X – O QUE A FILOSOFIA PERENE FAZ POR NÓS
Deve estar óbvio, para o leitor cuidadoso, o quão completamente as concepções da Filosofia Perene modificam toda a visão de vida do homem, quando ele se convence delas; e a direção de muitas dessas mudanças, e as razões em que se baseiam, já devem ter sido vistas a partir do que já foi escrito.
Da Filosofia Perene ganhamos uma compreensão racional daquela vida a qual foi anteriormente, para muitos de nós, simplesmente um problema insolúvel, uma charada sem uma resposta. Por meio dela sabemos a razão de estarmos aqui, o que se espera que façamos e como devemos agir para realizá-lo.
Vemos que por pequena que possa parecer a importância de viver a vida pela busca de quaisquer prazeres ou ganhos pertencentes exclusivamente ao plano físico, ela é definitivamente muito valiosa quando considerada meramente como uma escola para nos preparar para as glórias indescritíveis e as possibilidades infinitas dos planos mais elevados.
À luz da informação que adquirimos, vemos não apenas como evoluir, mas também como ajudar os outros a evoluir – como, pelo pensamento e pela ação, nos tornarmos mais úteis, primeiramente para o pequeno círculo daquelas pessoas mais associadas a nós, ou para aquelas a quem especialmente mais amamos, e depois, gradualmente, à medida que cresce nosso poder, para com toda a raça humana.
Por meio de sentimentos e pensamentos como esses, somos inteiramente alçados a uma plataforma mais elevada, e vemos quão limitado e desprezível é o insignificante pensamento pessoal com o qual tanto nos ocupamos no passado. De modo inevitável, nós começamos a considerar tudo não meramente no que afeta apenas nossos eus pessoais, mas desde um ponto de vista mais amplo que leva em conta sua influência sobre a humanidade como um todo.
Os vários problemas e sofrimentos que nos acometem são tão frequentemente vistos fora de toda proporção porque eles estão muito próximos de nós; eles parecem obscurecer todo o horizonte, como um prato que seguramos perto demais dos olhos tampa o sol.
Assim, muitas vezes esquecemos que “o coração do ser é o repouso celestial”. Mas o ensino da Filosofia Perene traz todas as coisas para a perspectiva correta e nos possibilita elevar-nos acima das nuvens, para podermos olhar para baixo e ver as coisas como são, e não meramente como parecem ser quando olhadas de baixo, com uma visão muito limitada.
Aprendemos a submeter definidamente a personalidade inferior, com sua massa de ilusões e preconceitos e sua inabilidade para ver o que quer que seja verdadeiramente; aprendemos a nos elevar até um ponto de vista impessoal e altruísta, onde fazer o correto pelo que é correto nos parece a regra única da vida, e ajudarmos o próximo, a maior de todas as nossas alegrias. Pois é uma vida de alegria que agora se descortina diante de nós. À medida que o homem evolui, crescem sua simpatia e compaixão, de modo que ele se torna cada vez mais sensível aos erros, às tristezas e aos sofrimentos do mundo.
Todavia, ao mesmo tempo ele enxerga com cada vez maior clareza a causa de todo sofrimento, e compreende cada vez mais amplamente que, apesar de tudo, todas as coisas estão trabalhando em conjunto para o bem final de todos.
Assim, chega até ele não apenas o profundo contentamento e absoluta segurança que nasce da certeza de que tudo está bem, mas também a alegria definitiva e radiante derivada da contemplação do magnífico plano do Logos, e do sucesso firme e seguro com o qual esse poderoso esquema se move em direção ao seu final designado.
Ele aprende que Deus deseja que sejamos felizes, e que definitivamente é nosso dever sê-lo, para que possamos disseminar ao nosso redor vibrações de felicidade sobre os outros, uma vez que este é um dos métodos pelos quais podemos aliviar a dor do mundo.
Na vida comum, uma grande parte do aborrecimento que os homens sentem, associado aos seus vários problemas, geralmente é causado por um sentimento de que estes lhes são infligidos de maneira injusta. Um homem dirá: “Por que tudo isso deveria acontecer comigo? Aí está meu vizinho, que não é de modo algum melhor do que eu, todavia ele não sofre de doenças, da perda de amigos, ou da perda de riqueza; então, por que eu?”
A Filosofia Perene livra os seus estudantes desse equívoco, já que lhes torna absolutamente claro que nenhum sofrimento advém a qualquer tempo a quem não o mereça. Qualquer que seja a dificuldade que encontremos, é simplesmente da natureza de um débito que assumimos; já que tem de ser pago, quanto mais cedo o for melhor. E isso não é tudo, pois todo problema desse tipo é uma oportunidade de desenvolvimento.
Se suportarmos o problema com paciência e bravura, não permitindo que ele nos esmague, e sim encarando-o e agindo da melhor maneira possível, a partir daí desenvolvemos dentro de nós mesmos as valiosas qualidades de coragem, perseverança, determinação; e assim, a partir do resultado dos nossos pecados de outrora, nós colhemos o bem em vez do mal.
Como foi dito antes, o medo da morte é praticamente removido do estudante da Filosofia Perene porque ele compreende em profundidade o que é a morte. Ele não mais se abate pela morte daqueles que se foram antes dele, pois esses ainda estão presentes junto a ele; ele sabe que dar asas à dor egoísta seria causar tristeza e muito sofrimento para essas pessoas. Uma vez que elas estão tão próximas dele, e já que a simpatia entre eles é mais forte do que anteriormente, ele está bem ciente de que o seu pesar descontrolado irá com toda certeza refletir-se nelas e causar-lhes sofrimento.
Não que a Filosofia Perene o aconselhe a esquecer os mortos; pelo contrário, encoraja-o a lembrar-se deles tanto quanto possível, porém jamais com tristeza egoísta, jamais com o desejo de trazê-los de volta à Terra, jamais com o pensamento de sua perda aparente, e tão somente com o pensamento do muito que alcançaram. Isso lhe assegura que um forte pensamento de amor será um potente fator na evolução deles, e que se ele tão somente pensar de maneira correta e razoável a respeito deles, poderá prestar-lhes a maior assistência no seu progresso ascendente.
Um estudo cuidadoso da vida do homem no período entre suas encarnações mostra os limites dessa vida física em relação ao todo. No caso do homem médio, educado e culto, o período de uma vida – o que equivale a dizer um dia na vida real – equivaleria a cerca de vários séculos. Desse período, talvez oitenta ou noventa anos seriam gastos na vida física, menos da metade disso no plano astral, e todo o tempo restante na felicidade inimaginável do mundo celeste, que por isso é de longe a parte mais importante da existência do homem.
Naturalmente essas proporções variam consideravelmente para diferentes tipos de homens, e quando nos pomos a considerar as almas mais jovens, menos evoluídas, descobrimos que essas proporções são totalmente modificadas, pois é bem provável que a vida astral seja muito mais longa e a vida celeste muito mais curta.
No caso de um homem absolutamente imaturo, uma alma muito jovem, há pouco do que se possa chamar vida celeste, porque ele ainda pouco desenvolveu dentro de si as qualidades e virtudes que são as que possibilitam ao homem alcançar aquela vida.
O conhecimento de todos esses fatos dá uma clareza e uma certeza às nossas antecipações do futuro que é um bem-vindo alívio da imprecisão e indecisão do pensamento comum sobre esses assuntos. Seria impossível para um homem que torne a Filosofia Perene uma realidade prática em sua vida ter temores a respeito da sua “salvação”, pois ele sabe que não há nada de que o homem tenha que ser salvo a não ser da sua própria ignorância, e ele consideraria a maior blasfêmia duvidar que a vontade do Logos será, com toda certeza, cumprida no caso de todos os seus filhos.
Ele não tem uma “vaga esperança”, mas praticamente uma certeza nascida de seu conhecimento da lei eterna. Ele não pode temer o futuro, porque ele conhece aquilo que semeia, e que os frutos disso colherá como futuro; assim, sua única ansiedade é tornar-se digno de levar a cabo sua parte na poderosa obra da evolução. Pode ser que no momento haja muito pouca coisa que ele possa fazer; todavia, não há quem não possa fazer alguma coisa, exatamente onde esteja, no círculo à sua volta, não importa quão pouco evoluído ele possa ser.
Todo homem tem suas oportunidades, pois toda conexão é uma oportunidade. Cada pessoa com quem entramos em contato é uma alma que pode ser auxiliada – quer seja uma criança que nasceu na família, um amigo que venha a participar do nosso círculo, um empregado que passa a participar da nossa casa – todo mundo fornece, de uma maneira ou de outra, uma oportunidade.
Não se sugere por um instante sequer que deveríamos nos tornar um incômodo, impondo nossas opiniões e ideias a todo mundo com quem entremos em contato, como às vezes fazem alguns de nossos ignorantes e inábeis amigos religiosos; porém, deveríamos guardar uma atitude de contínua prontidão para auxiliar.
Realmente, deveríamos estar sempre atentamente observando quanto a uma oportunidade para ajudar, seja com meios materiais, até onde os tenhamos ao nosso alcance, seja com o benefício do nosso conselho ou do nosso conhecimento, onde quer que esses nos sejam solicitados.
Muitas vezes surgem casos nos quais nos é impossível o auxílio por palavras ou ações; mas jamais poderá haver um caso no qual o pensamento amigo e de ajuda não possa ser vertido, e ninguém que conheça o poder do pensamento terá dúvidas quanto ao resultado, muito embora ele possa não ser imediatamente visível no plano físico.
O estudante da Filosofia Perene deveria se distinguir do resto do mundo por sua alegria constante, sua intrépida coragem quando em dificuldades, e sua pronta simpatia e prestatividade.
Certamente, apesar de sua alegria, ele é um daqueles que levam a vida a sério – aquele que compreende que há muita coisa para cada um fazer no mundo e que não há tempo a ser desperdiçado. Ele verá a necessidade de obter controle de si mesmo e de seus diferentes veículos, pois só dessa maneira poderá estar bem preparado para auxiliar os outros quando a oportunidade surgir.
Ele irá se alinhar ao lado do pensamento mais elevado e não do mais inferior, do mais nobre e não do mais comum; sua tolerância será muito maior, porque ele vê o potencial do bem em todos. Ele deliberadamente adotará a visão otimista, em detrimento da pessimista, a visão da esperança e não do cinismo, porque ele sabe que essa é sempre e fundamentalmente a visão verdadeira – sendo o mal necessariamente a parte impermanente, uma vez que, no final, apenas o bem pode perdurar.
Assim, ele sempre procurará o bem em tudo, para que possa tentar fortalecê-lo; ele estará atento quanto ao trabalho da grande lei de evolução, para que possa colocar-se a seu lado e contribuir com sua energia com a sua pequena corrente de força.
Desse modo, por meio de tentar sempre ajudar e jamais obstaculizar, ele irá se tornar, em sua pequena esfera de influência, um dos poderes beneficentes da Natureza; não importa quão pequena ela seja, não importa a que distância impensável, ele mesmo assim é um colaborador junto com Deus – e essa é a mais alta honra e o maior privilégio que pode acontecer na vida de um homem.