais valiosa dos idosos. Em um sentido muito mais pleno e rico, a Sabedoria é o fruto de muitas encarnações, o produto de muita experiência e conhecimento. No Pensador, assim, está o depósito das experiências, colhidas em todas as suas vidas passadas, através de muitos renascimentos.
Nas pessoas comuns o corpo causal não está ainda plenamente ativo e, consequentemente, apenas a matéria que pertence ao terceiro sub-plano está vivificada. À medida que o Eu Superior, durante o longo curso de sua evolução, desenvolve suas capacidades latentes, a matéria dos sub-planos superiores é gradualmente posta em atividade; mas é apenas no homem que alcançou a perfeição, a quem chamamos Adeptos, ou Mestres, que ela está desenvolvida em toda sua extensão.
É difícil descrever plenamente um corpo causal, porque os sentidos pertencentes ao mundo causal são completamente diferentes e mais elevados do que aqueles que empregamos no nível físico. A memória da aparência de um corpo causal, tal como é possível a um clarividente trazer para seu cérebro físico, representa-o como um ovoide, esta sendo, de fato, a forma de todos os corpos sutis. O ovoide do corpo causal se estende a uma distância de cerca de 46 cm além da superfície do corpo físico.
Um ser humano que recém se individualizou do reino animal tem um corpo causal de tamanho mínimo.
No caso do homem primitivo, o corpo causal se parece com uma bolha e dá a impressão de estar vazio. É apenas uma película incolor, aparentemente apenas suficiente para se manter e produzir uma entidade reencarnante, mas nada mais do que isso. Embora ele esteja preenchido com matéria do plano mental superior, esta ainda não foi posta em atividade e, assim, permanece incolor e transparente. À medida que o homem se desenvolve, esta matéria é gradualmente ativada e despertada por vibrações que a alcançam desde os corpos inferiores. Isto ocorre apenas vagarosamente, porque as atividades do homem nos primeiros estágios de sua evolução não são de um caráter que possa obter expressão numa matéria tão refinada quanto a do corpo causal. Mas quando o homem alcança o estágio onde ele é capaz, seja de pensamento abstrato, ou de emoção inegoísta, a matéria do corpo causal é despertada em resposta.
As vibrações desse modo despertadas mostram-se no corpo causal como cores, de modo que, ao invés de ser uma mera bolha transparente, ele gradualmente se torna uma esfera preenchida com matéria dos mais delicados e encantadores matizes, um objeto belo além de toda concepção.
No caso do homem espiritualmente desenvolvido, uma enorme mudança é notada. A gloriosa película iridescente está agora completamente preenchida com as cores mais adoráveis, exemplificando as formas mais elevadas de amor, devoção e simpatia, acrescidas de um intelecto refinado e espiritualizado, e de aspirações sempre elevando-se em direção ao divino. Algumas dessas cores não existem de modo algum no espectro do plano físico.
A matéria inconcebivelmente refinada e delicada de um tal corpo causal encontra-se intensamente desperta e pulsando com um fogo vivo, formando um radiante globo de cores cintilantes, suas elevadas vibrações emitindo ondulações de matizes variados sobre sua superfície – matizes dos quais a vida terrena nada conhece – brilhantes, suaves e luminosos além do poder de descrição da linguagem. Um tal corpo causal está preenchido com um fogo vivo, oriundo de um plano ainda mais elevado, com o qual ele parece estar conectado por um tremulante cordão de intensa luz.
Além disso, desde a parte superior do corpo causal ascende uma coroa de centelhas brilhantes, indicando a atividade da aspiração espiritual, naturalmente acrescentando muitíssimo à beleza e dignidade da aparência humana. (…)
Esse fluxo direcionado para o alto, da aspiração espiritual, que forma uma tão gloriosa coroa no homem desenvolvido, é ele mesmo o canal através do qual desce o poder divino: de modo que quanto mais plena e forte se torna sua aspiração, maior é a medida da graça que desce do alto.” (Basic Theosophy, p. 21-25; grifo nosso)
A Diversidade Aplicada à Organização Social
O conjunto de informações acima apresentadas nos permite perceber como a Diversidade de níveis de desenvolvimento é um dos aspectos fundamentais da Lei da Fraternidade Humana, do mesmo modo que a sua Unidade essencial. À luz desses conhecimentos podemos, então, partir para uma visualização geral da Lei da Fraternidade Universal da Humanidade, da maneira em que ela se apresenta na vida terrena. Isso faremos trazendo uma citação de C. Jinarajadasa, conhecido autor e ex-Presidente Internacional da Soc. Teosófica. Nestas passagens ele nos expõe em linguagem simples os aspectos fundamentais da Fraternidade Humana, com a devida ênfase para o aspecto da Diversidade, bem como com algumas das suas principais implicações práticas, a exemplo das questões do governo e da forma de tratar os criminosos:
– “Sendo os homens as unidades constituintes da organização social, o valor que um dado ensinamento ético possa ter para um indivíduo, está indissoluvelmente ligado à sua aplicação na comunidade de que o indivíduo faz parte.
E do mesmo modo que a assimilação de algumas simples verdades modifica o conceito que um indivíduo tenha de si mesmo, assim também a compreensão do que constitui o verdadeiro Estado, considerado do ponto de vista da Filosofia Esotérica, modifica profundamente a atitude do indivíduo para com os seus semelhantes. (…)
Os indivíduos que compõem a agrupação que denominamos Estado, são almas, egos imortais revestidos de corpos terrestres; esses seres fazem parte do Estado com o propósito de evoluir até alcançar um ideal de perfeição.
Como almas, participando todas de uma única e divina natureza, são todas irmãs dentro do Estado; ricos e pobres, instruídos e ignorantes, bons cidadãos ou criminosos. E sejam quais forem os atos que as almas executem, não se poder desconhecer a verdade desse fato.
Os indivíduos instruídos ou orgulhosos talvez se recusem a admitir a identidade de sua própria natureza com a do ignorante ou do degradado; os seres de caráter fraco ou de tendências criminosas, podem manifestar mais os atributos do animal que os divinos; mas o certo é que tanto no indivíduo evoluído quanto naquele que está atrasado, não há senão uma só natureza – a da Vida divina – e nada que o homem faça pode enfraquecer os laços de fraternidade por meio dos quais ele está ligado aos demais.
É necessário compreender que esta fraternidade de todas as almas é muito semelhante às relações que existem numa família, onde os irmãos não têm todos a mesma idade, porém são todos filhos dos mesmos pais.
Da mesma forma, entre as almas que em seu conjunto compõem o Estado, existem as velhas e as jovens, e é precisamente essa diferença de idade espiritual e de capacidades o que torna possível o funcionamento do verdadeiro Estado.
A idade da alma pode ser aferida de acordo com o interesse que tenha pelos ideais de altruísmo e cooperação; a alma de maior idade é a que toma a dianteira a fim de contribuir para o bem-estar dos demais, enquanto que a alma mais jovem se preocupa preferencialmente com os seus próprios interesses e se guia mais pelas suas necessidades pessoais do que pelo desejo de se sacrificar pelos outros.
As diferenças de situação social e de fortuna que existem nos Estados modernos, não podem ser consideradas como classificações que separem as almas maiores das mais jovens. Um homem nascido numa classe ou casta elevada pode não ser uma alma muito adiantada e elevada.
Havendo em cada Estado almas velhas e jovens, a Lei da Fraternidade requer que as maiores se sacrifiquem muito mais pelas jovens, do que essas por aquelas. Como almas mais velhas, receberam da Vida maiores dons no curso das idades passadas e por isso se exige delas maior contribuição sob o ponto de vista do sacrifício e da responsabilidade.
Seguindo a ordem natural das coisas, da direção dos negócios do Estado estariam, sem dúvida, encarregadas as almas mais velhas. (…) quando o Estado começa a exercer as suas verdadeiras funções, os seus assuntos são dirigidos por uma aristocracia composta das melhores almas, isto é, das mais velhas e capazes. (…)
A grande ideia que guiará esses homens em sua administração de todos os negócios do Estado, será aquela que fará primar, sobre todas as demais ideias, o princípio ou lei da Fraternidade. Isso implicará no reconhecimento de dois fatos: primeiro, que o sofrimento, a ignorância, ou a condição atrasada de um só cidadão é prejudicial para o bem-estar de toda a comunidade, porque sendo o destino de cada um inseparável do destino dos outros, o desenvolvimento de um contribui para o adiantamento de todos, assim como a queda de um contribui para o atraso de todos; e, segundo, que não deveria existir a exploração do homem pelo homem, nem de uma classe, casta ou nação pelas outras.
Visto que todos os homens, mesmo os menos desenvolvidos, são almas – deuses em processo de formação – o indivíduo que dirige a aplicação das leis e das constituições, tem o dever de pensar continuamente no fato de que uma Divindade mora dentro de cada indivíduo. (…)
Quando no Estado se reconhecer a existência dessa Divindade que está oculta no homem, se produzirá uma revolução muito grande em nossa atitude para com os criminosos e na maneira de tratá-los. Em primeiro lugar, seja qual for o ato cometido não devemos esquecer que o criminoso é nosso irmão. Para nós que obedecemos implícita e voluntariamente às leis do Estado, o criminoso é um irmão menor; e ainda que caia mil vezes, ele não deixa por isso de ser nosso irmão.” (Teosofia Prática, p. 137-147; grifo nosso)
A citação acima de C. Jinarajadasa evidencia a relevância do aspecto da Diversidade dentro da lei da fraternidade universal da humanidade, bem como nos revela algumas de suas implicações práticas mais importantes. Infelizmente, a importância desse aspecto não é bem reconhecida tanto em termos teóricos quanto, consequentemente, em termos práticos. A citação abaixo de N. Sri Ram é um claro alerta nessa direção: –
“Não é suficiente meramente compreender nossa fraternidade subjacente, também deve haver habilidade e sabedoria ao tratar com as diferenças externas, as desigualdades de desenvolvimento e circunstâncias.” (Thoughts for Aspirants, 2nd Series, p. 122)
A Importância da Lei da Reencarnação
Há uma passagem da Sra. Helena Blavatsky que também é muito interessante de ser trazida nesse contexto, onde ela comenta a importância da lei da reencarnação para explicar as diferenças entre os seres humanos, e que a ausência de uma explicação lógica para essas diferenças é muito perniciosa: –
“As pessoas cultas foram educadas dentro daquela mais perniciosa das ideias de que a grande diferença encontrada entre as unidades da mesma e única humanidade, ou mesmo de uma raça, é o resultado do acaso; que o abismo existente entre os homens em suas posições sociais, de nascimento, e quanto às suas respectivas capacidades intelectuais, físicas e mentais – todas essas qualificações tendo uma influência direta em cada vida humana – que tudo isso é simplesmente devido ao cego acaso, e somente os mais crentes entre estas pessoas encontram um consolo equivocado na ideia de que isso é a ‘vontade de Deus´’. Eles nunca analisaram, nunca pararam para pensar na profundeza da injúria que é lançada sobre seu Deus, quando a grande e tão equânime lei dos múltiplos renascimentos do homem sobre essa terra é tolamente rejeitada.” (Collected Writings, Vol. XIV, p. 57; grifo nosso)
[Fim dos parágrafos de nossa obra Teosofia, a Lei da Fraternidade Universal e os Problemas Mundiais]. A seguir, continua o texto base da obra do Sr. C.W. Leadbeater.]
À medida que o homem se torna capaz de receber e tornar-se cônscio dessas vibrações, pelo fato de possuir matéria desse tipo mais sutil como parte de si mesmo (do mesmo modo como seu corpo de matéria densa é o veículo para perceber e se comunicar com o mundo de matéria densa), de maneira semelhante a matéria mais sutil em seu interior constitui para ele um veículo por meio do qual pode perceber e se comunicar com o mundo de matéria mais sutil, que é imperceptível aos sentidos físicos mais grosseiros.
Isso não é de modo algum uma ideia nova. Deve ser lembrado que São Paulo observa que “há um corpo natural, há um corpo psíquico e há um corpo espiritual” (o homem é um corpo físico, uma psiquê e um espírito) [I Coríntios, 15:44] e que, além disso, ele faz referência tanto à alma quanto ao espírito no homem, não empregando, de modo algum, os dois simultaneamente, como é impropriamente feito tantas vezes hoje em dia.
Está se tornando cada vez mais evidente que o homem é um ser muito mais complexo do que comumente se supõe; que ele não é apenas um espírito dentro de uma alma, mas que sua alma tem vários veículos de diferentes graus de densidade, sendo o corpo físico apenas um, e o mais inferior deles.
Os vários veículos podem ser todos descritos como corpos em relação aos seus respectivos níveis de matéria. Se poderia dizer que existem ao nosso redor uma série de mundos, um dentro do outro, em interpenetração, e que o homem possui um corpo para cada um desses mundos, por meio do qual ele pode observá-los e neles viver.
Ele gradativamente aprende como usar esses vários corpos, e dessa maneira obtém uma ideia muito mais completa do grande e complexo mundo em que vive; pois todos esses outros “mundos” (ou “planos”) internos na realidade são ainda parte dele.
Desse modo vem o homem a entender muitas coisas que antes lhe pareciam misteriosas. Ele deixa de se identificar com os seus corpos e aprende que eles são apenas vestimentas de que pode se desfazer, voltar a vestir ou trocar, sem ser em nada afetado por isso.
Mais uma vez devemos repetir que tudo isso não é, de modo algum, especulação metafísica ou opinião piedosa, mas um fato comprovado e definitivo, muito bem conhecido experimentalmente por aqueles que estudaram e investigaram os princípios da Filosofia Perene, ou Esotérica.
Por mais estranho que possa parecer a muitos, ao encontrar afirmações precisas tomando o lugar de hipóteses sobre questões como essas, aqui não estou falando de nada que não seja conhecido por observação direta e constantemente repetida (por clarividentes treinados). Com certeza “sabemos do que falamos”, não por crença, mas por experiência, e portanto falamos com total confiança.
A esses mundos internos, ou níveis diferentes da natureza, geralmente damos o nome de planos. Falamos do mundo visível como “o plano físico”, embora sob esse nome incluamos também os vários níveis etéricos (de matéria física ainda mais sutil do que os gases).
Ao estágio seguinte de materialidade foi dado o nome de “plano astral” pelos alquimistas medievais (que estavam bem conscientes de sua existência), e nós adotamos essa denominação. Dentro desse existe um outro mundo de matéria ainda mais sutil, ao qual nos referimos como “plano mental”, porque sua matéria é composta do que é comumente chamado de mente, no homem. Há outros planos ainda mais elevados, mas não é preciso preocupar o leitor com designações para eles, já que no momento estamos lidando apenas com a manifestação do homem nos mundos inferiores.
Deve ser sempre mantido em mente que todos esses mundos não estão de modo algum afastados de nós no espaço. Na verdade, todos eles ocupam exatamente o mesmo espaço e estão todos igualmente sempre à nossa volta. No momento, a nossa consciência está focada e trabalhando através do nosso cérebro físico, e assim estamos conscientes apenas do mundo físico, e nem sequer da totalidade dele.
Mas basta aprender a focar essa consciência em um desses planos mais elevados e imediatamente o físico desaparece de nossa vista; e no lugar dele, passamos a ver o mundo de matéria que corresponde ao veículo usado.
Recordemos que toda matéria é, em essência, a mesma. A matéria astral não difere da matéria física em sua estrutura mais do que o gelo difere do vapor em sua natureza. É simplesmente a mesma coisa, numa condição diferente. A matéria física pode se tornar astral, ou a matéria astral pode se tornar mental, se for suficientemente subdividida e posta a vibrar com o grau de velocidade apropriado.
O Homem Verdadeiro
O que, então, é o homem verdadeiro? Ele é, em verdade uma emanação do Logos, uma centelha do Fogo Divino. O espírito em seu interior é da própria essência da Deidade, e esse espírito usa a alma do homem como uma vestimenta que o envolve e individualiza; nossa visão limitada parece separá-lo durante algum tempo do restante da vida Divina.
A história da formação original da alma do homem, e do envoltório do espírito dentro dela, é bela e interessante, mas excessivamente longa para ser incluída num mero tratado elementar como esse. A história pode ser encontrada com riqueza de detalhes naqueles nossos livros que lidam com essa parte da Filosofia Perene.
É o bastante dizer, aqui, que todos os três aspectos da vida divina estão contidos nesse começo, e que sua formação é a culminância daquele tremendo sacrifício do Logos em descer à matéria, que tem sido chamado de Manifestação.
Assim nasce a alma bebê; e do mesmo modo como é “feita à imagem de Deus” – tripla em aspecto como Ele é, e tripla em manifestação como Ele também o é – assim o seu método de evolução é também um reflexo de Sua descida na matéria. A Centelha Divina contém em si toda potencialidade, mas é somente através de longas eras de evolução que todas as suas possibilidades podem ser concretizadas, ou manifestadas.
O método designado para a evolução das qualidades latentes no homem parece ser aprender a vibrar em resposta a impactos vindos do exterior. Mas, no nível onde ele se encontra (o Homem Verdadeiro, no plano mental superior), as vibrações são demasiadamente sutis para despertar essa resposta no momento. Ele deve começar com aquelas que são mais densas e mais fortes, e, tendo por esses meios despertado sua sensibilidade adormecida, irá gradualmente se tornando cada vez mais sensitivo, até que seja capaz de responder com perfeição, em todos os níveis, a toda gama possível de vibrações.
Esse é o aspecto material do seu progresso; mas considerado subjetivamente, ser capaz de responder a todas as vibrações significa ser perfeito em compreensão e compaixão. E é essa exatamente a condição do homem evoluído – do Adepto, do Instrutor Espiritual, do Cristo. Ele precisa desenvolver dentro de si todas as qualidades que o tornarão o Homem Perfeito; e é essa a verdadeira tarefa de sua longa vida na matéria. Nesse capítulo abordamos muitos assuntos de extrema importância. Aqueles que desejam se aprofundar mais encontrarão muitos livros da Filosofia Perene para ajudá-los.
Sobre a constituição do homem nós remeteríamos os leitores às obras de Annie Besant, O Homem e Seus Corpos, e Os Sete Princípios do Homem, e também aos meus próprios livros Os Chakras e O Homem Visível e Invisível, nos quais serão encontradas muitas ilustrações dos diferentes veículos do homem segundo a visão clarividente. (1) Sobre o uso das faculdades internas, consulte A Clarividência, de minha autoria.
Sobre a formação e evolução da alma, Birth and Evolution of the Soul (Nascimento e Evolução da Alma) de Annie Besant, e os meus livros O Credo Cristão e O Homem Visível e Invisível.
Sobre a evolução espiritual do homem, Do Recinto Externo ao Santuário Interno e O Caminho do Discipulado, ambos de Annie Besant, e os capítulos finais de meu livro Auxiliares Invisíveis. (2)
(1) Leia também Autocultura à Luz do Ocultismo, de I. K. Taimni; de onde copiamos os diagramas antes acrescentados a essa obra introdutória.
(2) Leia também As Escolas de Mistérios, de Clara Codd, e A Vida Interna, de C.W. Leadbeater.