GLOSSÁRIO DO EVANGELHO DA INTERPRETAÇÃO

PEQUENA COLETÂNEA/GLOSSÁRIO DO “NOVO” EVANGELHO DA INTERPRETAÇÃO

 

ÍNDICE GERAL: ENTRADAS/ASSUNTOS/IDEIAS

 

LETRA “A”

– Adão

– Alma

– Anjo da Guarda, ou “Daimon”, ou Gênio

– Anna Kingsford

– Armadura de Miguel

– Árvore da Ciência do Bem e do Mal, ou Árvore da Vida (no Éden)

LETRA “B”

– Bíblia: Coleção de Símbolos e Parábolas

LETRA “C”

– Cálice e Sangue

– Católico

– Cavalo – Cavalaria

– Ciência e Religião

– Corpo e Sangue de Cristo

-Cristianismo Budista

– Cristo

LETRA “D”

– Divina Ordem da Cavalaria É a Ordem de Cristo

LETRA “E”

– Éden

– Edward Maitland

– Egito – Fuga do Egito – Êxodo

– Espiritualidade Versus Psiquismo

– Eva

LETRA “F”

– Fé Versus Credulidade

– Figueira

– Filho de Deus

LETRA “I”

-Idolatria É Forma de Materialismo

-Importância da Imagem de Deus

-Intuição

-Israel

LETRA “J”

– Jesus

LETRA “M”

– Maria

– Monte – Montanha

– Mulher

LETRA “P”

– Pão e Vinho

– Perfect Way (O Caminho Perfeito)

– Propósito que Todos Temos em Nosso Coração

LETRA “S”

– Sacerdotalismo

– Salvação Vicária

– Serpente do Éden, Herodes e o Dragão

– Significado Alegórico e Não Literal

LETRA “T”

– Tentação da Serpente

– Trabalhar É Orar

LETRA “V”

– Vegetarianismo

 

 

 

 

LETRA “A”

– Adão

– Alma

– Anjo da Guarda, ou “Daimon”, ou Gênio

– Anna Kingsford

– Armadura de Miguel

– Árvore da Ciência do Bem e do Mal, ou Árvore da Vida (no Éden)

 

 

 

ADÃO

 

Citação (1): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

Citação (2): Adão e Eva

 

 

Citação (1): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

 

“O tópico de sua segunda palestra (…) foi a segunda cláusula do Credo: “E em Cristo Jesus, Seu único Filho, nosso Senhor; que é concebido pelo Espírito Santo, nascido da Virgem Maria”.

Com relação a essa cláusula, ela disse que ao insistir na significação esotérica como sendo a única verdadeira e de valor, estamos simplesmente revertendo ao costume antigo e original.

É a aceitação do Credo em seu sentido exotérico [ou externo] e histórico que é realmente moderna. Pois todos os Mistérios Sagrados eram originalmente vistos como espirituais, e apenas quando eles passaram das mãos de iniciados devidamente instruídos para aquelas do ignorante e do vulgar é que eles se tornaram materializados e degradados ao nível em que atualmente se encontram.

A verdade esotérica desse artigo do Credo pode ser entendida somente por meio de um conhecimento anterior, primeiro, da constituição do homem e, em seguida, do significado dos termos empregados na formulação da doutrina religiosa.

Essa doutrina denota um conhecimento perfeito da natureza humana, e os termos pelos quais ela é expressa – “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o restante – simbolizam os vários elementos espirituais que constituem o indivíduo, os estados pelos quais ele passa, e a meta que ele finalmente alcança no percurso de sua evolução espiritual.

Pois, como São Paulo diz: “essas coisas são uma alegoria” (Gálatas 4:24); e para compreendê-las é necessário conhecer os fatos aos quais elas se referem. Conhecendo esses fatos, não temos nenhuma dificuldade de reconhecer a origem de tal representação e de aplicá-la a nós mesmos.

Assim, “Adão” é o homem meramente externo e mundano, ainda que desenvolvendo no devido tempo a consciência de “Eva” ou a Alma – pois a alma é sempre a “Mulher” – tornando-se um ser dual constituído de matéria e espírito.

Como “Eva”, a Alma cai sob o domínio desse “Adão”, e tornando-se impura através da sujeição à matéria, dá nascimento a Caim, que, representando a natureza inferior, é descrito como cultivando os frutos do chão.

Mas, como “Maria”, a Alma readquire sua pureza e é descrita como sendo virgem, no que diz respeito à matéria e, se polarizando para Deus, torna-se mãe de Cristo ou o Homem Regenerado, o qual tão somente é o Filho Único de Deus e Salvador do homem no qual ele é gerado. Razão pela qual Cristo é tanto o processo como o resultado do processo. Assim sendo, ele não é “o Senhor”, mas “nosso Senhor”. O Senhor é Adonai, a Palavra, subsistindo eternamente no céu; e Cristo é sua contraparte no homem.” [Edward Maitland. The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), Vol. II, pp. 197-198; grifos nossos]

 

 

Citação (2): Adão e Eva

 

Eva – a Consciência moral da Humanidade – sujeita a Adão – a Força Intelectual – “de onde advém em abundância todo tipo de mal e confusão, uma vez que seu desejo é direcionado a ele, e ele rege sobre ela até agora. Mas o final predito pelo Vidente não está distante.” [Anna Kingsford. Clothed With the Sun (Vestida com o Sol). Veja a Iluminação: Sobre a Interpretação das Escrituras Místicas; grifo nosso]

 

 

 

ALMA

 

Citação (1): “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

Citação (3): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

Citação (4): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

Citação (5): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

Texto (1 ): Sobre o Gênio ou “Daimon” (Anjo da Guarda)

 

 

Citação (1): “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

 

“É a hostilidade inveterada entre os poderes ocultos do mal e a “Mulher” das Escrituras que está representada na passagem do Apocalipse na qual aparece o dragão, “quando soube que já não tinha muito tempo”, ao “despejar água de sua boca como uma enchente para levá-la embora.”

A iminência da restauração da intuição reconhecida pelo dragão – que não é outra senão sua velha sedutora no Éden – se deve ao início do reinado de Miguel, “o grande príncipe que defendeu os filhos do povo de Deus”. Isso porque, como o representante do princípio da equidade ou equilíbrio em relação aos fatores masculino e feminino na natureza humana, Miguel representa a restauração da Intuição a seu devido trono. Intuição que é por meio da qual se dá o discernimento do espírito e, assim, da verdadeira natureza do dragão como sendo a antítese do Espírito.

A negação da Intuição é uma característica marcante do Sacerdotalismo, seja ele religioso ou científico. E a Intuição nunca esteve tão flagrantemente ausente de ambos os tipos do Sacerdotalismo quanto nos dias de hoje.

Mas a pergunta que deve ser respondida em primeiro lugar é quem, ou o que, é a intuição precisamente. E como não há ninguém tão competente para responder a isso quanto ela própria, é nas palavras em que ela revelou a si mesma novamente – expressamente para os propósitos da Nova Interpretação – que a resposta será dada.

Como veremos, desde o início a Intuição restaura a doutrina – Universal nas Igrejas pré-cristãs, mas suprimida pelo Sacerdotalismo ao assumir a denominação de cristão – que é a única que a torna, ou a Bíblia, ou mesmo a própria existência, inteligíveis. Essa é a doutrina da multiplicidade das vidas terrenas:

 

“Intuição é experiência inata; aquilo que a alma sabe dos idos e antigos anos.

Conhecimento inato e percepção das coisas, essas são as fontes da revelação: a alma do homem o instrui, já tendo aprendido pela experiência.

Ninguém é profeta, a não ser aquele que sabe: o instrutor do povo é um homem de muitas vidas.

E a Iluminação é a Luz da Sabedoria, pela qual o homem percebe os segredos celestiais.

Essa Luz é o Espírito de Deus dentro do homem, mostrando-lhe as coisas de Deus”. (1)

Os Livros Místicos tratam apenas de entes espirituais? Nem o próprio Tentador é matéria, mas antes aquele que dá precedência à matéria. Adão é antes a força intelectual: ele é Terreno. Eva é a consciência moral: ela é a Mãe dos que Vivem.

Então, o intelecto é o princípio masculino, e a intuição, o princípio feminino. E os Filhos da Intuição, ela própria caída, finalmente recuperarão a verdade e redimirão todas as coisas.

Por sua culpa, de fato, que a consciência moral da humanidade se tornou sujeita à força intelectual, e que dessa forma proliferam todo o tipo de maldade e confusão, já que o desejo dela está direcionado para o intelecto e, até agora, ele exerceu domínio sobre ela.

Mas o Fim profetizado pelo Vidente não está muito longe. Então, a Mulher será exaltada, vestida com o Sol e levada ao Trono de Deus. E seus Filhos farão Guerra ao Dragão, e alcançarão a Vitória sobre ele.

A intuição, desse modo, pura e sendo como uma Virgem, será a Mãe e a Redentora de seus Filhos caídos, os quais ela mantinha como Escravos do seu Esposo, a Força intelectual.

Moisés, portanto, conhecendo os Mistérios da Religião dos egípcios, e tendo aprendido com seus Ocultistas o valor e a significação de todos os Pássaros e Animais sagrados, os transmitiu como Mistérios para o seu próprio Povo. (…) Ele ensinou a seus Iniciados o Espírito dos Hieróglifos celestiais e ordenou-lhes que quando celebrassem Festivais diante de Deus carregassem em procissão, com música e dança, aqueles dos Animais sagrados que, por suas significações interiores, estivessem relacionadas com a ocasião.

Agora, desses Animais, ele selecionou principalmente os Machos do Primeiro Ano, sem Mancha ou Defeito, para significar que é necessário, acima de todas as coisas, que o homem dedique ao Senhor seu intelecto e sua razão, desde o princípio e sem reserva alguma. E fica evidente – pela história do mundo em todas as épocas, principalmente nestes últimos tempos – que ele foi muito sábio ao ensinar isso. Pois, o que foi que levou os homens a renunciar às realidades do espírito e a propagar falsas teorias e ciências corrompidas, negando todas as coisas que não sejam a aparência que pode ser apreendida pelos sentidos externos, e desse modo a se transformar no próprio Pó da Terra? É o seu intelecto que, não estando santificado, os desviou do caminho reto; é a força da mente neles que, estando corrompida, é a causa de sua própria ruína e da de seus seguidores.

Então, assim como o intelecto está apto a ser o grande Traidor do Céu, assim também é ele a força pela qual os homens, seguindo sua intuição pura, podem também compreender a verdade. Por essa razão está escrito que os Cristos são submissos a suas Mães. De modo algum isso quer dizer que o intelecto deva ser desonrado; pois ele é o Herdeiro de Todas as Coisas, desde que tão somente ele seja verdadeiramente gerado e não um Bastardo.

E, além de todos esses símbolos, Moisés ensinou seu Povo a ter, acima de todas as coisas, Repúdio à Idolatria. O que é, então, a Idolatria e o que são os Falsos Deuses?

Criar um Ídolo é materializar Mistérios espirituais. Os Padres, desse modo, são Idólatras, os quais, chegando depois de Moisés e entregando-se a escrever aquelas coisas que ele, pela Palavra de Boca a Ouvido, tinha transmitido à Israel, substituíram as verdadeiras coisas significadas, pelos símbolos materiais, e derramaram sangue inocente nos puros Altares do Senhor.

Também são Idólatras aqueles que compreendem as coisas dos sentidos, onde tão somente as coisas do espírito estão referidas, e que escondem as verdadeiras Feições dos Deuses por meio de representações materiais e falsas. Idolatria é Materialismo, o compartilhado e original Pecado dos Homens, que substitui o Espírito pela Aparência, a substância pela ilusão e conduz o tanto o ser moral como o intelectual, ao erro, de forma que substituem o inferior pelo superior e o que está no Fundo pelo que está no Alto. É o falso Fruto que atrai os sentidos externos, a Tentação da Serpente do Começo do Mundo. Até que o Homem e a Mulher Místicos tenham comido desse Fruto, conheciam apenas as Coisas do Espírito, e as achavam suficientes. Mas após sua Queda, começaram a apreender também a Matéria e a ela deram a Preferência, tornando-se Idólatras. E seu Pecado, e a Mácula gerada por aquele falso Fruto, corromperam o Sangue de toda a Raça dos Homens, de cuja Corrupção os Filhos de Deus os teriam redimido.” (2)

 

“Tudo que é verdadeiro é espiritual. (…) Nenhum dogma é real se não for espiritual. Se for verdadeiro e, contudo, lhe parecer ter uma significação material, saiba que não o resolveu. É um mistério: busque sua interpretação. Aquilo que é verdadeiro é tão somente para o espírito.

Pois a matéria perecerá, e tudo que a ela pertence, mas a Palavra do Senhor continuará a existir para sempre. E como ela poderia perdurar se não fosse puramente espiritual, uma vez que, ao perecer a matéria não mais seria compreensível?” (3)

 

A Igreja tem toda a verdade; mas os sacerdotes a materializaram.

Em seu sentido real as doutrinas são verdades divinas, fundamentadas na natureza do Ser. Mas apresentadas segundo o sacerdotalismo elas são absurdos blasfemos. Elas são verdadeiras de acordo com o significado dado por Deus; não conforme o significado dado pelos padres.

A Bíblia foi escrita por pessoas de intuição, para pessoas de intuição, e do ponto de vista das pessoas de intuição. Ela tem sido interpretada por pessoas superficiais, para pessoas superficiais, e do ponto de vista das pessoas superficiais. Mesmo sendo o mais oculto e místico dos livros, ela tem sido exposta por pessoas sem conhecimento oculto ou percepção mística.”

 

NOTAS

 

(1) Vestida Com o Sol, I, ii.

(2) Vestida Com o Sol, I, v.

(3) Vestida Com o Sol, I, iii.

(Edward Maitland. O “Novo” Evangelho da Interpretação, pp. 27-32; alguns grifos nossos, porém vários estão no original)

 

 

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

 

Andrômeda, a Alma, a melhor parte do Homem, está a ponto de ser inteiramente devorada pelo dragão maligno da Negação, que é o agente da natureza inferior, e o destruidor de todas as esperanças da humanidade. Seu nome – idêntico aos termos com os quais é descrita a primeira Mulher da história dos hebreus – a aponta como a companheira e regente do homem; sua paternidade indica a origem da Alma, que nasce do Fogo astral ou Éter, simbolizado pela terra da Etiópia; os grilhões de bronze com que ela é presa à rocha são o símbolo da atual escravidão do Divino no homem a sua parte material; e a sua redenção, casamento, e exaltação pelo herói Perseu, prenunciam o coroamento e a realização final do Filho de Deus, o qual não é outra coisa senão o Ser Humano Espiritual fortalecido e sustentado pela Sabedoria e pelo Pensamento.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. Prefácio, The Perfect Way (O Caminho Perfeito), p. 14; grifo nosso]

 

 

Citação (3): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Mas é o Cristo Jesus dentro de nós, ou o homem que renasceu de alma e espírito puros, como o próprio Jesus declarou que todos devem nascer – exatamente do mesmo modo como se descreve que Ele nasceu – a quem buscamos para nos salvar.

E os meios são Sua cruz de auto sacrifício, renúncia, e pureza de vida; e a recepção em nós mesmos daquele “Sangue de Deus” que não é nenhum sangue meramente físico – com o qual as imperfeições morais não possuem nenhuma relação – mas que é a vida de Deus, o próprio Espírito puro, o qual é Deus, e o qual Deus está sempre derramando em abundância para o bem de Suas criaturas, dando a elas de sua própria vida e substância.

Quão perniciosa é a doutrina da redenção (ou reconciliação) vicária, conforme ela é comumente aceita, é algo que pode ser visto pelas atuais condições do mundo: intelectualmente, moralmente e espiritualmente, não menos do que fisicamente.

O homem sempre se constrói segundo a imagem de seu Deus, isto é, segundo a sua ideia de Deus. E acreditando em um Deus que é injusto, egoísta e cruel, o homem não pode ser senão injusto, egoísta e cruel.

É precisamente essa má representação do caráter divino, e essa perversão da verdadeira e da única possível doutrina da reconciliação ou redenção, em uma doutrina que faz a salvação do homem um processo externo a si mesmo, e dependente da ação de outro que não ele mesmo, que, por meio da falsificação do Cristianismo, provocou o seu fracasso. E, ao invés de um mundo ordenado por princípios de justiça, simpatia e pureza, nos legou um mundo de más ações, de egoísmo e de sensualismo.” [Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios Sobre o Vegetarianismo). Capítulo: O Vegetarianismo e a Bíblia, pp. 222-223; grifos nossos]

 

 

Citação (4): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

“De acordo com o verdadeiro Evangelho, conforme declarado pelos profetas, a substância da humanidade não é material e criada, mas sim espiritual e divina. E o homem se eleva além de sua natureza inferior até sua natureza superior ao subordinar os primeiros aos últimos, elevando-se assim totalmente ao superior, tornando-se com isso divino – pois entre Espírito e Matéria não há linha fronteiriça. Esse conhecimento era o tesouro sem preço do qual Israel, ao fugir ou libertar-se, “despojou os egípcios”. [Êxodo 12:36] Esse era o grande segredo de todos os sagrados mistérios desde o princípio.

Ao contrário desse, trata-se de um falso evangelho, aquele que tendo origem nos sacerdotes, e desafiando ao mesmo tempo o intelecto e a intuição, atribui a salvação a uma operação vicária, e, ao invés do sacrifício de nossa própria natureza inferior para a nossa natureza superior, e de nós mesmos para os demais, insiste no sacrifício de nossa natureza superior para a inferior, e dos outros para nós mesmos.

É dessa inversão da ordem divina que o hábito de comer carne e a vivissecção – aquela mais infernal de todas as práticas que sugiram do abismo sem fundo da natureza inferior do homem – são os diretos e inevitáveis resultados. E até que a ordem divina seja restaurada, tanto em ato quanto em pensamento, pela renúncia da doutrina do sacrifício vicário, conforme comumente sustentado, e pela consequente reabilitação do caráter de Deus, todos os nossos esforços de melhoramento devem ser em vão; nossa civilização será tão somente uma falsificação, um simulacro desse termo (…).

Em conclusão: aquilo que buscamos não é uma reforma de instituições meramente, ou a promoção de benefícios materiais meramente, mas sim uma radical renovação da própria Substância dos homens em todos os planos de suas naturezas, com vistas à realização daquilo que há tanto tempo foi prometido: “novos céus e nova terra onde habitará a Retidão (a Justiça)” [2 Pedro 3:13], e o advento daquele perfeito estado, a Nova Jerusalém, ou Cidade que tem Deus como sua luz, a luz que desce do céu da região celestial do próprio homem, aquele reino dos céus que está dentro dele mesmo, mas o qual jamais pode ser realizado por aqueles que persistem em ordenar suas vidas de modo a tornarem necessários o derramamento de sangue e a injustiça.

 

“Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que agir com justiça, gostar do amor, e caminhar humildemente com o teu Deus!” [Miquéias 6:8]

“Eles não ferirão e nem destruirão em toda a minha montanha sagrada, disse o Senhor.” [Isaías 65:25]

 

Se nos for perguntado, qual a fonte, e qual a autoridade para essa interpretação, responderemos que há apenas uma fonte e autoridade para a verdade, e essa é a Alma do próprio homem, e que para obter acesso a esse lugar, e conhecer a doutrina, é necessário fazer a Vontade do Pai, e viver a vida pura que é requerida.

Pois a Alma vê divinamente, e nunca esquece aquilo que uma vez aprendeu. E tudo o que ela conhece está a serviço daquele que para com ela tem os devidos cuidados e a cultiva. Dela advém, diretamente e sem mescla de adulteração humana, aquilo que recém foi dito. E não há nenhuma outra fonte ou método de revelação divina.

É verdade, como se supõe geralmente, que a revelação divina é pronunciada por uma voz vinda do céu. Mas o céu é o mais íntimo santuário do templo do próprio homem, e a voz é a de Deus lá falando. Somente onde o terreno, o qual é o corpo, é puro e é nutrido com pureza, de modo que nenhuma exalação nociva surja para obscurecer a atmosfera, é que homem e sua Alma podem entabular conversação direta.

Vivendo da maneira que o mundo vive hoje, ele não pode conhecer as potencialidades da humanidade. Daí segue que ele diviniza uma espécie mais adiantada, à custa do resto da raça, quando na verdade todos são divinos, se apenas os deixarem assim ser. E a revelação é, tanto quanto a razão, o atributo natural do homem.” [Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios Sobre o Vegetarianismo). Citação no capítulo: O Vegetarianismo e a Bíblia, pp. 223-224; grifos nossos]

 

 

Citação (5): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

A Bíblia, em síntese, pode ser definida como uma coleção de parábolas narrando a história da Alma, desde sua primeira descida na matéria, até o seu retorno final para sua condição original de puro espírito. E como a Alma passa pelo mesmo processo quer se trate de uma só ou de muitas – seja uma pessoa, uma igreja, uma raça, ou mesmo o universo como um todo – a narrativa que descreve, ou a parábola que representa a história de um, igualmente o faz para todos. E os mesmos termos, que são três em número, abrangem todo o processo.

Esses termos são Geração, Degeneração e Regeneração, e esses, portanto, sendo aplicados à Alma, são o tema da Bíblia, conforme agora mostraremos, e não a história física, ou qualquer pessoa ou povo seja lá qual for, muito embora sejam descritos em termos derivados de pessoas ou de um povo. E tomar tais pessoas, povos ou um outro símbolo por qualquer outra coisa que não sejam os seus apropriados papéis de símbolos, e ignorando o seu verdadeiro significado, e dar-lhes a honra devida apenas àquilo que de fato eles significam trata-se, em linguagem bíblica, de cometer idolatria.

Pois, ao assim proceder, nós materializamos mistérios espirituais, e conferimos à Forma a consideração devida apenas à Substância. Onde quer que compreendamos como coisas Sensoriais coisas que tão somente pertencem ao Espírito, encobrindo assim as verdadeiras feições da Divindade com representações falsas e espúrias, nós cometemos o que a Bíblia considera como o mais repugnante dos pecados, e nos tornamos idólatras e, ao mesmo tempo, nos identificamos com aquela escola materialista que está rapidamente se espalhando pelo mundo com o objetivo declarado de erradicar a própria ideia de Deus e de Alma.

Isso porque “Idolatria é Materialismo, o pecado comum e original dos homens, o qual substitui o Espírito pela Aparência, a Substância pela Ilusão, e conduz tanto o Ser moral quanto o Ser intelectual ao erro, de modo que eles substituem o superior pelo inferior, e o elevado pelo superficial. É esse falso fruto que atrai os sentidos externos, a tentação da serpente no começo do mundo”; e isso tanto para a raça quanto para cada indivíduo onde e quando quer que tenha vivido, pois todos estão sujeitos à sua atração.

Devemos então saber, para a reta compreensão das escrituras místicas, que em seu sentido esotérico, ou interior e real, elas não tratam de coisas materiais, mas de realidades espirituais; e que nem Adão é um homem real, porém antes denota a personalidade inferior ou força intelectual em todo ser humano; nem Eva uma mulher real, mas denota o elemento feminino em todo o ser humano, a saber, a Alma ou consciência moral; e ela é, portanto, chamada de a “Mãe dos que Vivem”, ou seja, dos que estão espiritualmente vivos – aqueles nos quais a Alma alcançou autoconsciência.

Tampouco o Éden é um lugar real, mas uma condição de inocência anterior a uma queda de uma altura alcançada. Nem é a Árvore da Vida no meio do Éden uma árvore real, porém Deus estabelecido no meio do Universo como sua vida. Do mesmo modo que não é o homem feito de imediato à imagem e semelhança de Deus, mas somente após longas eras de desenvolvimento, começando nas formas inferiores da vida vegetal, e seguindo sua elevação através de muitas formas, até que ele alcança a forma humana; e mesmo então ele não é feito à imagem de Deus, não é verdadeiramente homem no sentido bíblico e místico. Pois nesse sentido faz-se necessário algo mais do que o homem físico, mais do que o homem intelectual, mais até mesmo do que o homem moral, para tornar-se um homem.

Para ser feito à imagem e semelhança de Deus ele deve atingir sua maioridade espiritual, através do desenvolvimento da consciência de sua natureza espiritual. Ele deve ser alma tanto quanto corpo; Eva tanto quanto Adão; assim como no mundo físico, também no plano espiritual ele requer a mulher para lhe fazer um homem, e a mulher mística é a Alma. Antes do seu advento (da Alma), ele é o homem apenas materialístico e rudimentar, é homem apenas na forma, e é um animal em todos os outros aspectos.

Mas ela vem finalmente, manifestada como tão somente a Alma pode fazer, quando seu ser inferior está envolto em profundo sono, e ele acorda para descobrir-se plenamente homem, à imagem de Deus, macho e fêmea, no sentido que ele representa os dois aspectos, masculino e feminino da Deidade, o poder divino e o amor divino, e também os Sete Espíritos através dos quais Deus cria todas as coisas. Assim constituído ele é de fato Homem, pois ele é uma manifestação de Deus, por cujo espírito, operando dentro dele, ele tem sido criado. E criado desse modo tem sido e será todo o homem que jamais viveu ou viverá.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo), capítulo O Vegetarianismo e a Bíblia, pp. 216-218; grifos nossos]

 

 

Texto (1 ): Sobre o Gênio ou “Daimon” (Anjo da Guarda)

 

SOBRE O GÊNIO OU “DAIMON” (1)

 

PARTE 1

 

Cada espírito-alma humano tem ligado a ele um gênio ou “daimon”, como no caso de Sócrates; um espírito ministrante, como no caso dos apóstolos; ou um anjo, como no caso de Jesus. Todos esses são apenas nomes diferentes para a mesma coisa. Meu gênio diz que ele não gosta do termo anjo porque ele é mal interpretado. Ele prefere a nomenclatura cristã, e ser chamado ministro, uma vez que seu trabalho é guiar, advertir e iluminar.

Meu gênio se parece com Dante, e como ele está sempre vestido de vermelho. Ele tem um cacto na mão, o qual ele diz que é o meu emblema. (Falando de Dante, eu vejo que Beatriz representa a alma. Ela é para ele o que a mulher deve ser para o homem.) (2)

Ele me pede para dizer que a melhor arma contra os astrais é a prece. Prece significa o intenso direcionamento da vontade e do desejo em direção ao Mais Elevado (NT: Altíssimo); uma intenção constante de conhecer nada menos que o Mais Elevado. Enquanto Moisés manteve erguidas suas mãos em direção ao céu, os Israelitas prevaleceram. Quando ele as baixou, então os Amalequitas prevaleceram. Os gênios não são espíritos combatentes, e não podem impedir os males. Eles foram autorizados a ministrar a Jesus somente depois de sua exaustão no combate com os espíritos inferiores. Somente são atacados por esses (NT: os astrais), aqueles que são dignos de serem atacados.

Devo informar-lhes que o gênio nunca “controla” o seu cliente (NT: client podendo significar beneficiário, parceiro), ele nunca obriga a alma a sair do corpo para permitir a entrada de outro espírito (NT: entidade). A pessoa controlada por um astral, ou elemental (NT: ou elementar), ao contrário, não fala em sua própria pessoa, mas naquela da entidade controladora; e os gestos, expressão, entonação, e timbre de voz, mudam com a entidade obsessora. Uma pessoa profetizando fala sempre na primeira pessoa, ou diz: “Assim disse o Senhor”, ou: “Assim diz alguém mais”, ou seja, nunca perdendo a sua própria personalidade. Esse é um sinal diferenciador pelo qual se pode distinguir entre as várias ordens de espíritos (NT: entidades).

Outro sinal, diz meu gênio, pelo qual distinguir entre as entidades estranhas e o gênio da própria pessoa, é esse: – o gênio nunca está ausente. Uma vez que a mente esteja na condição de ver, ele está sempre presente. Outros espíritos (NT: entidades) necessitam ocasiões determinadas para serem contatados, e encontros devem ser marcados para uma determinada hora, porque eles podem estar em algum outro lugar em um dado momento. Esses espíritos, sobretudo, nada sabem acerca dos Deuses. Seus próprios nomes são secretos para eles, e se ouviram esses nomes eles são apenas nomes para eles. (3).

Esses espíritos são incapazes de apreender ou conceber qualquer coisa além da atmosfera de seus próprios círculos. É verdade que eles falam de Deus, mas é sem compreender o significado da palavra. Quanto mais negativa for a mente do indivíduo, mais pronto e apto ele está para receber esses espíritos. E, ao contrário, quanto mais positiva e pronunciada for a vontade do indivíduo, mais aberto ele está para a comunicação divina.

O comando (NT: a instrução) sempre é – “Trabalhar é orar”; “Pedir é receber”; “Bater é ter a porta aberta”. “Tenho dito frequentemente”, diz meu gênio; “Pense por si mesmo. Quando você pensa interiormente, ora intensamente, e imagina de maneira centralizada, então, se conversa com Deus.” (4)

Ele diz que conhece a respeito de nosso futuro imediato, mas que não nos contará. Tudo o que ele dirá é isso: – “Estejam certos que haverá problemas. Nenhum homem jamais chega à Terra Prometida sem passar através do deserto.” Novamente ele me mostra o cacto, e diz: “Não se preocupe a respeito de tentar entrar no estado lúcido. Em pouco tempo será de todo desnecessário tornar-se sonolenta.”

Ele me conta que esta noite eu lembrarei uma grande parte do que foi dito, e da próxima vez ainda mais, e assim por diante até que minha mente esteja bem clara sobre o assunto. É uma fraqueza e uma imperfeição quando a mente não retém o que foi dito. Durante a noite, quando meu cérebro está livre de influências perturbadoras, eu lembro mais perfeitamente tudo o que vi e ouvi. E isso, ele diz, deve sempre ser o caso, porque meu lugar não é tomado por nenhuma outra entidade. (5) Nenhum outro espírito entra para me possuir. Mas sou eu, eu mesma que vê e escuta e fala – ou seja, meu ser espiritual.

O gênio está ligado ao seu cliente por um elo de substância da alma. Um persistente viver malévolo enfraquece esse elo, e depois de muitas encarnações assim mal utilizadas – mesmo até “setenta vezes sete” – o gênio é liberado e a alma definitivamente perdida. Não é o crime isolado, como assassinato, adultério ou incesto, ou mesmo uma repetição desses, aquilo que quebra esse elo; mas uma continuada condição do coração na qual a vontade do indivíduo está em persistente oposição à Vontade Divina. Isso porque esse é um estado no qual o arrependimento é impossível. A condição mais favorável à salvação, e rápida emancipação das sucessivas encarnações, é a atitude de voluntária obediência – liberdade e submissão. O grande objetivo a ser alcançado é a emancipação do corpo – isto é, a emancipação do poder e da necessidade do corpo.

A fim de melhor compreender a origem do Espírito (NT: a fonte de onde ele emana), deve ser entendido que a Vida pode ser representada por um triângulo, no ápice do qual está Deus. Desse triângulo os dois lados são formados por duas correntes, uma fluindo para fora, e a outra para cima. A base pode ser vista como representando o plano material. Desse modo, de Deus procedem os Deuses. Dos Deuses procede toda a hierarquia do céu, com as várias ordens desde as mais elevadas até as mais baixas. E a mais baixa é a ordem dos gênios, ou anjos guardiões (anjos da guarda). Esses repousam sobre o plano material, mas não entram nele. O outro lado do triângulo é a continuação da base. As formas iniciadoras (NT: iniciais) da base do triângulo são as mais baixas expressões de vida. Essas são as primeiras expressões de encarnação, e da segunda corrente que, diferente da primeira, flui para dentro e para cima. O lado do triângulo representado por essa corrente culmina em Cristo, e esvazia a si mesma (NT: se funde) em puro espírito, o qual é Deus.

Há, consequentemente, espíritos que, por sua natureza, nunca foram e nunca podem estar encarnados. E há outros que alcançam sua perfeição através da encarnação. Você verá, então, que os gênios e os astrais não têm nada em comum. Pois o espaço contido no triângulo, e que separa de um lado o ápice da base, e do outro lado os dois lados opostos, é um espaço ocupado pelo fluido planetário.

Há apenas duas gerações eternas – aquela dos celestiais que começam no Espírito e são “gerados” (NT: não criados, mas eternamente gerados; consubstanciais a Deus, ao Pai-Mãe nosso) ???; e aquela das entidades criadas, que têm exteriormente acrescentado a si um corpo. Os astrais estão entre esses dois. Eles são como planos que não podem focar no Espírito Divino, uma vez que seus raios são refletidos em todas as direções, e não convergem para um ponto central. Eles não podem conhecer Deus. Eles não são microcosmos.

Tão somente o homem entre as entidades criadas é um microcosmo, e ele é isso porque o Espírito Divino, o nucléolo, contém necessariamente a potencialidade da célula celestial completa. Em Deus estão todos os Deuses incluídos; e o nucléolo na aperfeiçoada célula criada é, portanto, múltiplo. Todo homem é um planeta, possuindo sol, lua, e estrelas.

O gênio de um homem é seu satélite. O homem é um planeta. Deus – o Deus do homem – é seu sol, e a lua desse planeta é Isis, seu iniciador (NT: nas coisas espirituais), ou gênio. O gênio é feito para ministrar ao homem, e para lhe dar luz. Mas a luz que ele dá é de Deus, e não dele mesmo. Ele não é um planeta, mas uma lua, e sua função é iluminar os lugares escuros de seu planeta.

O dia e a noite do microcosmo ‑ o homem ‑ são seus positivo e passivo, ou os estados projetivo e reflexivo. No estado projetivo nós buscamos ativamente para fora; nós aspiramos e queremos forçosamente; nós mantemos comunhão ativa com o Deus fora. No estado reflexivo nós olhamos para dentro, nós estamos em comunhão com nosso próprio coração; nós vamos para dentro, e nos concentramos secretamente e interiormente. Durante essa condição a “Lua” ilumina nossa câmara oculta com sua tocha, e nos mostra a nós mesmos em nosso recesso interior.

Quem ou o que, então, é essa lua? Ela é parte de nós mesmos, e orbita ao nosso redor. Ela é nossa afinidade celestial – em relação a qual é dito: “Seus anjos de fato sempre contemplam a face do Meu Pai”.

Toda alma humana tem uma afinidade celestial, a qual é parte de seu sistema e um modelo característico de sua natureza espiritual. Essa contraparte angélica é o elo de união entre o homem e Deus; e é em virtude de sua natureza espiritual que esse anjo é ligado a ele. Criaturas rudimentares não possuem afinidade celestial; porém, a partir do momento que a alma desperta, (6) o elo de união é estabelecido.

Em virtude do homem ser um planeta é que ele tem uma lua. Se ele não fosse composto de quatro partes, como é o planeta, ele não poderia ter uma lua. Os homens rudimentares não estão compostos de quatro partes. Eles não têm o Espírito.

O gênio é a lua do planeta homem, refletindo para ele o sol, ou Deus, dentro dele. Pois o Espírito divino, o qual anima e eterniza o homem, é o Deus do homem, o sol que o ilumina. E é esse sol, e não o homem externo e planetário, que seu gênio, como satélite, reflete para ele. Assim ligado ao planeta, o gênio é complemento do homem; e seu “sexo” (7) é sempre o contrário daquele do planeta. E porque ele reflete não o planeta, porém o sol, não o homem (como fazem os astrais), mas o Deus, sua luz deve sempre ser confiada.

O gênio conhece bem somente as coisas relacionadas com a pessoa para quem ele ministra. Sobre outras coisas ele tem somente opiniões. A relação do espírito ministrante com seu cliente está muito bem representada por aquela do confessor católico com seu penitente. Ele está obrigado a manter profundo segredo em relação a todo penitente no que diz respeito aos assuntos das outras almas. Se esse não fosse o caso, não haveria nenhuma ordem, e nenhum segredo estaria seguro. O gênio de cada um conhece sobre outra pessoa somente tanto quanto o gênio daquela outra pessoa decide revelar.

 

PARTE 2 (8)

Agora, há dois tipos de memória, a memória do organismo e a memória da alma. A memória do organismo é possuída por todas as criaturas. A memória da alma, a qual é obtida por Recuperação, pertence ao homem plenamente regenerado. Pois o Espírito Divino de um homem não é uno com sua alma até a regeneração, a qual é a união íntima que constitui o que, misticamente, é chamado o “casamento do hierofante”.

Quando essa união ocorre, não há mais necessidade de um iniciador; pois então a função do gênio está concluída. Pois, sendo como a lua, Isis, ou “Mãe” do planeta homem, o gênio reflete para a alma o Espírito Divino, com o qual a alma ainda não está plenamente unida. Em todas as coisas há ordem. Daí que, como ocorre com os planetas, assim também com o microcosmo. Aqueles que estão mais próximos da Divindade não necessitam nenhuma lua. Mas enquanto eles têm noite – isto é, enquanto qualquer parte da alma permanece não iluminada, e sua memória ou percepção está obscura – durante esse período o espelho do anjo continua a refletir o sol para a alma.

Quando a regeneração é plenamente alcançada, somente o Espírito divino, instrui o hierofante. “Pois os portões de sua cidade nunca estarão fechados; lá não haverá nenhuma noite; a noite não mais existirá. E eles não necessitarão a luz da lâmpada, porque o Senhor Deus os iluminará.” (NT: Apocalipse, 21:25 e 22:5) O profeta é um homem iluminado por seu anjo. O Cristo é um homem casado com o Espírito. E ele retorna por puro amor para redimir, não mais necessitando retornar à carne para seu próprio aprendizado. Daí que é dito que ele desce do céu. Pois ele alcançou, e é um intermediário para o Mais Elevado. Ele batiza com o Espírito Santo, e com o próprio Fogo Divino. Ele está sempre “no céu”. E se ele se eleva, é porque o Espírito o eleva, o próprio Espírito que desce sobre ele. “E se ele descende, é porque ele antes ascendeu além de todas as esferas até a mais elevada Presença. Pois aquele que se eleva, se eleva porque ele também antes desceu até as partes mais baixas da terra. Aquele que desceu também é o mesmo que se elevou acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.” (NT: Efésios 4:9-10) Portanto, um tal ser retorna de um mundo mais elevado; ele não mais pertence ao domínio de Dionísio. Porém ele vem do próprio “sol”, ou de alguma esfera mais próxima do sol do que a nossa; tendo passado do mais baixo para uma esfera mais elevada.

E o que acontece com o próprio gênio? Ele se entristece quando seu cliente atinge a perfeição, e não mais necessita dele? Eu perguntei.

E ele disse: “A noiva pertence ao noivo. O amigo que presta serviço ao noivo e que o atende e o ouve enche-se de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, que agora se completa.” (NT: João 3:29) Eu retorno, portanto, para minha fonte, pois minha missão está concluída, e meu “Sabath” chegou. E eu estou unido com o dois. (NT: Vide explicação nos parágrafos seguintes)

Aqui ele me levou para uma grande sala onde eu vi quatro bois que jaziam mortos sobre altares, e, ao redor, um número de pessoas de pé em ato de adoração. E acima, na fumaça, havia formas colossais enevoadas, surgindo dos espíritos do sangue, formados pela metade, da cintura para cima, e se assemelhando aos Deuses. E ele disse: “Estes são Astrais. E assim eles farão até o fim do mundo.” (9)

Após essa instrução a respeito da degradação da religião por meio da materialização da doutrina espiritual do sacrifício, ele retomou:

O gênio, então, permanece com seu cliente enquanto o homem é composto de quatro partes. Um animal não tem um gênio. Um Cristo não tem nenhum gênio. Em primeiro lugar, tudo é luz latente. Essa é una. E esse uno torna-se dois; isto é, corpo e corpo astral. E esses dois tornam-se três; isto é, uma alma racional nasce no meio do corpo astral. Essa alma racional é a verdadeira Pessoa. A partir daquele momento, portanto, essa personalidade é uma existência individual, como uma planta ou como um animal. Esses três tornam-se quatro, isto é, humano. E a quarta parte é o Nous, ainda não uno com a alma, mas pairando sobre ela, e transmitindo luz como se fosse através de um vidro, isto é, através do iniciador. Mas quando o quatro torna-se três – isto é, quando o “casamento” ocorre, e a alma e o espírito estão indissoluvelmente unidos – não há mais necessidade tanto da transmigração quanto do gênio. Pois o Nous se tornou uno com a alma, e o elo de união está dissolvido. E ainda mais uma vez, o três torna-se dois na dissolução do corpo; e novamente, o dois torna-se um, isto é, o Cristo-espírito-alma.

O Espírito Divino e o gênio, portanto, não devem ser vistos como diferentes, nem tampouco como idênticos. O gênio é chama, e é celestial; isto é, ele é espírito, e uno em natureza com o Divino; pois sua luz é a luz divina. Ele é como um vidro, como uma corda, como um elo entre a alma e sua parte divina. Ele é a clara atmosfera através da qual o raio divino passa, criando um caminho para ele no meio astral.

No plano celestial, todas as coisas são pessoais. E, portanto, o elo entre a alma e o espírito é uma pessoa. (NT: Um ser individual, um indivíduo. Vide nota 5) Porém quando um homem é “nascido novamente” ele não mais necessita o elo que o une com sua fonte divina. O gênio, ou chama, portanto, retorna para aquela fonte; e essa estando ela mesma unida com a alma, o gênio também se torna uno com o dois. Pois o gênio é a luz divina no sentido em que ele é apenas uma chama individualizada do fogo dessa luz, não possuindo nenhum veículo separativo. Mas o matiz dessa chama difere de acordo com a atmosfera celestial da alma particular. A divina luz, de fato, é branca, sendo sete em uma. Mas o gênio é uma chama de uma única cor somente. E essa cor ele assume da alma, e através daquele raio ele transmite para a alma a luz do Nous, seu divino esposo. Os anjos-gênios são de todos os matizes de todas as cores.

Eu disse que no plano celestial todas as coisas são pessoais, mas no plano astral elas são reflexos. O gênio é uma pessoa porque ele é um celestial, e de espírito-alma, ou de natureza substancial. Porém os astrais são de natureza fluídica, não possuindo nenhuma parte pessoal. No plano celestial, espírito e substância são unos, duais em unidade; e assim são constituídos todos os celestiais. Porém no plano astral eles não tem nenhuma individualidade, e nenhuma parte divina. Eles são somente protoplásmicos, tanto sem núcleo quanto sem nucléolo.

A voz do gênio é a voz de Deus; pois Deus fala através dele como um homem fala através do chifre de uma trombeta. Vós não deveis adorá-lo, pois ele é o instrumento de Deus e o vosso ministro. Mas vós deveis obedecê-lo, pois ele não possui nenhuma voz dele mesmo, mas humildemente vos mostra a vontade do Espírito.

 

NOTAS

 

(1) NT: Em todo o “Novo” Evangelho da Interpretação, a mulher simboliza a alma do ser humano, enquanto o homem simboliza a parte inferior do ser humano, ou seja, o veículo da mente concreta, o veículo emocional e o veículo físico, ou tríade inferior, também chamada de “personalidade”, do grego persona, máscara.

(2) Londres, novembro de 1880. Falado em transe. E.M. Veja Life of Anna Kingsford (Vida de Anna Kingsford), Vol. I, pp. 388-415, a respeito de “Conversações com os Gênios”. S.H.H.

(3) Um de seus modos mais comuns de enganação é por meio de assumir nomes divinos; mas suas afirmações são sempre pretenciosas e fúteis ou tolas. E.M.

(4) NT: Aqui a autora nos oferece uma orientação acerca do que significa “a mente na condição de ver”. Essa condição é muito próxima, para dizer o mínimo, da condição de concentração-meditação necessária para alcançar o estado denominado de samadi (“samãdhi”), na filosofia oriental, seja hinduísta (como nos Yoga Sutras de Patânjali), ou budista (como na última etapa do Nobre Óctuplo Caminho).

(5) NT: Aqui temos no próprio original a palavra entidade (entity). Cabe lembrar que Kingsford e Maitland foram pioneiros, e escreveram suas obras numa época em que não estava consolidada a nomenclatura que hoje é mais usual aos estudantes dessa temática.

(6) NT: A alma amadurece, entra em fase de evolução mais acelerada, adquire maior consciência própria e de seu meio ambiente.

(7) NT: Seu estilo, sua aparência.

(8) Londres, 28 de maio, 1881. Recebido durante o sono. Referido em Life of Anna Kingsford (Vida de Anna Kingsford), Vol. II, pp. 12-14.

(9) Significando, “o fim do materialismo na Religião” [veja Parte 1 (do livro Vestida com o Sol), Cap. V, Parte 2, nota na p. 15]. S.H.H.

[Anna Kingsford e Edward Maitland. Vestida com o Sol (Clothed with the Sun), capítulo XIV, pp. 36-42; grifos nossos]

 

 

 

 

ANJO DA GUARDA, OU “DAIMON”, OU GÊNIO

 

Texto (1 ): Sobre o Gênio ou “Daimon” (Anjo da Guarda)

 

Vide esse texto no Texto (1): do verbete ALMA.

 

 

 

ANNA KINGSFORD

 

Texto (1): Breve Cronologia da Vida de Anna Kingsford; Breve Informação Biográfica e Obras

Texto (2): Vida e Obra de Anna Kingsford (Samuel H. Hart)

Texto (3): Anna Kingsford – Obituário (Helena Blavatsky)

Texto (4): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo (Arnaldo Sisson Filho)

Texto (5): Por Que Foi Criado o Site Anna Kingsford? (Arnaldo Sisson Filho)

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo)

 

 

Texto (1): Breve Cronologia da Vida de Anna Kingsford; Breve Informação Biográfica e Obras

 

BREVE CRONOLOGIA DA VIDA DE ANNA KINGSFORD

 

1846 – Nasce Annie Bonus às 17 horas, de 16 de setembro de1846, em Stratford, Essex, Inglaterra.

1859 – Escreve primeiro livro: Beatrice: a Tale of the Early Christians (Beatrice: um Conto dos Primeiros Cristãos); escreve poesia.

1865 – Morre o pai.

1867 – Casa com Algernon Godfrey Kingsford.

1868 – Nasce filha Eadith; escreve histórias para o Penny Post até 1872.

1872 – Compra e edita o The Lady’s Own Paper (Jornal da Própria Mulher).

1873 – Começa estudos preliminares de Medicina em Londres; corresponde-se com Edward Maitland.

1874 – Primeiro encontro com Edward Maitland e início da colaboração em estudos esotéricos; começa o curso de Medicina em Paris.

1875 – Inicia período de dez anos de “visões em sonhos”.

1880 – Obtém diploma de Medicina.

1881 – Estuda textos esotéricos com Edward no Museu Britânico; ministra palestras em Londres.

1882 – Palestras publicadas em The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo).

1883 – Torna-se Presidente da Loja de Londres da Sociedade Teosófica; faz campanhas contra a vivissecção na Suíça e na Escócia; desentende-se com A.P. Sinnett.

1884 – Encontra Helena Blavatsky; cria a Sociedade Hermética.

1885 – “Todos os tipos de palestras, em lares, convites e compromissos, trabalho médico e literário” (Diary).

1886 – Vai tratar da saúde na Europa, mas sem resultado.

1887 – Vai para a Riviera e para a Itália para tratamento de saúde; volta em julho para Londres: a saúde está muito ruim.

1888 – Falece em 22 de fevereiro aos 41 anos e 5 meses. A mãe morre em março.

 

 

BREVE INFORMAÇÃO BIOGRÁFICA E OBRAS

Arnaldo Sisson Filho

[Texto original escrito para o Site Anna Kingsford (https://www.annakingsford.com). Brasília, 2005. Resumido e traduzido (com adições) da Longer Biography of Anna Kingsford (Biografia Mais Longa de Anna Kingsford), de Alan Pert.]

 

ANNA BONUS KINGSFORD (16/09/1846-22/02/1888) foi uma mulher notável sob muitos aspectos. Escreveu livros do maior valor e profundidade no campo do pensamento religioso e do vegetarianismo. Também possuía talentos excepcionais em outras áreas: como médica, e como apaixonada ativista pelos direitos das mulheres e em prol do vegetarianismo, e especialmente como ardorosa opositora da vivissecção. Apesar da constante má saúde, que a acompanhou durante toda sua curta vida, Anna Kingsford deixou contribuições inestimáveis para o bem estar dos humanos e dos animais.

Ela era o que hoje denominamos de psíquica desde idade muito tenra, sendo cônscia de fantasmas de mortos, dos estados físicos e psíquicos dos vivos, e suas antevisões acerca da morte próxima de pessoas eram sempre acuradas. No entanto, logo aprendeu a manter-se em silêncio a respeito de suas visões a fim de evitar o inevitável ridículo, e os conselhos desagradáveis do médico da família.

Tanto o Cristianismo tradicional quanto o Materialismo tinham no mínimo desconfiança acerca do mundo dos espíritos, não raro perseguindo as pessoas com capacidades psíquicas. Libertar o espírito humano das garras letais do falso Cristianismo e do Materialismo grosseiro se tornaria o maior objetivo da vida de Anna Kingsford.

Ela casou-se em 1867 com Algernon Godfrey Kingsford. Estudou as doutrinas do Anglicanismo de seu marido, e também aquelas do Catolicismo Romano. Em 1870 ingressou na Igreja Católica Romana, sendo atraída pelo seu ritual e pelos seus aspectos místicos. Adotou, então, os nomes cristãos de Anna Mary Magdalen Maria Johanna. Contudo, ela sempre foi uma crítica do sacerdotalismo e do materialismo da Igreja.

Anna se dedicou ao estudo de Medicina, com intuito de abrir novos caminhos para outras questões como o vegetarianismo, e para auxiliar em sua luta pelas demais causas nas quais acreditava. As mulheres não eram então aceitas como estudantes de Medicina na Inglaterra, mas podiam realizar alguns estudos lá. Anna começou seus estudos médicos em 1873, na Inglaterra, e foi para Paris em 1874 para lá fazer a maior parte de seu curso de Medicina. Ela ficou indo e vindo entre Paris e a Inglaterra até que recebeu seu diploma como médica em 1880. Em seu diário Anna escreveu que tinha uma grande ambição de mudar o mundo e de alcançar glória, e que seu sofrimento com a má saúde de seu corpo era devido ao carma por seus “pecados da carne” em vidas anteriores.

A vida de Anna Kingsford tornou-se entrelaçada com a de Edward Maitland (27/10/1824-2/10/1897). A sua colaboração começou em fevereiro de 1874 quando Edward visitou Anna e seu esposo, lá permanecendo por duas semanas. Algernon não se opôs ao próximo (e platônico) relacionamento de ambos. Considerando o curso de suas respectivas vidas, não é difícil acreditar que a misteriosa mão do destino aproximou Anna Kingsford e Edward Maitland. Por exemplo, caso a esposa de Edward não tivesse falecido bastante jovem, ele não estaria livre para colaborar com Anna, e talvez nunca a tivesse encontrado, pois Edward havia se casado e morava na Austrália.

Anna Kingsford estava frequentemente em contato com o mundo dos “espíritos”, principalmente durante seu sono, e colaborou com Edward Maitland para escrever o que eles denominaram de suas “Iluminações”. Em 1881 ela deu uma série de conferências baseadas em suas “Iluminações”, para uma seleta audiência em Londres. No ano seguinte essas conferências foram publicadas como The Perfect Way; or, The Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, o Encontro de Cristo). É a obra magna de ambos, e uma quarta edição do livro foi publicada em 1909.

Em seu ensaio In Memoriam to the Rev. G.J.R. Ouseley (Em Memória do Rev. G.J.R. Ouseley), Samuel Hopgood Hart escreveu a respeito da obra O Caminho Perfeito, citando o próprio Rev. G.J.R. Ouseley:

 

“Conversamos os dois longamente, embora com alguma dificuldade em razão de sua surdez. Quando lhe falei do meu interesse nos ensinamentos de O Caminho Perfeito, ele disse que em sua opinião era “a mais luminosa e melhor de todas as revelações que tinham sido dadas ao mundo”. Numa carta para a revista Light (1882, p. 475) ele descreveu O Caminho Perfeito como “o mais maravilhoso de todos os livros que apareceram desde a era cristã”. Mas ele desacreditava que o mundo jamais o recebesse bem, porque “o mundo sempre rejeitou a Verdade; sempre crucificou a Cristo e sua doutrina, e por que não faria isso novamente?”. De uma coisa, contudo, ele estava seguro: “A Igreja do futuro será a Igreja de O Caminho Perfeito.”

 

Maitland reuniu algumas das “Iluminações” de Anna Kingsford e as publicou em Clothed with the Sun (Vestida com o Sol) em 1889. A obra final de Maitland foi uma biografia de Anna Kingsford, em dois volumes (1896). Anna Kingsford morreu ao meio-dia de 22 de fevereiro de 1888, encerrando uma vigília de 18 horas de Maitland ao seu lado. Ela foi enterrada em Atcham.

 

 

OBRAS DE ANNA KINGSFORD E EDWARD MAITLAND (ORDEM CRONOLÓGICA)

 

– Beatrice; A Tale of the Early Christians (Beatrice; um Conto dos Primeiros Cristãos). Publicado sob o nome de A. Bonus (Anna Bonus Kingsford). Joseph Masters, Londres (Aldersgate Street and New Bond Street), 1863. 114 pp. Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford.

– River-Reeds (Juncos do Rio). Poemas; obra originalmente publicada anonimamente (pois Anna Kingsford era ainda muito jovem, como podemos ver pela dedicatória), Joseph Masters, Londres (Aldersgate Street and New Bond Street), 1866. 71 pp. Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford.

– An Essay on the Admission of Women to the Parliamentary Franchise (Um Ensaio sobre a Admissão da Mulheres nas Eleições Parlamentares). Ninon Kingsford (Anna Kingsford). Londres: Trubner & Co., 1868. 39 pp. [“Ninon Kingsford” foi um dos nomes usados por Anna Kingsford no início de sua carreira literária. Também foi usado na obra Rosamunda the Princess.] Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford.

– The Lady’s Own Paper (a Journal of Taste, Progress and Thought) (O Jornal da Própria Mulher (um Jornal de Bom Gosto, Progresso e Pensamento)). Jornal editado pela Sra. Algernon Kingsford (Anna Kingsford). Temos no Site Anna Kingsford os primeiros 12 números editados por Anna Kingsford, do Nº. 307 (5 de outubro, 1872 – Nº. 01 da Nova Série), até o Nº. 318 (21 de dezembro, 1872 – Nº. 12 da Nova Série). Mais informações e texto completo das cópias em Pdf no Site Anna Kingsford.

– In My Lady’s Chamber; a Speculative Romance Touching a Few Questions of the Day (Em Meu Quarto de Mulher; um Romance Investigativo Tocando Algumas Questões Atuais). Originalmente publicado sob o pseudônimo de Colossa (Anna Kingsford). J. Burns, Londres (15, Southhampton Row, Holborn), 1873. 319 pp. Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford.

– Rosamunda the Princess, an Historical Romance of the Sixth Century (Rosamunda a Princesa, um Romance Histórico do Século Sexto). Ninon Kingsford (Anna Kingsford). James Parker & Co., Londres, 1868, 1875. 365 pp. Com 24 ilustrações. Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford; incluindo páginas de título, foto da capa original, Prefácio e todas as ilustrações contidas na obra, em inglês.

– The Perfect Way in Diet (O Caminho Perfeito na Dieta). Kegan Paul, Trench & Co., Londres, 1881. 121 pp. Segunda edição: 1906. Baseado em sua tese de graduação em Medicina. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo). Anna Kingsford e Edward Maitland. Hamilton, Adams & Co., Londres, 1882. Segunda edição, revisada e ampliada: Field and Tuer, Londres, 1887; e também, Esoteric Publishing Company, Boston, 1988. 3a edição: 1890. Quinta edição, editada, com adições e longo prefácio, por Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1923. 405 pp. Mais informações, dois Prefácios, e o Sumário de Temas e Conteúdos em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– The Uselessness of Vivisection (A Inutilidade da Vivissecção). Anna Kingsford. Este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Nineteenth Century, em fevereiro de 1882 (pp. 171-183). Texto completo em Html no Site Anna Kingsford, em inglês.

– Address of the President – To the London Lodge of The Theosophical Society – October 21st 1883 (Palestra da Presidente – Para a Loja de Londres da Sociedade Teosófica – 21 de outubro de 1883). Anna Kingsford. Palestra publicada na revista: Theosophical History, julho, 1987. pp. 82-85. Texto completo em Html no Site Anna Kingsford, em inglês.

– The Virgin of the World (A Virgem do Mundo). Uma tradução de manuscritos herméticos. Ensaios introdutórios (sobre Hermetismo) e notas de Anna Kingsford e Edward Maitland. George Redway, Londres, 1885. Também em Madras: P. Kailasam Brothers; Spiritualistic Book Depot, 1885. 154 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– Astrology Theologized: the Spiritual Hermeneutics of Astrology and Holy Writ – A Treatise upon the Influence of the Stars on Man and on the Art of Ruling Them by the Law of Grace (Astrologia Teologizada: A Hermenêutica Espiritual da Astrologia e das Escrituras Sagradas – Um Tratado sobre a Influência dos Astros no Homem e a Arte de Regê-los pela Lei da Graça). Longo ensaio introdutório e tradução de Anna Kingsford, a partir do original de Valentine Weigelius, de 1649. George Redway, Londres, 1886. 121 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– Health, Beauty and the Toilet: Letters to Ladies from a Lady Doctor (Saúde, Beleza e o Toucador: Cartas de uma Médica para as Mulheres). Frederick Warne and Co., Londres e Nova Iorque; 1886. 232 pp. 2ª Edição no mesmo ano. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kngsford, em inglês.

– Ciência Não Cientifica: Aspectos Morais (Éticos) da Vivissecção. Anna Kingsford. Artigo publicado na obra Spiritual Therapeutics; or, Divine Science de W.J. Colville, Educator Publishing Company, Chicago, 1888. 332 pp. Texto completo desse artigo em Html, no Site Anna Kingsford, em português.

 

OBRAS DE ANNA KINGSFORD PUBLICADAS POSTUMAMENTE (ORDEM CRONOLÓGICA):

 

– Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonho). Editado por Edward Maitland. Segunda edição: George Redway, Londres, 1888. 281 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês. Um dos capítulos: O Banquete dos Deuses,em português.

– Clothed with the Sun: Being the Illuminations of Anna (Bonus) Kingsford (Vestida com o Sol: as Iluminações de Anna (Bonus) Kingsford). Editado por Edward Maitland. Primeira edição: John M. Watkins, Londres, 1889. Segunda edição: The Ruskin Press, Birmingham, 1906. Terceira edição: editada por Samuel Hopgood Hart, 1937. Sun Books (reimpressão), Santa Fe, 1993. 210 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês. Páginas de título, sumário e vários capítulos já em português.

– Intima Sacra: a Manual of Esoteric Devotion (Intima Sacra: um Manual de Devoção Esotérica). Compilado por E. M. Forsyth. David Stott, Londres: 370, Oxford Street, W. 1891. 163 pp. Este livro é uma compilação de textos dos escritos da Dra. Anna Kingsford, e contém um Prefácio de Edward Maitland. Ele foi escrito como um resumo e uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações, Introdução do Compilador, e alguns capítulos em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo). Anna Kingsford e Edward Maitland. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1912. 227 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: o capítulo O Vegetarianismo e a Bíblia, já está em português.

– The Credo of Christendom: and other Addresses and Essays on Esoteric Christianity (O Credo do Cristianismo: e Outras Palestras e Ensaios sobre o Cristianismo Esotérico). Anna Kingsford e Edward Maitland. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1916. 256 pp. Mais informações e dois capítulos em português, e demais capítulos do texto completo em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

 

OBRAS DE EDWARD MAITLAND (ORDEM CRONOLÓGICA):

 

– The Pilgrim and the Shrine; or, Passages from the Life and Correspondence of Herbert Ainslie (O Peregrino e o Santuário; ou, Passagens da Vida e Correspondência de Herbert Ainslie). Nova Edição (com correções e adições), John W. Lovell, Nova Iorque, 1889. 467 pp. G.P. Putnam’s Sons, Nova Iorque, 1872. Tinsley Brothers, Londres, 1872. 467 pp. 1ª Edição, 1869. 3ª Edição, 1873. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: incluindo foto da capa original.

– One Passed By! (Alguém Passou por Aqui!) [Letra de música]. Letra de Edward Maitland. Música de Virginia Gabriel (Mary Ann Virginia). Londres, Ashdown & Parry, 18, Hanover Square. (circa 1870).

– The Higher Law. A Romance (A Lei Superior. Um Romance). Tinsley Brothers, Londres, 1871. 506 pp. Segunda Edição: G.P Putnam & Sons, Nova Iorque, 1872. 506 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: incluindo foto da principal página de título da segunda edição.

– Jewish Literature and Modern Education: or, the Use and Misuse of the Bible in the Schoolroom (Literatura Judaica e Educação Moderna: ou, o Uso e o Mau Uso da Bíblia na Sala de Aula). Edward Maitland. Editado, para o autor, por por Thomas Scott, Ramsgate. 1871. 97 pp. E, também, por Trübner & Co., Londres (8 & 60, Paternoster Row), 1872, 97 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: incluindo fotos da capa original e da página de título.

– By and By: An Historical Romance of the Future (Dentro em Breve: um Romance Histórico do Futuro). G.P. Putnam’s Sons, Nova Iorque, 1873. 460 pp. Richard Bentley and Son, Londres, 1873. Tinsley Brothers, Londres, 1876. Gregg Press (reimpressão da Primeira Edição), Boston, 1977. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: incluindo foto da página de título principal.

– The Keys of the Creeds (As Chaves dos Credos). Segunda Edição, Revisada: Trübner & Co., Londres (Ludgate Hill), 1875. 201 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês: incluindo foto da capa original.

– England and Islam: or, The Counsel of Caiaphas (Inglaterra e Islã: ou, O Conselho de Caifás). Tinsley Brothers, Londres, 1876. 636 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– The Soul, and How It Found Me (A Alma e Como Ela Me Encontrou). Publicado pelo Autor. Tinsley Brothers, Londres, 1877. 307 pp. Mais informações e texto completo em Html no Site Anna Kingsford: incluindo foto da capa original, e foto de Edward Maitland, até então inédita na Internet. Os texto completo dos capítulos em inglês.

– How the World Came to an End in 1881 (Como o Mundo Chegou a um Fim em 1881). Publicado anonimamente (Edward Maitland). Field & Tuer, Londres, 1884. 83 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês.

– The New Illumination (A Nova Iluminação). Esse texto, originalmente, foi um ensaio lido na Sociedade Hermética, em 15 de julho de 1886. Foi posteriormente publicado como um livreto por – George Conway, London, 1886. Texto completo no Site Anna Kingsford em Html, em inglês.

– The Modern Inquisition (A Inquisição Moderna). Artigo publicado na revista The Path, Vol 5, n. 4 de julho de 1890. Texto completo no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– Intima Sacra: a Manual of Esoteric Devotion (Intima Sacra: um Manual de Devoção Esotérica). Compilado por E. M. Forsyth. David Stott, Londres: 370, Oxford Street, W. 1891. 163 pp. Esse livro é uma compilação de textos dos escritos da Dra. Anna Kingsford, e contém um Prefácio de Edward Maitland. Ele foi escrito como um resumo e uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações, Introdução do Compilador, e alguns capítulos em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, cujos capítulos, em sua maioria, estão em inglês.

– The Bible’s Own Account of Itself (O Relato da Própria Bíblia sobre Si Mesma). 1ª Edição: Ruskin Press, Birmingham, 1891. 2ª Edição, completa com Apêndice: Ruskin Press, Birmingham, 1905. 83 pp. 3ª Edição: John M. Watkins, Londres, 1913. Mais informações em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford em Html, em inglês.

– Uma Mensagem à Terra (A Message to Earth). Publicado anonimamente. [Nota do compilador: Provavelmente editado por Edward Maitland.] Publicado em conjunto com os escritos reconhecidos pela União Cristã Esotérica como pertencendo ao “Novo Evangelho da Interpretação”. Londres (Lamley & Co., 1 & 3 Exhibition Road, S.W.), 1892. 93 pp. Mais informações e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em português.

– O “Novo Evangelho da Interpretação”: Sendo um Resumo da Doutrina e uma Declaração da Origem, Objetivo, Fundamento, Método e Alcance da União Cristã Esotérica (The “New Gospel of Interpretation”: Being an Abstract of the Doctrine and a Statement of the Origin, Object, Basis, Method and Scope of the Esoteric Christian Union). Edward Maitland. Publicado pela União Cristã Esotérica, cujo Presidente-Fundador era Edward Maitland. Londres, Lamley & Co., 1892. 93 pp. Mais informações e texto completo da obra no Site Anna Kingsford em Html, em português.

– The Appeal of the Esoteric Christian Union to the Churches and People of Christendom (O Apelo da União Cristã Esotérica às Igrejas e Povos da Cristandade). Publicado pela União Cristã Esotérica, cujo Presidente-Fundador era Edward Maitland. Londres (37, Chelsea Gardens, S.W.), circa 1893. 8 pp. Mais informações em português, e texto completo desse importante documento no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– Vivisection (Vivissecção). Edward Maitland e Edward Carpenter. William Reeves, Londres, 1893. 53 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland and of the New Gospel of Interpretation (A História de Anna Kingsford e Edward Maitland e do Novo Evangelho da Interpretação). 1ª Edição, 1893. 2ª Edição, 1894. 3ª Edição, editada por Samuel H. Hart: Ruskin Press, Birmingham, 1905. 204 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– The Life of Anna Kingsford: Her Life, Letters, Diary and Work (A Vida de Anna Kingsford: Sua Vida, Cartas, Diário e Obra). Dois volumes. George Redway, Londres, 1896. 3ª Edição, editada por Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1913. Vol. I, 442 pp.; Vol. II, 466 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em inglês.

– A Verdade Viva no Cristianismo (The Living Truth in Christianity). Bertram McCrie. John M. Watkins, Londres: 21 Cecil Court, Charing Cross Road, 1915. 43 pp. Embora esse pequeno livro não tenha sido escrito por Kingsford ou Maitland, ele foi escrito como uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações e texto completo da obra no Site Anna Kingsford, em Html, em português.

– O Vegetarianismo e a Bíblia. Coleção Roda e Cruz, Brasília, 2010. 46 pp. Arnaldo Sisson Filho, organizador. Primeiro da série de opúsculos da Coleção Roda e Cruz. O livreto está no Site Anna Kingsford. Ele contém uma breve biografia da Dra. Kingsford, escrita por Samuel H. Hart, além do texto O Vegetarianismo e a Bíblia de Edward Maitland, e também algumas citações das obras de Kingsford e Maitland a respeito da interpretação dos símbolos religiosos.

– O “Novo Evangelho da Interpretação”: Um Resumo do Cristianismo Místico da Dra. Anna Kingsford. Edward Maitland. Reedição, com modificações, feitas por Arnaldo Sisson Filho. Coleção Roda e Cruz, Brasília, 2012. 99 pp. Reedição a partir da obra O “Novo Evangelho da Interpretação”: Sendo um Resumo da Doutrina e uma Declaração da Origem, Objetivo, Fundamento, Método e Alcance da União Cristã Esotérica que se encontra na íntegra no Site Anna Kingsford, tanto no original em inglês, quanto em tradução ao português.

 

 

Texto (2): Vida e Obra de Anna Kingsford

 

VIDA E OBRA DE ANNA KINGSFORD

Samuel Hopgood Hart

[Folheto publicado por Samuel H. Hart, que nos foi gentilmente enviado pelo Sr. Brian MacAllister. Parte do conteúdo desse folheto foi originalmente apresentado em artigos na revista Light de setembro de 1930, pp. 472, 486 e 508.]

 

Anna Kingsford nasceu em Maryland Point, Stratford, em Essex, em 16 de setembro de 1846. Ela faleceu em 22 de fevereiro de 1888, numa idade relativamente ainda jovem, com quarenta e um anos. Mas, durante sua curta vida, que grande obra ela realizou! Os benefícios desse trabalho nós hoje estamos colhendo, embora muitos não o saibam. Felizmente, seu amigo e colaborador, Edward Maitland, deixou para nós, em sua última e mais notável obra The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), que foi publicada alguns anos após a morte dela, um registro de sua vida e de seu ensinamento, cujo valor e importância não se pode medir. O livro foi escrito como a história de uma alma e, assim, trata-se de um livro que Edward Maitland estava certo de que iria educar mais o mundo do que todos os outros, mostrando como a vida divina pode ser vivida e as faculdades que se abrem para a verdade divina, e que para obter aquela verdade a vida divina deve ser vivida.

Dentre as pessoas notáveis (além de Edward Maitland) que conheceram e deixaram registros de Anna Kingsford, o finado W.T. Stead, que é bem conhecido dos leitores desse periódico, em sua Revista das Resenhas (de 15 de janeiro de 1896, p. 75) assim escreveu: –

“Me lembro de Anna Kingsford: Quem a conheceu jamais pode esquecer aquela maravilhosa corporificação de uma chama ardente em forma de uma mulher, divinamente alta e não menos divinamente bela! Creio que faz apenas dez anos desde que a conheci. Foi no escritório do Pall Mall Gazette, do qual eu era o editor naqueles dias. Ela nem sempre apreciava os títulos que eu colocava nos seus artigos. Ela era tão inocente como o autor do The Bothie of Tober-na-Vuolich quanto à necessidade de rotular os produtos em sua vitrine de tal maneira que atraia atenção, mas nós sempre chegávamos a um acordo, sendo unidos pelo forte laço de antipatias em comum. Eu a vi uma vez em sua própria casa, quando, se bem me lembro, ela usava uma brilhante flor vermelha – pensei que era um grande gladíolo, mas pode ter sido um cactos, que estava sobre seu busto como uma espada flamejante.

Seus movimentos tinham algo da graça e majestade que associamos aos deuses gregos; e quanto à sua fala – bem, eu já conversei com muitos dos homens e mulheres que nessa geração tinham a reputação de serem os maiores oradores, mas jamais em minha vida conheci alguém igual a Anna Kingsford. De sua boca eloquente tal como em um rio, ‘forte e sem fúria, pleno e sem transbordar’, fluíam suas frases em uma corrente incessante. Sua fala era literatura. Se um gramofone fosse montado diante dela de modo a ficar constantemente gravando, seus cilindros poderiam ser levados para a gráfica, e o texto poderia ser impresso sem revisão ou alteração. Ela nunca ficava procurando uma palavra e suas frases nunca ficavam confusas, ou tinha que ser interrompidas para encontrar uma ilustração. Após algum tempo era algo impressionante. Parecia impossível ela interromper esse fluxo, pois você parecia sentir que por mais rica que fosse sua fala, era como um córrego vertendo um oceano que ficava atrás.

Anna Kingsford era a mais jovem de doze filhos, e nasceu muito depois de seu irmão imediatamente anterior. Seu pai foi John Bonus, um comerciante próspero e dono de navios na cidade de Londres. Sua mãe, cujo nome de solteira era Schroder, tinha ascendência tanto irlandesa quanto alemã.

Ela herdou de seu pai uma constituição física muito frágil desde o nascimento. Porém, ela não herdou de nenhum ancestral as faculdades, as tendências, ou as características que manifestou durante a vida. Sobre essas, Edward Maitland disse que lhe eram inteiramente próprias, e “não se deviam à hereditariedade física, mas sim à espiritual, àquela de suas próprias existências anteriores”.

Em sua infância, que foi de solidão e isolamento, sua principal diversão era se soltar no jardim onde se diz que:

 

“(…) ela se misturava com as flores como se fosse uma delas, conversando com elas como seres conscientes. Ela colocava em suas pétalas pequenas mensagens dirigidas às fadas, com as quais sua imaginação se ocupava e com as quais, em virtude de sua própria semelhança física com elas, de seu abundante cabelo dourado, de seus profundos olhos castanhos claros, ora atentos ora sonhadores, ela podia bem alegar ter afinidade. Na verdade, nesses primeiros anos ela costumava declarar ser realmente uma delas, pertencendo à linhagem das fadas, e não à humana, tendo consigo uma convicção secreta de que era filha de seus pais apenas de forma adotiva, tendo o seu verdadeiro lar no mundo das fadas. Ela podia até se lembrar, assim acreditava, de sua última audiência com a rainha daquela adorável região, das preces com as quais ela buscou permissão para visitar a Terra, e dos avisos solenes que ela recebeu sobre o sofrimento e trabalhos árduos pelos quais teria de passar ao assumir um corpo humano, o qual, em seu caso, lhe foi assegurado, excederia grandemente àqueles comumente concedidos aos mortais. Mas ela insistiu em vir, sendo impelida por uma sensação dominante de ter que realizar uma obra grande e necessária, tanto em seu próprio benefício quanto de outros seres, e que somente ela poderia realizar. E sua vinda não a tinha separado de suas irmãs fadas, pois elas poderiam visitá-la em seus sonhos. Tão reais foram essas impressões que, quando levada pela primeira vez para ver uma pantomima, a visão das fadas em seus trajes flutuantes e suas moradas florais foi o sinal para ela declarar em voz alta que elas eram o seu verdadeiro povo, e que ela pertencia a elas, assim como para gritar e se debater tão veementemente, tentando estar com elas, que foi necessário tirá-la do teatro.”

 

Quando foi crescendo, ela lia vorazmente, mas com uma peculiaridade – “tudo o que ela lia já lhe soava familiar, de modo que se sentia como se estivesse recuperando velhas recordações, ao invés de estar adquirindo novos conhecimentos.” A faculdade da vidência havia se manifestado em uma idade muito tenra, e lhe trouxe problemas com seus pais, os quais a censuravam como se ela fosse responsável pelos eventos que ela tinha previsto, e as “demonstrações de faculdades anormais resultavam em consultas ao médico da família, com resultados ao mesmo tempo desagradáveis e injuriosos para ela.”

Suas aptidões para música, canto, desenho e pintura foram tais que trouxeram, por parte de seus professores, fortes recomendações para uma carreira profissional, mas com o único resultado de interromperem suas aulas, por medo de que ela fosse induzida pela sua consciência de sua habilidade a adotar tais sugestões.

Sob condições tão adversas ao desenvolvimento como essas, ela voltou sua atenção para a escrita, e foi principalmente nos versos que ela primeiro buscou refugiar-se do ambiente que lhe era hostil, bem como expressão para suas ideias. A qualidade de seus poemas, quando era ainda uma criança, foi tal que lhe abriu espaço em várias revistas. Seu primeiro livro foi escrito aos treze anos. Sua composição, ela disse, já veio pronta, e ela só tinha que escrevê-la. Um pequeno volume com seus poemas, todos escritos antes dos dezessete anos, foi publicado após a morte de seu pai, que ocorreu em 1865, e foi dedicado em sua memória.

Sua adolescência não parece ter sido mais feliz do que sua infância. Ela foi enviada a uma escola tradicional em Brighton para “concluir sua educação”, onde “eles confundiram os anseios de uma natureza grandiosa e altamente vivificada em busca de expansão e desenvolvimento, com os caprichos de uma rebelde contra todas as convenções sociais, e por isso a viam como alguém cujo exemplo seria sempre pernicioso para os demais”. Embora ela tivesse uma vontade forte e um discernimento independente, ela estava “voltada para a busca dos significado das coisas em contraposição às suas aparências” e “não dava atenção para a opinião das pessoas, quando se tratava de uma questão de princípios”, e ela fortemente se ressentia quando se deparava com a injustiça e a opressão.

Assim, embora seus talentos fossem reconhecidos, seu caráter era mal interpretado. Lemos que “sua curiosidade a respeito de assuntos religiosos era um forte motivo de ofensa; e algumas das reprimendas mais severas sofridas na escola decorreram de sua persistência em pedir explicações – aos sacerdotes que supervisionavam aquela parte do currículo da escola – a respeito da lógica das doutrinas por eles incutidas. Não se podia fazê-la entender por que o desejo de compreender, tão louvável com relação a outras disciplinas, deveria, no caso da religião, ser considerado como uma impertinência e até mesmo uma irreverência.”

Em anos posteriores, em um momento de doença e grande tristeza, percebendo que uma vida de incessantes esforços, críticas e solidão a esperava se ela continuasse a luta contra a crueldade e injustiça, à qual ela tinha dedicado sua vida, e olhando em retrospectiva para a época de sua adolescência e infância, ela escreveu:

 

“Eu anseio por um pouco de sossego e paz. O mundo ficou muito amargo para mim. Eu sinto como se todos estivessem mortos (…) E atrás de mim, quando olho para trás para o caminho que trilhei, tudo é tempestade e escuridão. Enfrentei a duras penas o caminho solitário e melancólico da minha infância; e assim também se deu ao longo da minha adolescência, sempre incompreendida e desacreditada; e agora, na minha idade adulta, ainda sigo lutando. De todos os lados a minha volta, encontro censura e desconfiança, e amarga e prolongada tristeza. Dor e sofrimento, do corpo e do espírito, estão presentes em meus passos durante todos os anos de minha vida. Não tive nenhum período de alívio. Será que nunca terei paz? Será que nunca haverá um período de sol que me torne alegre com o meu viver?”

 

Cerca de dois anos após a morte de seu pai, ela teve a felicidade de conhecer a Senhorita Theobald, uma renomada espírita que morava em Hastings, para onde a família Bonus tinha então se mudado, e por meio dela ela obteve uma introdução ao Espiritismo. Na Senhorita Theobald ela encontrara alguém em quem podia confiar. A ela contou das visões que tinha tido por toda a sua vida, como os médicos haviam afirmado que elas decorriam de uma super-excitação do cérebro e como ela tinha, como tantos outros, sofrido muito com os médicos, e não encontrara nenhum que lhe fizesse bem”. Mas ela disse, “Eu sei que isso não é fantasia. Eu tenho certeza de que vejo todas essas coisas; e isso não é causado por doença.”

Como resultado desse encontro com a Senhorita Theobald, ela adquiriu a certeza da imortalidade da alma, coisa que, até essa época, ela tinha dúvidas. Ela tinha perguntado à Senhorita Theobald se ela podia obter uma mensagem para ela, e veio uma mensagem, dizendo ser de seu pai, que afirmava “o quanto ele sentia por tê-la criado com tão errôneas ideias, e a encorajava a investigar o Espiritismo, pois ele traria evidência da vida após a morte, e de seu próprio poder de vir até ela e de ajudá-la”. A Senhorita Theobald disse que essa mensagem “foi recebida por ela com convicção. Que ela acreditou nela e a aceitou como genuína.”

Um passo importante na vida de Anna Kingsford foi seu casamento. Em 31 de outubro de 1867 ela se casou com seu primo Algernon Godfrey Kingsford, o qual, pouco depois, decidiu seguir o sacerdócio. Isso exigiu que ele estudasse teologia, no que ele foi acompanhado por sua esposa, que assim obteve um “pleno domínio da teologia anglicana.”

Nessa época ela teve uma grave doença que teve o efeito de intensificar sua faculdade espiritual, elevando-a até uma esfera mais distintamente religiosa “onde vislumbres foram obtidos de interpretações e correspondências que até então eram desconhecidos para ela, sendo que um efeito especial foi imprimir nela uma forte aversão ao sistema religioso em que ela tinha sido criada, por sua dureza, frieza, insuficiência e total falta de relação com suas próprias necessidades espirituais, sejam intelectuais ou emocionais.”

O próximo passo importante em sua vida ocorreu em 1870, quanto ela ingressou na Igreja Católica Romana. Através de um pequeno número de amigos católicos, ela tinha obtido algum conhecimento acerca da Igreja deles, e tinha aprendido a apreciar a atmosfera, ao mesmo tempo devocional e artística, que os circundava, em contraste ao que ela tinha experimentado entre aqueles de sua própria religião. Mas a causa determinante de sua decisão foi de um tipo anormal. “Foi devido a ela ter recebido visitas noturnas, três em número, de uma aparição alegando ser Santa Maria Madalena, que se anunciou como a patronesse das almas de sua Ordem, e pediu que ela se juntasse à comunhão Romana, como um passo necessário para o trabalho que lhe estava reservado no futuro, cuja natureza lhe seria comunicada no seu devido tempo. Isso a levou a buscar aconselhamento com um padre, que lhe disse que sua experiência, ainda que rara, era reconhecida pela Igreja como sendo natural e lícita, e como um signo de especial graça e obséquio, e “de um tipo que não poderia ser desconsiderada sem grave responsabilidade.”

Ao comentar sobre isso, Edward Maitland diz:

 

“Assim foi realizado o segundo grande passo no que se provou ser sua preparação para a tarefa que a aguardava; pois ao seu conhecimento da teologia anglicana ela agora adicionou aquele da doutrina católica, ao realizar um estudo dessa última tão criterioso quanto o da primeira. Deve ser esclarecido, contudo, em face aos seus desenvolvimentos posteriores, que nenhuma questão ainda havia surgido para ela quanto à distinção entre as duas formas de apresentar o Cristianismo, a eclesiástica e a mística.

Ela aceitou a Romana em contraposição à Protestante, a católica (ou universal) em contraposição à sectária, a estética e emocional em contraposição à não artística e formal – não a sacerdotal e objetiva em contraposição à espiritual e subjetiva. Pois ela ainda não estava cônscia acerca da existência dessa outra forma de apresentação do Cristianismo. Durante esse período ela manteve completa independência, tanto de pensamento quanto de ação, recusando orientação espiritual e participando dos ofícios da Igreja tão somente quando sentia vontade de assim fazer.” Três anos depois, em uma carta para Edward Maitland, ela disse: “Por adoção e profissão eu sou um membro daquela mais conservadora das igrejas, a Católica Romana, mas por convicção eu sou antes uma panteísta do que qualquer outra coisa, e meu modo de vida é o de quem segue a dieta vegetariana”. Foi posteriormente mostrado a ela que a Igreja Católica tinha toda a verdade em forma de parábola, que a verdade era inteiramente espiritual, e que a Igreja a tinha materializado.”

 

Estando completamente imbuída da ideia que a havia conquistado a respeito da obra que lhe estava reservada, ela impôs uma condição especial para seu casamento, a de que ela não fosse tolhida em relação a nenhuma carreira que ela pudesse vir a escolher – uma condição que, deve-se ressaltar, foi honrosamente observada por seu esposo ao longo de toda a vida matrimonial. Alguns anos mais tarde, ele foi nomeado Vigário de Atcham, próximo à Shrewsburry.

Atcham fica às margens do rio Severn, que transborda de vez em quando, provocando enchentes. Esse local, em certas estações, se tornou inabitável por Anna Kingsford, que sofria de asma. Ela via essa enfermidade como seu algoz, e estava sempre tentando dela escapar mudando para outro lugar. Ela, às vezes, era forçada a sair de casa de madrugada, após manter todos em sua casa acordados a noite inteira, e ir para a cidade mais próxima para fugir da crise que lhe sufocava. Era apenas em uma cidade grande que ela estava a salvo desse perigo.

Vendo como impraticável a residência contínua na Casa Pastoral, e estando irresistivelmente atraída para atividades que uma vida no campo não permitiam, por volta de 1872, ela adquiriu o Jornal da Própria Mulher, editando-o ela mesma e dividindo o seu tempo entre Londres e sua casa em Atcham. Por meio de seu jornal, ela buscou dar expressão a suas ideias.

Foi no exercício de suas atribuições como editora desse jornal que ela tomou conhecimento da existência da vivissecção, e foi nas colunas de seu jornal que ela tocou a primeira nota da cruzada, na qual desde então ela se engajou, contra as atrocidades dos laboratórios que praticavam a vivissecção. Desde aquela época, a supressão dessa “moderna Inquisição” se tornou uma de suas principais metas de vida. Nisso ela descobriu o que provou ser uma importante parte de sua missão e, naquilo que lhe interessava, o jornal tinha servido seu propósito. O jornal não teve êxito financeiro e ela decidiu desistir dele.

Ela já havia decidido iniciar o estudo de medicina, com a intenção explícita de se qualificar para realizar o banimento da vivissecção, algo “que ela via com tremendo horror, como a mais vil das práticas, quer com relação à sua natureza, quer quanto aos seus princípios.” A questão da reforma alimentar também era um objetivo que ela tinha em mente ao decidir quanto a seu futuro trabalho.

Pouco tempo antes, sob orientação de seu irmão, Dr. John Bonus, ela tinha adotado o regime pitagórico de abstinência de carne na alimentação, e isso com tão notáveis benefícios para ela própria, física e mentalmente, ao ponto de levá-la a ver nesse regime o único meio efetivo para a redenção do mundo, quer com relação aos próprios homens, quer com relação aos animais.

O homem carnívoro, que se sustenta com a matança e a tortura, não era para ela, de modo algum, um Homem em qualquer acepção verdadeira do termo. Ela sustentava que:

 

“Aquilo que é moralmente errado não pode ser cientificamente correto, e que buscar benefício próprio ignorando o dano causado a outros seres sensíveis é renunciar à própria humanidade – do mesmo modo que não é a forma, mas antes o caráter, que realmente faz o homem – e se rebaixar ao nível subumano e infernal.”

 

Vemos, então, Anna Kingsford trabalhando seriamente na preparação para passar nas provas que a esperavam, e cuja aprovação era necessária para obter o diploma de Medicina, o que ela visava para ajudar em seu trabalho.

Era primavera de 1873, ela então morava em Hinton Hall, próximo a Pontesbury, em Shropshire (de cuja paróquia seu marido tinha se tornado um dos três sacerdotes), quando ela recebeu de uma dama, que morava longe dessa cidade e que lhe era desconhecida, uma carta. Nessa carta, sua autora, que assinava pelo nome de “Anna Wilkes”, disse que leu com profundo interesse e admiração uma história, de autoria da Anna Kingsford e publicada no Jornal da Própria Mulher, e que após lê-la recebeu do Espírito Santo uma mensagem para Anna Kingsford, a qual devia ser entregue pessoalmente. Perguntava se a Sr. Kingsford poderia recebê-la, e quando? Após uma pequena hesitação, a permissão solicitada foi concedida e foi marcado um encontro. Um relato do encontro foi dado por Anna Kingsford como segue: –

 

“Na hora marcada, a encontrei quando ela vinha da estação, e fiquei imediatamente impactada com sua postura e aparência e, em seguida, com sua fala, tanto quanto tinha ficado chocada com sua comunicação anterior.

Era alta, de postura ereta e de aparência distinta, com o cabelo de um tom cinza claro e olhos singularmente brilhantes. Ela me disse que havia recebido uma mensagem clara do Espírito Santo, e que tinha sido tão fortemente tocada no sentido de vir e entregá-la pessoalmente que não pôde evitar.

A sua mensagem era no sentido de que, por cinco anos, eu deveria permanecer em retiro, continuando os estudos nos quais estava engajada, fossem eles quais fossem, bem como no modo de vida no qual eu havia ingressado, não permitindo que nada ou qualquer pessoa me afastasse dos mesmos e que, depois desses cinco anos de preparação e provação, o Espírito Santo me levaria a sair de meu isolamento para ensinar e pregar, e que um grande trabalho me seria dado para realizar. Tudo isso ela proferiu com uma expressão enlevada e inspirada, como se fosse sibila transmitindo uma mensagem em um oráculo. E quando ela tinha terminado, vendo, sem dúvida, minha cara de surpresa, ela me perguntou se eu pensava que ela era louca – uma pergunta que eu não sabia bem como responder, pois eu não tinha encontrado nada do tipo antes, e estava inclinada a partilhar da impressão que todas as pessoas comuns e do mundo sempre tiveram em relação àqueles que alegam ser profetas.

Após entregar sua mensagem, minha profetiza me beijou nos dois lados de meu rosto e partiu. Tempos depois – ao refletir sobre minhas próprias experiências de receber comunicações em sonhos e visões, e presenciar aparições, e também sobre a singular concordância entre o teor da mensagem e minha própria impressão desde a infância – minha sensação de estranheza se tornou grandemente diminuída.”

 

Naquele mesmo ano, Anna Kingsford, após ter lido no Examiner uma matéria sobre um conto escrito por Edward Maitland que lhe interessou, ela escreveu a ele; e após alguma troca de correspondências ele aceitou um convite para ir à Casa Paroquial de Shropshire. A visita ocorreu em fevereiro de 1874 e provou ser um momento decisivo na vida de ambos. Houve uma simpatia entre eles no plano espiritual. Eles viam a verdade da mesma forma. Eles tinham sido reunidos por poderes que ambos reconheciam como divinos, e para uma obra, não menos divina, que eles deveriam realizar juntos. Cada um deles tinha uma missão e, como provaram os eventos, era uma missão conjunta.

Durante essa visita Edward Maitland ficou sabendo pela primeira vez das faculdades psíquicas de Anna Kingsford, sob as seguintes circunstâncias: – Eles estavam discutindo a possibilidade de haver um sentido interno e filosófico para as Escrituras e os Dogmas, que, se confirmado, a religião deixaria de ter suas bases na autoridade e na tradição e passaria a estabelecer essas bases na compreensão. Nesse momento, Anna Kingsford, como se estivesse apenas se lembrando de algo que lhe havia escapado à memória, levantou-se e pegou um manuscrito escrito por ela mesma, pedindo a Edward Maitland que o lesse e lhe dissesse francamente o que ele achava do mesmo. Quanto a isso, ele escreveu: –

 

“Após lê-lo e relê-lo, eu perguntei como e quando ela o tinha obtido, ao que ela respondeu pedindo minha opinião sobre o manuscrito. Respondi, com ênfase, que se existisse tal coisa como uma revelação divina, eu não conhecia nada que chegasse mais próximo à minha ideia do que isso deveria ser. Que era exatamente por falta de algo disso que o mundo estava sucumbindo – uma fé razoável e lógica.

Ela me disse, então, que isso tinha lhe vindo durante o sono, mas quando e como ela não sabia, nem poderia ela dizer se tinha visto ou ouvido, mas apenas que isso tinha vindo subitamente em sua mente, sem que ela jamais tenha ouvido ou pensado em tal ensinamento antes.

Tratava-se de uma exposição da história da Queda, exibindo-a como uma parábola, que tinha uma significância puramente espiritual, totalmente razoável, lógica, e de aplicação universal.

As pessoas, coisas e eventos físicos nela descritos dando lugar a princípios, processos e estados pertencentes à alma; não se tratando, portanto, de uma mera história local, mas sim de uma verdade eterna.”

 

Foi assim que Anna Kingsford revelou a Edward Maitland a existência de suas faculdades psíquicas, uma confidência que foi feita com grande apreensão de sua parte, “pois ela sabia que de parte de qualquer outro de seus conhecidos, sua revelação teria sido estigmatizada como tolice e sua faculdade como insanidade.”

Na primavera do ano seguinte, 1875, Edward Maitland obteve a primeira prova de que ela possuía poderes de clarividência, em circunstâncias integralmente relatadas em sua biografia mencionada acima.

Omitiremos os detalhes da vida de Anna Kingsford como estudante de Medicina na Universidade de Paris, para a qual ela teve de ir para poder obter o diploma – já que na Inglaterra as mulheres ainda não eram aceitas nas faculdades de medicina. Ela concluiu o curso em 1880, na Faculté de Paris, ficando habilitada a praticar a medicina, um privilégio obtido com imenso custo em termos de esforços e de sofrimentos, tanto físicos como psicológicos.

Durante esse período ela tinha, de tempos em tempos, o benefício da ajuda e do companheirismo de Edward Maitland, que foram dados livre e desinteressadamente, a pedido de seu marido, e sem os quais ela não teria suportado o esforço, nem aguentado as adversidades e superado as dificuldades que afligiram sua jornada.

Logo que obteve o diploma de medicina, ela, com a ajuda e apoio de Edward Maitland, logo ficou reconhecida como a principal oponente de sua época à vivissecção e como a principal apóstola de uma dieta humanitária, pura e isenta de derramamento de sangue. Todos deveriam ler a obra Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo), dela e de Edward Maitland, que é um dos melhores livros sobre os princípios do vegetarianismo que jamais foi escrito. Sobre a questão do vegetarianismo, ela disse: –

 

“Considero o movimento vegetariano o mais importante movimento de nossa época. Acredito nisso porque vejo nele o começo da verdadeira civilização. Minha opinião é que até o presente momento não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres dos animais, sejam inteiros ou cortados – que com molhos e condimentos são servidos em nossas mesas – não pensamos no horrível fato que precedeu esses pratos; e, não obstante, é algo terrível saber que a cada refeição que fazemos foi a custo de uma vida. Sustento que devemos à civilização a elevação de toda aquela classe profundamente desmoralizada e barbarizada de pessoas – açougueiros, boiadeiros e todos os outros envolvidos nesse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pela presença de abatedouros em suas vizinhanças, o que condena classes inteiras a uma ocupação aviltante e desumana.

Aguardo pelo tempo em que a consumação do movimento vegetariano tenha criado homens perfeitos, pois vejo nesse movimento o alicerce da perfeição. Quando percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, me sinto convencida de que ele se provará o redentor do mundo.”

 

Em um sermão, escrito por ela para seu marido, e tendo por título “Fale pelos que não podem falar” (Pro. XXXI 8.), tratando dos direitos dos animais em geral para receberem um tratamento humanitário, ela disse: –

 

“Há uma grande quantidade de pessoas que parecem pensar que os deveres do homem começam e terminam nos humanos; e que se eles disserem a verdade habitualmente, deixarem de ferir seus vizinhos, evitarem o roubo, a desonestidade e coisas desse tipo, que nada mais é exigido deles por Deus em suas relações com as demais criaturas. Mas não apenas todo ser humano, porém cada ser vivo tem seus direitos; e a justiça na forma mais elevada deve ser aplicada com base nisso, em todas as nossa ações. Afirmo que um cavalo manco ou doente tem o direito de não trabalhar; e assim como um homem deve ser protegido de ser mal tratado por outros homens, assim também, seguindo o mesmo princípio, devem os animais ser protegidos de maus tratos.”

 

Nenhum argumento pode justificar a tortura que, em nome da “Ciência”, tem sido infligida sobre os animais, que são “nossos amigos que não podem falar” e “nossos irmãos menores”, ainda que isso seja feito, como se algumas vezes é alegado, “pelo bem da humanidade” – não admitindo, em nenhum momento, que a humanidade possa se beneficiar por meio da desumanidade, do contrário a casa, que é a casa da vida, estaria dividida contra si própria. As “boas intenções deveriam ser os guias de boas ações, e não desculpas para más ações.”

Assim, em resposta a uma dura crítica feita pela Senhorita P., em uma palestra dada por ela na Zetetic Society (Sociedade Zetética), Anna Kingsford disse: –

 

“É moralmente permissível usar os animais inferiores em benefício do homem, mas não abusar deles. A Senhorita P. confunde uso com abuso. Ao usar um animal de forma humana e inteligente, tanto o que usa quanto o que é usado são beneficiados. O primeiro pelo serviço prestado, e o segundo pela educação e disciplina obtida.

A Senhorita P. assume que eu montaria um cavalo até que ele morresse para salvar um amigo. Não, eu não o faria, porque o cavalo também é meu amigo. Eu exigiria dele até onde a razão e a humanidade permitissem, e quanto ao demais eu teria fé em Deus. A hipótese do vivisseccionista é aquela do ateu. Por ela, toda a possibilidade da ajuda de Deus é omitida do sistema de coisas. O bisturi, a serra e a pinça servem para fazer tudo pelo homem. A oração, o amor e a vontade, e tudo que é divino nele, não servem para nada.

Sob a doutrina da moderna ciência vivisseccionista as nação estão rapidamente se tornado ateias. ‘Se’, dizem as pessoas, ‘for necessário para se obter o conhecimento e para obter a saúde e a cura, que atos abomináveis ao sentimento moral devam ser realizados, então, obviamente, a Justiça não é o princípio essencial do universo, e a religião não tem base sólida’. Estou fazendo tudo o que posso para mostrar tanto que o conhecimento é o supremo bem, quanto que ele deve ser obtido por métodos divinos.”

 

Com a intensificação de suas faculdades psíquicas, que ocorreu em 1876, ela se tornou, e durante o restante de sua vida continuou a ser, o receptáculo de Iluminações Divinas que, após sua morte, foram publicadas na obra Vestida com o Sol (Clothed with the Sun). Essas Iluminações foram recebidas por ela na maioria das vezes durante o sono Algumas delas tratam de assuntos da maior profundidade cognitiva como a emanação da Deidade, ou Ser Original, do estático para o dinâmico, do passivo para o ativo, do não manifestado para o manifestado, do abstrato para o concreto, do universal para o individual.

Outras revelavam o método tanto da Criação como da Redenção, mostrando que o método é um só, e que apenas a direção é diferente, sendo uma centrífuga e a outra centrípeta, uma involutiva e a outra evolutiva; enquanto outras tratavam de assuntos tais como A Inspiração e o Profetizar; O Pecado e a Morte; O Panteísmo Cristão; A Comunhão dos Santos (que foi recebida por Anna Kingsford durante o sono, e é considerada por alguns como um dos mais belos textos escrito na língua inglesa); A Origem do Mal; A Queda; Os Evangelhos; Os Mistérios Cristãos; Os Dogmas da Igreja Católica; A Alma e sua Natureza; A Grande Obra; A Redenção; O Sacrifício Vicário (doutrina que é condenada como falsa e perniciosa); e há aqueles maravilhosos e belos “Hinos aos Deuses”; e algumas das Iluminações contêm alusões a Jesus (de quem Anna Kingsford declarou se lembrar) e seu ensinamento, e a São Paulo (que é acusado de ter interpretado erroneamente o ensinamento de Jesus), e a outros personagens bíblicos.

Há referências também à Grande Pirâmide, que foi construída para iniciações, uma das quais é descrita. Todos são temas do maior interesse. Essas Iluminações, ou algumas delas, são vistas por várias pessoas como escrituras sagrada. Anna Kingsford e Edward Maitland as viam como inspiradas. Algumas delas parecem ser resgates, por meio da memória da Alma, de rituais antigos há muito perdidos para o mundo.

Do que foi escrito – e muito mais poderia ser adicionado em apoio – se verá que uma explicação da personalidade de Anna Kingsford e de suas lembranças psíquicas deve ser encontrada na doutrina da reencarnação – uma doutrina que tanto ela como Edward Maitland não poderiam deixar de aceitar como verdade, uma doutrina que, entre os teosofistas de seu tempo, eles foram os primeiros a proclamar.

Até o recebimento por Anna Kingsford de uma Iluminação sobre o assunto, eles estavam sem qualquer explicação que pudessem ver como satisfatória com relação aos acontecimentos de suas vidas. A Iluminação referida foi sobre “A Inspiração e o Profetizar”, e ela foi recebida por Anna Kingsford em fevereiro de 1880, sob as seguintes circunstâncias. Edward Maitland estava buscando um teste por meio do qual distinguir uma verdadeira inspiração de uma falsa, e estando muito indeciso com a questão, havia rogado mentalmente por uma explicação. Pouco depois, sua satisfação foi grande quando Anna Kingsford lhe trouxe uma instrução, que tinha sido recebida por ela à noite, durante o sono, a qual esclarecia o mistério, e isso sem que ela tivesse consciência da necessidade e do pedido feito por Mailtand. A instrução foi escrita por Anna Kingsford ao acordar:

 

“OUVI na noite passada durante o sono uma voz que me dizia:

Você pergunta sobre o método e a natureza da Inspiração, e sobre os meios pelos quais Deus revela a Verdade.

Saiba que não há iluminação que venha de fora: o segredo das coisas é revelado de dentro.

De fora não vem nenhuma Revelação Divina: mas é o Espírito interior quem a testemunha.

Não pense que lhe digo algo que já não saiba: pois, a menos que você saiba, não lhe pode ser dito.

Àquele que possui é dado, e ele o tem em abundância.

Ninguém é profeta, a não ser aquele que sabe: o instrutor do povo é um homem de muitas vidas.

Conhecimento inato e percepção das coisas, essas são as fontes da revelação: a alma do homem o instrui, já tendo aprendido pela experiência.

Intuição é experiência inata; aquilo que a alma sabe dos idos e antigos anos.

E a Iluminação é a Luz da Sabedoria, pela qual o homem percebe os segredos celestiais.

Essa Luz é o Espírito de Deus dentro do homem, mostrando-lhe as coisas de Deus.

Não pense que lhe digo algo que ainda não saiba; tudo vem de dentro: o Espírito que informa é o Espírito de Deus no profeta. (…)

Vós que sois um profeta tivestes muitas vidas; sim, ensinastes muitas nações, e estivestes diante de reis.

E Deus vos instruiu nos anos que se passaram; e nas pretéritas eras da Terra.

Por meio da prece, do jejum, da meditação, e por meio da busca dolorosa vós alcançastes aquilo que conheceis.

Não há conhecimento que não seja obtido pelo labor: não há intuição que não seja fruto da experiência.

Estivestes pelas colinas do Oriente: e segui vossos passos no deserto.

Estivestes adorando ao amanhecer: e observei vossas noites de vigília nas cavernas das montanhas.

Vós conquistastes com paciência, ó profeta! Deus vos revelou a verdade desde o interior.” (Vestida com o Sol, p. 4-6)

 

Em uma iluminação relacionada à interpretação do dogma da Imaculada Conceição de Maria, que se deu em julho de 1877, recebida e escrita por Anna Kingsford enquanto em uma condição de transe, foi dito a ela que: –

 

“A Igreja não conhece a origem de seus dogmas. Surpreende-nos, também, a cegueira dos ouvintes, que de fato ouvem, mas não têm olhos para ver. Falamos em vão – não discernis as coisas espirituais. Sois tão materializados que percebeis somente o material. O Espírito vem e vai; ouvis o som de sua voz: mas não podeis dizer para onde vai nem de onde vem.

Tudo que é verdadeiro é espiritual. Nenhum dogma da Igreja é verdadeiro se parecer possuir um significado físico. Pois a matéria perecerá, e tudo que a ela pertence, mas a Palavra do Senhor continuará a existir para sempre. E como ela poderia perdurar se não fosse puramente espiritual, uma vez que, ao perecer a matéria não mais seria compreensível? Digo-lhe mais uma vez, e em verdade – nenhum dogma é real se não for espiritual. Se for verdadeiro e, contudo, lhe parecer ter uma significação material, saiba que não o resolveu. É um mistério: busque sua interpretação. Aquilo que é verdadeiro é tão somente para o espírito.” (Vestida com o Sol, p. 9)

 

Letras e palavras, como as conhecemos, podem e devem ser usadas, mas a linguagem da Igreja por todas as eras jamais foi desse mundo. Essa linguagem é dirigida à alma e não aos sentidos.

Após Anna Kingsford ter obtido seu diploma de medicina ela ficou livre, não apenas para prosseguir com a grande obra que a tinha inspirado a ingressar na profissão médica, mas também para dedicar-se, com Edward Maitland, no que eles viam como a missão que lhes fora indicada – aquela de abrir ou interpretar as Bíblias do Ocidente. O propósito de sua colaboração, como declarado por Edward Maitland, sendo “a restauração da filosofia esotérica do Ocidente, e a interpretação, desse modo, do Cristianismo e religiões de natureza ou origem semelhantes”; e tendo em mãos material para palestras, e em abundância, eles decidiram iniciar sua missão dando uma série de palestras, em 1881, para uma plateia privada e seleta, e que no ano seguinte, foram publicadas com o título de The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo).

O livro, que foi produzido em conjunto por eles, ao mesmo tempo em que foi recebido com grande apreço e entusiasmo por uns poucos de mentalidade espiritualizada, que foram capazes de julgar seus méritos, também foi recebido, de forma totalmente diferente, pelos representantes da ortodoxia e do materialismo, que não eram capazes de suportar seus ataques a suas respectivas posições; e, nos dias de hoje, depois dos muitos anos que se passaram, e dos muitos livros que foram escritos desde sua publicação, ele é reconhecido como sendo um dos melhores e maiores livros sobre o Cristianismo esotérico e espiritual – que é o verdadeiro Cristianismo – trazidos ao mundo.

O livro, que tinha o propósito de tornar conhecida a revelação recebida por Anna Kingsford e Edward Maitland, e que eles viam como um novo “Evangelho da Interpretação”, foi em grande parte escrito a partir de, ou como resultado das Iluminações que tinham sido então recebidas por eles. Ele representa a restauração da “Chave do Conhecimento”, por cuja remoção e ocultação Jesus tão severamente censurou os sacerdotes de seu tempo. O Barão Spedalieri, o discípulo do finado “Elifas Levi”, após lê-lo, escreveu: –

 

“A humanidade tem sempre e em todos os lugares se perguntado estas três supremas questões: – De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Pois bem, essas três questões encontram uma ampla resposta, completa, satisfatória, e consoladora, em O Caminho Perfeito.” (The Perfect Way, Prefácio para a Segunda Edição, p. lxxx)

 

A Senhora Caithness, Duquesa de Pomar, a considera “a mais completa revelação, certamente, que jamais foi dada ao homem nesse planeta.” Ao escrever para a Senhora Caithness sobre o assunto, Anna Kingsford disse: –

 

“Seria de fato estranho se nosso Livro encontrasse aceitação universal em um mundo que rejeitou Cristo! Mas aqueles que de fato reconhecem nossos ensinamentos o fazem não somente de forma afetuosa, mas entusiasticamente. De uma coisa estou certa: que a Doutrina da qual nosso Livro é o primeiro Apóstolo, cedo ou tarde, se tornará a pedra angular ou pedra fundamental do futuro; pois ela é a única capaz de explicar os enigmas do universo que de outra forma são insolúveis, e que incorpora a filosofia em que estão unidos todos os elementos de toda revelação divina transmitida à humanidade. Através dessa doutrina, o cristão e o budista, o zoroastriano e o hebreu, o grego e o egípcio, são postos em harmonia, e são mostrados como sendo apenas muitos dialetos diferentes de uma linguagem católica.

The Perfect Way (O Caminho Perfeito) é, assim, um Eirenicon (*), um mensageiro da paz, e o mediador da paz é a Criança de Deus”.

 

Em uma carta conjunta, assinada como “Os Autores de The Perfect Way (O Caminho Perfeito)”, que apareceu na revista Light (23 de setembro de 1882), eles disseram: –

 

O Caminho Perfeito busca consolidar a verdade em um todo integrado e, através da sistematização da religião, demonstrar sua catolicidade. Ele busca trazer a paz entre a Ciência e a Fé; casar o Intelecto com a Intuição; reunir o Oriente com o Ocidente, e unir a filosofia budista com o amor cristão, através da demonstração de que a base da religião não é histórica, mas espiritual – não é física, mas psíquica – não é local e temporal, mas universal e eterna.”

 

Não apenas Anna Kingsford foi o receptáculo de Iluminações Divinas, como as que foram mencionadas acima, como ela também foi uma grande vidente no mundo onírico – talvez a mais impressionante que se tenha registro. Ela sonhava histórias e versos de poesia completos que, ao acordar, ela escrevia. Seus “sonhos e estórias de sonhos” foram, após sua morte, publicados no livro de mesmo título [Sonhos e Estórias de Sonhos], com edição de Edward Maitland. Muitas delas tinham a natureza de instruções, na forma de histórias, visando a sua orientação espiritual.

Muitas outras coisas de interesse poderiam ser ditas dessa mulher, verdadeiramente grande e estimada, que “não era estranha das visões e vozes celestiais”, bem como de seu colaborador Edward Maitland e da obra e do ensinamento de ambos, mas o espaço aqui não permitiria. Aqueles que desejarem saber mais, devem buscar em sua grande biografia, antes mencionada: A Vida de Anna Kingsford, de Edward Mailtland, em dois volumes.

Os últimos anos de sua vida foram duplamente difíceis, em razão de suas dificuldades físicas e de sua declinante saúde. Mas sua missão estava sempre em primeiro lugar, e ela trabalhou até o fim, o que ocorreu em 22 de fevereiro de 1888, quando se retirou para reinos superiores – que não lhe eram desconhecidos – para continuar, sob condições mais favoráveis, sua obra por Deus e pela Humanidade, à qual havia devotado sua vida.

Em uma mensagem dela, posteriormente recebida por Edward Maitland, ele foi informado do seguinte: –

 

“Ela está contente de lhe comunicar que o sofrimento que ela vivenciou com satisfação – sim, vivenciou com satisfação – foi a escada que conduziu seu espírito para o alto, sempre para o alto. Agora ela sabe que, se aquele sofrimento não tivesse acorrentado seu espírito ao seu envoltório material, o poder que ela possuía não teria sido de nenhuma utilidade nesta esfera da terra. Pois se o seu corpo não tivesse sofrido, seu conhecimento jamais poderia ter se expressado, mas teria de permanecer em seu eu interior como um sonho, para um dia ser realizado.”

 

Nos primeiros anos de sua vida conjugal, Anna Kingsford escreveu muitos sermões para seu marido. Em um deles, onde ela descreveu “o verdadeiro Homem de Deus em todas as idades”, eu sinto que ali temos o testemunho pessoal de alguém que sofreu. Ela diz: –

 

“O Mundo não o estima – ele não conhece sua grandeza, não reconhece sua real força. Quando ele ousa se erguer sozinho diante do mundo, e enfrentar sua insatisfação e sua oposição, o Mundo fica assombrado com a temeridade desse homem.

Ele envia suas hostes para o abaterem como um verme – ignorante, em sua cegueira, de que tal homem não está sozinho. Ele vê apenas a figura solitária de pé, sem escudo e desprotegida, diante de sua raiva e indignação, e se prepara para acabar com ele com um golpe de sua poderosa fúria.

Mas o Homem é maior do que o Mundo. Invisível aos olhos comuns, uma Hoste invencível o protege. Ele apenas conhece o seu próprio poder e, consciente desse pode, ele ousa desafiar os exércitos da Terra. Quem são os protetores do Homem de Deus? Quem são esses guerreiros invisíveis que o defendem e o salvam? Eles são os poderes e as graças cujos nomes estão escritos na Palavra de Deus: – Firmeza, Pureza, Perseverança, Esperança, Amor, Coragem, Sinceridade, Paciência, Longanimidade, Sabedoria, Humildade, e todos os poderosos dons do Espírito de Deus.

Essa é a Hoste Celestial cujas armas não podem ser vencidas pelos ataques do Mundo. Por meio da ajuda desse grande armamento todo Santo conquistou, todo Homem de Gênio resistiu e venceu. Assim também os milhares de bons e grandes homens e mulheres que, um por um, combateram o Mundo e venceram gloriosamente. Eles foram desprezados e rejeitados, perseguidos, ridicularizados, censurados, ameaçados – tudo isso em vão. Eles sabiam, cada um deles, se levantando sozinhos diante das grandes fileiras de seus adversários, que ‘aqueles que estavam com eles eram mais do que aqueles que estavam contra eles’.”

 

Croydon. Festa de São Miguel [29 de setembro], 1930.

 

NOTA

 

(*) Eirenicon: obra escrita pelo Rev. E. B. Pusey, em três partes (1865-1870), sendo uma tentativa de encontrar uma base comum para a reunificação do catolicismo romano e do anglicanismo.

 

 

Texto (3): Anna Kingsford – Obituário (Helena Blavatsky)

 

A FALECIDA DRA. ANNA KINGSFORD

 

“É com o mais profundo pesar que anunciamos neste mês a passagem deste mundo físico de alguém que, mais do que qualquer outra pessoa, auxiliou seus semelhantes em demonstrar o grande fato da existência consciente do Ego interior – e, por conseguinte, da sua imortalidade.

O campo de atividade da Sra. Kingsford, contudo, não se limitou ao plano da vida puramente física e mundana. Ela foi uma Teosofista e uma verdadeira Teosofista em seu coração; uma líder do pensamento espiritual e filosófico, dotada dos mais excepcionais atributos psíquicos. Em conjunto com o Sr. Edward Maitland, seu mais verdadeiro amigo – cujos cuidados incessantes indubitavelmente prolongaram por vários anos sua vida delicada e sempre ameaçada, e que recebeu seu último suspiro – ela escreveu várias obras tratando de temas metafísicos e místicos. A primeira e mais importante delas foi The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), que dá o significado esotérico do Cristianismo.

Essa obra esclarece muitas das dificuldades que os leitores sérios da Bíblia enfrentam em seu esforço de compreender ou aceitar literalmente a história de Jesus Cristo conforme é apresentada nos Evangelhos.

Ela foi durante algum tempo Presidente da “Loja de Londres” da Sociedade Teosófica, e, após renunciar ao cargo, fundou a “Sociedade Hermética” para o estudo especial do misticismo cristão. Embora suas ideias religiosas tenham diferido amplamente em alguns pontos da filosofia do Oriente, ela permaneceu uma fiel associada da Sociedade Teosófica e uma leal amiga de seus líderes. (2)

Era alguém cujas aspirações de toda a vida estiveram sempre voltadas para o eterno e o verdadeiro. Uma mística por natureza – e das místicas mais vigorosas para aqueles que a conheceram bem – ela era, ainda assim, uma mulher marcante mesmo na opinião dos materialistas e dos incrédulos. Além de sua face extraordinariamente fina e intelectualizada, havia nela aquilo que chama a atenção dos mais desatentos e alheios a qualquer especulação metafísica. A Sra. F. Fenwick Miller escreveu que o misticismo da Sra. Kingsford era “simplesmente ininteligível” para ela, porém isso não a impediu de perceber a verdade, uma vez que ela assim descreve sua falecida amiga:

 

“Jamais conheci uma mulher tão extraordinariamente bela como ela, que cultivasse seu cérebro de forma tão intensa. (…) Nunca conheci uma mulher em quem a natureza dual, que é mais ou menos perceptível em todo criatura humana, fosse tão fortemente marcante – tão sensual, tão feminina de um lado, tão espiritualizada, tão imaginativa de outro.” (3)

 

A natureza espiritual e psíquica sempre predominou sobre a sensual e feminina; e o círculo de seus amigos com inclinações místicas sentirá muito sua falta, pois mulheres como ela não são numerosas num mesmo século. O mundo em geral perdeu na Sra. Kingsford alguém que não pode ser facilmente substituído nessa era de materialismo. Toda a sua vida adulta foi empregada para trabalhar inegoisticamente pelos demais, para a elevação do lado espiritual da humanidade. Podemos, contudo, ao lamentar sua morte, nos confortar com o pensamento de que o bom trabalho não pode ser perdido e nem morrer, ainda que o trabalhador não esteja mais entre nós para ver seus frutos. E o trabalho de Anna Kingsford ainda estará dando frutos mesmo quando sua memória tiver sido obliterada com a passagem da geração dos que a conheceram bem, e quando novas gerações tenham se aproximado mais dos mistérios psíquicos.” (4)

 

NOTAS

 

(1) Nota do Editor: Grifo nossos. Esse obituário, The Late Mrs. Anna Kingsford, M.D. (A Falecida Dra. Anna Kingsford), foi publicado em H.P. Blavatsky Collected Writings (Obras Completas de H.P. Blavatsky), Vol. IX, pp. 89-91. TPH, Madras, Índia, 1962. 487 pp. E foi originalmente publicado na revista Lucifer, Vol. II, nº. 7, março de 1888, pp. 78-79.

(2) Nota original: Tanto o Sr. Maitland quanto a Sra. Kingsford desligaram-se da “Loja de Londres da Sociedade Teosófica”, mas não da Sociedade-Mãe.

(3) Nota do Compilador de H.P. Blavatsky Collected Writings: “Woman: Her Position and Her Prospects, Her Duties and Her Doings”, Lady’s Pictorial, Londres, 3 de março, 1888.

(4) Nota original: A afirmação feita por alguns jornais de que a Sra. Kingsford não confiou até o final na força psíquica, pois “morreu Católica Romana”, é totalmente falsa. As afirmações presunçosas feitas por R.C. no Weekly Register (3 e 10 de março de 1888) no sentido de que ela morreu no seio da Igreja, tendo abjurado de seus pontos de vista, de seu psiquismo, da teosofia, e até de seu livro The Perfect Way (O Caminho Perfeito) e de seus escritos em geral, foram vigorosamente refutadas no mesmo jornal por seu marido, o Rev. Algernon Kingsford e pelo Sr. Maitland. Lamentamos saber que seus últimos dias foram amargurados pela agonia mental infligida sobre ela por uma freira inescrupulosa, que, conforme nos declarou o Sr. Maitland, se apresentou falsamente como uma enfermeira – e nada mais fazia do que perturbar sua paciente – “importuná-la e rezar”. Que a Sra. Kingsford era totalmente contra a teologia da Igreja de Roma, embora acreditasse em doutrinas católicas, pode ser provado por uma de suas últimas cartas a mim enviada, tratando do “pobre caluniado São Satã”, em relação a certos ataques à denominação de nossa revista, Lúcifer. Preservamos esta e várias outras cartas, uma vez que foram todas escritas entre setembro de 1887 e janeiro de 1888. Elas são, assim, testemunhos eloquentes contra as alegações do Weekly Register. Pois provam que a Sra. Kingsford não abjurou seus pontos de vista nem morreu “na fidelidade da Igreja Católica.”

 

 

Texto (4): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo (Arnaldo Sisson Filho)

 

ANNA KINGSFORD, CRISTIANISMO BUDISTA E VEGETARIANISMO (1)

Arnaldo Sisson Filho (com Viviane Pereira)

 

[Apresentação de Viviane Pereira]

Criado em família católica-romana, Arnaldo Sisson Filho, começou cedo sua busca por respostas às questões que norteiam nossa existência. Estudou em escolas católicas romanas e, no final da adolescência, questionando tudo o que aprendera até então, tornou-se materialista, adepto do Marxismo.

Dentro desse contexto escolheu estudar Economia para entender melhor as questões político-sociais do mundo. Depois, buscando respostas para fenômenos paranormais, conheceu a Sociedade Teosófica e dela passou a fazer parte, viajando para várias partes do mundo, buscando e difundindo conhecimento. Foi em uma palestra dessa organização que conheceu a pessoa que o levaria ao vegetarianismo, em 1973.

Após presenciar fenômenos paranormais, ou psíquicos, mergulhou na busca de conhecimento, estudou religiões e encontrou no trabalho da Dra. Anna Kingsford (considerada a mãe do vegetarianismo moderno) e de Edward Maitland uma linha de trabalhos que lhe interessou. Descobriu ali informações essenciais para resgatar o Cristianismo. “É a religião que está na base da civilização ocidental, que hoje domina o mundo, para o bem ou para o mal”, avalia.

Além de difundir o trabalho desses que ele considera grandes profetas, Arnaldo tem como missão partilhar o conhecimento adquirido em sua peregrinação. Seu novo desafio é uma obra que prepara sobre o Cristianismo Budista: “o Budismo e o Cristianismo são tradições que existem para se complementarem.”

Nessa entrevista ele fala um pouco desses projetos, da importância da religiosidade no atual momento que o mundo vive e do vegetarianismo dentro desse contexto.

 

 

Por que se tornou vegetariano?

Eu tinha 19 anos, estava preocupado em ter um corpo saudável; tinha parado de fumar e beber. Eu havia me deparado com fenômenos paranormais, ou fenômenos psíquicos. Por exemplo, tinha perdido uma amiga em um acidente de automóvel e ela começou a aparecer para outros amigos e eu não acreditava em nada disso. Achava tudo uma ilusão, uma fantasia. E alguns amigos que eu conhecia há muitos anos diziam: isso está acontecendo, ela está se manifestando. Eu fui conferir e me dei conta de que havia alguma coisa de verdade por trás daquilo. A partir desse momento passei a investigar toda essa fenomenologia chamada paranormal ou, no meu linguajar, fenomenologia psíquica – que diz respeito à psiquê, à parte supra física da nossa constituição humana.

No contexto desse questionamento fui assistir a uma palestra de um inglês, o Sr. John Coats – ele era um palestrante internacional da Sociedade Teosófica e depois foi seu presidente internacional. Depois da palestra fui conversar com ele e apresentei questões que me deixaram intrigado. Ele me convidou para uma conversa e no outro dia fui almoçar com ele na casa de uma professora de yoga, vegetariana, onde ele estava hospedado.

Passamos a tarde inteira conversando; ele era vegetariano há muitos anos e me mostrou que se eu estava no caminho, na busca, me tornar vegetariano era a sequência natural. Como bom gaúcho, criado à base de churrasco, eu acreditava que as proteínas da carne eram necessárias para a boa saúde. Com serenidade perguntei a ele: “Mr. John, não existe necessidade de carne para nossa boa alimentação?”

Com muita amorosidade ele pegou um arquivo onde tinha uma série de artigos, matérias, dados sobre vegetarianismo e começou a me mostrar que era possível viver muito bem, e até melhor, sendo vegetariano. Ele abordou o aspecto dos animais, da crueldade implícita nisso, me falou da trajetória dele e todas essas coisas me causaram profunda impressão. Ele me mostrou inclusive argumentos de natureza econômica, de como a solução para a fome do mundo pode estar ligada ao vegetarianismo.

Tenho muita gratidão ao tanto que essa pessoa me ajudou, com o bom exemplo, a boa influência que essa pessoa foi na minha vida. Naquele momento tomei a decisão de estudar cientificamente a questão e que se encontrasse uma fundamentação científica para me tornar vegetariano, nunca mais voltaria a comer carne. Busquei alguns livros sobre nutrição e em menos de um mês eu tinha chegado à conclusão de que poderia ser vegetariano e viver muito bem. Nunca mais voltei a comer carne.

 

A Sociedade Teosófica tem alguma inclinação para o vegetarianismo?

Sim, embora a fundadora da Sociedade, Madame Blavatsky, não fosse vegetariana. Na Sociedade Teosófica existe uma grande tendência em favor do vegetarianismo. Não é obrigatório, mas a Sociedade já fez muito pelo vegetarianismo e, assim como sou grato ao Sr. John Coats, por extensão sou grato à Sociedade por ela ter me trazido essa influência beneficente em minha vida. Muitos autores dessa Sociedade fizeram muito pelo vegetarianismo.

 

Você encontrou no seu caminho o trabalho da Dra. Anna Kingsford, considerada a mãe do vegetarianismo. Na obra dela, a defesa do vegetarianismo é muito evidente. Qual o principal argumento dela nessa defesa?

A Dra. Anna Kingsford foi estudar medicina em uma época em que as mulheres nem eram aceitas nas faculdades de medicina da Inglaterra – estamos falando de meados do século XIX. Na Universidade de Paris as mulheres recém tinham sido aceitas. Havia polêmica entre os professores: muitos diziam que as mulheres não eram talhadas para o estudo da medicina, que não tinham constituição emocional para isso.

As poucas mulheres que estudavam tinham que ser estudantes muito boas para passar nas disciplinas cujos professores acreditavam que as mulheres não eram talhadas para o estudo e prática da profissão médica. Ela fez isso porque queria promover cientificamente o vegetarianismo. O trabalho de conclusão de curso se chamou ‘Da Alimentação Vegetariana para o Ser Humano’. Foi uma defesa científica do vegetarianismo – talvez a sua primeira grande defesa acadêmica.

Essa obra é um marco na história do vegetarianismo e é impressionante porque os argumentos que ela usa são os argumentos principais do vegetarianismo até hoje. Depois ela traduziu essa obra para o inglês e publicou em 1881 na Inglaterra com o título ‘O Caminho Perfeito na Dieta’ – uma adaptação da tese para um público mais geral (essa obra está no Site Anna Kingsford, na íntegra, gratuitamente, em inglês: (https://www.annakingsford.com).

 

O que ela aborda nessa obra?

Ela trata dos aspectos sociais do vegetarianismo, bem como dos aspectos humanitários, da crueldade com os animais. Como médica, é claro, aborda também questões de saúde, de como a ingestão de carne, de gordura animal, está associada a determinadas enfermidades; ela trata da questão da obesidade, do alcoolismo, entre várias outras. Fala até de fatores ambientais – como a indústria do couro afetava a saúde dos rios na Inglaterra.

É uma obra aprovada pela Universidade de Paris e um marco na história do vegetarianismo contemporâneo. Os argumentos que ela usa são impressionantes para sua época, desde a fundamentação filosófica religiosa, passando pela questão médica e da saúde em geral, até os aspectos socioeconômicos.

 

Na questão religiosa, por que é importante ser vegetariano?

Todas as religiões que merecem esse nome nos dizem que Deus é amor e que religião significa nos aproximarmos e vivermos o amor até o ponto em que nos tornamos, nos fundimos com o amor e com a vontade de Deus.

Como disse o filósofo Plotino “o olho só conseguiu enxergar o Sol porque assumiu sua forma em miniatura” – é uma analogia que demonstra que se quisermos nos aproximar do grande amor, que está no coração desse universo, temos que iniciar sendo um pequenino amor nesse universo. Temos que assumir essa forma de Deus, de amorosidade, ainda que em miniatura.

O vegetarianismo é a expressão natural do amor, da sensibilidade, de não infligir sofrimentos desnecessários em nossa vida. Esse é o aspecto mais óbvio do vegetarianismo que está diretamente associado com a religiosidade – desenvolver em você, ainda que em miniatura, o amor verdadeiro.

Devemos lembrar da grande lei de ação e reação: se estamos no mundo semeando crueldade e dor ao animais, nós vamos colher dor. É o que estamos colhendo: violência crescente, agressões, desestabilidade ambiental cada vez maior, doenças que estão surgindo.

 

Você acha que a religião pode ajudar a difundir o vegetarianismo e o amor aos animais, esse sentimento de proteger, defender os animais?

Não só pode como deve. Uma das coisas que eu acho mais apaixonante na obra da Dra. Ana Kingsford é que ela, como cristã, percebeu a importância de resgatar esse conhecimento dentro do contexto do Cristianismo, conhecimento que se perdeu ao longo dos séculos. Um texto dela e de seu grande companheiro de trabalho Edward Maitland mostra que o vegetarianismo era uma parte integrante do verdadeiro Cristianismo. Que o verdadeiro Cristianismo é vegetariano. E não da forma que como hoje, da maneira deturpada, querem nos passar. O texto chama-se O Vegetarianismo e a Bíblia (essa obra está no Site Anna Kingsford, na íntegra, gratuitamente: https://www.annakingsford.com).

A religião não só pode como deve auxiliar na promoção do vegetarianismo porque a verdadeira religião é essa que nos torna, ainda que em miniatura, espelhos do amor divino. E o vegetarianismo é uma natural expressão do amor divino.

 

Em que momento do Cristianismo se perdeu essa ideia do vegetarianismo e por que houve essa perda?

A história do Cristianismo é complexa e cheia de conflitos. Encontramos já nas cartas de São Paulo esse conflito estampado: ele mostra comunidades judaico-cristãs que eram a favor do vegetarianismo e outras, dentro do Cristianismo, que já não eram vegetarianas.

Essas comunidades começaram a discutir entre elas desde aquela época e há cartas de São Paulo querendo harmonizar, indicando que não se acusassem mutuamente. Com esses conflitos que já existiam dentro do Cristianismo, à medida que ele foi se tornando religião oficial do império romano, foi se corrompendo. O Cristianismo, desde então, foi renunciando a coisas que eram essenciais, e passando a ser influenciado pela política vulgar, fazendo concessões para o mundo e seu status quo dominante, sobretudo em Roma e, a partir daí, impondo à força essa degeneração.

 

O Cristianismo se adaptou à realidade vigente.

Adaptou-se de uma forma degenerada. E, desse modo, temos isso que a gente chama hoje de Cristianismo, que não é o verdadeiro Cristianismo; é uma forma deturpada e em grande medida anticristã. Restam hoje, do verdadeiro Cristianismo, alguns símbolos sagrados e algumas poucas coisas ainda divinas.

Nessa etapa de se tornar religião do império romano o Cristianismo começou a ser usado pelos políticos e sacerdotes de forma deturpada, em conflito com os verdadeiros profetas que eram ligados à vontade e à sabedoria divinas. Essas mudanças acabaram excluindo o conhecimento fundamental do vegetarianismo do Cristianismo.

 

Você percebe uma consciência maior em relação à opção vegetariana atualmente?

Não há dúvida quanto a isso. É uma coisa palpável dentro do mundo. Acho que mesmo dentro do próprio Cristianismo a gente pode observar isso de forma inicial.

 

A que você atribui esse avanço?

Atribuo ao trabalho de pessoas que dedicam a vida por isso. Sempre é assim. Os avanços da humanidade sempre dependem de alguns poucos que se sacrificam por isso. Pelo mundo afora tem pessoas que dão seu tempo, sua energia para promover o vegetarianismo. Está acontecendo na nossa época, ainda de forma inicial, um movimento de resgatar uma religiosidade mais verdadeira, e o vegetarianismo aparece naturalmente dentro desse movimento. Precisamos avançar muito.

 

Muita gente fala que energeticamente comer carne faz mal, para meditar, no contato com seu eu interior. Nos seus estudos você constatou isso?

Influencia muito. Esse é um conhecimento milenar da humanidade: na antiguidade, os verdadeiros místicos, os santos, os profetas já falavam isso. Não é nenhuma novidade. Se há alguma novidade é essa degeneração que aconteceu. Comer carne afeta pesadamente nossa capacidade psíquica, psíquico-espiritual. Eu, como estudante, aprendi isso de muitas fontes, seja no Oriente seja no Ocidente.

 

Dentro do Cristianismo há a Sexta-Feira Santa, quando não se pode comer carne vermelha. Antigamente era a Quaresma, uma restrição de 40 dias. Como era isso e o que se transformou?

Esses são resquícios, esse reconhecimento de não comer carne é alguma coisa que sobrou. Nas comunidades cristãs ortodoxas, que se separaram de Roma há muitos séculos, esse conhecimento é mais explícito e o jejum acontece durante toda a Quaresma – eles não comem carne na Quaresma toda, mas no domingo pode. No catolicismo romano sobrou a Sexta-Feira Santa, mesmo assim só com a carne vermelha.

 

Por quê? Qual o argumento?

O argumento que se usa é de que nesse período é preciso coparticipar do sacrifício de Cristo, para combater a gula, por exemplo. Hoje, e desde séculos, é considerado como uma penitência. É um resquício de uma forma de dizer: isso é o melhor, deveria ser assim. Mas a coisa se perdeu tanto, que desde vários séculos se considera um sacrifício, uma penitência, não comer carne.

Ser vegetariano é apenas um alicerce preliminar, o reconhecimento da importância da benevolência em nossa vida. Para as pessoas que querem se aprofundar mais na vida religiosa verdadeira, o vegetarianismo é uma base, e essas pessoas precisam avançar para uma alimentação mais pura.

A Dra. Ana Kingsford traz o conhecimento de que deveríamos migrar não só para o vegetarianismo, mas também ingerirmos cada vez mais alimentos crus na nossa dieta, pois eles têm tremenda importância para a vitalização psíquica dos nossos corpos. Para nos tornarmos pessoas mais sensíveis psiquicamente, seria muito importante que nos alimentássemos mais de alimentos crus, tanto quanto possível.

 

Qual a base da defesa da Dra. Ana Kingsford para a alimentação crua?

Ela nos traz esse tema em alguns textos, com a limitação de recursos que a época impunha. Há um texto, que está traduzido no nosso Site Anna Kingsford, que se chama O Banquete dos Deuses. Esse texto é um diálogo entre ela e semideuses. É o relato de uma percepção, de uma visão psíquica. Nele ela descreve um banquete onde os deuses falam que a alimentação das pessoas que querem se aproximar deles, que querem avançar nas etapas mais adiantadas da realização espiritual, tem que ser basicamente crudívora. Ela nos fala que Ephaistos, o deus do fogo, é um destruidor, e que ao passar pelos alimentos nos deixa coisas mortas, sem vida, com efeitos muito nocivos para a saúde e para a percepção psico-espiritual.

Hoje, com o conhecimento científico, podemos ir além. Podemos saber, por exemplo, que as enzimas e muitas vitaminas são destruídas pela cocção, que muitas propriedade vitalizantes dos alimentos se perdem com uma grande elevação da temperatura.

 

Por que você se dedica à filosofia e à religião? Por que tomou esse rumo na sua vida?

Por uma busca de justiça, de levar, principalmente para as pessoas mais carentes, um bem estar, uma felicidade não somente em termos físicos, mas também uma felicidade psicológica e espiritual, ou seja, uma paz interior verdadeira.

Na minha busca de soluções para os conflitos da excessiva desigualdade social, fui percebendo que a questão econômica depende da questão política, que depende da questão filosófica, a qual depende da questão da verdadeira religiosidade. É como um dominó em que uma vai influenciando a outra de forma inevitável.

O Sr. Krishnamurti, esse grande pensador e profeta do século XX, afirmou que a religião é a base de qualquer civilização. As questões e as ideias finais, ou últimas – o porquê da gente estar aqui, o que viemos fazer, qual a constituição do ser humano, essas ideias mais profundas, que desenham uma finalidade para nossa existência, são fundamentais porque determinam o resto da nossa existência, individual e coletiva.

Se a religião é a base de qualquer civilização, as grandes instituições do mundo que aí está são filhas da degeneração religiosa, ou do materialismo, que em muitos aspectos é pior ainda. Isso é um fato. Assim, se quisermos ter soluções para os problemas mundiais, precisamos resgatar a verdade filosófico-religiosa antes de qualquer coisa.

 

A religião está na base dessa transformação social?

Quando a gente nega a verdadeira religiosidade, como os materialistas tentam fazer, não renunciamos a ideias metafísicas, porém, simplesmente, passamos a ter uma metafísica ruim. Ainda assim você precisa de ideias que estão além do físico. Não se vive sem elas, nem individual, nem coletivamente.

 

Em relação aos animais, o direito dos animais passa também por uma consciência nessa área, de igualdade, de equidade?

Passa. Se nós formos defender os animais baseados em uma filosofia materialista acabamos fazendo bobagem. Uma filosofia religiosa é como um mapa que orienta nossa vida. Se você tem um mapa ruim, vai seguir caminhos errados. Se você tem um mapa bom, mesmo assim ainda tem chance de não chegar, porque a estrada ainda assim é difícil, cheia de desafios. Mas se você sequer tem um mapa decente, como vai chegar lá? Aí não tem chance nenhuma. O mundo hoje se orienta usando mapas muito equivocados, tanto no campo religioso quanto no campo sócio-político.

 

Dentro da filosofia e da religião, a ética é muito presente, está no cerne. Eticamente falando não parece correto que um animal como o gato e o cachorro sejam tratados com carinho e outro animal seja torturado, assassinado. Como as pessoas resolvem isso na suas religiões para justificar essas atitudes, pessoas que vivem dentro de certa ética religiosa?

Não se resolve. Elas levam a vida com essa incongruência, esse contra senso, mesmo no caso das pessoas ditas religiosas. Em um departamento da vida se acredita em uma coisa, em outro se acredita em outra coisa. Em um dia age de um jeito, em outro, de outro jeito. Em um lugar age de uma forma, no trabalho de um jeito, em casa de outro, na igreja diferente. A vida das pessoas é cheia de incongruências porque a filosofia que rege suas vidas é deficiente, equivocada. Por isso é muito importante esse trabalho de buscar melhorias, de buscar maior veracidade, mais luz, no campo filosófico-religioso.

 

Você criou o site da Dra. Anna Kingsford (https://www.annakingsford.com) para difundir o trabalho dela. Quais os planos de futuro dentro do objetivo de projetar essa mensagem?

O trabalho de difundir e continuar a mensagem desses profetas é algo vasto. Os objetivos do “Novo” Evangelho da Interpretação (como Kingsford e Maitland chamaram essa mensagem) são tão vastos como “a abertura das Bíblias do mundo”, “elevar o nível do ideal religioso, retirando-o do plano externo e físico, para o plano interno e espiritual, e assim derrotar o domínio do materialismo sobre a vida moral”, ou ainda, “a restauração do verdadeiro Cristianismo, esotérico e espiritual.”

Hoje o que temos projetado é continuar traduzindo as obras principais de Kingsford e Maitland, escrever e publicar obras, sobretudo de apresentação dessa mensagem, e também desenvolver sites, vídeos, e realizar reuniões e palestras.

Estamos concluindo a tradução do texto de Anna Kingsford sobre o Credo do Cristianismo, que logo estará no site. Também estamos publicando uma obra sobre o Cristianismo Budista (A Roda e a Cruz: Uma Introdução ao Cristianismo Budista), pois esses profetas nos ensinaram que o Budismo e o Cristianismo são tradições que existem para se completarem, como dois aspectos de um mesmo grande evangelho católico, ou seja, universal.

Como para fazer isso de forma mais ampla são necessários recursos, estamos desenvolvendo alguns projetos que visam, entre outras coisas, nos dotar de mais recursos para essa obra no futuro. Um desses projetos é uma fazenda para o plantio de árvores. Esse projeto visa tanto gerar recursos, como transformar essa fazenda em um centro de educação ambiental, bem como de retiro, de paz e de difusão de forças espirituais. O local fica do Distrito Federal, ao lado do Monumento da Pedra Fundamental.

 

NOTA

 

(1) Entrevista para a jornalista Viviane Pereira, em maio de 2009. Publicada de forma resumida na Revista dos Vegetarianos (junho, 2009). Ano 3, Número 32, pp. 18-20.

 

 

Texto (5): Por Que Foi Criado o Site Anna Kingsford? (Arnaldo Sisson Filho)

 

POR QUE FOI CRIADO O SITE ANNA KINGSFORD?

Arnaldo Sisson Filho

 

Antes de tudo, quero expressar minha gratidão a Leslie Price pela sugestão de escrever esse artigo.

A primeira grande razão que motivou a construção do Site Anna Kingsford foi a vontade de auxiliar na compreensão do Cristianismo original e, através disso, auxiliar na grande reforma intelectual que o mundo tanto necessita. Porque, como já foi dito:

 

“No presente momento há duas coisas da religião cristã que devem ser óbvias para todas as pessoas de discernimento; a primeira, que os homens não podem viver sem ela; e a segunda, que eles não podem viver com ela assim como ela está.” (Matthew Arnold, citado em O Caminho Perfeito)

 

A compreensão desses dois aspectos pode gerar diferentes interpretações, mas podemos, pelo menos, explicar alguns fatos relacionados com esses aspectos.

Primeiro, que o Cristianismo, como o herdeiro da civilização greco-romana é um dos pilares da civilização ocidental, para o bem e para o mal – civilização ocidental que está amplamente dominando o mundo de nossos dias. Somente esse aspecto já deveria bastar para dar crédito à afirmação de que o mundo atual não pode viver sem o Cristianismo.

Segundo, que as ideias e as grandes instituições da civilização ocidental (que são hegemônicas no mundo) estão gerando problemas imensos, para os quais não poderão jamais apresentar soluções consistentes, uma vez que elas mesmas estão no cerne desses problemas. Essas ideias e instituições, por sua vez, estão conduzindo o mundo na direção de catástrofes gigantescas. Em resumo, a civilização ocidental necessita uma grande reforma em seus fundamentos filosófico-religiosos e em suas grandes instituições, deles derivadas.

Tanto o Cristianismo vigente, quanto o materialismo crasso do cientificismo dominante (que são as principais colunas de sustentação desse modelo civilizatório), necessitam ser reformados e reorientados para princípios verdadeiros. E o mundo, se quiser evitar as catástrofes que se aproximam, não pode viver mais sob o domínio desses falsos princípios e suas decorrentes injustas e incompetentes grandes instituições. Essa visão não é nova e está em sintonia com importantes escritos dos primeiros tempos da Sociedade Teosófica, como no exemplo das duas citações que seguem:

 

“Para serem verdadeiras, a religião e a filosofia devem oferecer a solução de todos os problemas. Que o mundo esteja em tal má condição moralmente é uma evidência conclusiva de que nenhuma de suas religiões e filosofias, (…) jamais possuíram a verdade.

As explicações corretas e lógicas sobre a questão dos problemas dos grandes princípios duais – o certo e o errado, o bem e o mal, a liberdade e o despotismo, a dor e o prazer, o egoísmo e o altruísmo – são tão impossíveis para elas hoje quanto o eram 1881 anos atrás. Elas estão tão longe da solução como sempre estiveram; mas para esses deve haver em algum lugar uma solução consistente, e se nossas doutrinas provarem sua competência em oferecê-la, então o mundo será rápido em confessar que essa deve ser a verdadeira filosofia, a verdadeira religião, a verdadeira luz, que dá a verdade e nada mais do que a verdade.” (Letters from the Masters of the Wisdom, 1st Series, carta n. 1)

 

“Sob a dominação e a influência dos credos exotéricos, sombras grotescas e distorcidas de realidades Teosóficas, sempre haverá a mesma opressão dos fracos e dos pobres e a mesma luta tempestuosa dos ricos e poderosos entre si mesmos . . .  É somente a filosofia esotérica, a harmonização espiritual e psíquica do homem com a natureza, que, através da revelação de verdades fundamentais, pode trazer aquele tão desejado estado intermediário entre os dois extremos do Egoísmo humano e do Altruísmo divino e, finalmente, conduzir ao alívio do sofrimento humano.” (Letters from the Masters of the Wisdom, 2nd Series, carta n. 82)

 

Anna Kingsford, segundo nossas melhores luzes, deu uma extraordinária contribuição para a compreensão do verdadeiro Cristianismo. Contudo, como suas obras somente mereceram relativamente pouca atenção, nos pareceu ser algo relevante ajudar a tornar sua mensagem mais amplamente conhecida.

Após muitos anos de ativa participação na Sociedade Teosófica, já tinha aprendido que precisamos auxiliar a iluminar as Escrituras de todos os povos, de modo que essas Escrituras possam cumprir seu papel na grande reforma intelectual que se faz tão necessária. E, nesse sentido, uma vez que vivemos na esfera do mundo ocidental cristão, é natural que se tenha como um objetivo trazer para as populações do Ocidente (e do mundo em geral), uma compreensão mais profunda e verdadeira da tradição cristã.

Essa ideia de fazer algo pelo Cristianismo já estava presente em minha mente por muitos anos, tendo inclusive, nos longos anos que estive à frente da Federação Teosófica Mundial de Jovens, tentado estimular jovens a estudar e a publicar sobre esse tema das origens do Cristianismo. Contudo, como se trata de uma história difícil de ser recuperada, praticamente não encontrei interessados nessa tarefa, ou com suficiente tempo e formação intelectual para realizá-la.

Então, quando conheci mais profundamente os escritos de Anna Kingsford e Edward Maitland, senti que ali estava contida uma importante contribuição no sentido de um resgate do Cristianismo original que eu estava buscando. Desse modo, foi principalmente devido a essa razão que decidi encarar a tarefa de tornar essa mensagem mais amplamente conhecida.

Quando comecei a estudar as obras de Kingsford e Maitland, já nesse intuito de ajudar o Cristianismo a recuperar suas origens e, portanto, recuperar a sintonia com as verdades das demais grandes religiões (quando bem interpretadas), ao mesmo tempo estava traduzindo para o português a autobiografia do monge cristão Bede Griffiths (The Golden String) que lança pontes entre o Hinduísmo e o Cristianismo. E, nessa mesma época, minha esposa Marina estava escrevendo uma biografia sobre Helena Blavatsky (A Esfinge Helena Blavatsky). Ao acompanhá-la nesses trabalhos, observei que as difíceis relações entre Blavatsky e Kingsford, como entre Sinnett e Kingsford (com o consequente afastamento de Kingsford da Loja de Londres), foi uma grande oportunidade perdida para a compreensão e a realização do trabalho da Sociedade Teosófica.

Nesse mesmo período, Marina e eu participávamos de um grupo que tinha o objetivo de fundar um monastério ecumênico no Brasil. Esse grupo estava sob a liderança de um religioso cristão, que aparentemente possuía algumas faculdades psíquicas, e que me trouxe o conselho que “eu deveria estudar as obras de Anna Kingsford, já que eu estava interessado em auxiliar o Cristianismo.”

Assim, foi tentando trabalhar na direção do desejo de fazer algo pelo Cristianismo, e sob a dupla influência dos estudos de minha esposa e da sugestão trazida por esse sacerdote, que iniciei um estudo sério das obras de Kingsford e Maitland. Não demorou muito tempo para que eu compreendesse que essas obras eram muito relevantes, no sentido de responder àquilo que eu buscava, ou seja, auxiliar no resgate do verdadeiro Cristianismo.

Desse modo, foi como consequência dessa antiga vontade, somada a essas influências e a esses estudos, que nasceu a ideia de criar o Site Anna Kingsford. Depois que essa decisão foi tomada, passamos a coletar todas as obras desses autores, e daqueles que escreveram sobre eles, ou obras relacionadas a eles, com o objetivo de preservar e tornar mais facilmente acessível essas obras às pessoas interessadas de todo o mundo. Também por isso o site foi desenvolvido em duas línguas, em inglês e português.

Para se chegar ao estágio atual – onde praticamente todas as obras conhecidas de Kingsford e Maitland estão online – foram necessários cerca de dez anos, com a colaboração de várias pessoas, tanto do Brasil como de outros países. Nesse processo, recuperamos várias obras de forma surpreendente, o que sugere que esse trabalho mereceu ajuda da Igreja Celestial, para usar a terminologia cristã. Nossas buscas nos levaram a conhecer novos amigos, inclusive, como seria de esperar, na Inglaterra, terra natal de Kingsford e Maitland.

Lembro com gratidão da ajuda de alguns amigos ingleses: Ralph Johnson, que trabalhava em frente à Biblioteca Britânica em Londres, e que nos auxiliou no trabalho de encontrar e copiar obras já quase esquecidas; Gabriel Buist, já falecido, que nos auxiliou a encontrar e copiar outras obras bem raras, junto à biblioteca da organização a que pertencia (A Ordem da Cruz), com sede em Londres; e também Brian G. McAllister (editor da publicação de cartas inéditas de Edward Maitland), que nos auxiliou corrigindo vários erros de inglês no site, nos passou textos de Samuel H. Hart, e também escreveu um texto sobre Samuel H. Hart, que foi o grande continuador da difusão dessas obras, após o falecimento de Maitland.

Quanto à mensagem trazida ao mundo por Kingsford e Maitland, quais são seus pontos mais relevantes?

Um de seus pontos principais, segundo podemos ver, é o catolicismo (a universalidade) de suas interpretações das passagens mais importantes das Escrituras do Cristianismo. Daí o conjunto de suas obras mais relevantes ser denominado o Novo Evangelho da Interpretação. Na verdade, como eles nos explicam, não há nada de novo naquilo que nos trouxeram, porém, trata-se do resgate de algo que estava tão esquecido e deturpado que, ao ser resgatado, parece ser algo novo.

Vejamos uma citação para que possamos perceber a verdadeira catolicidade da mensagem do “Novo” Evangelho da Interpretação:

 

“A fé cristã é a herdeira direta da velha fé romana. Roma foi a herdeira da Grécia, e a Grécia do Egito, de onde se originaram o legado de Moisés e o ritual hebraico.

O Egito foi apenas o foco de uma luz cuja verdadeira fonte e centro era o Oriente em geral – Ex Oriente Lux. Pois o Oriente, em todos os sentidos, geograficamente, astronomicamente e espiritualmente, é sempre a fonte de luz.

Mas, embora originalmente derivada do Oriente, a Igreja de nossos dias e de nosso país é modelada diretamente a partir da mitologia greco-romana, e de lá retira todos os seus ritos, doutrinas, cerimônias, sacramentos e festivais.

Portanto, a exposição que será feita sobre o Cristianismo Esotérico tratará mais especificamente dos mistérios do Ocidente, uma vez que suas ideias e sua terminologia são para nós mais atrativas e próximas do que as concepções não artísticas, a metafísica não familiar, o espiritualismo melancólico e a linguagem pouco sugestiva do Oriente.

Extraindo sua essência-vital diretamente da fé pagã do velho mundo Ocidental, o Cristianismo mais proximamente se parece com seus pai e mãe imediatos, do que com seus ancestrais remotos, e será, então, melhor exposto com referência a suas fontes da Grécia e de Roma, do que com referência a seus paralelos bramânicos e védicos.

A Igreja cristã é católica, ou então ela não é nada que mereça, em absoluto, o nome de Igreja. Pois católico significa universal, todo-abarcante: – a fé que sempre e em todos os lugares foi recebida. A prevalecente visão limitada desse termo é errada e prejudicial.

A Igreja cristã foi inicialmente chamada de católica porque ela abarcava, compreendia e tornou seu o passado religioso de todo o mundo. Reunindo em sua figura central – do Cristo – e em torno dessa figura todas as características, lendas e símbolos até então pertencentes às figuras centrais das dispensações anteriores, proclamando a unidade de toda aspiração humana, e formulando em um grande sistema ecumênico as doutrinas do Oriente e do Ocidente.

Assim, a Igreja católica é védica, budista, zend-avesta e semítica. Ela é egípcia, hermética, pitagórica e platônica. Ela é escandinava, mexicana e druídica. Ela é grega e romana. Ela é científica, filosófica e espiritual.

Encontramos em seus ensinamentos o panteísmo do Oriente, e o individualismo do Ocidente. Ela fala a língua e pensa os pensamentos de todos os filhos dos homens; e em seu templo todos os deuses estão em um lugar sagrado.

Eu sou vedantina, budista, helenista, hermética e cristã, porque eu sou católica. Pois nessa única palavra todo o Passado, Presente e Futuro estão abarcados.” [The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 94-96]

 

Por que esse ponto da catolicidade é tão importante em nossa época?

Primeiro, porque vivemos em um mundo cada vez mais interligado pelos satélites, pelos meios de comunicação, com o exemplo paradigmático da Internet, pelos meios de transportes aéreos, e pela economia cada vez mais globalizada.

Segundo, porque vivemos em uma época dominada pelo pensamento cientificista, na qual é tão somente pela compreensão resultante de claras explicações lógicas e, tanto quanto possível, amparadas em demonstrações experimentais que as mentes mais intelectualizadas podem alcançar a verdade.

Já no que diz respeito às grandes verdades metafísicas (que são tão decisivas para a criação de uma ética verdadeira, assim como de novas grandes instituições), é tão somente pelo método comparativo que será possível demonstrar que em todos os lugares e épocas os sábios ensinaram as mesmas verdades. A demonstração desse fato evidenciará (entre outros princípios da maior relevância), a existência de faculdades superiores de cognição, faculdades que permitem ao ser humano uma realização direta da verdade. Apenas essa demonstração e essa compreensão necessariamente trarão uma visão mais verdadeira acerca do que é o ser humano, uma visão que é tão fundamental e decisiva para a grande reforma intelectual nas ideias dominantes no mundo. Isso está sintetizado na seguinte citação de Helena Blavatsky:

 

“Pois tão somente através do estudo das várias grandes religiões e filosofias da humanidade e da comparação desapaixonada delas com uma mente sem preconceitos, que os homens podem esperar alcançar a verdade. E é especialmente descobrindo e percebendo seus vários pontos concordantes que podemos alcançar esse resultado.” (A Chave para a Teosofia, p. 63)

 

A catolicidade da mensagem do “Novo” Evangelho da Interpretação se harmoniza perfeitamente com esse requerimento de nossa época (de explanações lógicas e amparadas em demonstrações empíricas). Há, ainda, outros dois aspectos que devemos mencionar, mesmo que muito sinteticamente:

1) No “Novo” Evangelho da Interpretação está apresentada – de forma mais clara do que em qualquer outro autor ou livro – a necessária união do Cristianismo com o Budismo. Lembremos aqui que o Budismo, com sua fundamentação lógica e não teísta, está bem adaptado a ser a base moral de uma era dominada pelo cientificismo.

2) Essa mensagem está em perfeita sintonia com os princípios da Filosofia Esotérica (ou Filosofia Perene), e com a devida ênfase ao aspecto da “unidade na diversidade, uma vez que esse ponto é decisivo para a correta compreensão do princípio da Fraternidade Universal da Humanidade, que é a visão de ser humano (coletivamente considerado) derivada da Filosofia Perene.

Essa visão está presente em todas as principais tradições religiosas e filosóficas. Esse aspecto, é importante salientar, encontra respaldo em pesquisas empíricas, como evidenciamos em nossos trabalhos na área da Ciência Política (A Consciência Política na Massa, dissertação de Mestrado, UFRGS; e O Que Há de Errado com a Política?), onde procuramos destacar e corroborar os estudos do cientista político norte-americano Philip E. Converse.

Concluímos esse artigo com mais algumas citações onde esses dois últimos aspectos mencionados são devidamente enfatizados e um pouco mais explicados:

 

1) “O Cristianismo foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. E os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente. (…)

Se não fosse por Buda, não poderia ter havido Jesus, nem teria ele sido suficiente para atender ao homem integral; pois o homem deve ter a Mente iluminada antes que as Afeições possam ser despertadas. Nem teria sido o Buda completo sem Jesus. Buda completou a regeneração da Mente; e por meio de sua doutrina e prática os homens são preparados para a graça que vem por meio de Jesus. Motivo pelo qual nenhum homem pode ser propriamente cristão, se não for também e primeiramente budista.

Assim, as duas religiões constituem, respectivamente, o aspecto exterior e o aspecto interior do mesmo Evangelho, os alicerces estando no Budismo – incluindo nesse termo o Pitagorianismo – e a iluminação estando no Cristianismo. E da mesma forma que sem o Cristianismo o Budismo está incompleto, assim também o Cristianismo sem o Budismo é ininteligível.” [The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), pp. 250-251; grifo nosso]

 

2) “Da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a esperada redenção do mundo.” (O Caminho Perfeito, p. 252; grifo nosso)

 

3) Uma vez erguido o véu do simbolismo da face divina da Verdade, todas as Igrejas são similares, e a doutrina básica de todas é idêntica (…). Grega, Hermética, Budista, Vedantina, Cristã – todas essas Lojas dos Mistérios são essencialmente unas e são idênticas em doutrina. (…)

Nós sustentamos que nenhum credo eclesiástico isolado é compreensível somente por si mesmo, se não for interpretado com o auxílio de seus antecessores e de seus contemporâneos.

Por exemplo, estudantes de teologia cristã somente aprenderão a entender e a apreciar o verdadeiro valor e significado dos símbolos que lhes são familiares por meio do estudo da filosofia Oriental e do idealismo pagão.

Pois o Cristianismo é o herdeiro dessa filosofia e desse idealismo, e o que há de melhor em seu sangue vem das veias dessa filosofia e desse idealismo.

E visto que todos os seus grandes antecessores ocultaram por trás de suas fórmulas e ritos externos – os quais são meras cascas e coberturas para entreter os pobres de entendimento – as verdades internas ou ocultas reservadas ao iniciado, assim também o Cristianismo reserva aos buscadores sérios e aos pensadores mais profundos os Mistérios internos verdadeiros, que são unos e eternos em todos os credos e igrejas desde o princípio do mundo.

Esse significado verdadeiro, interior e transcendental é a Presença Real velada nos Elementos do Divino Sacramento: – a substância mística e a verdade simbolizadas sob o pão e o vinho das antigas orgias de Baco, e agora da nossa própria Igreja Católica.

Para aquele não sábio, que não pensa profundamente, que é supersticioso, os elementos físicos são a finalidade do rito; para o iniciado, o vidente, o filho de Hermes, eles são apenas os sinais externos e visíveis daquilo que é sempre, e necessariamente, interno, espiritual e oculto.” [Life of Anna Kingsford (Vida de Anna Kingsford), Vol. II, pp. 123-124; grifos nossos]

 

4) “Vejam que acima de todas as coisas vocês ensinem a doutrina das Castas. Os cristãos cometeram um sério erro ao requerer a mesma regra de todas as pessoas. As castas são como degraus por meio dos quais se ascende do mais baixo para o mais alto. Elas são, propriamente, graus ou níveis espirituais, e não guardam qualquer relação com a condição externa da vida. Como todas as demais doutrinas, aquela das castas foi materializada. As castas são quatro em número, e correspondem à quádrupla natureza do homem.” (p. 50) (Anna Kingsford. Vestida com o Sol – O Livro das Iluminações de Anna Kingsford. Terceira Edição, 1937. 210 pp.)

 

5) “O grande princípio da Reencarnação corre parelho com o princípio da Fraternidade Universal, porém isto ocorre se o aplicamos e o convertemos em uma coisa positiva na vida quotidiana. Porque dessas diferenças de idade surgem todas as possibilidades de uma Sociedade ordenada e feliz.” (Annie Besant, A Fraternidade Aplicada às Condições Sociais, O Teosofista, p. 260, mar-abr/1939; grifo nosso)

 

6) “O termo “Fraternidade Universal” não é nenhuma frase ociosa. (…) é a única fundação segura para a moralidade universal.” (K.H., ML, carta n. 4; grifo nosso)

 

7) “Não serão nunca os fenômenos físicos que trarão convicção aos corações dos incrédulos na “Fraternidade” (Universal), mas sim fenômenos de intelectualidade, filosofia e lógica, se assim posso me expressar.” (K.H., ML, carta n. 35; grifo nosso)

 

Obras Mencionadas:

 

Barker, A.T., comp. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett. Pasadena, Theosophical University Press, 1975. 589 pp.

Besant, A. The Changing World and Lectures to Theosophical Students. London, The Theosophical Publishing Society, 1910. 333 pp.

Blavatsky, Helena P. The Key to Theosophy. Bombay, Theosophy Company, 1987. 367 pp.

Converse, Philip E. – The Nature of Belief Systems in Mass Publics. In: APTER, D. E., org. Ideology and Discontent. New York, The Free Press of Glencoe, 1964. p. 206-261.

Converse, Philip E. – Public Opinion and Voting Behaviour. In: GREENSTEIN, F. I. – Handbook of Political Science, vol. 4, Reading, Massachusetts, 1975. p. 75-169.

Converse, Philip E. et al. – The American Voter. New York, Wiley, 1960. 576 p.

Jinarajadasa, C., comp. Letters from the Masters of the Wisdom, 1st Series. Adyar, The Theosophical Publishing House, 1973. 183 pp.

Jinarajadasa, C., comp. Letters from the Masters of the Wisdom, 2nd Series. Adyar, The Theosophical Publishing House, 1973. 189 pp.

Kingsford, Anna e Maitland, Edward. The Perfect Way; or, the Finding of Christ. Hamilton, Adams & Co., Londres, 1882. Segunda edição, aumentada e revisada: Field and Tuer, Londres, 1887; e também Esoteric Publishing Company, Boston, 1988. Terceira edição: 1890. Quinta edição, com adições, e um Prefácio Biográfico de Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1923. 405 pp.

Kingsford, Anna e Maitland, Edward. The Credo of Christendom: and Other Addresses and Essays on Esoteric Christianity. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1916. 256 pp.

Kingsford, Anna. Clothed with the Sun, Being the Book of the Illuminations of Anna (Bonus) Kingsford. Editado por Edward Maitland. Primeira edição: John M. Watkins, Londres, 1889. Segunda edição: The Ruskin Press, Birmingham, 1906. Terceira edição: editada por Samuel Hopgood Hart, 1937. Sun Books (reimpressão), Santa Fe, 1993. 210 pp.

Maitland, Edward. Anna Kingsford – Her Life, Letters, Diary and Work. Dois volumes. Terceira edição, editada por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1913. Vol. I, 442 pp.; Vol. II, 466 pp.

Sisson Filho, Arnaldo. A Consciência Política na Massa e as Eleições de 1982 em Porto Alegre. (The Political Consciousness in Mass Publics). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1984. 159 p. Diss. M.A. Ciência Política.

Sisson Filho, Arnaldo. O Que Há de Errado com a Política? (What Is Wrong with Politics?). Roda e Cruz Edições, Brasília, 2010. 107 pp. (https://www.humanitarismo.com.br/livro-o-que-ha-de-errado-com-a-politica/)

 

 

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo)

 

Informações Iniciais:

Anna Kingsford e Edward Maitland. Hamilton, Adams & Co., Londres, 1882. Segunda edição, revisada e ampliada: Field and Tuer, Londres, 1887; e também, Esoteric Publishing Company, Boston, 1988. 3a edição: 1890. Quinta edição, editada, com adições e longo prefácio, por Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1923. 405 pp.

A obra está no Site Anna Kingsford, gratuita, na íntegra, em inglês. (https://www.annakingsford.com)

Temos aqui, pela primeira vez na Internet, o texto completo da Quinta Edição (1923) de O Caminho Perfeito. Essa obra, possivelmente a mais importante, certamente é a obra mais conhecida de Anna Kingsford e Edward Maitland. Para uma ideia de sua importância citaremos a seguir algumas passagens. A primeira é do obituário para Anna Kingsford escrito por Madame Helena Blavatsky. Ali, entre outros elogios, podemos ler:

 

“Ela era (…) uma líder do pensamento espiritual e filosófico, dotada dos mais excepcionais atributos psíquicos. Junto com o Sr. Edward Maitland, seu mais verdadeiro amigo (…) ela escreveu várias obras tratando de temas metafísicos e místicos. A primeira e mais importante delas foi O Caminho Perfeito, ou, a Descoberta de Cristo, que dá o significado esotérico do Cristianismo.” (The Late Mrs. Anna Kingsford, M.D.)

 

A segunda é uma citação de Samuel H. Hart em seu ensaio In Memoriam to the Rev. G.J.R. Ouseley (Em Memória do Rev. G.J.R. Ouseley). Ali ele nos traz a opinião do Rev. Gideon Jasper Richard Ouseley sobre O Caminho Perfeito. O Rev. Ouseley foi o autor de O Evangelho dos Doze Santos:

 

“Conversamos os dois longamente, embora com alguma dificuldade em razão de sua surdez. Quando lhe falei do meu interesse nos ensinamentos de O Caminho Perfeito, ele disse que em sua opinião era “a mais luminosa e melhor de todas as revelações que tinham sido dadas ao mundo”. Numa carta para a revista Light (1882, p. 475) ele descreveu O Caminho Perfeito como “o mais maravilhoso de todos os livros que apareceram desde a era cristã”. Mas ele desacreditava que o mundo jamais o recebesse bem, porque “o mundo sempre rejeitou a Verdade; sempre crucificou a Cristo e sua doutrina, e por que não faria isso novamente?”. De uma coisa, contudo, ele estava seguro: A Igreja do futuro será a Igreja de O Caminho Perfeito’.” (Samuel H. Hart. In Memoriam to the Rev. G.J.R. Ouseley)

Finalmente, a opinião sobre O Caminho Perfeito do Barão Giuseppe Spedalieri, citado no Prefácio para a Segunda Edição (Revisada), dessa mesma obra.

O veterano estudante da “ciência divina” [N.T.: Barão Giuseppe Spedalieri], sobre o qual a referência como o amigo, discípulo, e sucessor literário do renomado mago, o finado Abbé [N.T.: Abade.] Constant (“Elifas Levi”), será para todos os estudiosos uma indicação suficiente de sua personalidade, assim nos escreveu:

 

“Assim como com as correspondentes Escrituras do passado, o destaque a favor de seu livro é, realmente, de milagres: mas com a diferença que no seu caso os milagres são intelectuais e incapazes de simulação, sendo milagres de interpretação. E eles possuem a distinção adicional de não cometer nenhum atentado violento ao bom senso ao infringir as possibilidades da Natureza; ao mesmo tempo que eles estão em completo acordo com todas as tradições místicas, e especialmente com a grande Mãe destas – a Cabala. Que milagres, tais como os que estou descrevendo, devem ser encontrados O Caminho Perfeito, em número e espécie não igualados, aqueles que são os mais qualificados para julgar serão os mais rápidos a afirmar.

E aqui, a propósito dessas célebres Escrituras, permitam-me oferecer-lhes algumas observações sobre a Cabala conforme a temos. É minha opinião:

(1) Que essa tradição está longe de ser genuína, tal como era em sua emergência original dos santuários.

(2) Que quando Guillaume Postel – de excelente memória – e seus irmãos Hermetistas da alta Idade Média – o Abade Trithemius e outros – predisseram que esses livros sagrados dos hebreus deveriam tornar-se conhecidos e compreendidos no final da era, e especificaram o presente tempo para aquele evento, eles não queriam dizer que tal conhecimento deveria estar limitado à mera divulgação dessas particulares Escrituras, mas que teria por base uma nova iluminação, a qual deveria eliminar daquelas tudo o que foi ignorantemente ou propositadamente introduzido, e deveria reunificar aquela grande tradição com a sua fonte ao restaurá-la em toda a sua pureza.

(3) Que essa iluminação recém foi realizada, e foi manifestada em O Caminho Perfeito. Pois nesse livro encontramos tudo o que há de verdade na Cabala, complementado por novas intuições, tais que apresentam um corpo de doutrina ao mesmo tempo completo, homogêneo, lógico e inexpugnável.

Uma vez que toda a tradição se encontra assim recuperada ou restaurada na sua pureza original, as profecias de Postel etc., estão cumpridas, e considero que daqui para frente o estudo da Cabala será apenas um objeto de curiosidade e erudição como aquele das antiguidades hebraicas.

A humanidade tem sempre e em todos os lugares se perguntado estas três supremas questões: – De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Pois bem, essas três questões encontram uma ampla resposta, completa, satisfatória, e consoladora em O Caminho Perfeito.” (pp. Lxxviii-lxxix) [Quinta edição. John M. Watkins, Londres, 1923. 405 pp.]

 

Para dar uma ideia dos conteúdos dessa obra segue o Sumário de Temas e Conteúdos:

 

Prefácios

Prefácio para a Quinta Edição (i-lxvii)

Prefácio para a Segunda Edição (Revisada) (lxix-lxxx)

Prefácio para a Primeira Edição (lxxxi-lxxxviii)

 

Primeira Conferência: INTRODUÇÃO

 

PARTE 1. Propósito deste livro; suprir a necessidade de um sistema perfeito de pensamento e de vida com um sistema fundado na natureza da existência. Este não é uma nova invenção, mas uma recuperação do sistema original que era base de todas as religiões. Sua recuperação deu-se pelo mesmo meio pelo qual foi originalmente recebido, a saber, a Intuição, que representa os conhecimentos adquiridos pela Alma em suas existências passadas, e complementa o intelecto, sendo a Intuição estimulada e aumentada pela iluminação do Espírito. A Revelação, uma justa prerrogativa do homem, pertence-lhe em virtude de sua natureza e constituição, e é coroamento da razão. Deus, a Razão suprema. O Entendimento, a “Pedra” da verdadeira Igreja. Ilustrações do Método, clássico e rabínico. Esboço da doutrina. Espírito e Matéria: sua natureza, relações e identidade essencial. Existência e Ser. Kalpa, Sabbath e Nirvana, Divindade da Substância: sua unidade e trindade, e modo de individualização e desenvolvimento. A verdadeira doutrina da criação pela evolução; encontrada em todas as religiões, assim como também a da progressão e da migração das Almas; testemunho pessoal e histórico de sua verdade; reconhecida no Antigo e no Novo Testamento. O homem rudimentar. A Esfinge. (1-25)

 

PARTE II. Relação do sistema recuperado com aquele verdadeiro herdeiro. Religião, sendo fundada na natureza da existência, é necessariamente não histórica, independente de épocas, lugares e pessoas, e apela perpetuamente para a mente e a consciência. Objeções antecipadas. Persistência das ideias religiosas em razão de sua realidade. O aparentemente novo não necessariamente é realmente novo. Cristianismo não está isento das influências que provocaram a deterioração do Judaísmo. Seu futuro desenvolvimento por meio de nova revelação foi previsto por seu Fundador. Necessidade dessa nova revelação para preservar, não apenas a religião, mas a própria humanidade da extinção. O “homem do pecado” e a “abominação que produz a desolação”. (Daniel 11, 31) Substituição do Evangelho da Força pelo Evangelho do Amor. Um nome por meio do qual há salvação, mas muitos portadores. Os Cristos. (25-37)]

 

Segunda Conferência: A ALMA; E A SUBSTÂNCIA DA EXISTÊNCIA

 

PARTE I. A Alma, universal ou individual, a temática e o objetivo supremos da cultura; o eu essencial, em conhecê-lo reside a única sabedoria, que envolve o conhecimento de Deus. Misticismo ou Espiritualismo, e Materialismo, as doutrinas da Substância ou Espírito, e do fenômeno, respectivamente. Matéria é um modo ou condição do Espírito, e indispensável para sua manifestação. O objetivo de toda religião e temática de toda revelação: a redenção do Espírito da Matéria. Necessidade da criação da ideia de Não-Deus. A ascensão desde a Aparência da Natureza até o Ser de Deus. O sistema recuperado e o Materialismo, respectivamente, como Phoebus e Python. (38-44)

 

PARTE II. A Alma como indivíduo, sua gênese e natureza: a ideia divina; eterna em sua natureza, mas perecível se divergente do Espírito. O “Fogo do coração”: o alento Divino. Convergência e divergência: o Nirvana celestial e aquele da aniquilação. O fim do mal persistente. O planeta e sua descendência. A natureza quádrupla da existência, tanto no macrocosmo quanto no microcosmo, devido a diferenciações de polarização da substância original. (44-50)

 

PARTE III. A Alma como indivíduo, sua história e progresso: começando com os mais simples organismos, ela opera de forma ascendente, moldando-se de acordo com as tendências por ela incitadas; seu objetivo final é escapar da necessidade de um corpo e retornar à condição de Espírito puro. Almas são diversas parábola dos Talentos. (50-52)

 

PARTE IV. Acerca da natureza de Deus; como Substância Viva: Uno; como Vida e Substância: Dual; a Potencialidade de todas as coisas; o Bem absoluto, mediante a limitação do qual, pela Matéria, surge o mal. Subsiste anteriormente à criação como Luz Invisível. Como Vida, Deus é Ele, como Substância, é Ela; respectivamente o Espírito e a Alma, universal e individual; a Alma é o elemento feminino no homem, tendo sua representante na mulher. Deus a original, abstrata Humanidade. Os Sete Espíritos de Deus. “A Natureza”. A Maria celestial, suas características e símbolos. Como Alma ou Intuição, ela é a “mulher”, por meio da qual o homem atinge sua verdadeira maioridade. A falha dessa época a esse respeito. Não havendo intuição, não há instrumento do conhecimento. A Alma tão-somente é tal instrumento. (52-58)

 

PARTE V. Nomes Divinos, denotativos de características. Função da religião: capacitar o homem a manifestar o Espírito divino dentro de si. O homem como uma expressão de Deus. Os Cristos, por que são chamados de Deuses Sóis? O planisfério Zodiacal; uma Bíblia ou hieróglifo da história da Alma. Bíblias, por quem são escritas. A “Dádiva de Deus”. (58-63)

 

Terceira Conferência: AS VÁRIAS ORDENS DE ESPÍRITOS; E COMO DISCERNÍ-LOS

 

PARTE I. A esfera do astral, seus quatro círculos e seus respectivos ocupantes. As Sombras; purgatório; “inferno”, “diabos”, “o Diabo”; possessão por demônios; “almas aprisionadas”; “sob os elementos”; espíritos dos elementos, sujeitos à vontade humana; almas dos mortos; a anima bruta e a anima divina. Metempsicose e reencarnação; condições dessa última; descida a graus inferiores; causa da perda da Alma. (64-75)

 

PARTE II. Os espíritos magnéticos ou astrais pelos quais, comumente, os “médiuns” são “controlados”; são reflexos mais do que espíritos; dificuldade de distingui-los das Almas; elementos de erro e de enganação; caráter ilusório das influências astrais; suas características; perigo de uma atitude negativa da mente; necessidade de uma atitude mental positiva para a comunicação Divina; espíritos elementais e elementares; genii loci (gênios locais); querubim. (76-85)

 

PARTE III. A esfera do celestial; a sequência de geração do Espírito; o triângulo da vida; o Gênio ou anjo guardião, sua gênese, natureza e funções; os Deuses, ou Arcanjos. (85-93)

 

Quarta Conferência: A EXPIAÇÃO

 

PARTE I. Esta é a doutrina central da religião e, como o Cosmos, é quádrupla em sua natureza. O que a doutrina não é; sua corrupção pelo materialismo; degradação sacerdotal do caráter da Deidade. A Bíblia representa o conflito entre profeta e sacerdote, o primeiro como ministro da intuição, e o último como ministro dos sentidos. (94-99)

 

PARTE II. O lado oculto do sistema sacrificial. O derramamento de sangue é eficaz na evocação de espíritos subumanos, como mostrado por vários exemplos. Esses espíritos sendo visíveis na fumaça dos sacrifícios. Espíritos do astral fazem-se passar pelos celestiais. O verdadeiro profeta abomina o derramamento de sangue, como ilustrado na repreensão de Buda aos sacerdotes. A doutrina ortodoxa da expiação por meio de outra pessoa é uma falsificação da verdadeira doutrina, devida a espíritos do astral. Efeitos perniciosos do uso do sangue (ou carne) como alimento; impossibilidade, tendo essa dieta, de alcançar plena percepção da verdade divina. (99-105)

 

PARTE III. Antiguidade e universalidade da Cruz como símbolo da Vida física e espiritual. Sua quádrupla aplicação à doutrina da Expiação, tendo um significado separado para cada esfera da natureza do homem. Desses significados o primeiro é o do físico e externo, denotando a crucificação ou rejeição do Homem de Deus pelo mundo. O segundo é intelectual, e denota a crucificação ou conquista, no homem, de sua natureza inferior. O terceiro, que se refere à Alma, implica a paixão e oblação (oferecimento) de si mesmo, por meio do que o homem regenerado obtém o poder – pela demonstração da supremacia do Espírito sobre a Matéria – de tornar-se um Redentor para os outros. O quarto, pertencente à esfera Celestial e mais interna, denota o perpétuo sacrifício da Vida e Substância de Deus para a criação e salvação de Suas criaturas. A natureza panteísta da verdadeira doutrina. (105-117)

 

Quinta Conferência: A NATUREZA E CONSTITUIÇÃO DO EGO

 

PARTE I. Psique como a Alma e verdadeiro Ego é o resultado da Evolução, sendo individualizada através da Matéria. (118-123)

 

PARTE II. As duas personalidades do homem. Carma ou o resultado da conduta passada e o consequente destino. A alma essencialmente imaculada. (123-124)

 

PARTE III. O Ego é mais que a soma total das consciências que compõem o sistema, como representando essas consciências combinadas e polarizadas a um plano superior. Apenas a Psique é subjetiva e capaz de conhecimento. (125-135)

 

PARTE IV. A Sombra, o Fantasma e a Alma; suas respectivas naturezas e destinos. (135-139)

 

PARTE V. A Anima Mundi, ou Memória do Mundo. A alma do planeta, como aquela do indivíduo, transmigra e passa adiante. (139-141)

 

PARTE VI. A Evolução do Ego, e nesse particular da Igreja de Cristo, implícita nos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção da B.V.M. (Bem-aventurada Virgem Maria). (141-144)

 

Sexta Conferência: A QUEDA (Nº. 1)

 

PARTE I. A primeira Igreja; seu modelo a Kaabeh, ou cubo, denotando a qualidade do sêxtuplo; tem origem no “Paraíso”. Merkaba, ou veículo de Deus, puxado pelos quatro elementos. Os quatro rios do Éden. Caráter alegórico das Escrituras Místicas; como foi recuperado por Esdras; sua origem e corrupção. (145-153)

 

PARTE II. A parábola da Queda: seu significado é quádruplo, sendo um para cada esfera da existência; o primeiro, físico e social. (154-161)

 

PARTE III. O segundo significado é racional e filosófico; o terceiro, psíquico e pessoal. (161-166)

 

PARTE IV. O quarto significado é espiritual e cósmico. A Restauração implícita no Sabbath, e profetizada no Zodíaco, e nas armas do Papa Leão XIII. (166-171)

 

PARTE V. Uma nova Anunciação. (172-175)

 

Sétima Conferência: A QUEDA (Nº. 2)

 

PARTE I. Interpretação das Escrituras é dual, intelectual e intuicional, ou exterior e interior; a Alma como a Mulher, mediante cuja aspiração a Deus o homem se torna Homem no sentido místico, e é feito à imagem de Deus; e mediante cuja inclinação à Matéria ele cai dessa imagem. Como a queda é pela perda da pureza, assim a Redenção é pela restauração da pureza. (176-187)

 

PARTE II. A história da Alma conforme é apresentada de forma alegórica nos livros do Gênesis e do Apocalipse. (187-194)

 

PARTE III. Fonte dos erros na interpretação bíblica. A base histórica da Queda. A Igreja como a Mulher. Ascensão e Queda da Igreja original. Uma comunidade mística primitiva. A fonte da doutrina, interior e superior aos sacerdócios. (194-204)

 

PARTE IV. Natureza e método da Queda histórica. Três passos por meio de cujo retrilhar virá a Restauração. Sinais de sua aproximação. (204-209)

 

Oitava Conferência: A REDENÇÃO

 

PARTE I. A “grande obra” a Redenção do Espírito da Matéria: primeiro no individual (Microcosmo), depois no universal (Macrocosmo). Definição dos termos místicos usados para denotar o processo: “Paixão”, “Crucificação”, “Morte”, “Sepultamento”, “Ressurreição”, “Ascensão”. (210-217)

 

PARTE II. O Homem aperfeiçoado e detentor de poder; a “pedra filosofal” e termos afins; o Adepto e o Cristo: sentido no qual esse último pode ser chamado um médium para o Altíssimo; não como ordinariamente compreendido: o Hierarca ou Mago, suas qualificações e condições. (217-224)

 

PARTE III: Esquema dos Evangelhos de apresentar perfeito personagem de Homem Regenerado; escolha de Jesus como objeto de estudo; a falha da Igreja em compreender através da perda da visão espiritual, devido ao Materialismo. Resposta à objeção. Jesus como Libertador necessariamente espiritual; A visão de Paulo. Método do simbolismo dos Evangelhos; os milagres; ordem cósmica dos Evangelhos. (225-232)

 

PARTE IV. Parentescos do Homem Regenerado. José e a Virgem Maria como representantes da Mente e da Alma. Os dois Josés. Tradição católica e história dos santos. Maria Madalena como modelo de Alma; também as Sete Igrejas Apocalípticas. Identificação dos Magos; o Estábulo e Caverna da Natividade. O João Batista interno. Os Atos da B.V.M. Ascensão e Assunção. Estado Final da Alma. (232-244)

 

PARTE V. Os Doze Portões da Salém Celestial; o Tabernáculo; a Távola Redonda e seu “Senhor Brilhante”; o Número da Perfeição; a genealogia do Homem Regenerado; “Cristo” não Deus encarnado ou anjo, mas o ser humano mais elevado. A atual condição do mundo é devida à degradação da verdade pelos sacerdotes. Os Evangelhos cristãos representam apenas estágios superiores da regeneração, os primeiros foram exemplificados nos sistemas de Pitágoras e Buda. O Cristianismo foi formulado com referência direta a esses, não para suplantá-los, mas para completá-los; Buda e Jesus sendo necessários um ao outro, como cabeça e coração do mesmo sistema. Desses, combinados, serão produzidas a Religião e a Humanidade do futuro; daí a importância da conexão entre a Inglaterra e o Oriente. “Abraão, Isaac e Jacó”, suas relações com os mistérios de Brahma, Isis e Iacchos. Os “Reis do Oriente”. A “Questão do Oriente”; sua significância interior; o destino do Islamismo. (p. 244-257)

 

Nona Conferência: DEUS COMO O SENHOR; OU, A IMAGEM DIVINA

 

PARTE I. Os dois modos da Deidade; Deus como o Senhor, na Bíblia, na Cabala, e no Bhagavat-Gita. Swedenborg e sua doutrina: suas limitações e suas causas. A doutrina Hermética. A “Montanha do Senhor”. Verdadeiros significados do “Mistério”; degradação do termo pelos sacerdotes, e seus resultados perniciosos. (258-264)

 

PARTE II. Função do Entendimento com relação às coisas espirituais. Seu lugar nos sistemas humano e divino. O “Espírito do Entendimento”, seus vários nomes e símbolos, e sua relação com o Cristo. Mitos cognatos como ilustração. Hermes conforme visto pelos Neoplatônicos e pelos modernos Materialistas. Místico e Materialista, a contenda entre ambos. A Escola de Torturadores. O “Mistério do Ser Divino”, de acordo com a Cabala e com Paulo. A doutrina Paulina concernente à Mulher; seu contraste com a doutrina de Jesus. A mulher de acordo com Platão, Aristóteles, Filon, os Padres, a Igreja, a Reforma, Milton, o Islamismo e os Mórmons. (264-282)

 

PARTE III. Acusações pelas quais se busca desacreditar o sistema dos Místicos; Plagiarismo e Entusiasmo: o sentido e o valor desse último. Êxtase: sua natureza e função. Místicos e Materialistas, seus respectivos pontos de vista. Conspiração da ciência moderna contra a Alma. Materialistas, antigos e modernos, comparados. (282-291)]

 

PARTE IV. A percepção de Deus pelo ser humano, sensível tanto quanto mental. Unidade, Dualidade, Trindade e Pluralidade Divinas. O Logos, ou Aquele que Manifesta. O mistério da Face humana. (291-295)

 

PARTE V. A Visão de Adonai. (296-299)

 

PARTE VI. “Cristo” como a culminação da Humanidade e ponto de junção com a Deidade. O Credo dos Eleitos. (299-302)

 

 

 

ARMADURA DE MIGUEL

 

Citação (1): Cavalo É o Símbolo da Inteligência: Ordem Divina da Cavalaria É a Ordem do Cristo

 

“A divina Ordem da Cavalaria é a inimiga do isolamento ascético e do indiferentismo. É a Ordem do Cristo que anda pelo mundo fazendo o bem. O cavaleiro cristão, montado em um valente corcel (pois o cavalo é o símbolo da inteligência), e equipado com a armadura de Miguel, é o modelo da vida espiritual – a vida de ativa e heroica caridade.” [Anna Kingsford. Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos), p. 278; grifos nossos]

 

 

 

ÁRVORE DA CIÊNCIA DO BEM E DO MAL, OU ÁRVORE DA VIDA (NO ÉDEN)

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

 

LETRA “B”

– Bíblia: Coleção de Símbolos e Parábolas

 

 

 

BÍBLIA: COLEÇÃO DE SÍMBOLOS E PARÁBOLAS

 

Citação (1): Bíblia Apresenta Queda e Redenção das Almas Sob a Forma de Símbolos e Parábolas

Citação (2): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

Texto (1): Bíblia Insiste no Sentido Esotérico

 

 

Citação (1): Bíblia Apresenta Queda e Redenção das Almas Sob a Forma de Símbolos e Parábolas

 

“Se apenas uma vez pudermos ler a Bíblia com a visão não obscurecida pelo véu de sangue, e não distorcida pelo preconceito, então todo o seu mistério – o mistério de nossa queda e de nossa redenção – torna-se claro como o céu sem nuvens. Pois, então, podemos identificar como algo que ocorre em nossas próprias almas todo o processo, desde o começo até o fim, que a Bíblia, do Gênesis até o Apocalipse, apresenta sob a forma de símbolos e parábolas, precisamente como fez Nosso Senhor ele mesmo.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo), capítulo O Vegetarianismo e a Bíblia, p. 221; grifo nosso]

 

 

Citação (2): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

Texto (1): Bíblia Insiste no Sentido Esotérico

 

“Vamos, inicialmente, defender – a partir da própria Escritura – a afirmação da existência de um sentido esotérico, o qual a Escritura insiste como sendo seu sentido verdadeiro e divinamente designado.

A própria necessidade de tal defesa é por si só uma prova concreta, não apenas da maneira inadequada, mas também injusta com que a Escritura tem sido tratada por seus expositores oficiais.

Que essa defesa seja algo necessário fica demonstrado, indiscutivelmente, pela acusação de blasfêmia que os expositores oficiais costumam levantar contra os que advogam um sentido esotérico. Essa acusação é feita com o argumento de que tal sentido visa “desviar a Escritura de seu sentido óbvio”. Ou seja, defendem o sentido “óbvio”, a visão superficial, e não o sentido espiritual, até rotulando seus escritores de insanos por atribuírem um sentido diferente do óbvio! Como se as coisas espirituais pudessem ser “óbvias” para a visão superficial!

Nesse ponto os literalistas demonstram que são incapazes de compreender que tentar transformar o sentido “óbvio” da Bíblia em seu sentido real significa destruí-la enquanto uma Bíblia, ou um livro da alma; uma vez que como livro da alma ela deve apelar à alma e não aos sentidos; e deve se referir não a pessoas, coisas e eventos pertencentes ao plano físico, mas a princípios, processos e estados puramente espirituais – ainda que expressos em termos derivados do plano físico – usando pessoas, coisas e eventos tão somente como forma de ilustração.

Os literalistas falham, além disso, em ver que – diante do fato de que todas as Escrituras antigas foram escritas de forma similar, ou seja, por meio de símbolos, parábolas e alegorias – insistir que a Bíblia tenha sido concebida literalmente é torná-la absolutamente diferente de todos os outros livros de sua ordem. As seguintes são algumas das passagens em que nos baseamos:

  1. “Tu verás o meu dorso” (os revestimentos usados como coberturas externas do santuário, e o material dos livros), “mas Minha face tu não verás” [Êxodo 33:23]. (Nessa passagem Moisés é informado que apenas o sentido externo, e não o verdadeiro sentido da Palavra Divina, seria reconhecido em sua época, pela razão dada a seguir: “a dureza do coração dos homens.”)
  2. “Moisés não lhes deu o pão do céu” – (o alimento da compreensão). [João 6:32].
  3. “Mesmo até nossos dias, quando Moisés é lido, o véu está sobre seus corações. No entanto (…) ele será removido” [2 Coríntios 3:15-16].
  4. “Ele tira o primeiro, para que ele possa estabelecer o segundo” [Hebreus 10:9].
  5. “E eles (os Levitas e Anciões) leram no livro, na lei de Deus, com uma interpretação, e fizeram com que eles (o povo) compreendessem a leitura” [Neemias 8:8].
  6. “E o coração bom, ou compreensivo (Caleb) disse, aquele que derrotar a cidade (ou sistema) da letra (Quiriate-Sefer) e a conquistar, a ele concederei o Rasgar do Véu (Acsa), minha filha, por esposa.”

“E o homem forte de Deus (Otniel) tomou-a, e ele concedeu-lhe o Rasgar do Véu, sua filha, por esposa. (E ela lhe trouxe como dote “as fontes superiores e inferiores”, uma expressão de uso frequente nas Escrituras para significar a satisfação de necessidades espirituais.”)

  1. “E aquilo que antes era chamado de a cidade, ou o sistema da letra, foi depois disso chamado de a Palavra (Debir)” [Josué 15:15-19].
  2. “Falamos teosofia (theou Sophia) em um mistério, até mesmo a sabedoria oculta (de Deus)”
  3. “Sabedoria dentre aqueles que são perfeitos (literalmente, maduros, implicando iniciados). (…), aos outros falamos como crianças pequenas” [1 Coríntios 2:6 e 1 Coríntios 3:1]
  4. “Tais coisas (no livro de Moisés) são uma alegoria; pois há duas alianças: uma é a do Monte Sinai, que gerou enquanto cativa, que é Agar” (a estrangeira que deve ser descartada como alheia à alma e ao verdadeiro sentido) [Gálatas 4:24].
  5. “Mas Jerusalém, que pertence ao alto (a doutrina perfeita, contida nos sentidos internos) é livre, a qual é a mãe de nós todos.”

“Mas o que diz a Escritura? Expulse a mulher cativa (o sentido literal) e seu filho” (a falsidade gerada a partir desse sentido) [Gálatas 4:24-30].

  1. “Não percebeis ainda, tampouco compreendeis? Tendes vossos corações endurecidos?”
  2. “Tendo olhos, não vedes? Tendo ouvidos, não escutais, e não vos lembrais?”
  3. “Como é que não compreendeis?”
  4. “Prestem atenção; acautelem-se do fermento dos fariseus” (literalismo e formalismo), “e do fermento de Herodes” [Mateus 16:6] (o Sacerdotalismo, que é sempre o assassino da intuição pura, e, por conseguinte, o assassino da inocência no homem. Tanto a palavra quanto o fato indicam Herodes como idêntico à Serpente do Éden).
  5. “Ó tolos e lerdos de coração para crerem em tudo o que os profetas falaram. (…) E começando por Moisés e todos os demais profetas, ele interpretou para eles em todas as Escrituras as coisas que diziam respeito a ele próprio” [Lucas 24:27]. (Pouco ou nada disso aparece numa leitura superficial dos livros mencionados.)
  6. “Ai de vocês advogados (Sacerdotes)”! “Pois vocês jogaram fora a chave do conhecimento (Gnosis); vós mesmos não adentraram, e aqueles que teriam adentrado vocês os tem impedido” [Lucas 11:52]. (Dirigido ao Sacerdotalismo de todos os tempos.)
  7. “Mas isso eu (Paulo) confesso a vós, que segundo a maneira com que eles” – os sacerdotes, meus acusadores – “chamam de heresia, assim louvo eu o Deus de meus pais, acreditando em coisas que estão escritas na lei e nos profetas” [Atos, 24:14].
  8. “Pois, como Jonas foi um sinal para o povo de Nínive, assim também será o Filho do homem para esta geração” [Lucas 11:30] (Pois o engolir Jonas pela baleia representou a supressão da verdadeira doutrina pelo Sacerdotalismo de seu tempo, e sua expulsão [de dentro dela], representou a restauração dessa doutrina, por meio da qual a Igreja foi liberta para cumprir sua missão, e assim seria Cristo uma demonstração individual dessa doutrina para o mundo, a despeito de sua supressão pelo Sacerdotalismo de Seu tempo.)
  9. “Se viverdes segundo a carne, morrereis.” [Romanos 8:13]
  10. “Daqui em diante, não conhecemos nenhum homem segundo a carne; sim, ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, no entanto, agora e daqui em diante já não O conhecemos mais.” [2 Coríntios 5:14]. (A carne denota aqui o sentido literal e pessoal, em distinção à verdade espiritual representada por Cristo, a saber, a doutrina da salvação pela regeneração como o caminho único para todos.)
  11. “Se Davi então o chamou de Senhor, como é ele seu Filho?” [Mateus 22:45]. (Um exemplo da confusão causada por se entender como sendo pessoas onde princípios era o significado pretendido).
  12. “Dê a César as coisas que são de César, e a Deus as coisas que são de Deus” [Mateus 22:21]. (Essa é uma injunção que se dá em razão de se atribuir o devido valor relativo aos dois sentidos das Escrituras, em distinção à preferência exclusiva pelo sentido superficial.)
  13. “Compreendeis o que ledes?” “Como poderia eu compreender a menos que alguém me orientasse?” [Atos 8:30-31].
  14. “Sois um Mestre de Israel e não conheceis essas coisas?” [João 3:10]. (Essa é uma reprimenda dirigida ao Sacerdotalismo de todas as épocas devido a sua cegueira quanto à doutrina espiritual da regeneração, e sua preferência pela doutrina sacerdotal do sacrifício vicário, enquanto que o próprio Jesus foi o categórico e típico exemplo da doutrina espiritual da regeneração.)
  15. “Abre meus olhos de modo que eu possa perceber as coisas maravilhosas contidas na tua lei!” [Salmos 119:19]
  16. “Mistério; Babilônia a grande; a mãe das prostitutas e das abominações da terra.” [Apocalipse 17:5]. (Essa é uma denúncia feita por Jesus, falando por seu “Anjo” através de “João o Divino”, contra o Sacerdotalismo como sendo a “Mulher Escarlate”, por negar ao homem a faculdade do entendimento, ao insistir na autoridade como o critério de verdade, e fazendo com que o Mistério consista em algo que transcende e contradiz a razão, ao invés de simplesmente requerer que a razão seja aplicada a um plano mais elevado, uma vez que é espiritual; falsificando, portanto, a doutrina totalmente razoável, representada por Jesus.) (Edward Maitland. O “Novo” Evangelho da Interpretação: Um Resumo do Cristianismo Místico da Dra. Anna Kingsford. Capítulo III: A Bíblia Insiste no Sentido Esotérico; grifos nossos)

 

 

 

LETRA “C”

– Cálice e Sangue

– Católico

– Cavalo – Cavalaria

– Ciência e Religião

– Corpo e Sangue de Cristo

– Cristianismo Budista

– Cristo

 

 

 

CÁLICE E SANGUE

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

“E é sempre pela crucificação e morte na cruz da renúncia daquele velho Adão, o ser inferior, e a ressurreição e ascensão para uma condição de perfeição verdadeira que a salvação é finalmente alcançada. E a razão pela qual todas essas verdades eternas na história da alma foram centralmente colocadas na vida do profeta de Nazaré é simplesmente porque, reconhecendo nele os sinais ou testemunho de sua realização de perfeição num grau nunca antes alcançado, e em sua história as adequadas correspondências simbólicas, o Espírito Divino, sob cuja inspiração os Evangelhos foram compostos, o selecionou como o ícone das possibilidades da humanidade em geral.

Porém, mesmo rejeitando dessa maneira como sendo idólatra, como uma blasfêmia, e como perniciosa no mais alto grau à doutrina, conforme ela é comumente conhecida, da Redenção, Reconciliação ou Salvação Vicária [N.T.: Aquela realizada por alguém em lugar de outro; no caso o sacrifício de Jesus Cristo para nos redimir do pecado, para nos reconciliar com Deus], ainda assim vemos em Cristo Jesus o “único Filho gerado por Deus” (“Filho único de Deus”) (João 3:16, 18). E ainda assim nos apegamos a Seu sangue e a sua cruz como os únicos meios da salvação.

Mas é o Cristo Jesus dentro de nós, ou o homem que renasceu de alma e espírito puros, como o próprio Jesus declarou que todos devem nascer – exatamente do mesmo modo como se descreve que Ele nasceu – a quem buscamos para nos salvar. E os meios são Sua cruz de autossacrifício, renúncia, e pureza de vida; e a recepção em nós mesmos daquele “Sangue de Deus” que não é nenhum sangue meramente físico – com o qual as imperfeições morais não possuem nenhuma relação – mas que é a vida de Deus, o próprio Espírito puro, o qual é Deus, e o qual Deus está sempre derramando em abundância para o bem de Suas criaturas, dando a elas de sua própria vida e substância.

Quão perniciosa é a doutrina da redenção (ou reconciliação) vicária, conforme ela é comumente aceita, é algo que pode ser visto pelas atuais condições do mundo: intelectualmente, moralmente e espiritualmente, não menos do que fisicamente.

O homem sempre se constrói segundo a imagem de seu Deus, isto é, segundo a sua ideia de Deus. E acreditando em um Deus que é injusto, egoísta e cruel, o homem não pode ser senão injusto, egoísta e cruel.

É precisamente essa má representação do caráter divino, e essa perversão da verdadeira e da única possível doutrina da reconciliação ou redenção, em uma doutrina que faz a salvação do homem um processo externo a si mesmo, e dependente da ação de outro que não ele mesmo, que, por meio da falsificação do Cristianismo, provocou o seu fracasso. E, ao invés de um mundo ordenado por princípios de justiça, simpatia e pureza, nos legou um mundo de más ações, de egoísmo e de sensualismo.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo). Capítulo: O Vegetarianismo e a Bíblia, pp. 222-223; grifos nossos].

 

 

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

 

CATÓLICO

 

Citação (1): Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

A FÉ cristã é a herdeira direta da velha fé romana. Roma foi a herdeira da Grécia, e a Grécia do Egito, de onde se originaram o legado de Moisés e o ritual hebraico.

O Egito foi apenas o foco de uma luz cuja verdadeira fonte e centro era o Oriente em geral Ex Oriente Lux. Pois o Oriente, em todos os sentidos, geograficamente, astronomicamente e espiritualmente, é sempre a fonte de luz.

Mas, embora originalmente derivada do Oriente, a Igreja de nossos dias e de nosso país é modelada diretamente a partir da mitologia greco-romana, e de lá retira todos os seus ritos, doutrinas, cerimônias, sacramentos e festivais.

Portanto, a exposição que será feita sobre o Cristianismo Esotérico tratará mais especificamente dos mistérios do Ocidente, uma vez que suas ideias e sua terminologia são para nós mais atrativas e próximas do que as concepções não artísticas, a metafísica não familiar, o espiritualismo melancólico e a linguagem pouco sugestiva do Oriente.

Extraindo sua essência vital diretamente da fé pagã do velho mundo Ocidental, o Cristianismo mais proximamente se parece com seus pai e mãe imediatos, do que com seus ancestrais remotos, e será, então, melhor exposto com referência a suas fontes da Grécia e de Roma, do que com referência a seus paralelos bramânicos e védicos.

A Igreja cristã é católica, ou então ela não é nada que mereça, em absoluto, o nome de Igreja. Pois católico significa universal, todo abarcante: – a fé que sempre e em todos os lugares foi recebida. A prevalecente visão limitada desse termo é errada e prejudicial.

A Igreja cristã foi inicialmente chamada de católica porque ela abarcava, compreendia e tornou seu o passado religioso de todo o mundo. Reunindo em sua figura central – do Cristo – e em torno dessa figura todas as características, lendas e símbolos até então pertencentes às figuras centrais das dispensações anteriores, proclamando a unidade de toda aspiração humana, e formulando em um grande sistema ecumênico as doutrinas do Oriente e do Ocidente.

Assim, a Igreja católica é védica, budista, zend-avesta e semítica. Ela é egípcia, hermética, pitagórica e platônica. Ela é escandinava, mexicana e druídica. Ela é grega e romana. Ela é científica, filosófica e espiritual.

Encontramos em seus ensinamentos o panteísmo do Oriente, e o individualismo do Ocidente. Ela fala a língua e pensa os pensamentos de todos os filhos dos homens; e em seu templo todos os deuses estão em um lugar sagrado.

Eu sou vedantina, budista, helenista, hermética e cristã, porque eu sou católica. Pois nessa única palavra todo o Passado, Presente e Futuro estão abarcados.

Como Santo Agostinho e outros dos Padres (Pais) da Igreja verdadeiramente declararam, o Cristianismo não contém nada de novo a não ser o seu nome, estando próximo dos antigos desde o seu início. E as várias seitas, que retém apenas uma porção da doutrina católica, são apenas como cópias incompletas de um livro, do qual capítulos inteiros foram retirados, ou como representações de uma peça teatral na qual apenas alguns de seus personagens e de suas cenas foram mantidos.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 94-96; grifos nossos]

 

 

 

CAVALO – CAVALARIA

 

Citação (1): Cavalo É o Símbolo da Inteligência: Ordem Divina da Cavalaria É a Ordem do Cristo

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ARMADURA DE MIGUEL.

 

 

 

CIÊNCIA E RELIGIÃO

 

Citação (1): Fé Sem Compreensão É Credulidade

Citação (2): Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

 

Citação (1): Fé Sem Compreensão É Credulidade

 

“É verdade que é ‘a fé que salva’, mas a fé que não tem a compreensão não é fé, mas sim credulidade. [Edward Maitland. Veja Prefácio em The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland (A História de Anna Kingsford, Edward Maitland e do Novo Evangelho da Interpretação); grifo nosso]

 

 

Citação (2): Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CATÓLICO.

 

 

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

“Em uma época como a de nossos dias, que se caracteriza por pesquisas que tudo abrangem, análises exaustivas e críticas abundantes, nenhum sistema religioso pode perdurar, a menos que seja atrativo tanto ao lado intelectual, quanto ao lado devocional da natureza humana. Atualmente a fé da cristandade está perecendo por conta de um defeito radical no seu método de apresentação, através do qual ela é levada a um perpétuo conflito com a ciência; e uma tarefa esgotante e indigna é imposta aos seus seguidores, de um incessante esforço a fim de acompanhar os avanços das descobertas científicas, ou as oscilações da especulação científica. O método por meio do qual aqui se tenta eliminar a incerteza e insegurança, assim engendradas, consiste no estabelecimento destas duas posições:

(1) Que os dogmas e símbolos da Cristandade são substancialmente idênticos àqueles dos demais sistemas religiosos pretéritos; e

(2) Que o verdadeiro plano das crenças religiosas reside, não onde a Igreja o colocou até agora – no sepulcro da tradição histórica, entre os ossos ressecados do passado – mas sim no vivo e imutável Céu, em direção ao qual aqueles que desejam verdadeiramente encontrar o Senhor devem, em coração e mente, ascender. “Por que procurais o vivo entre os mortos? Ele não está aqui, ele ascendeu.” Isto é, o verdadeiro plano da crença religiosa não é, por assim dizer, o objetivo e físico, mas o subjetivo e espiritual.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), pp. 6-7; grifos nossos]

 

 

 

CORPO E SANGUE DE CRISTO

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CÁLICE E SANGUE.

 

 

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

 

CRISTIANISMO BUDISTA

 

Citação (1): Duas Coisas da Religião Cristã

Citação (2): Fé Sem Compreensão É Credulidade

Citação (3): Interpretação de Suas Bíblias

Citação (4): Ex Oriente Lux. Por Que a Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

Citação (5): Cristianismo e Budismo São Partes de Um Todo Contínuo e Harmonioso

Citação (6): Fraternidade Universal: Princípio Pouco Conhecido, Essência do Budismo e do Cristianismo

Citação (7): (Da) União do Budismo e do Cristianismo Nascerá a Esperada Redenção do Mundo

Texto (1): Conjunto de Citações Sobre o Cristianismo Budista

Texto (2): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo)

 

 

Citação (1): Duas Coisas da Religião Cristã

 

“No presente momento há duas coisas da religião cristã que devem ser óbvias para todas as pessoas de discernimento; a primeira, que os homens não podem viver sem ela; e a segunda, que eles não podem viver com ela assim como ela está.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way (O Caminho Perfeito), p. 6; grifos nossos]

 

 

Citação (2): Fé Sem Compreensão É Credulidade

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CIÊNCIA E RELIGIÃO.

 

 

Citação (3): Interpretação de Suas Bíblias

 

Aquilo que vocês precisam na Terra é a interpretação de suas Bíblias, e de todas as Escrituras que contém a sabedoria oculta, o mistério de que São Paulo tão frequentemente mencionava como existindo desde os primórdios do mundo”. [P. ex: Romanos 16:25] (Edward Maitland, editor. Uma Mensagem à Terra, p. 69; grifo nosso)

 

 

Citação (4): Ex Oriente Lux. Por Que a Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CATÓLICO.

 

 

Citação (5): Cristianismo e Budismo São Partes de Um Todo Contínuo e Harmonioso

 

“O Cristianismo foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. E os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente. (…)

Se não fosse por Buda, não poderia ter havido Jesus, nem teria ele sido suficiente para atender ao homem integral; pois o homem deve ter a Mente iluminada antes que as Afeições possam ser despertadas. Nem teria sido o Buda completo sem Jesus. Buda completou a regeneração da Mente; e por meio de sua doutrina e prática os homens são preparados para a graça que vem por meio de Jesus. Motivo pelo qual nenhum homem pode ser propriamente cristão, se não for também e primeiramente budista.

Assim, as duas religiões constituem, respectivamente, o aspecto exterior e o aspecto interior do mesmo Evangelho, os alicerces estando no Budismo – incluindo nesse termo o Pitagorianismo – e a iluminação estando no Cristianismo. E da mesma forma que sem o Cristianismo o Budismo está incompleto, assim também o Cristianismo sem o Budismo é ininteligível.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), pp. 250-251; grifos nossos]

 

 

Citação (6): Fraternidade Universal: Princípio Pouco Conhecido, Essência do Budismo e do Cristianismo

 

“Quão pouco este princípio de Fraternidade Universal é compreendido pelas massas da espécie humana, e quão raramente sua importância transcendente é reconhecida, pode ser constatado pela diversidade de opiniões e interpretações fictícias referentes à Sociedade Teosófica. Esta Sociedade foi organizada com base neste único princípio, a Fraternidade Essencial da Humanidade, como aqui foi brevemente esboçado e imperfeitamente apresentado. Ela tem sido atacada como budista e anti-cristã, como se pudesse ser essas duas coisas ao mesmo tempo, quando precisamente ambos – o Budismo e o Cristianismo – conforme foram apresentados por seus inspirados fundadores, fazem da fraternidade a essência da doutrina e da vida.” (Helena Blavatsky, citando J.D. Buck. A Chave Para a Teosofia, p. 29; grifos nossos)

 

 

Citação (7): (Da) União do Budismo e do Cristianismo Nascerá a Esperada Redenção do Mundo

 

“Da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a esperada redenção do mundo.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Perfect Way (O Caminho Perfeito), p. 252; grifo nosso]

 

 

Texto (1): Conjunto de Citações Sobre Cristianismo Budista

 

Afirmou Toynbee: Daqui a Mil Anos Chamará Atenção Aproximação do Cristianismo com o Budismo

 

“Faz alguns anos, Arnold Toynbee afirmou que quando o historiador de daqui a mil anos for escrever a história de nossa época, ele terá a sua atenção voltada não para a guerra do Vietnã, a disputa entre capitalismo e comunismo ou os distúrbios raciais, mas sim para o que terá sucedido quanto pela primeira vez o Cristianismo e o Budismo iniciaram um intercâmbio profundo. Essa observação é das mais interessantes, sendo a meu ver profundamente verdadeira.” (William Johnston, Cristianismo Zen, Ed. Cultrix, São Paulo, 1984. 130 pp. – p. 5)

 

Algum Dia Distante Se Tornará a Religião de Grandes Nações

 

“Sei que em algum dia ainda distante, agora, de fato, talvez muito remoto, a mensagem que nós pregamos em um canto se tornará a religião de grandes nações.” [Anna Kingsford e Edward Mailtland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios Sobre o Vegetarianismo), p. 1]

 

Aprender com o Budismo: Minha Preocupação no Momento

 

“No que me diz respeito, minha principal preocupação no momento é a de aprender com o Budismo. Não posso deixar de sentir que o Cristianismo ocidental, como de resto o próprio Ocidente, necessita urgentemente de uma transfusão de sangue. Feliz ou infelizmente, chegamos ao esgotamento (…) e necessitamos de novas perspectivas. Assim como uma era inteiramente nova descortinou-se para o Cristianismo quando Santo Tomás promoveu a divulgação de Aristóteles no século XIII, assim também uma nova era, ainda mais grandiosa, poderia tornar-se possível através da assimilação de certas concepções e atitudes budistas.” (Nota do editor: William Johnston, S.J., é o autor da obra “Cristianismo Zen”. Jesuíta irlandês, radicado no Japão, dirigiu o Instituto de Religiões Orientais da Universidade Sofia, em Tóquio. Para ele, conforme expõe nessa obra, a cooperação entre Oriente e Ocidente, através do Budismo, do Zen e do Cristianismo, é vital para os tempos que correm. Nesse aspecto o autor se une à mensagem da Dra. Anna Kingsford e Edward Maitland, ou seja, ao “Novo” Evangelho da Interpretação.)

 

Buda e Pitágoras, Moisés e Elias, Mente e Corpo, Jesus–Coração, Obras, Compreensão e Amor, Corpo, Mente e Coração

 

“Do mesmo modo que não fazia parte do projeto dos Evangelhos representar o percurso inteiro do Homem Regenerado, também não fazia parte desse projeto fornecer, no que diz respeito à vida e doutrina religiosa, um sistema integral e completo, independentemente dos que o antecederam.

Por ter uma relação especial com o Coração e o Espírito do Homem, e dessa forma com o núcleo da célula e com o Santo dos Santos do Tabernáculo, o Cristianismo, em sua concepção original, delegou a regeneração da Mente e do Corpo (…), ou o dualismo exterior do Microcosmo, a sistemas já existentes e amplamente conhecidos e praticados.

Esses sistemas eram dois em número, ou melhor, eram como dois modos ou expressões do sistema uno, cujo estabelecimento constituiu a “Mensagem” que antecedeu o Cristianismo pelo período cíclico de seiscentos anos. Esse sistema era a Mensagem na qual os “Anjos” estiveram representados em Gautama Buda e Pitágoras.

No caso desses dois profetas e redentores, praticamente contemporâneos, o sistema era, tanto na sua doutrina quanto na sua prática, essencialmente um e o mesmo. E suas relações com o sistema de Jesus, como seus necessários pioneiros e antecessores, encontram reconhecimento nos Evangelhos na alegoria da Transfiguração.

Os personagens que aparecem nesse evento – Moisés e Elias – são correspondentes hebraicos de Buda e de Pitágoras. E eles são descritos como tendo sido vistos pelos três apóstolos nos quais são representadas, respectivamente, as funções distintamente exercidas por Pitágoras, por Buda e por Jesus; ou seja, Obras, Compreensão e Amor, ou Corpo, Mente e Coração.

E pela sua reunião no Monte está representada a união dos três elementos, e a complementação de todo o sistema abrangido pelos três por Jesus, como o representante do Coração ou daquilo que é Mais Interno, e, em um sentido especial, como o “amado Filho de Deus”.

O Cristianismo, então, foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. E os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente.” [The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), pp. 249-251]

 

Buda (Incluindo Pitágoras) e Cristo São Necessários Um ao Outro: Formam Sistema Integral

 

“(…) não fazia parte desse projeto [do Cristianismo original] fornecer, no que diz respeito à vida e doutrina religiosa, um sistema integral e completo, independentemente dos que o antecederam.

(…) o Cristianismo, em sua concepção original, delegou a regeneração da Mente e do Corpo (…), ou o dualismo exterior do Microcosmo, a sistemas já existentes e amplamente conhecidos e praticados.

Esses sistemas eram dois em número, ou melhor, eram como dois modos ou expressões do sistema uno, cujo estabelecimento constituiu a “Mensagem” que antecedeu o Cristianismo pelo período cíclico de seiscentos anos. Esse sistema era a Mensagem na qual os “Anjos” estiveram representados em Gautama Buda e Pitágoras.

(…) suas relações com o sistema de Jesus, como seus necessários pioneiros e antecessores, encontram reconhecimento nos Evangelhos na alegoria da Transfiguração.

Os personagens que aparecem nesse evento – Moisés e Elias – são correspondentes hebraicos de Buda e de Pitágoras. Eles são descritos como vistos pelos três apóstolos nos quais são representadas, respectivamente, as funções distintamente exercidas por Pitágoras, por Buda e por Jesus; ou seja, Obras, Compreensão e Amor, ou Corpo, Mente e Coração. (…)

O Cristianismo, então, foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. E os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente.

Buda e Jesus são, portanto, necessários um ao outro. E no sistema integral assim completado Buda é a Mente e Jesus é o Coração; Buda é o geral, Jesus é o particular, Buda é o irmão do universo, Jesus é o irmão dos homens; Buda é a Filosofia, Jesus é a Religião; Buda é a Circunferência, Jesus é o Interno; Buda é o Sistema, Jesus é o ponto de Radiação; Buda é a Manifestação, Jesus é o Espírito; em síntese, Buda é o “Homem”, Jesus é a “Mulher.”

Se não fosse por Buda, não poderia ter havido Jesus, nem teria ele sido suficiente para atender ao homem integral; pois o homem deve ter a Mente iluminada antes de que as Afeições possam ser despertadas. Nem teria sido o Buda completo sem Jesus. Buda completou a regeneração da Mente; e por meio de sua doutrina e prática os homens são preparados para a graça que vem por meio de Jesus. Motivo pelo qual nenhum homem pode ser propriamente cristão, se não for também e primeiramente budista.

Assim, as duas religiões constituem, respectivamente, o aspecto exterior e o aspecto interior do mesmo Evangelho, os alicerces estando no Budismo – incluindo nesse termo o Pitagorismo – e a iluminação estando no Cristianismo. E da mesma forma que sem o Cristianismo o Budismo está incompleto, assim também o Cristianismo sem o Budismo é ininteligível.

(…) da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a redenção vindoura do mundo.

(…) Aqueles que buscam casar Buda a Jesus são do celestial e superior; e aqueles que se interpõem ou se objetam ao casamento são do astral e do inferior.” [The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), p. 249-256]

 

Budismo e Cristianismo Partes de Um Mesmo Evangelho

 

“Em resumo, não são dois Evangelhos, mas dois aspectos, o externo e o interno, de um mesmo Evangelho. Pois o Budismo encontra sua tradução e complementação no Cristianismo, e o Cristianismo encontra sua concepção e seu alicerce no Budismo.” [Bertram McCrie. A Verdade Viva no Cristianismo (The Living Truth in Christianity), pp. 26-27]

 

Budismo e Cristianismo Partes de Um Todo Contínuo e Harmonioso

 

“O Cristianismo foi introduzido no mundo com uma relação especial com as grandes religiões do Oriente, e sob a mesma regência divina. E muito longe de ser concebido como um rival e suplantador do Budismo, ele era a direta e necessária continuação desse sistema. E os dois são apenas partes de um todo contínuo e harmonioso, no qual a parte que veio por último é somente o indispensável acréscimo e complemento da parte que veio anteriormente. (…)

Se não fosse por Buda, não poderia ter havido Jesus, nem teria ele sido suficiente para atender ao homem integral; pois o homem deve ter a Mente iluminada antes que as Afeições possam ser despertadas. Nem teria sido o Buda completo sem Jesus. Buda completou a regeneração da Mente; e por meio de sua doutrina e prática os homens são preparados para a graça que vem por meio de Jesus. Motivo pelo qual nenhum homem pode ser propriamente cristão, se não for também e primeiramente budista.

Assim, as duas religiões constituem, respectivamente, o aspecto exterior e o aspecto interior do mesmo Evangelho, os alicerces estando no Budismo – incluindo nesse termo o Pitagorianismo – e a iluminação estando no Cristianismo. E da mesma forma que sem o Cristianismo o Budismo está incompleto, assim também o Cristianismo sem o Budismo é ininteligível.” [The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), pp. 250-251]

 

Doutrina de Buda: Regeneração Completa da Mente e Indispensável Precursora da Doutrina de Cristo

 

“Pois o fato é que a doutrina de Buda, com suas Quatro Nobres Verdades, e seu Nobre Óctuplo Caminho, sua ilimitada compaixão em relação a toda a vida senciente, seu lógico ensinamento ético de desenvolvimento através da conquista de si mesmo e da autocultura, sua simples e não obstante profunda análise do sofrimento e da tristeza com o método da libertação desses (…), sua regeneração completa da mente, seus elevados códigos de moralidade e padrão de tolerância, paz e caridade – essa doutrina é a indispensável precursora e intérprete da doutrina de Cristo.” [Bertram McCrie. A Verdade Viva no Cristianismo (The Living Truth in Christianity), p. 26]

 

Fé Una do Buda e do Cristo Redenção do Mundo

 

“Da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a esperada redenção do mundo.” [The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo), p. 252. Grifo nosso]

 

Karma e Continuidade de Existências São Partes Integrantes do Budismo e do Cristianismo: Explicam Desarmonias e a Justiça Divina

 

“É tão somente a doutrina do Karma e da continuidade das existências que explica as desigualdades e desarmonias da vida e que justifica a Justiça Divina. E, vista desse ponto de vista, a vida tem uma amplitude muito maior do que aquela que é compatível com a ideia de uma única existência, e que torna a alma independente da disciplina da experiência terrena, uma vez que tal experiência é completamente negada para um vasto número daqueles que morrem na infância. O fato de que as escrituras cristãs não reconheçam explicitamente essa doutrina não representa nenhum argumento contra o fato de que ela seja uma doutrina cristã. Essa doutrina já estava no mundo no Budismo; e o Cristianismo, como o complemento e o coroamento do Budismo, não tinha nenhuma necessidade de reiterá-la.” [The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 143-144]

 

Louvor aos Budas-Cristos

 

Maravilhosos e gloriosíssimos são todos os Budas-Cristos.

Não existe glória igual nem flores mais belas no mundo.

Ensinam-nos o caminho da Vida.

Saudamos sua proteção e inspiração com inebriado respeito.

 

Todos os Budas-Cristos ensinam a mesma Verdade.

A Verdade encaminha os extraviados.

A Verdade é a nossa esperança e o nosso sustentáculo.

Recebemos felizes e agradecidos a sua luz, que nada pode extinguir.

 

Todos os Budas-Cristos são da mesma essência.

A essência de todos os seres.

A essência que santifica os laços entre todas as almas.

E temos fé na (fides: fidelidade, sintonia com a) felicidade do supremo refúgio.

 

Om-Amém, Aum-Assim Seja! Paz a todos os seres!

 

(Adaptação de Arnaldo Sisson Filho, feita a partir de oração encontrada no final da obra O Evangelho de Buda, p. 118)

 

Sacerdotalismo Intolerante com Demais Sistemas, Atitude Suicida Entre Cristianismo e Budismo

 

“Agora, uma das mais deploráveis características do Sacerdotalismo é sua habitual intolerância a todas as outras formas de fé e sistemas religiosos, a despeito de sua antiguidade, autenticidade, semelhanças fundamentais e credibilidade.

O Sacerdotalismo não os vê como amigos, mas como rivais e inimigos; que não devem ser entendidos, apreciados e – ao menos em parte – assimilados, mas que devem ser ignorados, depreciados e contestados.

Essa atitude é justificada pelo Sacerdotalismo como sendo zelo por seus próprios princípios particulares, mas isso, na verdade, não é nada mais que intolerância nascida da ignorância.

Exatamente essa atitude em relação àquele sistema religioso em particular denominado de Budismo, que precedeu o advento do Cristianismo por cerca de cinco ou seis séculos, tem sido algo próximo de uma atitude suicida ao real sucesso do Cristianismo, tendo se provado desastrosa para sua capacidade de influenciar a todos, exceto aos ignorantes e elementares, aos preconceituosos e às classes conservadoras ainda dominadas pelo Sacerdotalismo.

Pois o fato é que a doutrina de Buda, com suas Quatro Nobres Verdades e seu Nobre Óctuplo Caminho, sua ilimitada compaixão em relação a toda a vida senciente, seu lógico ensinamento ético de desenvolvimento através da conquista de si mesmo e da autocultura, sua simples e não obstante profunda análise do sofrimento e da tristeza, com o método da libertação desses estando disponível a todos, sua regeneração completa da mente, seus elevados código de moralidade e padrão de tolerância, paz e caridade – essa doutrina é a indispensável precursora e intérprete da doutrina de Cristo. Em resumo, não são dois Evangelhos, mas dois aspectos, o externo e o interno, de um mesmo Evangelho. Pois o Budismo encontra sua tradução e complementação no Cristianismo, e o Cristianismo encontra sua concepção e seu alicerce no Budismo.

Visto dessa forma, o Cristianismo, como religião, assume a obra de aperfeiçoar o homem em seu coração, a partir daquele grau de regeneração parcial a que o Budismo, como filosofia, já o conduziu em sua mente; e assim o Cristianismo descreve e trata apenas dos estágios finais de todo o grande trabalho.

Se isso fosse reconhecido, as sérias deficiências referentes às bases, e aquelas falhas racionais, intelectuais e morais que confrontam os estudantes ponderados e imparciais do sistema cristão, seriam amplamente reconhecidas, e um passo adiante seria dado em direção à reabilitação, enquanto um todo vivo, da tão mutilada fé.

Quão pouco conhecem o Cristianismo aqueles que conhecem somente um Jesus histórico, e deixam de levar em conta o caminho de Buda, como uma escada que deve ser subida para que se alcance o estado de Jesus!” [Bertram McCrie. A Verdade Viva no Cristianismo (The Living Truth in Christianity), pp. 26-27)

 

 

Texto (2): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo

 

Vide esse texto no Texto (4): do verbete ANNA KINGSFORD.

 

 

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo)

 

Vide esse livro no Livro (1): do verbete ANNA KINGSFORD.

 

 

 

CRISTO

 

Citação (1): Cristo, a Realização no Homem de Suas Próprias Potencialidades Divinas

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

Citação (3): Tema do Credo Cristão: o Cristo Jesus Dentro do Homem

Citação (4): Louvor aos Budas-Cristos

Citação (5): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

Citação (6): Ex Oriente Lux. Por Que a Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo).

 

 

Citação (1): Cristo, a Realização no Homem de Suas Próprias Potencialidades Divinas

 

“Desse modo, o Cristo da Bíblia, o Cristo de Deus, o Cristo da Natureza e o Cristo da Gnose não é nenhum personagem único, anormal, inconcebível, de constituição híbrida e desordenada, tal como é aquele Cristo apresentado pelo Sacerdotalismo.

Sendo o equivalente, no homem, do Logos na Deidade, Ele é a Perfeita Razão de Deus na manifestação. Ele é o cumprimento, e não a subversão, da ordem natural-divina. Ele é a realização, tanto para o indivíduo quanto para o universal, das divinas potencialidades próprias e comuns a todos, em virtude de sua origem e constituição, pela lei imutável da Hereditariedade; o fruto maduro da semente implantada em todo homem, a semente de sua própria regeneração; a demonstração da “jóia preciosa” da divindade “nascida na fronte do sapo”, símbolo alquímico da matéria. E Nele, definido dessa forma, é devolvido ao homem o Salvador, o qual lhe foi privado pelos seus sacerdotes.

Geração, degeneração, regeneração – esses são os três termos da história espiritual do homem. O primeiro e o último são obras de Deus; o segundo é obra do próprio homem. Pois todas as coisas se dão pela geração, a qual é o produto da interação entre a Força e a Substância, Pai e Mãe, respectivamente, o resultado dependendo da vontade do gerador.

Uma vez gerado, o homem é livre para se degenerar, até que chegue seu tempo de ser regenerado. Suas possibilidades de regeneração dependem do uso que fez de seu período de liberdade. A evolução se dá por meio da geração; mas a escada da mesma pode ser descida até que se alcance uma condição na qual a regeneração é impossível, e a extinção, inevitável. O período da Graça subentendido na expressão “setenta vezes sete” expirou para ele.

As assim chamadas expressões “denunciatórias” da Bíblia e do Credo, são simplesmente afirmações da necessidade da observância das leis do ser para a salvação. Isso tanto para a vida espiritual como para a vida física. As condições essenciais à vida devem, em ambos os casos, ser respeitadas. E do mesmo modo que o fisiologista, se expressando na linguagem técnica de sua ciência, fala de forma afirmativa quando declara que se não for pelo cumprimento de certas funções pelo sistema físico do homem, ele sem dúvida perecerá; assim também falam de forma afirmativa aqueles que dizem o mesmo a respeito do sistema espiritual do homem. As condições da vida eterna, assim como as da vida passageira, estão fundamentadas na natureza das coisas; e não há nada de arbitrário na afirmação dessas condições por aqueles que as conhecem, mesmo que a linguagem usada seja técnica e não compreendida pelos ignorantes. O dogmatismo consiste tão somente na afirmação positiva daquilo que a própria pessoa que afirma não conhece positivamente.

A Bíblia especifica dois pecados como tendo um caráter especialmente hediondo e fatal, cuja natureza seus expositores oficiais falharam em compreender, ou pelo menos em tornar conhecido. Eles são chamados de “Anti-Cristo” e de “Blasfêmia Contra o Espírito Santo.” Eles são essencialmente de uma mesma espécie, ainda que suas manifestações sejam diversas.

A chave agora restaurada acusa o Sacerdotalismo, desde seu começo, de representar o cometimento sistemático desses pecados em todas as suas manifestações.

“É Anti-Cristo aquele que nega o Pai e o Filho.” [1 João 2:22] O Pai e o Filho são negados quando se nega a Mãe. Pois excluir, da forma que o Sacerdotalismo excluiu, o princípio feminino da divindade – a Substância – é tornar impossível a relação simbolizada pelos termos Pai e Filho, tendo em vista que eles implicam e envolvem Esposa e Mãe.

Algo semelhante ocorre em relação ao pecado contra o Espírito Santo. Tanto em repouso como em atividade, na Divindade e na manifestação, a unidade divina deve compreender a dualidade, Força e Substância, Pai e Mãe, para tornar possível aquela eterna geração por meio da qual se dão a criação e a redenção, e nisso a manifestação de Deus em Cristo.

Que o pecado dessa negação com respeito ao Espírito Santo “jamais será perdoado, nem no mundo de hoje, quer naquele que está por vir” [Marcos 3:29], é porque, sendo um pecado contra o princípio essencial, tanto da Existência Atual como Daquilo que Será, ele carrega sua própria punição consigo. Ao negar que o Universo é gerado por Deus, e constituído pelas próprias Força e Substância de Deus, nega-se que o Universo seja uma manifestação de Deus. Nega-se, portanto, aquela correspondência entre Deus e a criação em virtude da qual “coisas invisíveis de Deus são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas de que são feitas” [Romanos 1:20].

E isso nega a regeneração como o processo da manifestação de Deus através da individuação do homem, e negar isso é negar Cristo como a coroamento da evolução e, portanto, da criação.

Postulando como o material da existência algo que – não sendo essencialmente Deus – é irreal e não relacionado a Deus, tal negação constitui a negação de qualquer relação vital entre Deus e o Universo, tal como a de paternidade e filiação, ao ponto da exclusão da ideia do dever de um para com o outro, em ambas as direções. E considerar Deus apenas como Força, e não Substância; Vontade apenas, e não Amor; coloca no lugar de um Deus vivo e de um Universo vivo tão somente causa e efeito mecânicos e inconscientes.

A frase de Jesus: “meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” [João 20:17], é uma afirmação da divindade da Substância e, consequentemente, da consubstancialidade de Deus e do homem. Foi tão somente o Sacerdotalismo que transformou o homem em um “filho do diabo”. Ao fazer isso o Sacerdotalismo atribuiu ao homem precisamente a paternidade que Jesus atribui ao próprio Sacerdotalismo, como quando dirigindo-se aos seus perseguidores e assassinos sacerdotais, ele diz: “Vós sois do vosso pai, o diabo.” [João 8:44]” (Edward Maitland. O “Novo” Evangelho da Interpretação: Um Resumo do Cristianismo Místico da Dra. Anna Kingsford, pp. 44-52; grifos nossos)

 

 

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

Citação (3): Tema do Credo Cristão: o Cristo Jesus Dentro do Homem

 

É o ser espiritual do homem – o Cristo Jesus dentro dele – que é o tema do Credo cristão. O Credo dos Apóstolos é um resumo da história espiritual de todos aqueles que se tornam, pela regeneração, ‘Filhos de Deus’.” [Edward Maitland. The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), Vol. I, p. 315; grifo nosso]

 

 

Citação (4): Louvor aos Budas-Cristos

 

Maravilhosos e gloriosíssimos são todos os Budas-Cristos.

Não existe glória igual nem flores mais belas no mundo.

Ensinam-nos o caminho da Vida.

Saudamos sua proteção e inspiração com inebriado respeito.

 

Todos os Budas-Cristos ensinam a mesma Verdade.

A Verdade encaminha os extraviados.

A Verdade é a nossa esperança e o nosso sustentáculo.

Recebemos felizes e agradecidos a sua luz, que nada pode extinguir.

 

Todos os Budas-Cristos são da mesma essência.

A essência de todos os seres.

A essência que santifica os laços entre todas as almas.

E temos fé na (fides: fidelidade, sintonia com a) felicidade do supremo refúgio.

 

Om-Amém, Aum-Assim Seja! Paz a todos os seres!

(Adaptação de Arnaldo Sisson Filho, feita a partir de oração encontrada no final da obra de Yogi Kharishnanda O Evangelho de Buda, p. 118)

 

 

Citação (5): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ADÃO.

 

 

Citação (6): Ex Oriente Lux. Por Que a Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CATÓLICO.

 

 

Livro (1): The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo).

 

Vide esse livro no Livro (1): do verbete ANNA KINGSFORD.

 

 

 

LETRA “D”

– Divina Ordem da Cavalaria É a Ordem de Cristo

 

 

DIVINA ORDEM DA CAVALARIA É A ORDEM DE CRISTO

 

Citação (1): Cavalo É o Símbolo da Inteligência: Ordem Divina da Cavalaria É a Ordem do Cristo

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ARMADURA DE MIGUEL

 

 

 

 

LETRA “E”

– Éden

– Edward Maitland

– Egito – Fuga do Egito – Êxodo

– Espiritualidade Versus Psiquismo

– Eva

 

 

 

ÉDEN

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

 

EDWARD MAITLAND

 

Texto (1): Vida e Obra de Edward Maitland

Texto (2): Edward Maitland e o Vegetarianismo

Texto (3): Obras de Edward Maitland

 

 

Texto (1): Vida e Obra de Edward Maitland

 

HART, Samuel Hopgood. Edward Maitland – His Life and Work (Vida e Obra de Edward Maitland). Quarterly Transactions of the British College of Psychic Science Ltd. (Atas das Reuniões Trimestrais da Faculdade Britânica de Ciências Psíquicas), Vol. X, No. 4. Janeiro 1932. (pp. 274-283)

As informações abaixo foram enviadas pelo Sr. Brian MacAllister, que gentilmente fotocopiou e enviou este texto para o Site Anna Kingsford:

“Este artigo (Vida e Obra de Edward Maitland), de Samuel Hopgood Hart, foi fotocopiado a partir de uma cópia do próprio Sr. Hart das Atas das Reuniões Trimestrais da Faculdade Britânica de Ciências Psíquicas, Vol. X, No. 4, de janeiro de 1932 (pp. 274-283). Ele inclui correções feitas pelo próprio Sr. Hart à mão.”

 

VIDA E OBRA DE EDWARD MAITLAND

 

Edward Maitland, o amigo e colaborador de Anna Kingsford, foi um daqueles grandes homens de nosso tempo que sacrificou sua vida na luta pelas causas do Espiritualismo, do Misticismo e da Humanidade, em oposição ao materialismo prevalecente na ciência e na religião, e em oposição à crueldade e à injustiça, especialmente no que afeta ao mundo animal. Em Maitland, Kingsford encontrou um verdadeiro amigo e valioso colaborador na grande obra à qual, à época em que eles se conheceram, ela havia decidido dedicar sua vida. Eles acreditavam que tinham se unido para uma obra divina que somente eles poderiam realizar.

Conheci Edward Maitland em 1894. Ele era então um homem idoso trabalhando intensamente contra o tempo para completar a biografia de Anna Kingsford, na elaboração da qual ele estava, à época, envolvido, e a qual ele temia não poder viver o suficiente para concluir. O que mais me impressionou foi que nele encontrei um homem que conhecia a verdade – e cuja simples palavra bastava para trazer convicção – e, nesse particular aspecto, eu nunca tinha encontrado alguém como ele, nem vim a conhecer outro desde então.

Muito do que ele disse era novo para mim. Não consegui absorver de uma vez o significado completo de tudo, mas sabia que o que ele disse era verdade e tinha o propósito de me pôr no caminho correto. Tenho para com ele um débito de gratidão que jamais poderei pagar. Tive fome e ele me deu de comer; tive sede e ele me deu de beber – pois é isso que seu ensinamento e de Anna Kingsford têm sido para mim, assim como para muitos outros.

Nas páginas de The Perfect Way (O Caminho Perfeito) tomei conhecimento do “Novo” Evangelho da Interpretação, a respeito do qual, quando devidamente compreendido, Edward Maitland disse: “É impossível para a mente discordar dele, assim como é impossível discordar das demonstrações de uma proposição de geometria.”

Ele sustentava que seus escritos e de Anna Kingsford representavam “uma verdadeira reapresentação da doutrina religiosa a partir de sua fonte original, feita com o objetivo expresso de salvar a religião, por meio da sua interpretação, e desse modo levando a consciência espiritual da raça para um novo e mais elevado estágio em sua evolução.

Edward Maitland disse que a principal ocupação de sua vida era “a busca, sem se importar com as consequências, da mais elevada verdade, para os mais elevados propósitos.”

Ele nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich, filho do Reverendo Charles David Maitland, que foi o Pároco Vitalício da Capela St. James, Brighton. Desde tenra idade ele tinha consciência de que tinha uma missão na vida. Quando rapaz, ele não aceitou a crença da rígida seita evangélica à qual seu pai pertencia, e na qual ele foi criado. Desde cedo na vida, ele passou a ver seus preceitos, “especialmente a total dependência do pecado original e do sacrifício vicário, como uma posição que não é menos do que uma blasfêmia, tanto contra Deus como contra o homem”. Ele sentia que somente na medida em que ele pudesse ser o meio de abolir “crenças tão degradantes e tão destituídas de qualquer ideal elevado”, sua vida seria bem sucedida e satisfatória para ele mesmo, e lhe parecia que sua própria credibilidade estava em jogo nessa questão. Para ele, ao refutar tais crenças ele estaria reafirmando seu próprio caráter, “pois”, ele disse, “se Deus fosse mau, como essas doutrinas O retratam, eu não teria nenhuma possibilidade de ser bom, uma vez que eu devo ter minha origem Nele; e eu sabia que, por mais fraco e ignorante que eu fosse, eu não era mau.”

Antes de ter conhecido Anna Kingsford sua vida, como a dela, tinha sido de muito isolamento e meditação. Ele se sentia “um estranho mesmo entre os que lhe eram mais íntimos.”

Em 1847 ele graduou-se em Cambridge, com o intuito de se ordenar sacerdote, mas logo descobriu que não poderia fazer isso e ficar em paz com sua consciência. Ele sentiu que se comprometer com qualquer condição incompatível com uma absoluta liberdade de pensamento e de expressão seria uma traição a si mesmo e a seus semelhantes, pois ele “estava inclinado a penetrar o segredo das coisas em primeira mão e por meio de um pensamento absolutamente livre”. E ele queria descobrir a verdade não visando nenhum objetivo pessoal.

Almejando afastar-se de seu ambiente e se ver distante de tudo o que lhe havia sido ensinado para tornar sua mente como uma folha em branco, onde pudesse receber impressões verdadeiras em primeira mão, ele juntou-se a uma expedição para as recém descobertas áreas de mineração da Califórnia, e ingressou em um dos grupos dos “Forty-niners” (dos garimpeiros de 1849) naquele país. Em seguida, viajando de um lugar para o outro, ele permaneceu no exterior, nos continentes e ilhas do Pacífico, por cerca de oito anos, período em que vivenciou “praticamente todo tipo de vicissitudes e condições extremas que podem servir para elevar a consciência, aumentar a fibra e provar a alma do homem”. Mas, disse ele, “durante todas as experiências que passei, a idéia de uma missão permanecia em mim, ganhando força e consistência, até que ficou claro para mim que não simplesmente a destruição, mas sim a construção, não simplesmente a exposição do erro, mas a demonstração da verdade, é que faziam parte dessa missão.”

Quando esteve na Austrália ele se casou, mas ficou viúvo após um ano de vida conjugal. Ao retornar à Inglaterra, em 1857, ele, após certo tempo, dedicou-se à literatura, se esforçando por “explorar a consciência até o seu limite em todas as direções, com o objetivo de descobrir um ponto central, radiante e irrefutável a partir do qual todas as coisas possam ser deduzidas, e em torno do qual, como um pivô, todas as coisas devam depender e girar.”

Nessa época ele lia bastante e andava com muitas pessoas, mas descobriu em sua busca pela verdade que poderia obter o que buscava somente a partir do pensamento, e, nesse sentido, teve que aprender, por meio de amargas experiências, de lutas, de tentações e de provações, que a “própria capacidade de pensar é aperfeiçoada pelos sentimentos, não menos do que pelo pensamento.”

O “ensinamento da dor” encontrou assim sua explicação. Ele disse, “fui levado a aprender pela experiência, muito antes dos fatos serem formulados para mim em palavras, que somente ‘pelo moer do exterior, o interior é libertado’, e ‘o homem só está vivo na medida em que ele sentiu’.”

Além de outros problemas, ele sofreu “uma sucessão tão séria de perdas a ponto de reduzir seus meios de subsistência apenas a um mínimo compatível com as necessidades básicas, sem sair do lugar em que vivia.” Durante todo esse período, o que lhe deu forças foi principalmente o pensamento de que seus problemas, “difíceis de suportar como foram, e não merecidos como pareciam ser, poderiam se provar bênçãos disfarçadas, na medida em que poderiam favorecer a realização da principal meta de sua vida, educando-o para ela.”

Foi insinuado a Anna Kingsford que para qualificá-lo plenamente para o cumprimento da parte que lhe tocava na obra designada para eles, foi necessário que ele fosse “isolado de todo interesse e de toda ligação que pudesse vinculá-lo ao mundo”; e, se referindo a isso, ele disse que “nenhuma provação foi poupada, nenhuma mortificação foi afastada, para que pudesse favorecer a supressão de todas as tendências incompatíveis.”

No que diz respeito à religião, embora as Escrituras e os dogmas fossem para ele – da forma em que eram apresentados por seus expositores oficiais – algo que ofendia seu raciocínio e revoltava sua consciência, mesmo assim, ele não os via como necessariamente falsos ou indecifráveis. Ele se sentiu inclinado, antes de descartá-los, a descobrir o que realmente significavam. Ele não acreditava na veracidade da apresentação ortodoxa, mas se negava a renunciar aos escritos originais, nos quais essa apresentação se baseava, até estar convencido de que tinha chegado ao seus verdadeiros significados.

Para ele, a verdadeira religião deve ser “idealmente completa, de acordo com o mais perfeito ideal que possamos conceber”, e “os meios para que o homem possa alcançar a perfeição devem ser inerentes a esse sistema religioso. O homem deve ser capaz de aplicar esses meios efetivamente por si mesmo (…) e tal sistema deve dar ao homem o tempo e as oportunidades suficientes para a descoberta, a compreensão e a aplicação de tais meios.”

Essa era a visão de Edward Maitland em janeiro de 1874, quando conheceu Anna Kingsford. No mês seguinte, em resposta a um convite dela e de seu esposo (o Reverendo Algernon G. Kingsford), ele os visitou em sua residência paroquial em Shropshire, ficando com eles por aproximadamente duas semanas.

Durante o período que se passou desde seu retorno para a Inglaterra, vindo da Austrália, ele tinha se tornado famoso como o autor de três romances: The Pilgrim and the Shrine (O Peregrino e o Santuário), publicado em 1868 e essencialmente autobiográfico; Higher Law (A Lei Superior); e, By and By, an Historical Romance of the Future (Dentro em Breve: um Romance Histórico do Futuro). E na época em que se conheceram ele estava escrevendo The Keys of the Creeds (As Chaves dos Credos), que foi publicado no ano seguinte; um livro, ele disse, que “o elevou ao véu que divide aquilo que pode ser conhecido pelos sentidos daquilo que é realmente espiritual.”

O encontro entre Anna Kingsford e Edward Maitland marcou uma nova fase na vida de ambos. Um efeito disso foi seu engajamento na causa da defesa dos animais, especialmente, na luta contra a vivissecção, a respeito da qual ele, na época, tomou consciência. Daquela ocasião em diante, no campo moral, bem como em outros campos, ele se tornou um dos mais engajados opositores da vivissecção, a qual ele via como o resultado lógico e inevitável do materialismo, que até aquele momento ele rejeitava apenas em bases intelectuais.

Dali em diante, ele resolveu fazer da abolição da vivissecção, e do sistema representado por ela, a meta principal de sua vida e de sua obra. Ele reconheceu nisso “uma extensão, para o plano da ciência, do princípio que o tinha revoltado fortemente no plano da religião, que é o do sacrifício vicário – o princípio de buscar sua própria salvação por meio do sacrifício de outrem, e esse sendo um inocente.”

Os resultados iniciais dessa colaboração com Anna Kingsford foram algumas cartas que ele escreveu sobre The Doctors and the Vivisection Bill” (Os Médicos e a Lei Contra a Vivissecção), que foram publicadas na revista Examiner em junho de 1876. O impacto desses textos foi imenso. Eles foram reimpressos por uma série de associações, bem como por indivíduos privadamente, e foram distribuídos às dezenas de milhares.

Outro efeito desse encontro foi a adoção por Maitland do tipo de regime alimentar de Anna Kingsford, que era vegetariana. Embora ele nunca estivesse satisfeito com a forma predominante de nutrir nossos organismos, um fator muito importante para que ele realizasse essa mudança alimentar foi por sentir que “somente como alguém que se abstém de se alimentar de carne ele poderia, com plena coerência, combater a vivissecção.”

Algumas semanas após sua visita à residência paroquial de Shropshire, ele recebeu do Sr. Kingsford uma carta pedindo-lhe que acompanhasse sua esposa até Paris, onde ela teria de ir por alguns dias com o propósito de se inscrever como aluna da Universidade de Paris. Do contrário, se isso não fosse possível, ela teria de abandonar a ideia de uma carreira médica, que ela tinha escolhido. Ele (o Sr. Kingsford) não poderia permitir que ela fosse sozinha e desprotegida, e não havia ninguém, naquela ocasião, mais adequado e disponível para essa tarefa.

Maitland ficou contente em fazer companhia para Anna Kingsford nessa ocasião, como também durante o curso de Medicina da Universidade de Paris, pois, várias vezes, quando ela tinha que estar em Paris, ele, sob pedido semelhante, desempenhou esse mesmo papel. Dessa maneira eles tiveram a oportunidade de uma proximidade que era necessária para lhes permitir realizar sua missão conjunta – uma missão que, segundo lhes foi garantido, representava uma obra divina que nenhum dos dois poderia ter realizado sem a participação e a ajuda do outro. A obra especial para a qual eles tinham se associado não permitiu, à medida que o tempo passou, nenhum distanciamento prolongado, e a “força das circunstâncias”, quando a sua reunião era necessária, sempre os aproximava.

No verão de 1874 ele deixou Brighton, onde esteve vivendo por algum tempo, mudando-se para acomodações em Londres, tornando assim possível se encontrar com Anna Kingsford com mais frequência durante suas visitas à cidade, aonde, de tempos em tempos, ela tinha de ir para ter aulas particulares, quando não estava envolvida em seu curso de Medicina em Paris.

Em 1875 ele estava estudando os diversos sistemas religiosos da antiguidade, visando apurar até que ponto eles possuíam em comum alguma ideia central dominante, e até que ponto tal ideia (se possuída por eles) estava relacionada à consciência do homem acerca de sua própria natureza e necessidades. Nesse estudo, se tornou evidente para ele que – se construída para o benefício do homem, considerado como um ser permanente – a Religião deve ter como sua temática e seu objetivo a parte permanente do homem, ou “alma”, e que “somente trata-se de religião, em qualquer sentido verdadeiro e digno, aquela que consiste no cultivo da alma.”

Durante esse tempo ele segue seu novo tipo de dieta [vegetariana], e ficou feliz ao perceber que estava desenvolvendo “uma faculdade notavelmente aumentada de ideação [percepção mental], que se manifestava como um poder de insight acerca de problemas que até então tinham desafiado a sua compreensão.”

Ao falar, em 1876, sobre a mudança de condição que vinha gradualmente acontecendo nele, ele disse que:

 

“Consistia de um aprimoramento de faculdade tão notável quanto inesperado, em virtude da qual eu me descobri senhor de problemas que anteriormente me deixavam perplexo, e capaz de discernir claramente diante de meus olhos mentais, amplos e luminosos panoramas de pensamento, alcançando grandes distâncias em direção ao próprio centro do Ser, fazendo, assim, uma ponte sobre o abismo entre o real e o aparente, ao ponto de expor a sua igualdade essencial, convertendo todas as coisas à unidade. O processo de aprimoramento não ficou confinado apenas à natureza intelectual, ele abrangeu também a natureza emocional, a afetiva, a moral e a Espiritual.” [The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), vol. I, cap. 7, p. 90]

 

A barreira que dividia o mundo dos sentidos do mundo do espírito foi rompida. O pensador havia se tornado um vidente. Pois, ele diz:

 

“Me descobri dotado de um novo sentido, e um que, ainda que eu soubesse que ele existia, jamais tinha me julgado capaz de tê-lo. Nem era eu apenas um vidente, pois eu tinha me tornado espiritualmente sensível com respeito ao tato e à audição, bem como à visão, e estava com a percepção aberta para um mundo que eu não tinha nenhuma dificuldade de reconhecer como sendo de natureza celestial.” [The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), vol. I, cap. 7, p. 90]

 

Muitos exemplos dessa faculdade recém desenvolvida são dados na obra The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford). Ao falar de suas experiências espirituais, Edward Maitland diz:

 

“(…) com tal poder e plenitude [essas faculdades] nos foram concedidas que ter duvidado da realidade do mundo espiritual, ao qual elas pertencem, teria sido como nos deixar sem razão para acreditar na realidade do próprio mundo físico, uma vez que as evidências em relação ao primeiro não eram menos afirmativas do que em relação ao último.” [The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), vol. I, cap. 7, p. 90]

 

E essas experiências, que então se multiplicaram para ele, vieram:

 

“(…) não em resposta a qualquer tentativa de obter manifestações fenomênicas, ou ao desejo de tê-las, mas simplesmente no curso de uma intensa orientação da mente em direção ao que é espiritual e essencial a respeito da verdade.” [The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), vol. I, cap. 7, p. 90]

 

No mesmo ano seus estudos começaram a tomar forma em um livro tendo por título The Finding of Christ, the Completion of the lntuition, and the Restoration of the Ideal” (A Descoberta de Cristo, A Realização da Intuição e a Restauração do Ideal). Não lhe foi permitido concluir esse livro, mas ele serviu como uma preparação e ofereceu material para a contribuição que veio a fazer nas palestras dadas por ele e por Anna Kingsford sobre o Cristianismo esotérico, as quais depois foram publicadas sob o título de The Perfect Way (O Caminho Perfeito), um livro bem conhecido e que foi o principal fruto de seu trabalho conjunto.

Uma coisa ficou clara para ele: não obstante a crise em seus negócios mencionados acima, não lhe foi permitido escrever por dinheiro. Ao fazer a tentativa, ele sofreu “uma perda completa de força mental e física.” Foi sob essas condições que ele escreveu England and Islam, or the Counsel of Caiaphas (A Inglaterra e o Islã, ou o Conselho de Caifás), um livro que, ele disse, foi escrito “em um estado de intenso esforço físico e mental, sob um verdadeiro batismo do Espírito, como um batismo de fogo”. Seu propósito era o de suscitar no país uma noção do perigo do domínio do materialismo, tanto na ciência como na política, que estava então sendo impingido sobre ele. Sua publicação concluiu sua inabilitação para qualquer carreira que fosse meramente literária ou social, de modo que a partir dali, como ele colocou, “nada lhe era permitido que o afastasse de realizar seu trabalho espiritual.”

Levou algum tempo até que ele pudesse se reconciliar com a total inabilitação para obter quaisquer ganhos materiais, mas não lhe foi permitido entregar-se a fazer o que não fosse para o progresso de sua obra espiritual. Nessa e em outras questões ele aprendeu por experiência própria que aqueles que o mantinham sob sua guarda, “não eram menos competentes em impedir e obrigar do que em instruir e aconselhar.”

O grande problema que ele então tinha em vista era “o conceito filosófico subjacente à ideia de Cristo”. Esse problema ele resolveu invertendo a hipótese materialista, ou seja, derivando todas as coisas a partir da consciência, a tornando o Ser Original, do qual todas as coisas são modalidades de funcionamento. “O reconhecimento da universalidade da consciência, e, nesse sentido, da consciência como a condição do Ser, (…) tornou Cristo compreensível como representando o pleno desenvolvimento da consciência no estado individualizado, até o ponto da realização da consciência de Deus, enquanto ainda no corpo.”

A doutrina da identidade essencial (substancial) de Deus e do homem tornou-se a ideia fundamental de sua obra. O espiritual e interno eu substancial, engendrado dentro da personalidade física fenomênica, quando finalmente aperfeiçoado – por estar unido a Deus – se constitui no “Cristo dentro de nós” de São Paulo, e no renascimento do homem em um plano que transcende o material.

Com o aperfeiçoamento de sua consciência espiritual e o recebimento de comunicações de fontes espirituais, uma verdade lhe foi revelada plenamente – “a presença nas Escrituras de um sentido místico escondido dentro do sentido aparente, como uma noz dentro de sua casca, o qual é o sentido pretendido, e não o sentido literal.”

Ele insistiu na natureza puramente espiritual da verdade religiosa e na identidade interna das religiões antigas, não sendo as diferenças externas de nenhuma importância vital; tudo que é essencial em religião não sendo de uma natureza histórica. “Não são pessoas, mas sim princípios que a Revelação tem a função de afirmar e exaltar, sendo que as pessoas são importantes apenas na medida em que exemplificam princípios (…). A exaltação de pessoas no lugar de princípios é precisamente o que constitui idolatria, na mesma medida em que isso implica a preferência da forma em lugar da substância, da aparência no lugar da realidade.”

Materializar mistérios espirituais é construir um ídolo. “São idólatras aqueles que entendem como sendo coisas dos sentidos, onde tão somente as coisas do Espírito são referidas.”

Com relação a seitas e igrejas, ele manteve uma posição de “independência em relação a todas as comunhões visíveis”, contentando-se em saber-se, como ele disse, “um membro da Igreja Invisível, e não se identificando com nenhuma subdivisão em particular da Igreja Visível.” Na apatia das Igrejas diante da vivissecção, ele via o que descreveu como “a morte moral e espiritual que se abateu sobre o que ainda é chamado de Cristianismo.”

Ele também foi levado a “reconhecer como fatos positivos as doutrinas, em primeiro lugar, da Reencarnação e da capacidade da alma de recuperar, enquanto no corpo, a memória de coisas aprendidas e de experiências vivenciadas em vidas anteriores, e de comunicá-las a seu titular e, em segundo lugar, a doutrina da sobrevivência, por um período indefinido, das imagens de eventos ocorridos sobre a terra, na luz astral ou memória do planeta, chamada de anima mundi; imagens as quais podem ser alcançadas e observadas. Foi-lhe dito que ele havido encarnado muitas vezes e que as “pessoas vão encarnando enquanto houver uma experiência a ser adquirida na vida corpórea, por meio da qual elas possam se beneficiar espiritualmente.”

Uma de suas experiências – “cuja solenidade e importância”, ele diz, “não pode ser subestimada, quer com relação à sua própria natureza, quer com relação à sua importância para a obra deles” – foi causada pela polarização de todos os raios convergentes de sua consciência com o foco no plano mais elevado de seu ser. Em tal condição ele diz: “me vi diante de uma glória de indizível clareza e brilho, e de uma luminosidade tão intensa quase a ponto de me repelir (…) Eu sabia que se tratava do “Grande Trono Branco” do vidente do Apocalipse.

Mas, embora sentindo que eu não tinha necessidade de explorar mais adiante, resolvi me certificar duplamente, penetrando, se eu conseguisse, na luminosidade quase cegante, e ver o que ela abrigava. Com um grande esforço eu consegui e o vislumbre me revelou aquilo que eu senti que deveria estar ali. Ali estava a forma dual do Filho, o Verbo, o Logos, o Adonai, “Aquele que está sentado no Trono”, a primeira formulação da Divindade, o não manifestado tornado manifestado, o não formulado tornado formulado, o não individualizado tornado individualizado, Deus como o Senhor, provando por Sua dualidade, que Deus é Substância, bem como Força, Amor, bem como Vontade, feminino, bem como masculino, Mãe, bem como Pai.” Sob esse súbito arrebatamento de iluminação, ele tornou-se “absolutamente consciente da verdade da doutrina da Dualidade na Unidade da Deidade, à qual corresponde aquela existente na humanidade, ambas do mesmo modo sendo duas na unidade.”

Seu trabalho exigia o desenvolvimento da compreensão e a exaltação do ponto perceptivo da mente até os mais altos níveis do pensamento, e isso tinha de ser feito primeiramente em si mesmo, sendo os supremos meios para esse fim a “purificação e intensificação da consciência e da vontade.” “O primeiro e mais essencial passo para a realização pelo homem de sua própria divindade é a purificação do corpo e da mente.” A respeito da importância que seus iluminadores atribuíam à qualidade de sua alimentação e à inclinação de seus sentimentos, ele teve repetidas provas. No que diz respeito ao alimento, lhe foi dito que “a dieta perfeita para o homem são os grãos, o suco das frutas, e o óleo das castanhas.”

Em 1877, ele estava envolvido em escrever um livro contendo um registro das suas experiências e de Anna Kingsford, que no devido tempo foi publicado com o título de The Soul and How it Found Me (A Alma e Como Ela Me Encontrou). Esse livro desde muito tempo está sem ser reimpresso, e o que tinha nele de valor permanente foi incorporado na obra The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford). A imprensa materialista da sua época (quer secular ou religiosa) recebeu o livro com deturpações e omissão das verdades que ele continha.

Em 1880, Anna Kingsford tendo completado seu curso e obtido seu diploma de médica, eles estavam livres para assumir a tarefa da sua missão conjunta, para a qual eles tinham sido preparados, e para propagarem o ensinamento que eles tinham recebido.

Em um comunicado que se afirmava vir de Swedenborg, lhes foi dito para iniciarem seu programa de ações por meio de “algumas palestras para audiências seletas.” Em consequência disso, providenciou-se uma sala em Londres para esse propósito; e lá, no ano seguinte, eles deram aquelas palestras sobre Cristianismo esotérico, que se constituiu na primeira formulação da doutrina confiada a eles por seus iluminadores espirituais, cuja promoção visava ser um golpe mortal no sistema materialista e idólatra, então predominante na Igreja, no Estado e na Sociedade – na Religião e na Ciência.

Essas palestras – se constituindo num “Novo” Evangelho da Interpretação, e “desvelando as Bíblias do Ocidente” – foram depois publicadas com o título de The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo). A obra somente pode ser concluída mediante um custo elevadíssimo de esforço e sofrimento, e representou “o próprio sangue vital de suas almas derramado para a redenção do mundo”. Anna Kingsford, estando em um estado de iluminação, disse:

 

“Vejo um tênue fio de luz brilhante. Esse é o nosso caminho; e é um caminho de luz. Mas, oh, tão estreito, tão estreito! E por todos os lados há espíritos tentando nos iludir para nos afastarmos dele.”

 

Após a publicação do The Perfect Way (O Caminho Perfeito), o conhecido C.C. Massey os convidou a fazerem parte da Sociedade Teosófica Britânica, da qual ele era então o Presidente. Após hesitarem um pouco, eles consentiram; e, em janeiro de 1893, Anna Kingsford foi, sob indicação de Massey, eleita Presidente e Edward Maitland Vice-Presidente da Sociedade, que depois ficou conhecida como Loja de Londres da Sociedade Teosófica.

A publicação, pouco depois, da obra O Budismo Esotérico do Sr. Sinnett, alterou o estado das coisas da Sociedade Teosófica Britânica, e a discordância de Kingsford e Maitland com parte do conteúdo dessa obra, e com a atitude da Sociedade Teosófica em relação aos alegados Mahatmas, além da aberta hostilidade do Sr. Sinnett em relação a eles e ao que eles representavam, tornou impossível para eles continuarem como líderes de uma Sociedade cuja maioria dos membros à época favorecia o Sr. Sinnett e seu ensinamento; e, consequentemente, em 1884, eles primeiro deixaram as posições de Presidente e Vice-Presidente, respectivamente, e depois se desassociaram da Loja, e fundaram a Sociedade Hermética, na qual eles e seus apoiadores buscaram uma plataforma independente para seus ensinamentos.

Essa Sociedade continuou até 1887, quando a frágil saúde de Anna Kingsford a impediu de continuar esse trabalho, e ela foi encerrada. Enquanto a Sociedade Hermética existiu, Edward Maitland ali apresentou ensaios sobre assuntos como Filosofia Hermética, Revelação, Místicos e Materialistas, Misticismo, A Simbologia do Velho Testamento, A Intenção e o Método dos Evangelhos, Alquimia Elevada, etc.

Após a morte de Anna Kingsford, em fevereiro de 1888, Edward Maitland passou os anos restantes de sua vida dedicados a escrever e dar palestras. Ele também editou a obra Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos), assim como a obra que contém as iluminações de Anna Kingsford, Clothed with the Sun (Vestida com o Sol); e ele mesmo escreveu as obras The Bible’s Own Account of Itself (O Relato da Própria Bíblia sobre Si Mesma), The New” Gospel of Interpretation (O “Novo” Evangelho de Interpretação), e The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), de onde retiramos a maior parte do que acima está escrito.

Em todos esses trabalhos ele continuou a ter a ajuda e o apoio de Anna Kingsford – cuja morte a havia libertado de um corpo enfermo e sofrido, o qual por algum tempo tinha impedido a ambos de realizar qualquer trabalho – pois, após sua morte, ela permaneceu em contado com ele “voluntariamente, com o propósito de fazer o bem.”

Em novembro de 1891, uma pequena Sociedade, conhecida como A União Cristã Esotérica, com Edward Maitland como Presidente, foi formada com o fim de divulgar o “Novo Evangelho da Interpretação” do qual ele e Anna Kingsford tinham sido os recebedores, mas por ocasião de sua morte, que ocorreu em 2 de outubro de 1897, essa associação tinha praticamente cessado de existir.

Próximo ao fim de sua vida Edward Maitland disse: “Posso afirmar com segurança que, por mais obscuro, difícil e doloroso que tenha sido o nosso caminho, não houve um só instante em que eu quisesse fraquejar ou voltar atrás, tão absoluta era minha confiança, o tempo todo, no caráter divino de nossa missão, tão grande era a alegria que sentia em sua realização.”

Se me fosse pedido resumir em uma pequena frase seu ensinamento, essa frase seria: “o reino de Deus está dentro de vós” [Lucas 17:21]. O Cristo espiritual é a real essência do Cristianismo, assim como é o tema dos Evangelhos, e é apenas através da identidade na condição do Deus interno e do Deus externo que os dois podem se unir e se fundir.

 

Setembro de 1931.

SAMUEL HOPGOOD HART.

 

 

 

Texto (2): Edward Maitland e o Vegetarianismo

 

Samuel Hopgood Hart

 

Este artigo foi publicado em The Vegetarian Messenger, em janeiro de 1932. Ele foi enviado pelo Sr. Brian McAllister, que gentilmente o fotocopiou e enviou para o Site Anna Kingsford, com as seguintes palavras: “Este artigo (Edward Maitland e o Vegetarianismo) de Samuel Hopgood Hart foi fotocopiado da cópia do próprio Sr. Hart em seu Livro de Recortes de Jornais (pp. 85-88). O Sr. Hart escreveu o nome da publicação e a data de publicação de próprio punho.”

 

 

 

Em um artigo recente (*) mencionei Edward Maitland como o “amigo e colaborador” da falecida Anna Kingsford. Meu objetivo atual é trazer ao conhecimento dos leitores de sua revista alguns fatos relacionados à sua vida que deveriam ser de particular interesse para eles, pois ele foi um daqueles grandes homens de nossa época que dedicou sua vida a defender a causa da humanidade em oposição à crueldade e à injustiça, especialmente no que diz respeito à criação animal. Nele, Anna Kingsford encontrou um verdadeiro amigo e um valioso colaborador na grande obra à qual, na época de seu encontro, ela havia decidido dedicar sua vida.

 

Conheci Edward Maitland pela primeira vez em 1894. Ele era então um homem idoso trabalhando arduamente contra o tempo para concluir a biografia de Anna Kingsford, na qual estava então envolvido, e temia não viver para terminá-la. O que mais me impressionou foi que eu havia conhecido um homem que conhecia a verdade e cuja palavra por si só era suficiente para convencer, e eu nunca antes havia conhecido alguém como ele nesse aspecto, nem encontrei depois.

 

Edward Maitland disse que a principal ocupação de sua vida era “a busca, independentemente das consequências, da verdade suprema para os fins mais elevados.” Ele nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich, filho do Reverendo Charles David Maitland, Cura Perpétuo da Capela de São Tiago, em Brighton. Desde cedo, ele tinha consciência de ter uma missão na vida. Quando menino, ele se revoltava com o credo da rigorosa seita evangélica à qual seu pai pertencia e na qual ele foi criado, cujos princípios incluíam “a total corrupção moral do homem e a salvação vicária”, que ele considerava “uma calúnia, nada menos que uma blasfêmia contra Deus e o homem.”

 

Antes de conhecer Anna Kingsford, sua vida, como a dela, havia sido de muito isolamento e meditação. Ele se sentia “um estranho até mesmo entre seus íntimos mais próximos.” Ele se formou em Cambridge em 1847, com a intenção de se tornar sacerdote, mas descobriu que não podia fazê-lo em sã consciência, pois estava “empenhado em penetrar o segredo das coisas em primeira mão e por meio de um pensamento absolutamente livre.”

 

Ansiando por se afastar de seu ambiente, ele se juntou a uma expedição aos depósitos aluviais recém-descobertos na Califórnia e se tornou um membro do grupo dos “Quarenta e Nove” naquele país e, viajando de lugar em lugar, permaneceu no exterior, no continente e ilhas do Pacífico, por cerca de oito anos, durante os quais experimentou “quase todas as vicissitudes e extremos que poderiam servir para aguçar a consciência, fortalecer a fibra e testar a alma do homem.” Mas, acima de tudo, a ideia de uma missão permaneceu com ele.

 

Enquanto estava na Austrália, casou-se “apenas para ficar viúvo após um ano de casamento.” Ao retornar à Inglaterra em 1857, após um intervalo, dedicou-se à literatura, leu muito e conviveu bastante com as pessoas, mas descobriu, em sua busca pela verdade, que só pelo pensamento conseguiria o que buscava, e aprendeu por meio de amargas experiências, por meio de lutas, provações e tribulações, que “a própria capacidade de pensar é aprimorada pelo sentimento tanto quanto pelo pensamento” e que “pelo sofrimento externo, a capacidade interna de pensar se liberta.”

 

Durante todo esse período, ele foi sustentado principalmente pelo pensamento de que seus problemas, “por mais difíceis de suportar que fossem e por mais imerecidos que parecessem, poderiam se revelar bênçãos disfarçadas, contribuindo para a realização da ambição central de sua vida, educando-o para ela.” Ele estava determinado a construir “um sistema de pensamento ao mesmo tempo científico, filosófico, moral e religioso, e reconhecível pelo entendimento como indubitavelmente verdadeiro por estar embasado em princípios fundamentais.”

 

Em janeiro de 1874, em circunstâncias relatadas no meu artigo anterior, ele conheceu Anna Kingsford pela primeira vez e, no mês seguinte, a convite dela e do marido, visitou-os em sua casa em Shropshire. Durante o período que se passou desde seu retorno do exterior, ele se tornou famoso como autor de O Peregrino e o Santuário, A Lei Superior e By and By, um Romance Histórico do Futuro; e, na época do encontro, estava escrevendo As Chaves dos Credos, que foi publicado no ano seguinte.

 

O encontro de Anna Kingsford e Edward Maitland marcou um ponto de virada na vida de ambos. Eles reconheceram que tinham uma missão conjunta a qual representava um trabalho divino. Suas simpatias foram imediatamente conquistadas em favor dos animais no que diz respeito ao tema da vivissecção, da qual ele então ouviu falar pela primeira vez, e a partir daquele momento, por razões morais, bem como por outras, ele se tornou um dos principais oponentes da vivissecção, que ele considerava o resultado lógico e inevitável do materialismo, que até então ele havia rejeitado apenas por razões intelectuais.

 

Os primeiros frutos de sua colaboração com Anna Kingsford foram algumas cartas que ele escreveu sobre “Os Médicos e o Projeto de Lei da Vivissecção” e que foram publicadas no Examiner em junho de 1876. A aceitação foi imensa. Essas cartas foram reimpressas por diversas sociedades e particulares e distribuídas em dezenas de milhares. Outro efeito de seu encontro foi a adoção por ele do modo de dieta de Anna Kingsford – ela era vegetariana. Ele “nunca estivera totalmente satisfeito com o modo predominante de sustentar nossos organismos.” Sempre lhe parecera “incompatível com a perfeição possível que o homem, o produto mais elevado do mundo visível, fosse constituído de tal forma que só pudesse sustentar-se praticando violência, não apenas contra os animais, seus semelhantes sensíveis, mas também contra seus próprios sentimentos mais elevados.”

 

Consequentemente, ele estava favoravelmente disposto a dar atenção prática aos argumentos em favor do vegetarianismo, e havia uma outra consideração que, segundo ele, foi um fator potente para provocar essa mudança: ele sentia que “somente abstendo-se de carne poderia com total coerência opor-se à vivissecção.”

 

Em 1875, ele estava estudando os vários sistemas religiosos da antiguidade com o objetivo de averiguar até que ponto eles possuíam alguma ideia central dominante em comum.

 

Ele havia descoberto em Anna Kingsford alguém que possuía uma faculdade que lhe permitia alcançar uma “percepção plena e direta de conclusões às quais ele só havia chegado após uma longa e árdua busca”, e que em sua missão conjunta, a plena manifestação daquele dom especial que ela possuía dependia do desenvolvimento nele de uma faculdade semelhante. Enquanto seguia firmemente, e como um efeito de seu modo reformado de dieta, ele diz: –

 

“Descobri, para meu indizível deleite, que passei a possuir uma faculdade de ideação estranhamente aprimorada, que se manifestou em um poder de discernimento sobre problemas que até então me haviam intrigado. Era como se minhas superfícies mentais tivessem sido limpas e sensibilizadas de tal maneira que se tornaram acessíveis a impressões e sugestões que antes eram sutis demais e refinadas demais para serem reconhecidas.”

 

Seu trabalho exigia o desenvolvimento da compreensão e a elevação do ponto de percepção da sua mente até os mais altos níveis de pensamento, e o meio supremo para esse fim era “a purificação e a intensificação da consciência e da vontade.” Ele considerava que o primeiro e mais essencial passo para a realização da consciência espiritual do homem era a purificação do corpo e da mente.

 

Isso demonstra a importância a ser atribuída à qualidade da alimentação, bem como à disposição dos sentimentos. Na Vida de Anna Kingsford, afirma-se que “a dieta perfeita do homem é composta de grãos, suco de frutas e óleo de nozes.”

 

Em 1880, após Anna Kingsford concluir seu curso de estudante e obter seu diploma de Medicina, ela e Edward Maitland estavam livres para assumir o trabalho de sua missão conjunta. No ano seguinte, eles iniciaram sua campanha proferindo “algumas palestras para audiências selecionadas” sobre o Cristianismo Esotérico, que foram posteriormente publicados sob o título de O Caminho Perfeito, ou, a Descoberta de Cristo. Um relato completo da produção desse maravilhoso livro e de sua recepção é apresentado em A Vida de Anna Kingsford.

 

Em O Caminho Perfeito, a renúncia à carne é enfatizada como “essencial para a plena apreensão e realização do ideal designado pelo termo Cristo” – entre outras razões por sua influência sensibilizadora nos planos superiores da consciência; e o consumo de carne é condenado como incompatível com a religião de Jesus Cristo.” Em resposta a alguns de seus críticos a esse respeito, Edward Maitland escreveu o seguinte: –

 

“Como reguladora da conduta, a religião é necessariamente a reguladora da dieta. Pois a dieta é um aspecto da conduta, e isso diz respeito à qualidade, bem como à quantidade. Negar a relação em questão é repudiar a prática da temperança, seja na alimentação ou na bebida, como um dever religioso, e admitir canibais, glutões e bêbados ao Reino dos Céus. As condições de admissão a esse Reino dependem da atitude mental e do estado de coração.

A questão entre nós é se essas condições são cumpridas por alguém que, pessoalmente ou por procuração, esmaga o crânio ou corta a garganta de uma criatura gentil, inocente e altamente sensível, para devorar sua carne, quando a terra ao seu redor fornece em abundância alimento saudável e legítimo. Nem a crueldade contra os animais é a pior parte do mal envolvido em tal prática. Os próprios homens são indizivelmente degradados por ela e impedidos em seu progresso. Não é o lobo ou o tigre, mas o cordeiro que é representado nas Sagradas Escrituras, como o símbolo daquele que finalmente vence o mal e alcança a perfeição e a bem-aventurança. E há razões abundantes para crer que somente de alimentos puros em si mesmos e obtidos de forma justa, o Espírito interior (o ‘Deus do homem’, como o denominei) pode extrair os elementos necessários para a edificação do indivíduo até a plena estatura de sua devida perfeição.”

 

Durante o restante da vida de Anna Kingsford, além de seu outro trabalho como médica, Edward Maitland a acompanhou e participou ativamente de suas turnês de palestras contra a vivissecção e a favor do vegetarianismo, tanto aqui quanto no exterior, e muito trabalho bom e útil foi realizado por eles nessas causas.

 

Após a morte de Anna Kingsford, que ocorreu em fevereiro de 1888, ele passou os anos restantes de sua vida escrevendo e dando palestras, sua obra literária inclui (entre outras) A Vida de Anna Kingsford, já mencionada. Em todo esse trabalho, ele estava consciente de ser continuamente ajudado e apoiado por Anna Kingsford.

 

Edward Maitland ensinava que: “A raiz de todo progresso deve estar dentro do próprio homem, e enquanto ele se alimentar como um carnívoro, não se pode esperar que ele seja humano. É tão somente uma regeneração espiritual que pode melhorar o mundo, uma reforma dos próprios homens, e não apenas das instituições.”

 

Ao falar sobre a causa de nossas dificuldades, perigos e defeitos sociais, ele disse que “nosso modo de viver estava na raiz de tudo, e o remédio estava em retornar ao modo natural de sustentar a vida”, e que nossos hábitos carnívoros pecavam contra as leis da natureza, físicas e morais, e o mal de nossas condições sociais era consequência da violação dessas leis, que não podiam ser ultrajadas impunemente, mas que seriam sempre punidas.

 

Se alguém pode ser considerado como tendo “lutado o bom combate”, isso pode ser dito de Edward Maitland. No final de sua vida, referindo-se ao seu trabalho em colaboração com Anna Kingsford, ele disse: –

 

“Posso afirmar com confiança que, por mais obscuro, difícil e doloroso que tenha sido nosso caminho, nunca houve um instante em que eu estivesse disposto a vacilar ou retroceder, tão absoluta era minha confiança na divindade de nossa missão, tão grande a alegria que me aguardava em sua conclusão.”

 

Ele faleceu em 2 de outubro de 1897, ao completar 73 anos. Ele seguiu um caminho com inocência e viveu fiel às suas intuições, e “a geração dos fiéis será abençoada.”

 

NOTA

 

(*) The Vegetarian Messenger, abril de 1931, p. 106.

 

 

 

Texto (3): Obras de Edward Maitland (em conjunto com Anna Kingsford)

 

– The Perfect Way; or, the Finding of Christ (O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo). Anna Kingsford e Edward Maitland. Hamilton, Adams & Co., Londres, 1882. Segunda edição, revisada e ampliada: Field and Tuer, Londres, 1887; e também, Esoteric Publishing Company, Boston, 1988. 3a edição: 1890. Quinta edição, editada, com adições e longo prefácio, por Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1923. 405 pp. Obra completa no Site Anna Kingsford em inglês.

The Virgin of the World (A Virgem do Mundo). Uma tradução de manuscritos herméticos. Ensaios introdutórios (sobre Hermetismo) e notas de Anna Kingsford e Edward Maitland. George Redway, Londres, 1885. Também em Madras: P. Kailasam Brothers; Spiritualistic Book Depot, 1885. 154 pp. Obra completa no Site Anna Kingsford em inglês.

– Intima Sacra: a Manual of Esoteric Devotion (Intima Sacra: um Manual de Devoção Esotérica). Compilado por E. M. Forsyth. David Stott, Londres: 370, Oxford Street, W. 1891. 163 pp. Este livro é uma compilação de textos dos escritos da Dra. Anna Kingsford, e contém um Prefácio de Edward Maitland. Ele foi escrito como um resumo e uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações, Introdução do Compilador, e alguns capítulos em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford. A maioria dos capítulo ainda estão em inglês.

– Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo). Anna Kingsford e Edward Maitland. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1912. 227 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra em Html, no Site Anna Kingsford, em inglês. O capítulo O Vegetarianismo e a Bíblia já está em português.

The Credo of Christendom: and other Addresses and Essays on Esoteric Christianity (O Credo do Cristianismo: e Outras Palestras e Ensaios sobre o Cristianismo Esotérico). Anna Kingsford e Edward Maitland. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1916. 256 pp. Obra completa no Site Anna Kingsford, em inglês. Os capítulos O Credo do Cristianismo e A Constituição do Homem já estão em português.

 

Obras de Edward Maitland (Ordem Cronológica):

 

The Pilgrim and the Shrine; or, Passages from the Life and Correspondence of Herbert Ainslie (O Peregrino e o Santuário; ou, Passagens da Vida e Correspondência de Herbert Ainslie). Terceira Edição (com correções e adições), John W. Lovell, Nova Iorque, 1889. 467 pp. G.P. Putnam’s Sons, Nova Iorque, 1872. Tinsley Brothers, Londres, 1872. 467 pp. 1ª Edição, 1869. 3ª Edição, 1873. Obra completa no Site Anna Kingsford, em inglês.

One Passed By! (Alguém Passou por Aqui!) [Letra de música]. Letra de Edward Maitland. Música de Virginia Gabriel (Mary Ann Virginia). Londres, Ashdown & Parry, 18, Hanover Square. (circa 1870).

The Higher Law. A Romance (A Lei Superior. Um Romance). Tinsley Brothers, Londres, 1871. 506 pp. Segunda Edição: G.P Putnam & Sons, Nova Iorque, 1872. 506 pp. Obra completa no Site Anna Kingsford, em inglês.

Jewish Literature and Modern Education: or, the Use and Misuse of the Bible in the Schoolroom (Literatura Judaica e Educação Moderna: ou, o Uso e o Mal Uso da Bíblia na Sala de Aula). Edward Maitland. Editado, para o autor, por por Thomas Scott, Ramsgate. 1871. 97 pp. E, também, por Trübner & Co., Londres (8 & 60, Paternoster Row), 1872, 97 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

By and By: An Historical Romance of the Future (Dentro em Breve: um Romance Histórico do Futuro). G.P. Putnam’s Sons, Nova Iorque, 1873. 460 pp. Richard Bentley and Son, Londres, 1873. Tinsley Brothers, Londres, 1876. Gregg Press (reimpressão da Primeira Edição), Boston, 1977. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Keys of the Creeds (As Chaves dos Credos). Segunda Edição, Revisada: Trübner & Co., Londres (Ludgate Hill), 1875. 201 pp. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

England and Islam: or, The Counsel of Caiaphas (Inglaterra e Islã: ou, O Conselho de Caifás). Tinsley Brothers, Londres, 1876. 636 pp. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Soul, and How It Found Me (A Alma e Como Ela Me Encontrou). Publicado pelo Autor. Tinsley Brothers, Londres, 1877. 307 pp. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

How the World Came to an End in 1881 (Como o Mundo Chegou a um Fim em 1881). Publicado anonimamente (Edward Maitland). Field & Tuer, Londres, 1884. 83 pp. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The New Illumination (A Nova Iluminação). Este texto, originalmente, foi um ensaio lido na Sociedade Hermética, em 15 de julho de 1886. Foi posteriormente publicado como um livreto por – George Conway, London, 1886. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Modern Inquisition (A Inquisição Moderna). Artigo publicado na revista The Path, Vol 5, n. 4 de julho de 1890. Texto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

Intima Sacra: a Manual of Esoteric Devotion (Intima Sacra: um Manual de Devoção Esotérica). Compilado por E. M. Forsyth. David Stott, Londres: 370, Oxford Street, W. 1891. 163 pp. Este livro é uma compilação de textos dos escritos da Dra. Anna Kingsford, e contém um Prefácio de Edward Maitland. Ele foi escrito como um resumo e uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações, Introdução do Compilador, e alguns capítulos em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Bible’s Own Account of Itself (O Relato da Própria Bíblia sobre Si Mesma). 1ª Edição: Ruskin Press, Birmingham, 1891. 2ª Edição, completa com Apêndice: Ruskin Press, Birmingham, 1905. 83 pp. 3ª Edição: John M. Watkins, Londres, 1913. Mais informações em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

Uma Mensagem à Terra (A Message to Earth). Publicado anonimamente. [Nota do compilador: Editado por Edward Maitland.] Publicado em conjunto com os escritos reconhecidos pela União Cristã Esotérica como pertencendo ao “Novo Evangelho da Interpretação”. Londres (Lamley & Co., 1 & 3 Exhibition Road, S.W.), 1892. 93 pp. Mais informações e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em português.

O “Novo Evangelho da Interpretação”: Sendo um Resumo da Doutrina e uma Declaração da Origem, Objetivo, Fundamento, Método e Alcance da União Cristã Esotérica (The “New Gospel of Interpretation”: Being an Abstract of the Doctrine and a Statement of the Origin, Object, Basis, Method and Scope of the Esoteric Christian Union). Edward Maitland. Publicado pela União Cristã Esotérica, cujo Presidente-Fundador era Edward Maitland. Londres, Lamley & Co., 1892. 93 pp. Mais informações e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em português.

The Appeal of the Esoteric Christian Union to the Churches and People of Christendom (O Apelo da União Cristã Esotérica às Igrejas e Povos da Cristandade). Publicado pela União Cristã Esotérica, cujo Presidente-Fundador era Edward Maitland. Londres (37, Chelsea Gardens, S.W.), circa 1893. 8 pp. Mais informações em português, e texto completo deste documento, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

Vivisection (Vivissecção). Edward Maitland e Edward Carpenter. William Reeves, Londres, 1893. 53 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland and of the New Gospel of Interpretation (A História de Anna Kingsford e Edward Maitland e do Novo Evangelho da Interpretação). 1ª Edição, 1893. 2ª Edição, 1894. 3ª Edição, editada por Samuel H. Hart: Ruskin Press, Birmingham, 1905. 204 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

The Life of Anna Kingsford: Her Life, Letters, Diary and Work (A Vida de Anna Kingsford: Sua Vida, Cartas, Diário e Obra). Dois volumes. George Redway, Londres, 1896. 3ª Edição, editada por Samuel Hopgood Hart: John M. Watkins, Londres, 1913. Vol. I, 442 pp.; Vol. II, 466 pp. Mais informações em português, e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em inglês.

A Verdade Viva no Cristianismo (The Living Truth in Christianity). John M. Watkins, Londres: 21 Cecil Court, Charing Cross Road, 1915. 43 pp. Embora esse pequeno livro não tenha sido escrito por Kingsford ou Maitland, ele foi escrito como uma introdução à mensagem dessas duas almas-profetas. Mais informações e texto completo da obra, em Html, no Site Anna Kingsford em português.

O Vegetarianismo e a Bíblia. Coleção Roda e Cruz, Brasília, 2010. 46 pp. Arnaldo Sisson Filho, organizador. Primeiro da série de opúsculos da Coleção Roda e Cruz. Ele contém uma breve biografia da Dra. Kingsford, escrita por Samuel H. Hart, além do texto O Vegetarianismo e a Bíblia de Edward Maitland, e também algumas citações das obras de Kingsford e Maitland a respeito da interpretação dos símbolos religiosos. Livreto completo, em Html, no Site Anna Kingsford em português.

O “Novo Evangelho da Interpretação”: Um Resumo do Cristianismo Místico da Dra. Anna Kingsford. Edward Maitland. Reedição, com modificações, feitas por Arnaldo Sisson Filho. Coleção Roda e Cruz, Brasília, 2012. 99 pp. Reedição a partir da obra O “Novo Evangelho da Interpretação”: Sendo um Resumo da Doutrina e uma Declaração da Origem, Objetivo, Fundamento, Método e Alcance da União Cristã Esotérica que se encontra na íntegra no Site Anna Kingsford, tanto no original em inglês, quanto em tradução ao português.

 

 

 

EGITO – FUGA DO EGITO – ÊXODO

 

Citação (1): Redenção do Espírito da Matéria, Tema das Sagradas Escrituras, Queda de Adão, Israel, Cativeiro no Egito, Êxodo pelo Deserto, Travessia do Jordão e Terra Prometida

Citação (2): Regeneração, Fuga do Egito, Deserto, Provação, Quarenta Dias-Anos, Redenção, Rio Jordão e Terra Prometida

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

 

Citação (1): Redenção do Espírito da Matéria, Tema das Sagradas Escrituras, Queda de Adão, Israel, Cativeiro no Egito, Êxodo pelo Deserto, Travessia do Jordão e Terra Prometida

 

É esse processo de transmutação, ou redenção do Espírito da Matéria, tanto na dimensão individual quanto na universal, que constitui o tema das sagradas escrituras, o objeto de todas as religiões verdadeiras, e a tarefa de todas as verdadeiras igrejas. E são os vários estágios desse processo que constituem respectivamente a Queda de Adão por meio da submissão da Eva dentro dele à serpente da Matéria; a descida de Israel, ou da Alma, até o Egito, ou o mundo e os sentidos; e o Êxodo ou fuga do mundo através da água da separação e consagração até o deserto, até a região erma da experiência beneficente; e a travessia do rio Jordão, ou rio da purificação, para tomar posse da terra prometida da perfeição.”. [Anna Kingsford e Edward Maitland. Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo). Capítulo: O Vegetarianismo e a Bíblia, p. 221; grifos nossos]

 

 

Citação (2): Regeneração, Fuga do Egito, Deserto, Provação, Quarenta Dias-Anos, Redenção, Rio Jordão e Terra Prometida

 

“A Regeneração nos mistérios hebreus é simbolizada pela fuga do Egito – o corpo, e, portanto, terra de aprisionamento para a alma – através do Mar Vermelho para o Deserto do Pecado, o cenário da provação no qual os quarenta dias místicos estão expressos em um período semelhante de anos.

A Redenção é representada pela travessia do Jordão, que separa esse deserto da provação da terra prometida da perfeição e repouso espiritual. Esse Jordão, ou rio do julgamento, não poderia ser atravessado por Moisés, pois ele tinha falhado na provação de sua iniciação.

A libertação final de Israel estava reservada a Joshua, um nome idêntico a Jesus, que se manteve fiel em todos os momentos. O Jordão corresponde ao rio Aqueronte dos mistérios do Olimpo, o qual todas as almas, ao descer ao mundo inferior, eram obrigadas a atravessar. E o Limbo, o Paraíso, o Avernus, os Campos Elísios, o Tártaro, o Purgatório e o repouso, todos denotam, sob diversos nomes, não localidades, porém esferas ou condições de existência, igualmente reconhecidos nos sistemas hebreu, pagão e cristão, e existindo no próprio homem.” [Anna Kingsford e Edward Maitland. The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), p. 102; grifos nossos]

 

 

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

Vide essa citação na Citação (4): do verbete ALMA.

 

 

 

ESPIRITUALIDADE VERSUS PSIQUISMO

 

Texto (1): Sobre o Gênio ou “Daimon” (Anjo da Guarda)

 

Vide esse texto no Texto (1): do verbete ALMA.

 

 

 

EVA

 

Citação (1): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

Citação (2): Adão e Eva

 

 

Citação (1): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ADÃO.

 

 

Citação (2): Adão e Eva

 

Vide essa citação na Citação (2): do verbete ADÃO.

 

 

 

 

LETRA “F”

– Fé Versus Credulidade

– Figueira

– Filho de Deus

 

 

 

FÉ VERSUS CREDULIDADE

 

Citação (1): Fé Sem Compreensão É Credulidade

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CIÊNCIA E RELIGIÃO.

 

 

 

FIGUEIRA

 

Citação (1): Figueira: Símbolo da Percepção Intuicional e de Hermes (Rafael)

 

A figueira, que tanto para os hebreus quanto para os gregos era o símbolo da percepção intuicional, era um símbolo especial de Hermes, chamado de Rafael pelos hebreus.” [Anna Kingsford. Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos), Nota de Rodapé (38:1); grifo nosso]

 

 

 

FILHO DE DEUS

 

Citação (1): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

Citação (2): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

 

Citação (1): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

 

Vide essa citação na Citação (2): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CÁLICE E SANGUE.

 

 

 

 

LETRA “I”

-Idolatria É Forma de Materialismo

-Importância da Imagem de Deus

-Intuição

-Israel

 

 

 

IDOLATRIA É FORMA DE MATERIALISMO

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

Citação (2): Ex Oriente Lux. Por que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

 

Citação 1: Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

Citação 2: Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CATÓLICO.

 

 

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete CIÊNCIA E RELIGIÃO.

 

 

 

IMPORTÂNCIA DA IMAGEM DE DEUS

 

Citação (1): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

 

INTUIÇÃO

 

Citação (1): A “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ALMA.

 

 

 

ISRAEL

 

Citação 1: Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

Citação 2: Redenção do Espírito da Matéria, Tema das Sagradas Escrituras, Queda de Adão, Israel, Cativeiro no Egito, Êxodo pelo Deserto, Travessia do Jordão e Terra Prometida

Citação 3: Regeneração, Fuga do Egito, Deserto, Provação, Quarenta Dias-Anos, Redenção, Rio Jordão e Terra Prometida

 

 

Citação 1: Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

Citação 2: Redenção do Espírito da Matéria, Tema das Sagradas Escrituras, Queda de Adão, Israel, Cativeiro no Egito, Êxodo pelo Deserto, Travessia do Jordão e Terra Prometida

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete EGITO FUGA DO EGITOÊXODO.

 

 

Citação 3: Regeneração, Fuga do Egito, Deserto, Provação, Quarenta Dias-Anos, Redenção, Rio Jordão e Terra Prometida

 

Vide essa citação na Citação (2): do verbete EGITO FUGA DO EGITOÊXODO.

 

 

 

 

LETRA “J”

– Jesus

 

 

 

JESUS

 

Citação (1): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

Citação (2): Cristo, a Realização no Homem de Suas Próprias Potencialidades Divinas

Citação (3): Tema do Credo Cristão: o Cristo Jesus Dentro do Homem

 

 

Citação (1): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Cristo, a Realização no Homem de Suas Próprias Potencialidades Divinas

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CRISTO.

 

 

Citação (3): Tema do Credo Cristão: O Cristo Jesus Dentro do Homem

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete CRISTO.

 

 

 

LETRA “M”

– Maria

– Monte – Montanha

– Mulher

 

 

MARIA

 

Citação (1): “Adão”, “Eva”, “Cristo”, “Maria” e o Restante – Simbolizam os Vários Elementos Espirituais Que Constituem o Indivíduo e Seus Estados

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ADÃO.

 

 

MONTE – MONTANHA

 

Citação (1): Sempre o Símbolo de Alta Percepção Mística e Realização Espiritual

 

“Então, erguendo os olhos para ver para onde meu caminho me levava, contemplei-o serpenteando pela borda do penhasco até uma distância aparentemente infinita, até que, enquanto olhava fixamente para o limite extremo da minha visão, vi a névoa cinzenta do mar aqui e ali se romper e se enrolar em grandes massas de nuvens que se deslocavam lentamente, nos intervalos das quais vislumbrei o brilho branco da neve iluminada pelo sol. E esses intervalos se fechavam continuamente para se abrirem novamente em novos lugares mais acima, revelando pico após pico de uma cordilheira de enorme altitude. (*)” [Anna Kingsford. Dreams and Dream Stories (Sonhos e Histórias de Sonhos). Editado por Edward Maitland; p. 40]

 

NOTA:

 

(*): Sempre o símbolo de alta percepção mística e realização espiritual – biblicamente chamado de “Monte do Senhor” e “Monte de Deus.” (Edward Maitland)

 

 

 

MULHER

 

Citação (1): A “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

Citação (3): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos é Cometer Idolatria

 

 

Citação (1): A “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

 

Vide essa citação na Citação (2): do verbete ALMA.

 

 

Citação (3): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

 

 

LETRA “P”

– Pão e Vinho

– Perfect Way (O Caminho Perfeito)

– Propósito Que Todos Temos em Nosso Coração

 

 

 

PÃO E VINHO

 

Citação (1): Erguido o Véu do Simbolismo Igrejas São Similares, Doutrinas Básicas São Idênticas

 

Uma vez erguido o véu do simbolismo da face divina da Verdade, todas as Igrejas são similares, e a doutrina básica de todas é idêntica (…). Grega, Hermética, Budista, Vedantina, Cristã – todas essas Lojas dos Mistérios são essencialmente unas e são idênticas em doutrina. (…)

Nós sustentamos que nenhum credo eclesiástico isolado é compreensível somente por si mesmo, se não for interpretado com o auxílio de seus antecessores e de seus contemporâneos.

Por exemplo, estudantes de teologia cristã somente aprenderão a entender e a apreciar o verdadeiro valor e significado dos símbolos que lhes são familiares por meio do estudo da filosofia Oriental e do idealismo pagão.

Pois o Cristianismo é o herdeiro dessa filosofia e desse idealismo, e o que há de melhor em seu sangue vem das veias dessa filosofia e desse idealismo.

E visto que todos os seus grandes antecessores ocultaram por trás de suas fórmulas e ritos externos – os quais são meras cascas e coberturas para entreter os pobres de entendimento – as verdades internas ou ocultas reservadas ao iniciado, assim também o Cristianismo reserva aos buscadores sérios e aos pensadores mais profundos os Mistérios internos verdadeiros, que são unos e eternos em todos os credos e igrejas desde o princípio do mundo.

Esse significado verdadeiro, interior e transcendental é a Presença Real velada nos Elementos do Divino Sacramento: – a substância mística e a verdade simbolizadas sob o pão e o vinho das antigas orgias de Baco, e agora da nossa própria Igreja Católica.

Para aquele não sábio, que não pensa profundamente, que é supersticioso, os elementos físicos são a finalidade do rito; para o iniciado, o vidente, o filho de Hermes, eles são apenas os sinais externos e visíveis daquilo que é sempre, e necessariamente, interno, espiritual e oculto.” [Edward Maitland. Citado por Samuel H. Hart, em seu Prefácio à Quinta Edição (pp. 12-13), da obra The Perfect Way (O Caminho Perfeito). Citação extraída da obra The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford), Vol. II, pp. 123-124; grifos nossos]

 

 

 

PERFECT WAY (O CAMINHO PERFEITO)

 

Livro (1): Perfect Way (O Caminho Perfeito)

 

Vide informações sobre essa obra no Livro (1): do verbete ANNA KINGSFORD.

 

 

 

PROPÓSITO QUE TODOS TEMOS EM NOSSO CORAÇÃO

 

Citação (1): Propósito Que Todos Temos em Nosso Coração: Disseminação da Verdade Através de Qualquer Canal Religioso

 

“Esse não é apenas o desejo de qualquer um de nós dois [N.A.: Mahatmas que orientaram a fundação da Soc. Teosófica], conhecidos pelo Sr. Sinnett, ou de ambos, mas a expressa vontade do próprio Chohan. [N.E.: o Senhor Mahachohan] A eleição da Sra. Kingsford [N.E.: Dra. Anna Kingsford] não é um assunto de sentimentos pessoais entre nós mesmos e aquela senhora, mas se apoia inteiramente na questão da conveniência de ter-se na chefia da Sociedade [Teosófica], num lugar como Londres, uma pessoa bem adaptada ao padrão e aspirações do público (ainda) ignorante (acerca das verdades esotéricas) e, portanto, malicioso. (…) é uma questão se a referida senhora está capacitada para o propósito que todos nós temos em nosso coração, a saber, a disseminação da VERDADE por meio das doutrinas esotéricas, transmitidas através de qualquer canal religioso, e a eliminação do materialismo crasso e dos preconceitos e ceticismo cegos.” [K.H. In T. Baker, editor. The Mahatma Letters to A.P. Sinnett (Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett), n. 85, p. 398; grifos nossos]

 

 

 

 

LETRA “S”

– Sacerdotalismo

– Salvação Vicária

– Serpente do Éden, Herodes e o Dragão

– Significado Alegórico e Não Literal

 

 

 

SACERDOTALISMO

 

Citação (1): Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

Citação (2): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

Citação (3): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

 

Citação (1): Ex Oriente Lux. Por Que Igreja Cristã Foi Chamada de Católica? Figura do Cristo Sintetiza Figuras Centrais das Dispensações Anteriores

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CATÓLICO.

 

 

Citação (2): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CÁLICE E SANGUE.

 

 

Citação (3): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

 

SALVAÇÃO VICÁRIA

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

 

Citação (1): Crucificação, Ressurreição e Doutrina Perniciosa da Redenção Vicária

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete CÁLICE E SANGUE.

 

 

Citação (2): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

Vide essa citação na Citação (4): do verbete ALMA.

 

 

 

SERPENTE DO ÉDEN, HERODES E O DRAGÃO

 

Citação (1): “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

 

 

Citação 1: A “Mulher” Não É Uma Mulher, Mas Sim a Alma e a Intuição

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Filho de Deus: Redenção do Divino no Homem

 

Vide essa citação na Citação (2): do verbete ALMA.

 

 

 

SIGNIFICADO ALEGÓRICO E NÃO LITERAL

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

Citação (2): Bíblia Apresenta Queda e Redenção das Almas Sob a Forma de Símbolos e Parábolas

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Bíblia Apresenta Queda e Redenção das Almas Sob a Forma de Símbolos e Parábolas

 

Vide essa citação na Citação (1): do verbete BÍBLIA: COLEÇÃO DE SÍMBOLOS E PARÁBOLAS.

 

 

Citação (3): “Novo” Evangelho da Interpretação: Atrativo Tanto ao Lado Intelectual, Quanto ao Lado Devocional

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete CIÊNCIA E RELIGIÃO.

 

 

 

 

LETRA “T”

– Tentação da Serpente

– Trabalhar É Orar

 

 

 

TENTAÇÃO DA SERPENTE

 

Citação (1): Bíblia, Coleção de Parábolas Sobre a História da Alma: Pessoas, Povos, Animais etc., São Símbolos – Materializar os Símbolos É Cometer Idolatria

 

Vide essa citação na Citação (5): do verbete ALMA.

 

 

 

TRABALHAR É ORAR

 

Citação (1): Trabalhar É Orar

 

“A instrução sempre é – “Trabalhar é orar”; “Pedir é receber”; “Bater é ter a porta aberta.” “Tenho dito frequentemente”, diz meu gênio, “Pense por si mesmo. Quando se pensa interiormente, se ora intensamente, e se imagina de maneira centralizada, então, se conversa com Deus”.” [Anna Kingsford. Clothed with the Sun (Vestida com o Sol), p. 37. Obra completa no Site Anna Kingsford, com vários capítulos já em português; grifos nossos]

 

 

 

LETRA “V”

– Vegetarianismo

 

 

VEGETARIANISMO

 

Citação (1): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

Citação (2): Movimento Vegetariano: Redentor do Mundo

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

Texto (1): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo

Texto (2): O Banquete dos Deuses

Texto (3): Sobre os Três Véus Entre o Homem e Deus

Texto (4): O Vegetarianismo e a Bíblia

Texto (5): A Bíblia e o Hábito de Comer Carne

 

 

Citação (1): Cristo Jesus Dentro de Nós; “Sangue” de Deus; Salvação Vicária; Importância da Imagem de Deus

 

Vide essa citação na Citação (3): do verbete ALMA.

 

 

Citação (2): Movimento Vegetariano: Redentor do Mundo

 

Considero o movimento vegetariano o mais importante movimento de nossa época. Acredito nisso porque vejo nele o começo da verdadeira civilização. Minha opinião é que até o presente momento não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres dos animais, sejam inteiros ou cortados – que com molhos e condimentos são servidos em nossas mesas – não pensamos no horrível fato que precedeu esses pratos; e, não obstante, é algo terrível saber que a cada refeição que fazemos foi a custo de uma vida. Sustento que devemos à civilização a elevação de toda aquela classe profundamente desmoralizada e barbarizada de pessoas – açougueiros, boiadeiros e todos os outros envolvidos nesse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pela presença de abatedouros em suas vizinhanças, o que condena classes inteiras a uma ocupação aviltante e desumana. Aguardo pelo tempo em que a consumação do movimento vegetariano tenha criado homens perfeitos, pois vejo nesse movimento o alicerce da perfeição. Quando percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, me sinto convencida de que ele se provará o redentor do mundo. [Anna Kingsford. Citada por Samuel H. Hart, in Em Memória de Anna Kingsford (In Memoriam Anna Kingsford). Esse livreto contém o texto completo, com adendos do autor, da palestra proferida por ele para a Sociedade Vegetariana de Leeds, em 15 de setembro de 1946, na comemoração do Centenário do nascimento de Anna Kingsford. O texto se encontra no Site Anna Kingsford, em português; grifos nossos]

 

 

Citação (3): Tesouro dos Egípcios; Falsidade da Salvação Vicária; a Jerusalém Celestial; Derramamento de Sangue

 

Vide essa citação na Citação (4): do verbete ALMA.

 

 

Texto (1): Anna Kingsford, Cristianismo Budista e Vegetarianismo

 

Vide esse texto no Texto (4): do verbete ANNA KINGSFORD.

 

 

Texto (2): O Banquete dos Deuses

 

“Eu vi em meu sono uma grande mesa posta em uma bela montanha, cujos distantes picos estavam cobertos de neve, e brilhavam com uma intensa luz. Ao redor da mesa estavam doze pessoas, seis homens e seis mulheres, alguns dos quais eu reconheci de imediato, outros apenas mais tarde. Aqueles que reconheci de imediato eram Zeus, Hera, Palas Atena, Apolo e Ártemis. Os reconheci pelos símbolos que usavam. A mesa estava coberta com muitas variedades de frutas, de grande tamanho, incluindo nozes, amêndoas e olivas, com tortas finas de pão, e taças de ouro nas quais, antes de beber, cada divindade colocava dois tipos de líquido, um dos quais era vinho, e o outro água. Enquanto eu olhava, de pé sobre um degrau um pouco abaixo do piso que conduzia até a mesa, eu fui surpreendida ao ver Hera que me olhava fixamente e que disse:

“O que vês lá no final da mesa?” Eu olhei e respondi: “Vejo dois lugares vazios.” Então, ela falou novamente, dizendo: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, também poderão sentar e comer em nossa companhia.” Ela mal tinha terminado de dizer essas palavras quando Atena, que estava sentada a minha frente, acrescentou: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, então poderão conhecer como vocês são conhecidos.” E imediatamente Ártemis, a quem reconheci pela lua sobre sua cabeça, continuou: “Quando forem capazes de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, todas as coisas se tornarão puras, e vocês se tornarão virgens.”

Eu disse, então: “Ó imortais, qual é o vosso alimento e qual a vossa bebida, e como as vossas refeições diferem das nossas, uma vez que nós também não comemos carne, e o sangue também não tem lugar em nossos repastos?”

Então, um dos Deuses, que no momento não conheci, mas que logo depois reconheci como sendo Hermes, levantou-se da mesa, e vindo em minha direção colocou em minhas mãos um ramo de figueira com um fruto maduro, e disse:

“Se quiserem se tornar perfeitos, e serem capazes de conhecer todas as coisas, abandonem a heresia de Prometeu. Deixem que o fogo lhes aqueça e lhes dê conforto externamente – isso é uma dádiva dos céus. Mas não pervertam o seu justo propósito, como o fez aquele traidor da vossa raça, para encher as veias da humanidade com seu contágio, e para consumir o vosso ser interior com seu sopro. Todos vocês são homens de barro, como era a imagem que foi feita por Prometeu. Vocês são alimentados com fogo roubado, e ele os consome. De todas as más utilizações das boas dádivas dos céus, nenhuma é tão má como o uso interno do fogo. Pois os seus alimentos e bebidas quentes têm consumido e ressecado o poder magnético dos seus nervos, selado os seus sentidos, e encurtado as suas vidas. Vocês, desse modo, não veem nem ouvem; pois o fogo em seus órgãos consome os seus sentidos. Vocês são todos cegos e surdos, criaturas de barro. Nós lhes enviamos um livro para ser lido. (1) Pratiquem os seus preceitos, e seus sentidos se abrirão.”

Então, ainda não o reconhecendo, eu disse: “Diga-me seu nome, Senhor.” Nesse momento ele riu e respondeu: “Tenho estado contigo desde o começo. Sou a nuvem branca no céu do meio-dia.” “Então”, perguntei, “desejais que todo o mundo abandone o uso do fogo na preparação dos alimentos e das bebidas?”

Ao invés de responder minha pergunta, ele disse:

“Nós mostramos a vocês o caminho excelente. Dois lugares estão vagos em nossa mesa. Nós lhes mostramos tudo o que poderia ser mostrado no nível em que se encontram. Mas nossas dádivas perfeitas, os frutos da Árvore da Vida, estão além do seu alcance nesse momento. Não podemos dar essas dádivas a vocês até que estejam purificados e tenham alcançado um nível mais alto. As condições são de Deus, a vontade é com vocês.”

Essas últimas palavras pareciam ser repetidas vindas do céu acima da cabeça, e também debaixo de meus pés. E naquele momento caí de uma vasta altura, como se tivesse sido atingida por um meteoro; e com a velocidade e o choque acordei.”

[HINTON, setembro de 1877]

 

NOTA

(1) O livro referido foi um volume intitulado Fruit and Bread (Fruta e Pão), que foi enviado anonimamente na manhã anterior. A figueira, que tanto no caso dos hebreus quanto dos gregos era símbolo da percepção intuitiva, era um símbolo especial de Hermes, chamado de Rafael pelos hebreus. O plural que foi utilizado pela vidente incluía Edward Maitland, o companheiro de seus trabalhos literários e de outros estudos.

O termo “virgem” em seu sentido místico significa a alma pura de mescla com a matéria. (Nota do Editor)”

[Anna Kingsford. Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos), pp. 36-38. A obra se encontra no Site Anna Kingsford. Apenas esse capítulo já está em português, os demais ainda em inglês. Grifos nossos]

 

 

Texto (3): Sobre os Três Véus Entre o Homem e Deus (1)

 

Anna Kingsford

 

 

UM ANJO me deu em sonho um cálice dourado, como aqueles usados em rituais católicos, mas com três coberturas. Essas três coberturas, disse-me ele, representavam os três níveis dos céus: – pureza de vida, pureza de coração e pureza de doutrina.

 

Logo em seguida, surgiu um grande templo, de estilo muçulmano, coberto por uma abóbada, e em sua entrada havia um grande anjo com uma veste branca que, com ar de comando, dirigia um grupo de homens empenhados em destruir e jogar na rua grande quantidade de crucifixos, bíblias, livros de oração, utensílios de altar e outros símbolos sagrados.

 

Enquanto observava, um tanto escandalizada com o aparente sacrilégio, uma voz bradava de elevada altura no ar, com impressionante clareza: “Ele destruirá completamente todos os ídolos!” e a mesma voz, que parecia vir de ainda mais alto, gritou para mim: “Venha para cá e veja!”. Imediatamente pareceu-me que fui levantada pelos cabelos e levada bem acima da terra. (2) De repente surgiu no meio do ar a visão de um homem de aspecto majestoso em trajes antigos, rodeado por uma multidão de adoradores ajoelhados. No começo achei estranha a aparição dessa figura, mas enquanto eu olhava atentamente para ela, ocorreu uma mudança em sua face e em suas vestes, e eu achei que reconheci Buda – o Messias da Índia. Mal eu tinha me convencido disso, quando uma grande voz, como a de milhares de vozes gritando em uníssono, bradou aos adoradores: “Fiquem de pé: – Adorem somente a Deus!”.

 

E mais uma vez a figura mudou, como se uma nuvem tivesse passado por ela, e agora ela pareceu assumir a forma de Jesus. Vi novamente os adoradores ajoelhados, e outra vez a poderosa voz bradou: “Levantem-se! Adorem somente a Deus!”. O som de sua voz era com o do trovão e notei que ecoava sete vezes. Sete vezes o brado reverberou, aumentando a cada ressoar, como que subindo de esfera para esfera. Então, de repente, caí pelo ar, como se a mão que me sustentava fosse tirada; e ao voltar à terra parei dentro do templo que tinha aparecido na primeira parte da minha visão. Na extremidade leste (3) do templo havia um grande altar, de cima e de traz do qual timidamente vinha uma bela luz branca, cujo brilho era limitado e obscurecido por uma cortina escura, suspensa da abóbada em frente ao altar. E o corpo do templo que, se não fosse pela cortina, estaria completamente iluminado, estava praticamente na escuridão, a qual era rompida apenas pelo brilho irregular de lamparinas quase expirando, penduradas aqui e ali na vasta cúpula.

 

De pé, à direita do altar, estava o mesmo anjo alto que eu tinha encontrado antes na entrada do templo, levando em sua mão um incensório aceso. Então, ao perceber que ele olhava fixamente para mim, eu lhe disse: “Diga-me, que cortina é essa na frente da luz, e porque o templo está tão escuro?” Ele respondeu: “Este véu não é Um, mas são Três; e os três são: o Sangue, a Idolatria, e a Maldição de Eva. A você é dado retirá-los; tenha fé e seja corajosa; é chegada a hora”.

 

A primeira cortina era vermelha e muito pesada; e com grande esforço consegui afastá-la e disse: “Retirei o véu do Sangue da frente de Vossa Face. Iluminai, ó Senhor Deus!”. Mas uma voz, que vinha de trás das dobras das duas cortinas que lá permaneciam, me respondeu: “Não consigo brilhar por causa dos ídolos”. E vejam só, diante de mim uma cortina com muitas cores, tecida com todo o tipo de imagens, crucifixos, madonas, Velhos e Novos Testamentos, livros de oração e outros símbolos religiosos, uns estranhos e surpreendentes, como os ídolos da China e do Japão, outros belos, como os dos gregos e dos cristãos. E a cortina pesava como chumbo, pois estava espessa com bordados de ouro e prata. Mas, com as duas mãos, eu a rasguei e clamei: “Afastei os Ídolos da frente de Vossa Face. Iluminai, ó Senhor Deus!”

 

Agora a luz era mais clara e mais brilhante. Mas ainda diante de mim pendia um terceiro véu, todo em preto; e sobre ele estava esboçada uma imagem de quatro lírios em um único caule invertido, seus copos se abrindo para baixo. E, detrás desse véu, a voz me respondeu novamente: “Não posso brilhar por causa da Maldição de Eva”. Então, empreguei toda minha força e com grande determinação arranquei a cortina, gritando: “Removi a Maldição de Eva de diante de Vós. Iluminai, ó Senhor Deus!”.

 

Já não havia mais um véu, mas uma paisagem, mais gloriosa e perfeita do que palavras podem descrever, um jardim de absoluta beleza, repleto de palmeiras, de oliveiras, de figueiras, de rios de águas límpidas e de gramados de um verde suave; ao longe, florestas e bosques emoldurados por montanhas coroadas de neve, e no cimo de seus brilhantes picos um sol nascente, cuja luz era a que eu tinha visto por detrás dos véus.

 

E ao sol, no alto, diáfanas formas brancas de grandes anjos flutuavam como nuvens pela manhã sobre a aurora. E abaixo, sob frondoso cedro, estava um elefante branco, carregando em seu assento dourado uma linda mulher vestida como uma rainha e usando uma coroa. Mas, enquanto eu olhava em êxtase – desejando olhar para sempre – o jardim, o altar e o templo foram afastados de mim, em direção ao Céu. Então, enquanto eu olhava para cima, a voz voltou, a princípio nas alturas, mas vindo em direção à terra a medida que eu ouvia. E vejam, diante de mim surge o branco pináculo de um minarete, ao redor e abaixo dele o céu estava todo dourado e vermelho, com a glória do sol nascente. Percebi que a voz agora era de um solitário muezim (4) em pé no minarete com as mãos erguidas e pregando em voz alta:

 

“Afastem o Sangue de vosso meio!

Destruam seus Ídolos!

Restaurem sua Rainha!”

 

Logo em seguida uma voz, como a de uma infinita multidão, que parecia vir do alto, dos lados e de baixo dos meus pés – uma voz como um vento elevando-se desde as cavernas sob as montanhas até às mais elevadas e distantes alturas entre as estrelas – respondeu:

 

“Adorai somente a Deus!”

 

 

NOTAS

 

(1) Londres, março de 1981. Citado em Life of Anna Kingsford, Vol. II, pp. 21, 82. Publicado também como o primeiro capítulo da obra Clothed with the Sun. (Vestida com o Sol).

Tradução: Daniel M. Alves. Revisão e edição: Arnaldo Sisson Filho. Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse texto pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.

(2) I.e., elevada à consciência espiritual, acima da consciência material. S.H.H.

(3) N.E: Ou seja, na extremidade oriental, lugar em que usualmente se encontram os altares nos templos. O oriente representa a origem, a fonte de onde vem a luz, o Cristo, Deus.

(4) N.E: Membro da mesquita que, por sua voz e personalidade, era escolhido para chamar os fiéis à oração.

 

 

 

Texto (4): O Vegetarianismo e a Bíblia (1)

 

 

Edward Maitland

 

 

Há muitas pessoas para as quais os argumentos de natureza científica, social, econômica e até mesmo de ordem moral a favor de uma dieta vegetariana não são suficientes, mas que requerem, além disso, a sanção da Bíblia. Como estamos preparados para enfrentar questionamentos também sob esse aspecto, elaboramos este breve ensaio para responder o que poderia ser chamado de dificuldades religiosas cristãs no caminho do vegetarianismo.

 

Os leitores notarão, à medida que avançarmos, que não fazemos nenhum questionamento quanto à autoridade da Bíblia. O único questionamento, se é que é um questionamento, será quanto à interpretação da Bíblia, ou pelo menos quanto a certas partes da mesma. E com o intuito de merecer uma leitura paciente e tolerante das passagens que possam diferir das crenças que os leitores possam estar acostumados, desde logo lembrarei que a crença da infalibilidade da Bíblia é uma coisa – e é algo compatível com o espírito de humildade que é o único com o qual deveríamos nos aproximar das coisas sagradas – mas a crença na infalibilidade de nossa própria interpretação da Bíblia é outra coisa, a qual é incompatível com aquele espírito de humildade.

 

Naturalmente, esse preâmbulo pode ser totalmente supérfluo, pois pode ocorrer que os pontos de vista que expressamos já sejam os dos leitores. Contudo, seja esse ou não o caso, faz-se necessário para uma ampla defesa de nossa Causa que esse preâmbulo seja feito.

 

Em primeiro lugar, então, qual a natureza e o propósito da Bíblia? Ela é, antes de qualquer outra coisa, um livro religioso; não um livro científico ou histórico, mas sim uma obra religiosa. E, assim sendo, como a religião não é algo que se direciona principalmente aos sentidos externos ou à razão, mas algo que se relaciona com a Alma, o apelo (chamamento) da Bíblia não é principalmente para os sentidos externos ou para a razão, mas para a Alma.

 

Se concordarmos com essas premissas, então também não deveremos ter qualquer dificuldade em concordar com as premissas que seguem. Como a Alma não é perecível como o corpo, mas é imortal, e pode tornar-se eterna, os ensinamentos que são necessários para ela não devem se referir a pessoas, coisas ou eventos que sejam do tempo e transitórios, mas devem consistir em verdades que são eternas e, portanto, passíveis de uma perpétua aplicabilidade.

 

Do mesmo modo, uma vez que a Bíblia – sendo um livro religioso e que se dirige à Alma, ou à parte espiritual do homem – trata de coisas internas e espirituais, e não com coisas externas e materiais, é na sua significação espiritual, não na forma externa, que consiste no seu verdadeiro valor e onde ele deve ser buscado.

 

Quanto a esse último ponto a própria Bíblia se manifesta categoricamente, dizendo que a Letra é algo morto e que mata, e que apenas o Espírito tem vida e dá vida. E não apenas isso, mas a Bíblia insiste também sobre a necessidade do leitor ou ouvinte ter um sentido interno próprio, tão somente por meio do qual o sentido interno da Bíblia pode ser discernido. Assim, constantemente é dito, em relação a alguma afirmação cujo significado principal esteja tão profundamente contido de modo a se constituir em um mistério: – “O que tiver ouvidos para ouvir, que ouça.” E constantemente ela se refere com reprimenda a pessoas que têm olhos que não veem e ouvidos que não ouvem o significado místico escondido sob suas frases simbólicas.

 

Desse modo, longe de aprovar a concordância (aceitação) cega e não inteligente, a Bíblia repetidamente exalta um Espírito de Compreensão (Entendimento) como sendo o principal dos dons (dádivas) divinos. E ao assim fazer, como podemos observar, a Bíblia não é inconsistente consigo mesma quando ao enumerar as graças divinas da Fé, Esperança e Caridade, ela declara que a principal delas é a Caridade. Pois a Caridade é uma com o Amor, e o Amor é um com a Simpatia, e a Simpatia é o primeiro e o último passo da Compreensão (Entendimento). Assim, é para a vossa Compreensão (para o vosso Entendimento) que apelamos no que diz respeito ao reconhecimento daquilo que apresentaremos nesta ocasião.

 

Das premissas assim estabelecidas, decorre a seguinte importante conclusão, a qual é uma chave-mestra para a interpretação das Escrituras: – Tudo o que há de mais verdadeiro na Bíblia é espiritual, e nenhum dogma ou doutrina são verdadeiros quando pareçam ter um significado físico, ou que não seja espiritual. Se forem verdadeiros e, contudo, nos pareçam ter uma significação material, é porque nós ainda não os resolvemos, e assim se constituem para nós num mistério, para o qual ainda temos que buscar a interpretação. Aquilo que é verdadeiro é para o Espírito tão somente. (2)

 

Então, não apenas a Bíblia se dirige à Alma, mas ela contém, e é, a história da Alma. E ela está escrita – como seria de se esperar de sua origem egípcia – em hieróglifos, ou em símbolos sagrados, o método usual para os egípcios, e deles adotado pelos hebreus; ou, também poderia ser, o método dos hebreus, o povo sagrado, desde o princípio, e que esse método tenha sido introduzido por eles no Egito.

 

Esse método de escrever consiste em descrever coisas espirituais e que pertencem à Alma, como figuras ou em termos derivados do mundo físico. De modo que aquilo que é significado não é o animal, a planta, a pessoa, ou outro objeto desenhado ou escrito, mas sim uma outra coisa, que tal objeto foi selecionado para representar, e da qual ele se torna o símbolo, o tipo ou a representação.

 

Tendo sido escrita dessa maneira, a Bíblia, ou pelo menos a sua parte espiritual e não meramente histórica, é um hieróglifo, denotando sob a forma de vários objetos físicos – tais como a narrativa de eventos aparentemente mundanos, e biografias aparentemente de pessoas reais, entre outras coisas do mundo natural – processos que são puramente espirituais e místicos.

 

A Bíblia, em síntese, pode ser definida como uma coleção de parábolas narrando a história da Alma, desde sua primeira descida na matéria, até o seu retorno final para sua condição original de puro espírito. E como a Alma passa pelo mesmo processo quer se trate de uma só ou de muitas – seja uma pessoa, uma igreja, uma raça, ou mesmo o universo como um todo – a narrativa que descreve, ou a parábola que representa a história de um, igualmente o faz para todos. E os mesmos termos, que são três em número, abrangem todo o processo.

 

Esses termos são Geração, Degeneração e Regeneração, e esses, portanto, sendo aplicados à Alma, são o tema da Bíblia, conforme agora mostraremos, e não a história física, ou qualquer pessoa ou povo seja lá qual for, muito embora sejam descritos em termos derivados de pessoas ou de um povo. E tomar tais pessoas, povos ou um outro símbolo por qualquer outra coisa que não sejam os seus apropriados papéis de símbolos, e ignorando o seu verdadeiro significado, e dar-lhes a honra devida apenas àquilo que de fato eles significam trata-se, em linguagem bíblica, de cometer idolatria.

 

Pois, ao assim proceder, nós materializamos mistérios espirituais, e conferimos à Forma a consideração devida apenas à Substância. Onde quer que compreendamos como coisas Sensoriais coisas que tão somente pertencem ao Espírito, encobrindo assim as verdadeiras feições da Divindade com representações falsas e espúrias, nós cometemos o que a Bíblia considera como o mais repugnante dos pecados, e nos tornamos idólatras e, ao mesmo tempo, nos identificamos com aquela escola materialista que está rapidamente se espalhando pelo mundo com o objetivo declarado de erradicar a própria ideia de Deus e de Alma.

 

Isso porque “Idolatria é Materialismo, o pecado comum e original dos homens, o qual substitui o Espírito pela Aparência, a Substância pela Ilusão, e conduz tanto o Ser moral quanto o Ser intelectual ao erro, de modo que eles substituem o superior pelo inferior, e o elevado pelo superficial. É esse falso fruto que atrai os sentidos externos, a tentação da serpente no começo do mundo”; (3) e isso tanto para a raça quanto para cada indivíduo onde e quando quer que tenha vivido, pois todos estão sujeitos à sua atração.

 

Devemos então saber, para a reta compreensão das Escrituras místicas, que em seu sentido esotérico, ou interior e real, elas não tratam de coisas materiais, mas de realidades espirituais; e que nem Adão é um homem real, porém antes denota a personalidade inferior ou força intelectual em todo ser humano; nem Eva uma mulher real, mas denota o elemento feminino em todo o ser humano, a saber, a Alma ou consciência moral; e ela é, portanto, chamada de a “Mãe dos que Vivem”, ou seja, dos que estão espiritualmente vivos – aqueles nos quais a Alma alcançou autoconsciência.

 

Tampouco o Éden é um lugar real, mas uma condição de inocência anterior a uma queda de uma altura alcançada. Nem é a Árvore da Vida no meio do Éden uma árvore real, porém Deus estabelecido no meio do Universo como sua vida. Do mesmo modo que não é o homem feito de imediato à imagem e semelhança de Deus, mas somente após longas eras de desenvolvimento, começando nas formas inferiores da vida vegetal, e seguindo sua elevação através de muitas formas, até que ele alcança a forma humana; e mesmo então ele não é feito à imagem de Deus, não é verdadeiramente homem no sentido bíblico e místico. Pois nesse sentido faz-se necessário algo mais do que o homem físico, mais do que o homem intelectual, mais até mesmo do que o homem moral, para tornar-se um homem.

 

Para ser feito à imagem e semelhança de Deus ele deve atingir sua maioridade espiritual, através do desenvolvimento da consciência de sua natureza espiritual. Ele deve ser alma tanto quanto corpo; Eva tanto quanto Adão; assim como no mundo físico, também no plano espiritual ele requer a mulher para lhe fazer um homem, e a mulher mística é a Alma. Antes do seu advento (da Alma), ele é o homem apenas materialístico e rudimentar, é homem apenas na forma, e é um animal em todos os outros aspectos.

 

Mas ela vem finalmente, manifestada como tão somente a Alma pode fazer, quando seu ser inferior está envolto em profundo sono, e ele acorda para descobrir-se plenamente homem, à imagem de Deus, macho e fêmea, no sentido que ele representa os dois aspectos, masculino e feminino da Deidade, o poder divino e o amor divino, e também os Sete Espíritos através dos quais Deus cria todas as coisas. Assim constituído ele é de fato Homem, pois ele é uma manifestação de Deus, por cujo espírito, operando dentro dele, ele tem sido criado. E criado desse modo tem sido e será todo o homem que jamais viveu ou viverá.

 

Porém o processo inclui um ponto chamado de Queda. Entregando-se aos impulsos externos da natureza inferior, antes que ela seja suficientemente forte para resisti-los, Eva estende sua mão e apanha o fruto que, como ela é espiritual e ele é material – é Matéria – é proibido para ela. Em outras palavras, e despido de alegoria, a Alma, ou ser superior, cai sob o poder do ser inferior e perde a intuição do Espírito, e o homem, não mais sendo por ela sustentado, a segue em sua queda.

 

Assim, o ser inferior, com os seus apetites e os seus pensamentos, torna-se o único regente, e a sua prole é Caim, o assassino e até mesmo torturador de seus irmãos, humanos e animais. E quando Abel, que como ministro da Alma e de suas intuições representa o profeta, oferece a Deus as “primícias de seu rebanho” (Gênesis 4:4), ou seja, quando o “Cordeiro” de um coração puro e gentil faz sua aparição, ele é em seguida assassinado por Caim, o qual, como o escravo dos sentidos, ofertando os “produtos do solo” (Gênesis 4:3), ou da natureza inferior, representa o sacerdote.

 

Nesse sentido, então, Abel não promoveu nenhum derramamento de sangue e não foi agente da morte de criaturas inocentes, tanto para sacrifício quanto para alimento. Seu “Cordeiro” significava simplesmente os mais santos e elevados dons espirituais, “Cordeiro” que, rejeitado e assassinado desde o começo do mundo, é apresentado no Apocalipse como finalmente ocupando o trono de Deus, cercado de todos aqueles que, redimidos em razão de o terem seguido, têm o nome do Pai escrito em suas frontes.

 

Pois é ainda a Alma que, sob a representação da mulher, quando purificada da Matéria, torna-se a Noiva do Espírito, e Mãe dos que vivem eternamente; enquanto que é a Alma que persiste no mal que é denominada de “Mãe das Abominações”, e que compartilha da desgraça da “Babilônia”, ou “aquela grande cidade”, o mundo ou sistema de civilização no qual a Matéria é exaltada e posta no sagrado lugar de Deus e da Alma, e o corpo é feito como sendo tudo e por tudo.

 

A mesma verdade espiritual reaparece muitas e muitas vezes nos livros sagrados, sob várias formas alegóricas. Sempre são a ternura de coração e a pureza de hábitos os acompanhantes da vida superior; sempre são o derramamento de sangue e o comer carnes os resultados de uma queda para um nível inferior. A estória do Dilúvio ilustra a mesma verdade, e à matança de animais acrescenta a bebedeira. Nessa parábola, o homem é representado, depois de um período de decadência até um extremo materialismo, como uma vez mais, sob uma enchente de intuição, recuperando aquelas alturas da perfeição – a plena consciência de sua natureza espiritual.

 

Mas tão logo ele desce do monte da purificação e regeneração, ele vai novamente para a indecência e o derramamento de sangue, de tal modo que a Deidade é representada como tendo desistido dele, o considerando perdido e sem esperanças, dizendo que não haveria mais utilidade em puni-lo, e dando-lhe relutante permissão para usar a carne como seu alimento. Pois tal é o óbvio e verdadeiro sentido da passagem tão confusamente traduzida no nono capítulo do Gênesis. E, contudo, constantemente encontramos uma permissão, que foi o resultado de uma queda, colocada como uma escusa para declinar de fazermos um esforço de recuperação!

 

Que tal recuperação não é vista na Bíblia como sendo impossível é mostrado pela escolha de um símbolo de esperança – o arco-íris com os seus sete raios. Pois esse é novamente o símbolo da Mulher ou Alma, a qual, quando restaurada na pureza, e divinamente iluminada, manifesta os Sete Espíritos de Deus. Essa é uma realização para a qual a Alma sempre guarda a potencialidade em seu seio, e em virtude disso um dia será novamente a produtora de homens “feitos à imagem de Deus.”

 

A contenda, já referida, entre profeta e sacerdote, como sendo respectivamente ministros da Alma e dos sentidos, da vida pura e do derramamento de sangue, é levada adiante através de toda a Bíblia, até que ela culmina no assassinato pelos sacerdotes do maior dos profetas. Pois os profetas não faziam derramamento de sangue; e todas as narrativas que representam Moisés, Samuel, Elias, e outros profetas como estando engajados na matança de pessoas de seu povo ou de tribos vizinhas – narrativas que pelo seu horror aparente são de imediato obstáculos para os fiéis e uma oportunidade de zombaria para os descrentes – representam simplesmente os conflitos da Alma com as más tendências do homem que ela anima.

 

E se, além disso, tivessem os tradutores da Bíblia sido devidamente talhados para essa tarefa, primeiro, pela posse do necessário conhecimento de Hebraico; em segundo lugar, pela posse do necessário discernimento das coisas divinas; e em terceiro lugar, por estarem livres de inclinações prévias em favor de uma concepção sanguinária do caráter divino, eles teriam trazido para o inglês [N.E: Língua do original.], os nomes das vítimas desses massacres, ao invés de mantê-los no original; e desse modo teríamos visto nessas narrativas apenas uma antecipação do método seguido nas obras O Progresso do Peregrino e Guerra Santa de Bunyan.

 

Quanto aos próprios escritores da Bíblia, podemos crer que, caso eles pudessem ter antevisto a que profundezas de estupidez (insensibilidade) um regime de carne e de estimulantes pode reduzir um povo de outro modo não carente de inteligência, depois de viver por dois mil anos com esse regime – a estupidez demonstrada por tomarmos suas parábolas como verdades literais – eles teriam renunciado de imediato ao seu método favorito, e falado diretamente.

 

O método empregado por Moisés não era nenhum outro senão o método que foi acima descrito. Instruído em todos os Mistérios da religião dos egípcios, ele os ministrou como mistérios para o seu próprio povo, ensinando a seus iniciados o espírito dos hieróglifos celestes, e pedindo-lhes que quando celebrassem festivais para Deus, que carregassem em procissão, com músicas e danças, aqueles animais sagrados que fossem relacionados com a dada ocasião, em vista do seu significado interior. E desses animais ele especialmente designou machos de um ano, sem mancha ou defeito, para significar que é necessário acima de todas as coisas que o homem dedique ao Senhor seu intelecto e sua razão, e isso desde o começo e sem a menor reserva.

 

Os sacerdotes, então, foram idólatras, os quais, vindo depois de Moisés, e pondo sob a forma escrita aquelas coisas que pela palavra de sua boca havia comunicado a Israel, substituíram os verdadeiros significados das coisas pelos seus meros símbolos materiais, e derramaram sangue inocente nos puros altares do Senhor. (4)

 

Os profetas desse modo, como já foi dito, não promoviam derramamento de sangue. Não trataram de coisas materiais, porém com significados espirituais. Seus cordeiros sem manchas, suas pombas brancas, seus bodes, seus carneiros, e outras criaturas sagradas, são signos e símbolos dos vários dons e graças que as pessoas místicas devem oferecer aos céus. Sem tais sacrifícios não há remissão do pecado.

 

Mas quando o sentido místico foi perdido, então a matança (carnificina) veio em consequência. Os profetas se extinguiram da face da terra, e os sacerdotes passaram a reger o povo. Então, quando a voz dos profetas novamente se levantou, eles foram obrigados a falar diretamente, e declararam abertamente que os sacrifícios para Deus não são a carne de touros ou o sangue de bodes, porém santos votos e sagradas ações de graças, que são suas contrapartes místicas. Pois, assim como Deus é um Espírito, assim também são espirituais os Seus sacrifícios. É apenas tolice e ignorância oferecer carne e bebida material para o puro Poder e o Ser essencial.

 

Em vão, mesmo para nós, os profetas têm falado, e em vão tem Cristo se manifestado. (5) Pois todo o tema principal do ensinamento de Cristo e a moral da vida de Cristo, por meio dos quais ele vindicou ao mesmo tempo a Lei e os Profetas, é que um homem não pode ser salvo por nenhum ato de outro, ou por qualquer processo que ocorra fora dele mesmo; que “ninguém pode por qualquer meio redimir seu irmão, nem pagar a Deus um resgate por ele (pagar o seu preço)” (Salmos 49:8); e que, portanto, nenhum tipo de oferenda queimada, ou de oferenda pelos pecados, nem qualquer sacrifício físico ou material seja lá qual for, pode salvar um homem de seus pecados e de suas consequências, mas tão somente um coração humilde e arrependido, e um espírito puro dentro do próprio homem, e uma vida de acordo com isso.

 

Se apenas uma vez pudermos ler a Bíblia com a visão não obscurecida pelo véu de sangue, e não distorcida pelo preconceito, então todo o seu mistério – o mistério de nossa queda e de nossa redenção – torna-se claro como o céu sem nuvens. Pois, então, podemos identificar como algo que ocorre em nossas próprias almas todo o processo, desde o começo até o fim, que a Bíblia, do Gênesis até o Apocalipse, apresenta sob a forma de símbolos e parábolas, precisamente como fez Nosso Senhor ele mesmo.

 

E, assim fazendo, nós chegamos a Conhecer de forma absoluta, pela experiência individual de nossas próprias almas que o segredo e o método do Cristo não é nenhum outro do que aquele processo interior de purificação e regeneração, tão somente por meio do qual o espírito no homem retorna a sua condição original de pureza, tornando-o um homem novo, uno com Deus, que é puro Espírito.

 

É esse processo de transmutação, ou redenção do Espírito da Matéria, tanto na dimensão individual quanto na universal, que constitui o tema das Sagradas Escrituras, o objeto de todas as religiões verdadeiras, e a tarefa de todas as verdadeiras igrejas. E são os vários estágios desse processo que constituem respectivamente a Queda de Adão por meio da submissão da Eva dentro dele à serpente da Matéria; a descida de Israel, ou da Alma, até o Egito, ou o mundo e os sentidos; e o Êxodo ou fuga do mundo através da água da separação e consagração até o deserto, até a região erma da experiência beneficente; e a travessia do rio Jordão, ou rio da purificação, para tomar posse da terra prometida da perfeição.

 

Novamente, são esses vários estágios desse processo que estão representados na história do Evangelho do típico homem regenerado. Sejam eles chamados de água e espírito, ou de alma pura e a divina operação que nela ocorre, ou da Virgem Maria e o Espírito Santo, é desses dois dentro de cada homem que finalmente é redimido, que o homem novo, ou o homem regenerado, o Cristo Jesus – que sempre é o “único Filho gerado por Deus” (“Filho único de Deus”) (João 3:16, 18) – é produzido.

 

E é sempre pela crucificação e morte na cruz da renúncia daquele velho Adão, o ser inferior, e a ressurreição e ascensão para uma condição de perfeição verdadeira que a salvação é finalmente alcançada. E a razão pela qual todas essas verdades eternas na história da alma foram centralmente colocadas na vida do profeta de Nazaré é simplesmente porque, reconhecendo nele os sinais ou testemunho de sua realização de perfeição num grau nunca antes alcançado, e em sua história as adequadas correspondências simbólicas, o Espírito Divino, sob cuja inspiração os Evangelhos foram compostos, o selecionou como o ícone das possibilidades da humanidade em geral.

 

Porém, mesmo rejeitando dessa maneira como sendo idólatra, como uma blasfêmia, e como perniciosa no mais alto grau à doutrina, conforme ela é comumente conhecida, da Redenção ou Reconciliação Vicária [N.E: Aquela realizada por alguém em lugar de outro; no caso o sacrifício de Jesus Cristo para nos redimir do pecado, para nos reconciliar com Deus], ainda vemos em Cristo Jesus o “único Filho gerado por Deus” (“Filho único de Deus”) (João 3:16, 18). E ainda nos apegamos a Seu sangue e a sua cruz como os únicos meios da salvação.

 

Mas é o Cristo Jesus dentro de nós, ou o homem que renasceu de alma e espírito puros, como o próprio Jesus declarou que todos devem nascer – exatamente do mesmo modo como se descreve que Ele nasceu – a quem buscamos para nos salvar. E os meios são Sua cruz de auto sacrifício, renúncia, e pureza de vida; e a recepção em nós mesmos daquele “Sangue de Deus” que não é nenhum sangue meramente físico – com o qual as imperfeições morais não possuem nenhuma relação – mas que é a vida de Deus, o próprio Espírito puro, o qual é Deus, e o qual Deus está sempre derramando em abundância para o bem de Suas criaturas, dando a elas de sua própria vida e substância.

 

Quão perniciosa é a doutrina da redenção (ou reconciliação) vicária, conforme ela é comumente aceita, é algo que pode ser visto pelas atuais condições do mundo: intelectualmente, moralmente e espiritualmente, não menos do que fisicamente. O homem sempre se constrói segundo a imagem de seu Deus, isto é, segundo a sua ideia de Deus. E acreditando em um Deus que é injusto, egoísta e cruel, o homem não pode ser senão injusto, egoísta e cruel.

 

É precisamente essa má representação do caráter divino, e essa perversão da verdadeira e da única possível doutrina da reconciliação ou redenção, em uma doutrina que faz a salvação do homem um processo externo a si mesmo, e dependente da ação de outro que não ele mesmo, que, por meio da falsificação do Cristianismo, provocou o seu fracasso. E, ao invés de um mundo ordenado por princípios de justiça, simpatia e pureza, nos legou um mundo de más ações, de egoísmo e de sensualismo.

 

De acordo com o verdadeiro Evangelho, conforme declarado pelos profetas, a substância da humanidade não é material e criada, mas sim espiritual e divina. E o homem se eleva além de sua natureza inferior até sua natureza superior ao subordinar os primeiros aos últimos, elevando-se assim totalmente ao superior, tornando-se com isso divino – pois entre Espírito e Matéria não há linha fronteiriça. Esse conhecimento era o tesouro sem preço do qual Israel, ao fugir ou libertar-se, “despojou os egípcios.” (Êxodo 12:36) Esse era o grande segredo de todos os sagrados mistérios desde o princípio.

 

Ao contrário desse, trata-se de um falso evangelho, aquele que tendo origem nos sacerdotes, e desafiando ao mesmo tempo o intelecto e a intuição, atribui a salvação a uma operação vicária, e, ao invés do sacrifício de nossa própria natureza inferior para a nossa natureza superior, e de nós mesmos para os demais, insiste no sacrifício de nossa natureza superior para a inferior, e dos outros para nós mesmos.

 

É dessa inversão da ordem divina que o hábito de comer carne e a vivissecção – aquela mais infernal de todas as práticas que sugiram do abismo sem fundo da natureza inferior do homem – são os diretos e inevitáveis resultados. E até que a ordem divina seja restaurada, tanto em ato quanto em pensamento, pela renúncia da doutrina do sacrifício vicário, conforme comumente sustentado, e pela consequente reabilitação do caráter de Deus, todos os nossos esforços de melhoramento devem ser em vão; nossa civilização será tão somente uma falsificação, um simulacro desse termo; e nossa moralidade e religião serão coisas das quais se pode dizer que estaríamos melhor sem elas.

 

Em conclusão: aquilo que buscamos não é uma reforma de instituições meramente, ou a promoção de benefícios materiais meramente, mas sim uma radical renovação da própria Substância dos homens em todos os planos de suas naturezas, com vistas à realização daquilo que há tanto tempo foi prometido: “novos céus e nova terra onde habitará a Retidão (a Justiça)” (2 Pedro 3:13), e o advento daquele perfeito estado, a Nova Jerusalém, ou Cidade que tem Deus como sua luz, a luz que desce do céu da região celestial do próprio homem, aquele reino dos céus que está dentro dele mesmo, mas o qual jamais pode ser realizado por aqueles que persistem em ordenar suas vidas de modo a tornarem necessários o derramamento de sangue e a injustiça.

 

“Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que agir com justiça, gostar do amor, e caminhar humildemente com o teu Deus!” (Miquéias 6:8)

“Eles não ferirão e nem destruirão em toda a minha montanha sagrada, disse o Senhor.” (Isaías 65:25)

 

Se nos for perguntado, qual a fonte, e qual a autoridade para essa interpretação, responderemos que há apenas uma fonte e autoridade para a verdade, e essa é a Alma do próprio homem, e que para obter acesso a esse lugar, e conhecer a doutrina, é necessário fazer a Vontade do Pai, e viver a vida pura que é requerida.

 

Pois a Alma vê divinamente, e nunca esquece aquilo que uma vez aprendeu. E tudo o que ela conhece está a serviço daquele que para com ela tem os devidos cuidados e a cultiva. Dela advém, diretamente e sem mescla de adulteração humana, aquilo que recém foi dito. E não há nenhuma outra fonte ou método de revelação divina.

 

É verdade, como se supõe geralmente, que a revelação divina é pronunciada por uma voz vinda do céu. Mas o céu é o mais íntimo santuário do templo do próprio homem, e a voz é a de Deus lá falando. Somente onde o terreno, o qual é o corpo, é puro e é nutrido com pureza, de modo que nenhuma exalação nociva surja para obscurecer a atmosfera, é que homem e sua Alma podem entabular conversação direta.

 

Vivendo da maneira que o mundo vive hoje, ele não pode conhecer as potencialidades da humanidade. Daí segue que ele diviniza uma espécie mais adiantada, à custa do resto da raça, quando na verdade todos são divinos, se apenas os deixarem assim ser. E a revelação é, tanto quanto a razão, o atributo natural do homem. Que tão somente viva com pureza, e ele reverterá a Queda.

 

 

NOTAS

 

(1) Capítulo da obra Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre o Vegetarianismo). Edição original: KINGSFORD, Anna e MAITLAND, Edward. Editado por Samuel Hopgood Hart. John M. Watkins, Londres, 1912. 227 pp.

Tradução: Arnaldo Sisson Filho. Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse arquivo pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.

(2) Vide a Iluminação de Anna Kingsford “Concerning the Prophecy of the Immaculate Conception” (Sobre a Profecia da Imaculada Conceição), em Clothed with the Sun (Vestida com o Sol), Parte I, nº. 3.

(3) Vide a Iluminação de Anna Kingsford “Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures” (Sobre a Interpretação das Escrituras Místicas), em Clothed with the Sun (Vestida com o Sol), Parte I, nº. 5.

(4) Vide a Iluminação de Anna Kingsford “Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures” (Sobre a Interpretação das Escrituras Místicas), em Clothed with the Sun (Vestida com o Sol), Parte I, nº. 5, pp. 20-21.

(5) Vide a Iluminação de Anna Kingsford “Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures” (Sobre a Interpretação das Escrituras Místicas), em Clothed with the Sun (Vestida com o Sol), Parte I, nº. 5, pp. 18-19.

 

 

 

Texto (5): A Bíblia e o Hábito de Comer Carne (1)

 

Bertram McCrie

 

 

Há muitos cristãos dignos no mundo de hoje que consideram a Bíblia como uma espécie de cidade de refúgio divinamente designada, para a qual podem fugir em diferentes épocas inconvenientes. Por mais que ignorem a Bíblia em assuntos cotidianos, prontamente recorrem a ela quando perseguidos por algum vingador da verdade distorcida ou da razão assassinada e, entrincheirados atrás de suas sessenta e seis muralhas, preparam-se para lançar sobre a cabeça do perseguidor uma saraivada de textos.

 

Nenhuma objeção séria a esse procedimento seria levantada por aqueles que se esforçam apenas para conhecer e fazer a vontade de Deus, não fosse o fato de que, por tal uso, a Bíblia é inevitavelmente rebaixada ao nível de um mero dicionário de citações e forçada a sancionar atos e hábitos para os quais a razão, a justiça e o bom senso não encontram autoridade nem necessidade.

 

Quando um homem não encontra nada além de costumes e convenções para justificar sua ação, e, por isso, busca sustentar sua posição citando frases de uma coletânea de escritos que tenta colocar acima de qualquer crítica, chamando-a de “Palavra de Deus”, é provável que sua única preocupação seja evitar usar a razão que Deus lhe deu e se eximir do trabalho de fazer quaisquer mudanças em seus costumes ou moral. Para tal, a questão não é: “Estou fazendo certo ou errado nisso?”, mas: “Onde encontrarei algo que me justifique continuar como tenho feito?”, e quem busca justificativas desse tipo geralmente não tem dificuldade em encontrá-las.

 

A prontidão com que muitos cristãos se dirigem à sua cidade de refúgio é muito marcante em sua atitude em relação ao grande tema da Reforma Alimentar. Como uma poderosa inundação, as águas purificadoras deste Movimento estão varrendo a terra, prometendo afogar o refugiado se ele não aprender a viajar com elas; ainda assim, ele salta de pináculo em pináculo, encontrando sempre algum texto ou passagem mais atenuada para lançar contra as ondas que avançam, com uma energia digna de uma causa muito melhor do que a defesa do carnivorismo.

 

A ciência afirma sem hesitação a natureza e a constituição estritamente frugívoras do homem; a história afirma que seu alimento tem sido os frutos da terra e atesta a eficiência e a preponderância de seus ancestrais e contemporâneos não carnívoros; a ética aponta para a imoralidade de privar seres sencientes da vida sem a menor necessidade disso; a arte não é encontrada nos matadouros; a higiene reside longe da putrefação de cadáveres não destruídos; a economia, seja política ou doméstica, nada tem a dizer em favor do pastoreio e da carne de açougue; a humanidade denuncia a crueldade implacável e a degradação de tudo o que está implícito na carnificina; e estranho e terrível seria se a Religião defendesse uma prática a qual todos esses princípios anteriores unanimemente condenaram.

 

O apologista bíblico do consumo de carne deve tomar cuidado para que tal ação não desacredite não apenas a si mesmo, mas também sua autoridade, aos olhos daqueles que consideram a Religião como a harmonia da vida.

 

É somente quando seguimos tal defensor do hábito de comer carne em sua cidadela que descobrimos quão grande é sua determinação em justificar seus hábitos, e quão pequena é sua aspiração de entrar no espírito de toda a verdade.

 

A Bíblia não proíbe expressamente o consumo de carne e, em muitos lugares, aparentemente sanciona e encoraja essa prática. “Portanto”, diz o bibliófilo, “Deus e a Bíblia estão comigo!” e ele se senta para comer seu bife tostado com a consciência tranquila. Mas ele não se detém para refletir que existem muitas outras práticas repreensíveis que a Bíblia não denuncia ou sequer menciona, mas que todo indivíduo sensato sabe serem moralmente indefensáveis.

 

A Bíblia não proíbe a escravidão; de fato, durante a luta antiescravista na América, muitos “teólogos” encontraram textos nos quais basear sermões em apoio ao tráfico de escravos.

 

Ela não proíbe a guerra; e assim o clero estava pronto para elogiar a guerra na África do Sul e pode formalmente abençoar exércitos, armas e navios de guerra.

 

Ela não proíbe a Vivissecção; que, portanto, encontra defensores entre os dignitários da Igreja e nenhuma oposição dos dirigentes em geral.

 

Ela não proíbe a intemperança, o jogo, o fumo de ópio, a prostituição, as touradas, as indústrias exploradoras e muitas outras doenças sociais dessa época. [N.E: Final do século XIX] No entanto, qualquer pessoa que tenha uma cabeça para pensar e um coração para sentir sabe que essas coisas são indesculpáveis e perversas.

 

A questão é que, embora a Bíblia possa parecer omissa sobre alguns dos males que eram praticamente inexistentes quando foi escrita (e isso deve ser observado em relação ao crescimento do tráfico de carne), e possa parecer tolerar com a mesma frequência que condena outras barbaridades, isso é apenas o resultado de uma leitura e apreensão superficial e ilógica de sua mensagem.

 

Seu plano e propósito não é enumerar uma lista de pecados específicos que foram, estão sendo ou podem vir a ser cometidos, e então pronunciar julgamento sobre eles, mas estabelecer certos princípios e verdades cuja adoção efetiva tornaria todos esses pecados impossíveis.

 

O literalista mais empedernido dificilmente contestará isso e terá que explicar muitas passagens em que Deus parece realmente elogiar a iniquidade. Portanto, embora a Bíblia não censure diretamente o uso de carne pela humanidade em geral, dificilmente seria sensato inferir disso que comer carne seja um costume bom e ordenado por Deus.

 

Ao considerar o que a Bíblia realmente ensina a respeito de uma prática como o Carnivorismo, não é necessário dedicar muito tempo aos escritos do Antigo Testamento. Eles são, reconhecidamente, um prólogo à história dos Evangelhos e, por si só, não fornecem um sistema de ética absolutamente satisfatório; mas um ou dois pontos podem ser observados de passagem.

 

Se lidos de forma ortodoxa, eles nos apresentam a história de um povo que está viajando da escuridão da materialidade para a luz da liberdade e da retidão. É a evolução de uma nação que, a princípio, está em dolorosa escravidão aos sentidos, exigindo ritos cerimoniais elaborados e um sistema de sacrifícios que pode parecer ao leitor casual como extremamente brutal. Gradualmente, à medida que séculos de luta e experiência passam por eles, eles aprendem que Deus não tem prazer real em holocaustos e sacrifícios de animais; que o único sacrifício em que Ele se deleita é o sacrifício da natureza animal inferior ao eu superior; que a oferta mais seleta para depositar em Seu altar é um coração purificado e humilde.

 

Certamente, entre as mais elementares concupiscências sensuais a serem erradicadas nesta jornada em direção a uma Canaã espiritual, a concupiscência por carne e sangue deve encontrar lugar de destaque. As vítimas deste sistema de sacrifícios são numeradas em centenas de milhões anualmente; seu sacerdócio é rebaixado ao nível dos animais que abatem; e as pessoas a quem ministram são marcadas com animalidade e sede de sangue como resultado de seus apetites ilícitos.

 

Carnivorismo e Cristianismo.

 

Não incongruente nos dias semibárbaros do Antigo Testamento, o Carnivorismo é, hoje, após dezenove séculos do evangelho de Cristo, uma anomalia espantosa e hedionda. Deixando de lado o tom obviamente mais elevado da mensagem de um defensor do humanitarismo como Isaías e muitos dos profetas posteriores, e a indicação que isso nos dá do despertar da consciência pública e do crescimento da moralidade nacional, podemos chegar imediatamente ao Novo Testamento e à vida e aos ensinamentos que ele consagra.

 

Quaisquer que sejam as diferenças de opinião a respeito da natureza de Cristo, não há dúvida de que Ele representa para a maioria de nós o tipo de humanidade aperfeiçoada e dá ao nosso mundo um padrão de vida e pensamento que provavelmente não será insuficiente ou superado. E assim se apresenta a questão crucial: o que Cristo gostaria que fizéssemos nessa questão de nos alimentarmos de nossos semelhantes massacrados?

 

Pode-se imaginar por um momento que Ele, a personificação do amor, da piedade e da pureza, pudesse ficar de pé com o machado erguido diante do boi frenético, ou brandir a faca sobre o cordeiro atordoado? O pensamento é monstruoso; mas será menos terrível pensar Nele realizando esses atos por procuração, e sendo alguém por quem o machado e a faca pingavam sangue?

 

Lembrando que o alimento cárneo é absolutamente desnecessário para sustentar a vida, e que temos evidências históricas da existência, na época de Cristo, de comunidades de homens que se comprometeram a não poluir seus lábios com carne e sangue, é nada menos que blasfêmia citar Cristo como defensor da carnificina e do carnivorismo, e assim sancionar a impureza e a crueldade.

 

Dir-se-á que Ele comeu peixe, mas supondo que o tenha feito, há um grande abismo entre o consumo de peixes capturados em redes e o massacre sangrento de animais delicadamente organizados e sencientes; não é o consumo de peixe, mas o consumo de carne que protestamos.

 

Também pode ser sugerido que Ele comeu o cordeiro pascal, mas o Evangelho de João deixa claro que a ceia com os discípulos ocorreu na noite do dia anterior à Páscoa, o dia dos pães ázimos. A este respeito, pode-se salientar que, como o próprio Cristo era a realização de todas as festas simbólicas da Páscoa, não haveria necessidade de perpetuar um rito do qual Ele era a conclusão e o cumprimento. Não existe qualquer evidência que demonstre que a carne de um animal abatido tenha passado pelos Seus lábios imaculados, e cada uma das Suas palavras e ações estava em oposição ativa ao espírito de selvagem sensualismo que torna possível o consumo de carne.

 

Poucos, mesmo entre os expoentes oficiais da história sagrada, sabem que os historiadores da igreja primitiva, Eusébio, Clemente de Alexandria, Hegésipo e Agostinho, registram claramente que Mateus, Tiago, o Apóstolo, e Tiago, irmão de Jesus, eram abstêmios estritos de alimentos cárneos; e que também há fundamento para crer que Tomé era da mesma linha de pensamento. A esses pode ser adicionada a partir de sua própria confissão, o Apóstolo Pedro; enquanto o relato que temos de João Batista não sugere que ele fosse alguém para quem o açougueiro exerceu seu ofício medonho. Temos o direito de perguntar se o Mestre realmente deu exemplo menor do que seus próprios discípulos na vivência de uma vida pura e misericordiosa. (2)

 

É neste estágio que o leitor carnívoro da Bíblia recorre ao seu aliado – Paulo. Talvez, devido à sua maior elasticidade, a doutrina de Paulo tenha mais atração para alguns cristãos do que os ensinamentos de Cristo, mas uma consideração imparcial dos escritos atribuídos a ele mostrará que Paulo, o fariseu, frequentemente escreve sob a assinatura de Paulo, o servo de Cristo.

 

Um homem que pudesse dizer em um momento: – “Portanto, se a comida faz meu irmão tropeçar, não comerei carne enquanto o mundo existir, para não fazer meu irmão tropeçar” (I Coríntios 8:13); e em outro: “Comei de tudo o que se vende no mercado, sem fazer perguntas por causa da consciência” (I Coríntios 10:25), deve evidentemente ser aceito com algum discernimento como um guia espiritual. O desejo de ser tudo para todos os homens a fim de salvar alguns é heroico, mas se leva um homem a cometer os mesmos pecados dos quais deseja salvar os outros, é claramente um entusiasmo sem maior fundamento.

 

Por mais valiosos que os escritos de Paulo possam ser como base para dissertações teológicas, devemos dar primeiro lugar aos preceitos e ao exemplo de Cristo em questões relativas à conduta da vida. Os ensinamentos e a influência de Cristo são totalmente contra a prática do carnivorismo; Paulo aparentemente tenta defendê-lo – sob qual bandeira nos posicionaremos?

 

O dia parece ainda muito distante em que os professos seguidores de Cristo perceberão que em ditos como – “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” e – “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” – estão compreendidos um amor e uma compaixão tão vastos que impedem sua limitação ao reino meramente humano. Somente quando as travas do orgulho e do egoísmo caírem de nossos olhos, discerniremos o pleno significado daquela injunção: “Não matarás.”

 

O Ensinamento dos Padres (Pais) do Cristianismo.

 

É razoável supor que os homens que viveram mais perto da época de Cristo teriam a concepção mais clara de qual deveria ser a atitude do cristão em relação a um assunto como o consumo de carne. Vivendo, por assim dizer, no brilho imediato de Sua presença, antes mesmo que as brumas do sectarismo e do preconceito se erguessem em torno de Sua figura.

 

Eles teriam conhecimento quase em primeira mão sobre muitas das questões que historiadores posteriores só puderam responder por tradição e especulação. E assim, quando nos voltamos para os escritos dos primeiros padres cristãos dos primeiros quatro séculos, é revigorante – para o leitor não carnívoro – descobrir quão fortemente as mentes mais brilhantes daquela época denunciaram o costume bárbaro de profanar o Templo do Espírito Santo com a carne em decomposição.

 

Tertuliano, Basílio, Clemente de Alexandria, João Crisóstomo, Jerônimo, Orígenes, Marcião e Calístrato, com as seitas dos Encratitas, Ebionitas, Nazarenos, Terapeutas e Essênios, representando várias escolas de pensamento, todos sustentaram a abstinência de alimentos cárneos como essencial e característica do verdadeiro seguidor de Cristo. Só há espaço para duas citações, mas estas são representativas de todo o corpo de testemunho. João Crisóstomo traçou este quadro de homens que estavam se preparando para o ministério cristão: –

 

“Não há fluxos de sangue entre eles; não há abate e corte de carne; não há culinária requintada; não há peso na cabeça. Nem há cheiros horríveis de carne entre eles, ou fumaças desagradáveis da cozinha. Nada de tumulto, perturbação e clamores cansativos, mas pão e água. … Se, no entanto, desejarem festejar mais suntuosamente, a suntuosidade consiste em frutas, e seu prazer nelas é maior do que nas mesas reais.” (Homilia 79, em Mateus 22, 1 a 14.)

 

Disso se depreende que Crisóstomo seria considerado um perturbador da paz de Israel hoje, se fosse um Arcebispo ou o Reitor de uma faculdade teológica. Ouça também aquele famoso teólogo do século II, Tertuliano, em sua acusação ao carnívoro cristão de sua época, bem como da nossa: –

 

“É nas panelas que o seu amor está inflamado – é na cozinha que sua fé se torna fervorosa – é nos pratos de carne que toda sua esperança jaz obscurecida (…) Quem é tão estimado por vocês como o frequente anfitrião de jantares, como o suntuoso anfitrião (…) Vocês, homens de carne, rejeitam consistentemente as coisas do Espírito? Mas se os vossos profetas são complacentes com tais pessoas, eles não são meus profetas.” (De Jejuniis: Adversus Psychios, cap. 17)

 

Evidentemente, havia cegos liderando cegos dentro da igreja, então como agora; os chamados guias espirituais, indiferentes ao fato de que nenhum homem cujas mãos estejam manchadas de sangue e que não seja autocontrolado e compassivo pode entrar através do véu.

 

Se não fosse tristemente significativo da atrofia espiritual, seria divertido notar as mudanças desesperadas feitas pelo biblista para sancionar como por autoridade divina a mistura de assassinato, degradação e sensualismo do consumo de carne. Começando com Noé e terminando com Paulo, ele vasculha a Bíblia em busca de exemplos de carnivorismo aprovado. Deus “abençoa” Noé e entrega tudo o que se move em suas mãos para ser alimento para ele, em uma passagem que não sugere um estado de coisas muito alegre em geral; mas mostra, de fato, o medo, a crueldade e a vingança que acompanham apropriadamente o carnivorismo.

 

Os israelitas clamam por comida de carne e codornas são dadas a eles; mas enquanto a carne ainda estava entre seus dentes, antes de ser mastigada, a ira de Deus se acendeu contra eles e Ele os feriu com uma praga muito grande – um julgamento ainda mais rápido do que resulta hoje de comer carne de porco tuberculosa ou vitela vacinada.

 

Gideão oferece um cabrito aos seus misteriosos visitantes, mas em vez de ser comido, é consumido pelo fogo; o que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele e uma excelente lição para Gideão.

 

E assim por diante, até o Novo Testamento, onde grande ênfase é dada quanto ao consumo de peixe ali mencionado, o implicado ficando bastante desconcertado quando lhe foi dito para se limitar a comer peixe se ele escolher, mas para discernir entre um peixe e um boi.

 

O fato de Cristo ter montado em um jumento e o incidente dos porcos Gadareus são citados como demonstrando a autoridade do cristão sobre o reino animal, a qual ninguém contestaria se aquela autoridade fosse usada daquela maneira.

 

O sonho de Pedro no telhado da casa é frequentemente, por uma curiosa ironia, apresentado como apoio ao carnivorismo, caso em que só podemos refletir que o alimento animal não conduz à perspicácia, e que a abstinência de carne de Pedro poderia muito bem exclamar: “Salva-me dos meus amigos.” Pois a narrativa deixa muito claro que Pedro recusou o convite aparentemente angelical para comer os quadrúpedes, répteis e pássaros que lhe foram oferecidos, porque ele nunca havia comido nada contaminado ou impuro.

 

Com muitos desses sofismas, o cristão carnívoro busca justificar um costume repugnante e anticristão, oposto a toda humanidade, justiça e razão genuínas, e visto com repulsa pelos adoradores de Deus mais esclarecidos em todos os lugares. Com o martelo da intolerância e o prego do egoísmo, ele prega um texto das escrituras nas paredes salpicadas de sangue do matadouro e segue seu caminho regozijando-se.

 

Um Apelo à Razão.

 

Certamente, uma leitura imparcial da Bíblia mostrará que o alimento do homem “não caído” estava livre da mancha do abate, que o alimento do homem “regenerado” certamente não incluirá carne e sangue, e que devemos nos preparar aqui e agora para esse último estado por todos os meios ao nosso alcance. É por isso que nós, que sabemos quão fácil e felizmente a vida pode ser vivida sem os produtos da decadência, nos apresentamos e convidamos nossos irmãos e irmãs a darem este passo elementar, mas extremamente necessário, em direção à obtenção da regeneração individual e coletiva, e à instauração do Reino de Deus na Terra.

 

Em conclusão, pode-se salientar que nos voltamos para a Bíblia apenas para demonstrar a validade de nossos argumentos, devido à ação daqueles que a citam como sendo contrária aos princípios da Dietética Humana. A Bíblia não se opõe a nenhum Movimento que promova a pureza, a piedade, o amor, a humanidade – em uma palavra, a semelhança com Cristo; e é pela manifestação prática dessas qualidades na vida diária que estamos pleiteando.

 

O leitor da Bíblia deve ser o último a abandonar essa verdadeira luxúria da carne e viver como convém a um Irmão de Cristo e filho de Deus? A mesma Bíblia e o mesmo Cristo não servem tanto para Arcebispo quanto para o matador, para a mulher comungante quanto para as “mulheres que abriam vísceras dos animais” nos matadouros?

 

Que o cristão professo vá ver aqueles a quem delegou esse trabalho horrível antes de responder a essas perguntas. Por que ele deveria se esquivar de entrar em um matadouro mais do que de visitar um moinho de grãos ou uma fazenda de frutas, se ele pode se apoiar na palavra escrita de Deus para seu tão necessário apoio?

 

A prática de comer carne não se sustenta ou cai pelo que é dito em qualquer livro, qualquer que seja sua autoria, antiguidade ou peso. A profunda verdade moral e espiritual não ganha nem perde com o que pode ser escrito sobre ela porque diz respeito principalmente à alma do homem.

 

A luz que ilumina todo homem que vem ao mundo é o juiz supremo e final da verdade; e no tribunal da Razão, para ser julgado pela alma na presença de suas duas testemunhas, o Intelecto e a Intuição, podemos abandonar com segurança o hábito carnívoro.

 

Pois, à medida que as Eras passam, a civilização de hoje se torna a barbárie de amanhã, costumes, convenções e imoralidades aparecem por um momento e depois desaparecem, e o que parece cada vez mais imutavelmente fixo é que boas ações trazem felicidade e más ações trazem miséria, enquanto a verdade, o amor e as boas ações desinteressadas são as únicas verdades eternas da vida.

 

E uma vez que a miséria, o erro, o ódio e o crime estão todos indelevelmente associados à carnificina e ao carnivorismo, essas práticas imundas estão fadadas à extinção total; enquanto aqueles que a tais males festejam devem encontrar uma justa retribuição.

 

Senhor de toda a Vida! Em quem o homem e o animal vivem, se movem e têm seu ser, concede-nos, imploramos a Ti, a superação das luxurias carnais, e o gradual amanhecer de uma visão mais clara: –

 

“Que nestas máscaras e sombras nós possamos ver Vosso sagrado caminho,

E por estas íngremes subidas ascender até aquele dia

Que nos conduz a Vós, presente em todas as coisas, embora de forma invisível.”

 

“That in these masques and shadows we may see Thy sacred way,

And by those hid ascents climb to that day

Which breaks from Thee, Who art in all things, though invisibly.”

 

 

NOTAS

 

(1) Edição original: Herald of the Golden Age – outubro de 1905.

Tradução: Arnaldo Sisson Filho. Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse arquivo pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.

(2) “Mateus, o Apóstolo, vivia de sementes, frutas de casca dura e outros vegetais, sem tocar na carne.” – Clemente de Alexandria – (Paedagogus, ii I)

Eusébio (Ecclesiast. Hist. Ii II III), cita Hegésipo afirmando sobre Tiago, o primeiro chefe da Comunidade Cristã, que “ele nunca comeu comida animal.”

Agostinho (Ad Faustum, xxii, III) repete essa afirmação e também afirma que “Tiago, o irmão do Senhor, vivia de sementes e vegetais, nunca provando carne ou vinho.” – Facobus frator Domini, seiminibus et oleribus usus est, non carne nec vino.