XII – O ASPECTO DUPLO DA SABEDORIA

XII – O ASPECTO DUPLO DA SABEDORIA (1)

 

HELENA BLAVATSKY

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Nota do Editor: Segue uma coleção de citações extraídas desse artigo da Sra. Helena Blavatsky, visando enfatizar o aspecto da Sabedoria como uma verdade viva. Esse artigo foi escrito já bem no final de sua vida, em1890.

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“Realmente sois a voz do povo,

e convosco morrerá a Sabedoria.

Mas também eu tenho inteligência,

não sou inferior a vós – quem ignora tudo isso?

Mas o homem se torna motivo de riso para os amigos

quando invoca a Deus para ter resposta.

Zombam do justo íntegro.”

, xii, 1-4.

 

“Mas a Sabedoria foi justificada pelas suas obras.”

Mateus xi, 19.

____________

 

(…)

Nossa era, dizemos, é inferior em Sabedoria a qualquer outra, porque professa, cada dia mais visivelmente, desprezo pela verdade e pela justiça, sem as quais não pode haver Sabedoria. Porque nossa civilização, construída de farsas e aparências, é, na melhor das hipóteses, como um belo pântano verde, um brejo, espalhado sobre um atoleiro mortal. Porque este século de cultura e adoração da matéria, enquanto oferece prêmios e recompensas para tudo que é a “melhor coisa” sob o Sol, do maior bebê e da maior orquídea ao pugilista mais forte e ao porco mais gordo, não tem nenhum incentivo à moralidade; nenhum prêmio para qualquer valor moral. Porque possui Sociedades para a prevenção da crueldade física contra os animais, e nenhuma com o objetivo de prevenir a crueldade moral praticada contra os seres humanos. Porque incentiva, legal e tacitamente, o vício em todas as suas formas, desde a venda de uísque até a prostituição e o roubo provocados por salários de fome, extorsões abusivas, e outros confortos de nosso período culto.

 

Porque, finalmente, esta é a era que, embora proclamada como uma era de liberdade física e moral, é na verdade a era da mais feroz escravidão moral e mental, como nunca se viu antes. A escravidão ao Estado e aos homens desapareceu apenas para dar lugar à escravidão às coisas e ao Eu, aos próprios vícios e costumes e modos sociais idiotas.

 

A moderna civilização, (…) tornou-as ainda mais propensas a desconsiderar a substância em favor da forma e da aparência, forçando assim o homem moderno a uma coação vil, uma dependência servil a coisas inanimadas, para usá-las e para se servir delas é o primeiro e forçado dever de todo homem considerado como ‘culto’.

(…)

 

Partiremos do princípio de que Sabedoria é, na melhor das hipóteses, uma palavra elástica – pelo menos como usada nas línguas europeias. Que ela não oferece uma ideia clara de seu significado, a menos que seja precedida ou seguida por algum adjetivo qualificativo. Na Bíblia, aliás, o equivalente hebraico Hokhmâh (em grego, Sophia) é aplicado às coisas mais díspares – abstratas e concretas. Assim, encontramos “Sabedoria” como a característica tanto da inspiração divina quanto da astúcia e do artifício terrestres; como significando o Conhecimento Secreto das Ciências Esotéricas, e também a fé cega; o “temor do Senhor” e os magos do Faraó. O substantivo é aplicado indiferentemente a Cristo e à feitiçaria, pois a bruxa Sedecla também é chamada de “a sábia mulher de En-Dor”.

(…)

 

Desde a mais remota antiguidade cristã, começando com São Tiago (iii, 13-17), até o último pregador calvinista, que vê no inferno e na danação eterna uma prova da “sabedoria do Todo-Poderoso”, o termo tem sido usado com os mais variados significados. Mas São Tiago ensina dois tipos de sabedoria; um ensinamento com o qual concordamos plenamente.

 

Ele traça uma linha divisória clara entre a “Sophia” divina ou noética – a Sabedoria que vem do alto – e a “sabedoria terrena, animal, psíquica e demoníaca.” (iii, 15).

 

“Com efeito, onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações.

Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, isenta de parcialidade e de hipocrisia.” (iii, 16-17)

 

Para o verdadeiro buscador da verdade, não há sabedoria senão a primeira. [NE: Aquela que vem do alto, divina ou noética] Tomara Deus que tal pessoa pudesse declarar com Paulo, que ele fala dessa sabedoria exclusivamente apenas entre aqueles “perfeitos”, isto é, aqueles iniciados em seus mistérios, ou familiarizados, ao menos, com o ABC das ciências sagradas.

 

Mas, por maior que tenha sido seu erro, por mais prematura que tenha sido sua tentativa de semear as sementes da verdadeira e eterna gnosis em solo não preparado, seus motivos eram bons e sua intenção altruísta, e por isso ele foi martirizado. Pois se ele tivesse apenas tentado pregar alguma ficção particular de sua própria autoria, ou feito isso por ganho, quem o teria aprisonado ou tentado esmagá-lo, em meio às centenas de outras seitas falsas, “coleções” diárias e “sociedades” malucas? Mas o caso dele era diferente. Por mais cauteloso que ainda fosse, ele falava “não da sabedoria deste mundo”, mas da verdade ou da “sabedoria oculta … que nenhum dos Príncipes deste Mundo conhecia” (1 Coríntios 2:6-8), muito menos os arcontes da nossa ciência moderna.

 

Com relação à sabedoria “psíquica”, porém, que Tiago [NE: Tiago o Justo, irmão de Jesus, considerado o autor da Espístola de Tiago. E foi um líder central na igreja primitiva em Jerusalém. Ele enfatiza que “a fé sem obras é morta”] define como terrena e diabólica, ela existiu em todas as épocas, desde os dias de Pitágoras e Platão, quando para um filósofo (philosophus) havia nove sofistas (sophistae), até a nossa era moderna. A tal sabedoria o nosso século é bem-vindo, e de fato tem todo o direito, de reivindicá-la. Além disso, é uma vestimenta fácil de vestir; nunca houve um período em que os corvos se recusassem a se adornar em penas de pavão, se a oportunidade fosse oferecida.

 

Mas agora como então, temos o direito de analisar os termos usados e indagar nas palavras do Livro de Jó, aquela sugestiva alegoria da purificação cármica e dos ritos iniciáticos:

 

“Onde se encontrará a (verdadeira) sabedoria? Onde está o lugar do entendimento?”

 

E para responder novamente em suas palavras:

 

“Com os antigos está a sabedoria; e no número de anos o entendimento.” (, xxviii, 12, e xii, 12).

 

Aqui temos que qualificar mais uma vez um termo duvidoso, a saber: a palavra “antigo”, e explicá-la. Conforme interpretada pelas igrejas ortodoxas, ela tem na boca de Jó um significado; mas com o cabalista, outro significado bem diferente; enquanto na Gnose do Ocultista e do Teósofo ela tem distintamente um terceiro significado, o mesmo que tinha no Livro de Jó original, um trabalho pré-mosaico e um tratado reconhecido sobre a Iniciação.

 

Assim, o cabalista aplica o adjetivo “antigo” à PALAVRA ou LOGOS (Dabar) manifestado da divindade eternamente oculta e incognoscível. Daniel, em uma de suas visões, também o usa ao falar de Javé – o andrógino Adam Kadmon. O religioso o conecta com seu Jeová antropomórfico, o “Senhor Deus” da Bíblia traduzida.

 

Mas o ocultista oriental emprega o termo místico apenas quando se refere ao Ego superior reencarnado. Pois, sendo a Sabedoria divina difundida por todo o Universo infinito, e nosso impessoal EU SUPERIOR sendo parte integrante dele, a luz átmica desse só pode ser centrada naquilo que, embora eterno, ainda é individualizado – isto é, o Princípio noético, o Deus manifestado dentro de cada ser racional, ou nosso Manas Superior em união com Buddhi. [NE: Alguns grifos nossos]

 

É esta luz coletiva que é a “Sabedoria que vem do alto”, e que, sempre que desce sobre o Ego pessoal, é encontrada “pura, pacífica e gentil”. Daí a afirmação de Jó de que “A Sabedoria está com o Ancião”, ou Buddhi-Manas. Pois o Divino “Eu” Espiritual é o único eterno e o mesmo em todos os nascimentos; enquanto as “personalidades” que ele informa sucessivamente são evanescentes, mutáveis como Sombras de uma série caleidoscópica de formas em uma lanterna mágica.

 

É o “Antigo”, porque, seja chamado de Sophia, Krishna, Buddhi-Manas ou Christos, é sempre o “primogênito” de Alaya-Mahat, a Alma Universal e a Inteligência do Universo.

 

Esotericamente, então, a declaração de Jó deve ser lida: “Com o Antigo (o Ego Superior do homem) está a Sabedoria, e na duração dos dias (ou no número de suas reencarnações) está o entendimento.”

 

Nenhum homem pode aprender a verdadeira e final Sabedoria em um único nascimento; e cada novo renascimento, quer reencarnemos para o bem ou para o mal, é mais uma lição que recebemos das mãos do severo, porém sempre justo, mestre-escola – A VIDA CÁRMICA.

 

Mas o mundo – o mundo ocidental, pelo menos – pouco sabe disso e se recusa a aprender. Para ele, qualquer noção de Ego Divino ou da pluralidade de seus nascimentos é “tolice pagã”. O mundo ocidental rejeita essas verdades e não reconhecerá sábios exceto aqueles de sua própria criação, feitos à sua própria imagem, nascidos em sua própria era e ensinamentos cristãos. A única “sabedoria” que compreende e pratica é a psíquica, a sabedoria “terrestre e diabólica”, mencionada por Tiago, tornando assim a verdadeira Sabedoria um termo impróprio e uma degradação.

(…)

 

Quanto ao mundo dos estudiosos do conhecimento místico, é quase pior. As coisas mudaram estranhamente desde os tempos da antiguidade, quando os verdadeiramente sábios tinham como primeiro dever ocultar seu conhecimento, considerando-o sagrado demais até mesmo para ser mencionado diante da plebe (hoi polloi).

 

Enquanto o medieval Rosecroix, o verdadeiro filósofo, lembrando-se do velho Sócrates, repetia diariamente que tudo o que sabia era que nada sabia, seu autoproclamado sucessor moderno anuncia em nossos dias, por meio da imprensa e do público, que aqueles mistérios da Natureza e suas leis ocultas, dos quais ele nada sabe, nunca existiram. Houve um tempo em que a aquisição da Sabedoria Divina (Sapientia) exigia o sacrifício e a devoção de toda a vida de um homem.

 

Dependia de coisas como a pureza dos motivos do candidato, sua coragem e independência de espírito; mas agora, para receber um título de sabedoria e maestria, basta uma impudência descarada. Um certificado de sabedoria divina é agora decretado e entregue a um autoproclamado “Adeptus” por uma maioria regular de votos de gaivotas profanas e facilmente capturáveis, enquanto uma horda de pegas expulsas do telhado do Templo da Ciência o anunciará ao mundo em todos os mercados e feiras.

 

Diga ao público que agora, assim como antigamente, o observador genuíno e sincero da vida e de seus fenômenos subjacentes, o colaborador inteligente da natureza, pode, ao se tornar um especialista em seus mistérios, tornar-se um homem “sábio”, no sentido terrestre da palavra, mas que jamais um materialista arrancará da natureza qualquer segredo em um plano superior – e você será alvo de escárnio.

 

Acrescente que nenhuma “sabedoria divina” desce sobre ninguém, exceto sob a condição sine qua non de deixar no limiar do Oculto todo átomo de egoísmo ou desejo por fins pessoais e benefícios – e você será rapidamente declarado por sua audiência como um candidato ao hospício.

 

No entanto, essa é uma verdade antiga, muito antiga. A natureza revela seus segredos mais íntimos e concede a verdadeira sabedoria apenas àquele que busca a verdade por si mesma e que anseia pelo conhecimento para beneficiar os outros, não sua própria personalidade insignificante. E, como é precisamente para esse benefício pessoal que quase todo candidato a mestre e magia busca, e como poucos são os que consentem em aprender a um preço tão alto e com um benefício tão pequeno para si mesmos em perspectiva – os ocultistas verdadeiramente sábios tornam-se, a cada século, em menor número e mais raros. Quantos, de fato, não prefeririam o fogo-fátuo da fama, mesmo que passageira, à luz constante e sempre crescente do conhecimento divino eterno, se este último tiver que permanecer, para todos, exceto para si mesmo, uma luz escondida?

(…)

 

Sabedoria e Verdade são termos sinônimos, e aquilo que é falso ou pernicioso não pode ser sábio.

(…)

 

Contudo, se alguém ousar chamar de “insensatas” ou “falsas” as autoridades escolhidas pelo mundo, ou declarar suas respectivas políticas desonestas, se verá prontamente reduzido ao silêncio. Duvidar da sublime sabedoria do falecido Cardeal Newman, ou da Igreja da Inglaterra, ou ainda de nossos grandes cientistas modernos, é pecar contra o Espírito Santo e a Cultura.

 

Ai daquele que se recusa a reconhecer os “Eleitos” do Mundo. Ele tem que se curvar perante um ou outro, pois se um for verdadeiro, o outro deve ser falso; e se a “sabedoria” nem do Bispo nem do Cientista não for “de cima” – o que já está bastante bem demonstrado – então a “sabedoria” deles é, na melhor das hipóteses, “terrestre, psíquica, diabólica”.

 

Agora, nossos leitores devem ter em mente que nada do que foi dito acima deve ser interpretado como um sinal de desrespeito aos verdadeiros ensinamentos de Cristo, ou à verdadeira ciência, nem julgamos personalidades, mas apenas os sistemas do nosso mundo civilizado.

 

Valorizando a liberdade de pensamento acima de todas as coisas, como o único caminho para alcançar, em algum momento futuro, aquela Sabedoria, pela qual todo teósofo deveria ser apaixonado, reconhecemos o direito à mesma liberdade em nossos inimigos como em nossos amigos. Tudo o que disputamos é a reivindicação deles à Sabedoria – como entendemos esse termo.

 

Nem culpamos, mas sim lamentamos, no fundo do nosso coração, os “sábios” da nossa época por tentarem levar a cabo a única política que os manterá no auge da sua “autoridade”, pois não poderiam, mesmo que quisessem, agir de outra forma e preservar o seu prestígio perante as massas, ou escapar de serem rapidamente rejeitados pelos seus colegas. O espírito partidário é tão forte em relação aos velhos caminhos e trilhas, que virar por um caminho secundário significa traí-los deliberadamente.

 

Assim, para ser considerado hoje em dia uma autoridade em algum assunto específico, o cientista tem de rejeitar, sem exceção (nolens volens), a metafísica, e o teólogo tem de demonstrar desprezo pelos ensinamentos materialistas. Tudo isto é política mundana e bom senso prático, mas não é a Sabedoria de Jó nem de Tiago.

(…)

 

O que, de fato, tem a SABEDORIA, a Teosofia“a Sabedoria cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia” (Tiago, iii, 17) – a ver com o nosso mundo cruel, egoísta, astuto e hipócrita? O que há em comum entre a divina Sofia e os aprimoramentos da civilização moderna e da ciência; entre o espírito e a letra que mata?

 

 

NOTA:

 

(1) Publicação original: Revista Lúcifer, Vol. VII, nº 37, setembro de 1890, pp. 1-9.

Artigo publicado em: Collected Writings (Obras Completas), Volume XII (1890).

Cópia original desse artigo, escrito à mão pela Sra. Helena Blavatsky, encontra-se nos Arquivos da Sociedade Teosófica, Adyar, Chennai, Índia.

 

HELENA BLAVATSKY

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Nota do Editor: Segue uma coleção de citações extraídas desse artigo da Sra. Helena Blavatsky, visando enfatizar o aspecto da Sabedoria como uma verdade viva. Esse artigo foi escrito já bem no final de sua vida, em1890.

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“Realmente sois a voz do povo,

e convosco morrerá a Sabedoria.

Mas também eu tenho inteligência,

não sou inferior a vós – quem ignora tudo isso?

Mas o homem se torna motivo de riso para os amigos

quando invoca a Deus para ter resposta.

Zombam do justo íntegro.”

, xii, 1-4.

 

“Mas a Sabedoria foi justificada pelas suas obras.”

Mateus xi, 19.

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(…)

Nossa era, dizemos, é inferior em Sabedoria a qualquer outra, porque professa, cada dia mais visivelmente, desprezo pela verdade e pela justiça, sem as quais não pode haver Sabedoria. Porque nossa civilização, construída de farsas e aparências, é, na melhor das hipóteses, como um belo pântano verde, um brejo, espalhado sobre um atoleiro mortal. Porque este século de cultura e adoração da matéria, enquanto oferece prêmios e recompensas para tudo que é a “melhor coisa” sob o Sol, do maior bebê e da maior orquídea ao pugilista mais forte e ao porco mais gordo, não tem nenhum incentivo à moralidade; nenhum prêmio para qualquer valor moral. Porque possui Sociedades para a prevenção da crueldade física contra os animais, e nenhuma com o objetivo de prevenir a crueldade moral praticada contra os seres humanos. Porque incentiva, legal e tacitamente, o vício em todas as suas formas, desde a venda de uísque até a prostituição e o roubo provocados por salários de fome, extorsões abusivas, e outros confortos de nosso período culto.

 

Porque, finalmente, esta é a era que, embora proclamada como uma era de liberdade física e moral, é na verdade a era da mais feroz escravidão moral e mental, como nunca se viu antes. A escravidão ao Estado e aos homens desapareceu apenas para dar lugar à escravidão às coisas e ao Eu, aos próprios vícios e costumes e modos sociais idiotas.

 

A moderna civilização, (…) tornou-as ainda mais propensas a desconsiderar a substância em favor da forma e da aparência, forçando assim o homem moderno a uma coação vil, uma dependência servil a coisas inanimadas, para usá-las e para se servir delas é o primeiro e forçado dever de todo homem considerado como ‘culto’.

(…)

 

Partiremos do princípio de que Sabedoria é, na melhor das hipóteses, uma palavra elástica – pelo menos como usada nas línguas europeias. Que ela não oferece uma ideia clara de seu significado, a menos que seja precedida ou seguida por algum adjetivo qualificativo. Na Bíblia, aliás, o equivalente hebraico Hokhmâh (em grego, Sophia) é aplicado às coisas mais díspares – abstratas e concretas. Assim, encontramos “Sabedoria” como a característica tanto da inspiração divina quanto da astúcia e do artifício terrestres; como significando o Conhecimento Secreto das Ciências Esotéricas, e também a fé cega; o “temor do Senhor” e os magos do Faraó. O substantivo é aplicado indiferentemente a Cristo e à feitiçaria, pois a bruxa Sedecla também é chamada de “a sábia mulher de En-Dor”.

(…)

 

Desde a mais remota antiguidade cristã, começando com São Tiago (iii, 13-17), até o último pregador calvinista, que vê no inferno e na danação eterna uma prova da “sabedoria do Todo-Poderoso”, o termo tem sido usado com os mais variados significados. Mas São Tiago ensina dois tipos de sabedoria; um ensinamento com o qual concordamos plenamente.

 

Ele traça uma linha divisória clara entre a “Sophia” divina ou noética – a Sabedoria que vem do alto – e a “sabedoria terrena, animal, psíquica e demoníaca.” (iii, 15).

 

“Com efeito, onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações.

Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, isenta de parcialidade e de hipocrisia.” (iii, 16-17)

 

Para o verdadeiro buscador da verdade, não há sabedoria senão a primeira. [NE: Aquela que vem do alto, divina ou noética] Tomara Deus que tal pessoa pudesse declarar com Paulo, que ele fala dessa sabedoria exclusivamente apenas entre aqueles “perfeitos”, isto é, aqueles iniciados em seus mistérios, ou familiarizados, ao menos, com o ABC das ciências sagradas.

 

Mas, por maior que tenha sido seu erro, por mais prematura que tenha sido sua tentativa de semear as sementes da verdadeira e eterna gnosis em solo não preparado, seus motivos eram bons e sua intenção altruísta, e por isso ele foi martirizado. Pois se ele tivesse apenas tentado pregar alguma ficção particular de sua própria autoria, ou feito isso por ganho, quem o teria aprisonado ou tentado esmagá-lo, em meio às centenas de outras seitas falsas, “coleções” diárias e “sociedades” malucas? Mas o caso dele era diferente. Por mais cauteloso que ainda fosse, ele falava “não da sabedoria deste mundo”, mas da verdade ou da “sabedoria oculta … que nenhum dos Príncipes deste Mundo conhecia” (1 Coríntios 2:6-8), muito menos os arcontes da nossa ciência moderna.

 

Com relação à sabedoria “psíquica”, porém, que Tiago [NE: Tiago o Justo, irmão de Jesus, considerado o autor da Espístola de Tiago. E foi um líder central na igreja primitiva em Jerusalém. Ele enfatiza que “a fé sem obras é morta”] define como terrena e diabólica, ela existiu em todas as épocas, desde os dias de Pitágoras e Platão, quando para um filósofo (philosophus) havia nove sofistas (sophistae), até a nossa era moderna. A tal sabedoria o nosso século é bem-vindo, e de fato tem todo o direito, de reivindicá-la. Além disso, é uma vestimenta fácil de vestir; nunca houve um período em que os corvos se recusassem a se adornar em penas de pavão, se a oportunidade fosse oferecida.

 

Mas agora como então, temos o direito de analisar os termos usados e indagar nas palavras do Livro de Jó, aquela sugestiva alegoria da purificação cármica e dos ritos iniciáticos:

 

“Onde se encontrará a (verdadeira) sabedoria? Onde está o lugar do entendimento?”

 

E para responder novamente em suas palavras:

 

“Com os antigos está a sabedoria; e no número de anos o entendimento.” (, xxviii, 12, e xii, 12).

 

Aqui temos que qualificar mais uma vez um termo duvidoso, a saber: a palavra “antigo”, e explicá-la. Conforme interpretada pelas igrejas ortodoxas, ela tem na boca de Jó um significado; mas com o cabalista, outro significado bem diferente; enquanto na Gnose do Ocultista e do Teósofo ela tem distintamente um terceiro significado, o mesmo que tinha no Livro de Jó original, um trabalho pré-mosaico e um tratado reconhecido sobre a Iniciação.

 

Assim, o cabalista aplica o adjetivo “antigo” à PALAVRA ou LOGOS (Dabar) manifestado da divindade eternamente oculta e incognoscível. Daniel, em uma de suas visões, também o usa ao falar de Javé – o andrógino Adam Kadmon. O religioso o conecta com seu Jeová antropomórfico, o “Senhor Deus” da Bíblia traduzida.

 

Mas o ocultista oriental emprega o termo místico apenas quando se refere ao Ego superior reencarnado. Pois, sendo a Sabedoria divina difundida por todo o Universo infinito, e nosso impessoal EU SUPERIOR sendo parte integrante dele, a luz átmica desse só pode ser centrada naquilo que, embora eterno, ainda é individualizado – isto é, o Princípio noético, o Deus manifestado dentro de cada ser racional, ou nosso Manas Superior em união com Buddhi. [NE: Alguns grifos nossos]

 

É esta luz coletiva que é a “Sabedoria que vem do alto”, e que, sempre que desce sobre o Ego pessoal, é encontrada “pura, pacífica e gentil”. Daí a afirmação de Jó de que “A Sabedoria está com o Ancião”, ou Buddhi-Manas. Pois o Divino “Eu” Espiritual é o único eterno e o mesmo em todos os nascimentos; enquanto as “personalidades” que ele informa sucessivamente são evanescentes, mutáveis como Sombras de uma série caleidoscópica de formas em uma lanterna mágica.

 

É o “Antigo”, porque, seja chamado de Sophia, Krishna, Buddhi-Manas ou Christos, é sempre o “primogênito” de Alaya-Mahat, a Alma Universal e a Inteligência do Universo.

 

Esotericamente, então, a declaração de Jó deve ser lida: “Com o Antigo (o Ego Superior do homem) está a Sabedoria, e na duração dos dias (ou no número de suas reencarnações) está o entendimento.”

 

Nenhum homem pode aprender a verdadeira e final Sabedoria em um único nascimento; e cada novo renascimento, quer reencarnemos para o bem ou para o mal, é mais uma lição que recebemos das mãos do severo, porém sempre justo, mestre-escola – A VIDA CÁRMICA.

 

Mas o mundo – o mundo ocidental, pelo menos – pouco sabe disso e se recusa a aprender. Para ele, qualquer noção de Ego Divino ou da pluralidade de seus nascimentos é “tolice pagã”. O mundo ocidental rejeita essas verdades e não reconhecerá sábios exceto aqueles de sua própria criação, feitos à sua própria imagem, nascidos em sua própria era e ensinamentos cristãos. A única “sabedoria” que compreende e pratica é a psíquica, a sabedoria “terrestre e diabólica”, mencionada por Tiago, tornando assim a verdadeira Sabedoria um termo impróprio e uma degradação.

(…)

 

Quanto ao mundo dos estudiosos do conhecimento místico, é quase pior. As coisas mudaram estranhamente desde os tempos da antiguidade, quando os verdadeiramente sábios tinham como primeiro dever ocultar seu conhecimento, considerando-o sagrado demais até mesmo para ser mencionado diante da plebe (hoi polloi).

 

Enquanto o medieval Rosecroix, o verdadeiro filósofo, lembrando-se do velho Sócrates, repetia diariamente que tudo o que sabia era que nada sabia, seu autoproclamado sucessor moderno anuncia em nossos dias, por meio da imprensa e do público, que aqueles mistérios da Natureza e suas leis ocultas, dos quais ele nada sabe, nunca existiram. Houve um tempo em que a aquisição da Sabedoria Divina (Sapientia) exigia o sacrifício e a devoção de toda a vida de um homem.

 

Dependia de coisas como a pureza dos motivos do candidato, sua coragem e independência de espírito; mas agora, para receber um título de sabedoria e maestria, basta uma impudência descarada. Um certificado de sabedoria divina é agora decretado e entregue a um autoproclamado “Adeptus” por uma maioria regular de votos de gaivotas profanas e facilmente capturáveis, enquanto uma horda de pegas expulsas do telhado do Templo da Ciência o anunciará ao mundo em todos os mercados e feiras.

 

Diga ao público que agora, assim como antigamente, o observador genuíno e sincero da vida e de seus fenômenos subjacentes, o colaborador inteligente da natureza, pode, ao se tornar um especialista em seus mistérios, tornar-se um homem “sábio”, no sentido terrestre da palavra, mas que jamais um materialista arrancará da natureza qualquer segredo em um plano superior – e você será alvo de escárnio.

 

Acrescente que nenhuma “sabedoria divina” desce sobre ninguém, exceto sob a condição sine qua non de deixar no limiar do Oculto todo átomo de egoísmo ou desejo por fins pessoais e benefícios – e você será rapidamente declarado por sua audiência como um candidato ao hospício.

 

No entanto, essa é uma verdade antiga, muito antiga. A natureza revela seus segredos mais íntimos e concede a verdadeira sabedoria apenas àquele que busca a verdade por si mesma e que anseia pelo conhecimento para beneficiar os outros, não sua própria personalidade insignificante. E, como é precisamente para esse benefício pessoal que quase todo candidato a mestre e magia busca, e como poucos são os que consentem em aprender a um preço tão alto e com um benefício tão pequeno para si mesmos em perspectiva – os ocultistas verdadeiramente sábios tornam-se, a cada século, em menor número e mais raros. Quantos, de fato, não prefeririam o fogo-fátuo da fama, mesmo que passageira, à luz constante e sempre crescente do conhecimento divino eterno, se este último tiver que permanecer, para todos, exceto para si mesmo, uma luz escondida?

(…)

 

Sabedoria e Verdade são termos sinônimos, e aquilo que é falso ou pernicioso não pode ser sábio.

(…)

 

Contudo, se alguém ousar chamar de “insensatas” ou “falsas” as autoridades escolhidas pelo mundo, ou declarar suas respectivas políticas desonestas, se verá prontamente reduzido ao silêncio. Duvidar da sublime sabedoria do falecido Cardeal Newman, ou da Igreja da Inglaterra, ou ainda de nossos grandes cientistas modernos, é pecar contra o Espírito Santo e a Cultura.

 

Ai daquele que se recusa a reconhecer os “Eleitos” do Mundo. Ele tem que se curvar perante um ou outro, pois se um for verdadeiro, o outro deve ser falso; e se a “sabedoria” nem do Bispo nem do Cientista não for “de cima” – o que já está bastante bem demonstrado – então a “sabedoria” deles é, na melhor das hipóteses, “terrestre, psíquica, diabólica”.

 

Agora, nossos leitores devem ter em mente que nada do que foi dito acima deve ser interpretado como um sinal de desrespeito aos verdadeiros ensinamentos de Cristo, ou à verdadeira ciência, nem julgamos personalidades, mas apenas os sistemas do nosso mundo civilizado.

 

Valorizando a liberdade de pensamento acima de todas as coisas, como o único caminho para alcançar, em algum momento futuro, aquela Sabedoria, pela qual todo teósofo deveria ser apaixonado, reconhecemos o direito à mesma liberdade em nossos inimigos como em nossos amigos. Tudo o que disputamos é a reivindicação deles à Sabedoria – como entendemos esse termo.

 

Nem culpamos, mas sim lamentamos, no fundo do nosso coração, os “sábios” da nossa época por tentarem levar a cabo a única política que os manterá no auge da sua “autoridade”, pois não poderiam, mesmo que quisessem, agir de outra forma e preservar o seu prestígio perante as massas, ou escapar de serem rapidamente rejeitados pelos seus colegas. O espírito partidário é tão forte em relação aos velhos caminhos e trilhas, que virar por um caminho secundário significa traí-los deliberadamente.

 

Assim, para ser considerado hoje em dia uma autoridade em algum assunto específico, o cientista tem de rejeitar, sem exceção (nolens volens), a metafísica, e o teólogo tem de demonstrar desprezo pelos ensinamentos materialistas. Tudo isto é política mundana e bom senso prático, mas não é a Sabedoria de Jó nem de Tiago.

(…)

 

O que, de fato, tem a SABEDORIA, a Teosofia“a Sabedoria cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia” (Tiago, iii, 17) – a ver com o nosso mundo cruel, egoísta, astuto e hipócrita? O que há em comum entre a divina Sofia e os aprimoramentos da civilização moderna e da ciência; entre o espírito e a letra que mata?

 

 

NOTA:

 

(1) Publicação original: Revista Lúcifer, Vol. VII, nº 37, setembro de 1890, pp. 1-9.

Artigo publicado em: Collected Writings (Obras Completas), Volume XII (1890).

Cópia original desse artigo, escrito à mão pela Sra. Helena Blavatsky, encontra-se nos Arquivos da Sociedade Teosófica, Adyar, Chennai, Índia.