XIII – A DOR: SEU SIGNIFICADO E UTILIDADE (1)
ANNIE BESANT
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[Transcrição de palestra para a Loja Blavatsky da Sociedade Teosófica em Adyar, Chennai, Índia.]
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Proponho abordar um assunto que, creio eu, é de profundo interesse para todos, pois todos se deparam com ele – o Significado e a Utilidade da Dor. Primeiramente, quanto ao significado. Vocês devem se lembrar de que, quando falei aqui, creio que da última vez, tentei explicar-lhes algo sobre a natureza do homem e a forma como o verdadeiro Eu do homem, seu Eu mais íntimo, deve ser considerado como o homem atuando nos diferentes corpos ou invólucros, e assim manifestando a consciência de diferentes maneiras. Vocês devem se lembrar que enfatizei bastante o fato de que é sempre o Eu que está agindo, e que, se quisermos compreender a constituição humana, devemos perceber que o Eu espiritual está na raiz de todas as atividades. Agora, quero que vocês comecem com essa concepção essa noite, acrescentando a ela outra que creio ter mencionado anteriormente, mas que é essencial para o trabalho que tenho que fazer agora – explicar a vocês o significado e a utilidade, ou uso da dor.
O Eu espiritual é consciente em seu próprio plano desde o princípio. Descendente da Consciência Universal, o que mais ele poderia ser? Mas, à medida que ele desce a este universo manifestado e se reveste de corpo após corpo, ou de bainha após bainha, os olhos, por assim dizer, do Eu ficam cegos por esses sucessivos véus com que ele se envolve, e assim, quando chega ao estágio mais baixo de sua manifestação – este universo físico em que estamos – o Espírito fica cego pela Matéria e não tem mais consciência de seu próprio destino elevado ou de sua própria natureza essencial no universo físico.
Ora, é esse Ser cego, como sabemos, que vem ao universo manifesto com o propósito de aprender e adquirir experiência. Pensemos nele por um momento vestindo esses corpos que, a essa altura, já devem ter se tornado tão familiares para vocês – o corpo em que ele pensa, a mente ou mentalidade; o corpo no qual ele sente, que geralmente chamamos de “corpo do desejo”, porque sentir e desejar estão intimamente ligados, e os sentimentos de prazer e de dor surgem do contato com coisas externas, que atuam sobre esse corpo do desejo e o fazem ser atraído ou repelido por objetos externos.
Pense, então, por um momento no Eu revestido por esse corpo do desejo e cego por ele quanto à sua própria natureza real e quanto às verdadeiras condições em que ele se encontra. Ele será atraído por todos os tipos de objetos externos; atraído por aqueles dos quais obtém a sensação de prazer, repelido, é claro, por aqueles dos quais sente a sensação de dor. Assim, ao vir a este mundo – do qual ele nada sabe, lembre-se que estou considerando-o nos estágios iniciais de sua experiência – ao vir a este mundo do qual ele nada sabe, ele será naturalmente fortemente atraído por aquilo que lhe dá prazer pelo contato, que o faz sentir aquilo que ele reconhece como alegria, felicidade ou contentamento.
Assim, atraído por tudo o que lhe parece desejável, ele frequentemente descobrirá que a satisfação do desejo é seguida de sofrimento. Atraído pelo objeto desejável, e sem a experiência que lhe permitiria distinguir e discernir, ele se lança, por assim dizer, em direção a essa coisa atraente, sabendo apenas que sente prazer no contato. Logo, desse contato, que era prazeroso, surge a dor; e por meio dessa dor ele descobre que se lançou contra algo que não é desejável, mas repulsivo. E repetidamente ele terá essa experiência; constantemente reiterada, ele encontrará essa lição, que lhe é ensinada pelo universo externo.
Tomemos dois apetites animais muito comuns que, assim atraídos e satisfeitos pelo prazer, se transformam em fontes de dor. Tomemos o apetite por comida atraente, que atua sobre o paladar, que faz parte do corpo do desejo; essa comida atrairá o paladar, e o Espírito inconsciente – inconsciente, isto é, neste plano quanto aos resultados que se seguirão – é dominado por esse prazer do contato. Se me permitem repetir a antiga comparação oriental que tantas vezes usei, os sentidos são como cavalos atrelados à carruagem do corpo, que conduzem a alma em direção aos objetos do desejo. Ele gratificará, então, o paladar em excesso; cairá na gula. O resultado dessa gratificação do paladar sem experiência será a dor que se seguirá à gratificação excessiva. O mesmo ocorre se ele gratificar o paladar, digamos, bebendo em excesso, ingerindo álcool. Lá também a dor se seguirá à gratificação do desejo imediato. E quando isso for repetido inúmeras vezes, esse Espírito – que, como mente, é capaz de pensar – conecta as duas coisas, conecta a gratificação do desejo com a dor que se segue a essa gratificação.
Dessa forma, ele gradualmente passa a compreender que existem leis no universo relacionadas ao seu corpo físico, e que, se entrar em contato com essas leis e tentar violá-las, sofrerá como consequência. É como se uma pessoa se atirasse contra uma parede invisível e se machucasse com o impacto. Repetidamente, uma pessoa poderia se atirar assim, atraída por algum objeto visível do outro lado dessa barreira invisível, mas se se machucasse a cada vez, aprenderia a conectar a busca por esse objeto com a dor que sentia.
Assim, cresceria em sua mente a ideia de sequência, de causa e efeito, da relação existente entre a gratificação e o sofrimento que se segue a ela. Dessa forma, ficaria gravado nessa mente infantil, que está aprendendo suas lições, que existe algo no mundo mais forte do que ela mesma – uma Lei que não pode quebrar; uma Lei que pode tentar violar, mas que não pode violar, e que provará sua existência pelo sofrimento infligido quando o Espírito se lançar contra essa barreira. E assim, com objeto de desejo após objeto de desejo, essa lição será aprendida, até que uma massa acumulada de experiência seja gradualmente adquirida pelo Espírito e ele aprenda, pela dor, a regular seus desejos e a não mais deixar os cavalos dos sentidos galoparem para onde quiserem, mas a refreá-los e controlá-los, permitindo que sigam apenas pelos caminhos realmente desejáveis. Assim, a lição do autocontrole será o resultado dessa experiência dolorosa.
Agora, pode-se dizer aqui, ou pensar, que, afinal, temos esse conjunto de desejos em comum com o animal inferior, e que o animal inferior se distingue do homem de uma maneira curiosa: ele é guiado, em grande parte, para evitar essa experiência dolorosa pelo que chamamos de instinto; Enquanto o homem vivencia a dor constantemente até aprender o autocontrole, o animal, por meio de uma experiência inata herdada, como é chamada, que denominamos instinto, está, pelo menos em grande medida, preservado dessa experiência dolorosa. E isso é verdade.
Observando esse fato, perguntamos a razão. E a razão não é difícil de encontrar. Primeiramente, talvez eu deva dizer, para evitar qualquer possibilidade de erro, que as pessoas, em certa medida, exageram a força do instinto nos animais mais complexos. Nos animais mais simples, o domínio do instinto é bastante completo. Nos animais mais complexos, é menos completo do que nos mais simples, e muitas vezes é necessária alguma experiência para que o instinto se torne um guia totalmente seguro. E a razão, no caso deles, e a razão mais profunda no nosso próprio caso, é esta: que no homem não se trata apenas deste corpo de desejo – que, se estivesse sozinho, seria guiado por uma lei externa, que o direcionaria para os objetos saudáveis e benéficos à saúde e o faria evitar os objetos fatais ou perigosos – mas também se trata da entrada da Alma: isto é, do Espírito individualizado, que não deve ser compelido por uma Lei externa, mas sim evoluído por uma Lei interna; não deve ser simplesmente forçado à conformidade com a Natureza externa pela compulsão a que os reinos mineral, vegetal e animal estão sujeitos; não se trata mais da evolução agregada, da evolução coletiva que, para ocorrer efetivamente, deve estar sob o controle de uma Lei externa.
O homem deve tomar a sua evolução em suas próprias mãos; a sua evolução deve ocorrer pela experiência e não pela compulsão; pois, neste período de evolução, o Espírito se individualizou pela camada da mente, e a experiência acumulada da Alma reencarnante deve substituir a educação obrigatória dos reinos inferiores da Natureza.
E assim, é a presença de manas, ou da mente, no homem que torna esse elemento de sofrimento uma parte tão necessária de sua educação. Ele é capaz de lembrar, é capaz de comparar, é capaz de estabelecer essa ligação entre as coisas que formam a sequência de eventos; e justamente por ter esse poder do pensamento, da mente, ele é capaz de tomar seu próprio crescimento em suas mãos, para que possa se tornar um colaborador da Natureza; não meramente um tijolo, por assim dizer, em seu edifício, mas um construtor consciente, participando da construção do todo.
Desse modo, gradualmente, por meio dessa educação da dor, atuando sobre a mente através do corpo do desejo, esse conhecimento da Lei no universo externo se desenvolve. De modo que aqui o significado de sofrimento é o contato hostil com a Lei, o esforço para quebrar a Lei que nunca poderá ter sucesso; e o uso da dor é a obtenção do conhecimento da Lei, e assim a orientação e a educação da natureza inferior pela inteligência racional.
Passemos dessa visão da dor para outra. Através da dor, essa Alma em crescimento aprendeu a existência da Lei. O próximo uso encontrado na dor é mais profundo. Através da dor, é erradicado o desejo por todos os objetos do universo externo, encontrado, na linguagem do Bhagavad-Gita, para provar uma das fontes primordiais da dor.
O desejo é o que atrai a Alma ao renascimento; o desejo é o que fundamentalmente causa a manifestação do universo. Foi quando “o Desejo surgiu pela primeira vez no seio do Eterno” que o germe do universo manifestado apareceu; e assim, é sempre o desejo que leva à manifestação – seja do todo ou da parte; e o desejo constantemente atrai a Alma de volta à Terra, repetidas vezes.
Observe que é o desejo que atrai a Alma para fora, sempre para fora, para o externo. E a educação da Alma consiste em passar para o externo, reunindo ali todo o conhecimento, e então, pela experiência, perdendo o gosto pelo externo e internalizando o conhecimento obtido. Mas suponhamos que os objetos de desejo permanecessem desejáveis; então não haveria fim para a circulação, para o girar da roda dos nascimentos e mortes; então não poderia haver acúmulo, por assim dizer, de conhecimento, e nenhuma evolução real das mais elevadas possibilidades. Pois lembrem-se de que a perfeição humana não é o fim do nosso crescimento; é o fim do ciclo presente; mas este é apenas a preparação para outro, e aqueles que se tornam homens perfeitos no ciclo presente são aqueles que, da serenidade do Nirvana, estão prestes a emergir no próximo período de manifestação, não mais homens a serem educados, mas Construtores e Senhores para guiar o próximo universo manifestado, passando para essa esfera superior de atividade e utilizando lá as experiências que aqui conquistaram.
É, portanto, essencial que essas Almas que estão se manifestando, que hoje são humanas, mas que em milênios futuros serão divinas – é necessário que elas não apenas adquiram conhecimento, mas também o levem consigo, tornando-o assim parte de seu próprio ser futuro; e para que isso aconteça, o desejo deve gradualmente mudar sua natureza até que finalmente desapareça.
Os objetos do mundo externo mais baixo devem se tornar indesejáveis para a Alma que adquiriu conhecimento; os objetos de cada fase do mundo externo, sutil ou físico, devem se tornar indesejáveis; tudo deve se tornar indesejável, exceto o Eterno, que é a essência da própria Alma: e assim, gradualmente, a Alma aprende, por meio da dor no universo físico, a se livrar do desejo.
Não há outra maneira pela qual o desejo possa ser conquistado. Se não houvesse dor na gratificação desses desejos externos, você não poderia, com forte vontade, deter os cavalos e impedi-los de galopar pela estrada que você não escolheu para eles.
Mas você quer fazer mais do que detê-los à força – esse é um estágio muito elementar do progresso da Alma: você quer que eles não mais desejem galopar atrás desses objetos; isto é, você quer cortar a própria raiz do desejo, e isso só pode ser feito fazendo com que os objetos que antes atraíam percam seu poder de atração, de modo que não possam mais atrair a Alma para fora; Então, a Alma, tendo esgotado tudo o que podia aprender com o objeto, e tendo-o considerado, no fim, produtivo de dor, não o considera mais desejável, mas o descarta, levando consigo apenas o conhecimento que adquiriu.
Pois a Alma é como a abelha que visita a flor; ela não precisa permanecer sempre na flor, ela deseja apenas o mel que a flor contém; quando ela recolhe o mel, a flor não lhe é mais desejável. E quando a Alma recolhe o mel do conhecimento das flores da Terra, é por isso que ela não sente mais desejo pela flor; ela obteve dela tudo o que era necessário para a lição, e a dor destrói o desejo e lança a Alma para dentro de si mesma.
Se você refletir sobre isso com calma, não conseguirá, creio eu, inventar outra maneira de realmente se livrar do desejo. E a menos que você consiga se livrar do desejo pelas coisas do mundo físico, nunca sentirá a atração interior, primeiro pelas coisas da mente e depois pelas da Vida Superior, o que é o próprio objetivo da evolução da Alma: fazer a experiência de tudo o que nasceu no mundo.
Mas qual outra utilidade tem a dor? Descobrimos duas: o aprendizado da Lei e a gradual eliminação do desejo. A próxima lição que aprendemos através da dor é a natureza transitória de tudo o que não é da essência do próprio Espírito. Em uma das muitas alegorias das escrituras hindus, você pode ler como o Deus da Morte, olhando para os homens e lamentando suas tristezas, chorou ao contemplar a Humanidade; e à medida que as lágrimas de Yama caíam sobre a terra, elas se transformaram em doença e misérias que afligiam a humanidade.
Por que a piedade de Deus deveria ter se transformado em flagelos para a tortura do homem? Essas alegorias sempre merecem reflexão, pois sempre sob o véu da alegoria está escondida alguma verdade que nos alcança com mais certeza por causa da comparação sob a qual ela está velada. O que é o Deus da Morte? Ele é, por assim dizer, a encarnação da mudança. Às vezes ouvimos falar de Yama como Destruidor; a palavra mais verdadeira é Regenerador; pois não existe destruição no universo manifestado. Sempre aquilo que, por um lado, é morte, por outro, é nascimento; e aquilo que é mudança e que parece destruir é aquilo que, em outro aspecto, está dando forma e nova forma à vida que está se encarnando.
E assim, Yama, o Deus da Morte, é o principal representante da mudança – a mudança que marca a manifestação, a mudança que está em tudo, exceto no próprio Universo; e visto que aquele que é a mudança encarnada chora pelos homens, é natural que suas lágrimas revelem as coisas que ensinam aos homens a natureza transitória de tudo o que os rodeia. E essas misérias e as doenças em que se transformam as lágrimas do Deus da Morte são as lições que, disfarçadas de dor, trazem o ensinamento mais útil de todos: que nada que seja transitório pode satisfazer a Alma, e que somente aprendendo a natureza transitória da vida inferior a Alma se voltará para aquilo em que a verdadeira felicidade e satisfação devem residir. Assim, o ensinamento da transitoriedade de todas as coisas é o objetivo dessas lágrimas de Deus, e ele demonstra a mais profunda compaixão nas lições que, pela dor, dá à humanidade.
Pois dessa maneira, pela doença e miséria, pela pobreza e pela dor, aprendemos que tudo o que nos rodeia – não apenas no mundo físico, mas também na esfera do desejo e na própria mente – que todas essas coisas estão mudando, e que na mudança, aquele que é imutável jamais encontrará seu repouso. Pois, em essência, somos o Eterno e não o transitório; o centro de nossa vida, o próprio Eu dentro de nós, é imortal e eterno, ele nunca pode mudar nem morrer. Portanto, nada que mude pode satisfazê-lo; nada sobre o qual a Morte tenha poder pode lhe trazer felicidade e paz finais.
Ele deve aprender essa lição através da dor, e somente nesse aprendizado reside a possibilidade da felicidade final. Assim, a Alma também aprende a diferença entre os estágios da transitoriedade; muito lentas são essas lições no aprendizado, e muitas vidas são necessárias para completá-las. No início, a Alma não pensará no Ser eterno como aquele em que ela deve repousar; mas ela aprenderá a se voltar do físico para o mental, a se voltar do sensorial para o intelectual, porque um é permanente em relação ao outro, e as alegrias da mente são duradouras em comparação com as dos prazeres do corpo. E no lento curso da evolução, essa lição é aprendida muito antes que as lições do Espírito sejam abordadas, e o homem se torna uma criatura superior quando aprende a dominar o lado animal e a encontrar satisfação na mente e na inteligência, de modo que os prazeres do gosto estético se sobreponham aos prazeres do corpo, e os prazeres da mente, do intelecto e da inteligência sejam mais atraentes do que os prazeres dos sentidos inferiores.
Assim, o homem está evoluindo gradualmente hoje, e a grande obra da evolução humana no presente momento – falando da evolução humana média – não é a evolução do Espírito, mas essa evolução do relativamente permanente em comparação com a dos sentidos e do corpo, no qual a consciência desperta do homem ainda está tão focada. De modo que o homem, em média, precisa direcionar seus desejos do transitório para o relativamente permanente, e assim cultivar a mente e a inteligência, e o lado artístico da Natureza, em vez de buscar a gratificação dos sentidos, que ele tem em comum com as formas inferiores de vida animal. E aqueles que, nesse período, estão ajudando a evolução humana são aqueles que se afastam do prazeres da vida do corpo.
De modo que aqueles que se treinam na vida da mente, aqueles que estão se afastando do relativamente menos permanente; embora, por sua vez, isso se revele transitório, ainda assim é um passo para cima, é o afastamento do desejo do corpo para a mente, dos sentidos para o órgão interno, das sensações para ideias e imagens, e isso faz parte da experiência da Alma que se torna introspectiva, que se afasta dos sentidos e se fixa por um tempo no órgão mais interno da mente.
E depois, esse órgão mais interno também se revela como dando origem a coisas que também são transitórias. Veja, no entanto, quão grande é o ganho; pois o conflito entre os homens acaba quando o desejo se volta para a inteligência, para o órgão mais interior, em vez das coisas exteriores dos sentidos. As coisas dos sentidos são limitadas; e os homens lutam contra aquelas que os outros possuem, para obter sua parte da quantidade limitada. As coisas do gosto superior e da inteligência são praticamente ilimitadas, e não há conflito entre os homens por elas; pois nenhum homem é mais pobre porque seu irmão é ricamente dotado artisticamente ou intelectualmente; ninguém tem sua própria parte diminuída porque a parte de seu irmão é grande.
E assim a humanidade progride da competição para a cooperação, e aprende a lição da Fraternidade: que quanto mais rico você for em intelecto, mais você poderá dar e menos precisará de ressentimento, visto que estamos subindo para a Vida Superior onde tudo é dar, e onde ninguém deseja tomar para si. Pois nessa região intermediária do intelecto e dos gostos e emoções mais elevados, não há necessidade de ressentimento; mas todos podem compartilhar aquilo que possuem, e descobrir, depois de compartilhar, que se tornaram mais ricos e não mais pobres pelo que compartilharam.
Mas mesmo então, se descobre que a satisfação não se encontra nesse caminho, pois ainda é da natureza do desejo. Nesse ponto faço uma pausa por um momento. Da compreensão do princípio que agora vou apresentar depende toda a direção da sua vida. Se você busca a gratificação do desejo, nunca encontrará a felicidade, pois cada desejo que é satisfeito dá origem a um novo desejo, e quanto mais desejos você satisfaz, mais bocas abertas existem exigindo que sejam preenchidas.
Diz uma antiga escritura:
“Do mesmo modo que acontece quando você tenta apagar um fogo derramando manteiga derretida sobre ele, assim também pode tentar se livrar do desejo preenchendo-o com o objeto do desejo.”
Esse é um dito que merece sua longa e ponderada consideração. Pois se a felicidade não reside nesse caminho, então a grande maioria das pessoas, especialmente em terras civilizadas, está no caminho errado para a felicidade: elas nunca a alcançarão pelo caminho que estão percorrendo. E se você observar a exigência da vida moderna, ela é sempre por mais da mesma coisa que já se possui – isto é, pela multiplicação dos objetos de desejo, e, portanto, pelo aumento contínuo dos anseios que não podem ser satisfeitos.
Eu poderia expressar isso de uma forma um tanto grosseira que me vem à mente, porque me foi citado outro dia como uma ilustração da maneira na qual, com a estreiteza de pensamento, essa ideia de mais e mais da mesma coisa só tende a aumentar. Você se lembra da história do rústico camponês a quem perguntaram o que o faria completamente feliz, e ele respondeu: “Sentar num portão e balançar, e mastigar bacon gordo o dia todo.” Então lhe perguntaram: “Suponha que você pudesse ter algo mais para te fazer feliz, o que você pediria?” E ele disse: “Mais balanços no portão e mais bacon gordo.” Bem, essa é uma maneira grosseira de dizer, mas é essencialmente a resposta que a maioria das pessoas dá.
Elas podem ter um desejo maior, eu admito, do que se sentar num portão e comer bacon gordo; mas o princípio do seu desejo é o mesmo que o princípio do rústico – eles querem mais das coisas que já possuem e não percebem que a felicidade não reside na crescente gratificação dos desejos, mas no transmutar do desejo pelo transitório para a aspiração ao Eterno, e na completa mudança da natureza, daquilo que se busca desfrutar para aquilo que busca dar. E se isso for verdade, então, em sua busca pela felicidade, você deveria considerar em que caminho está trilhando; pois se você está trilhando o caminho da gratificação do desejo, então, não importa o quanto você o refine, você está trilhando um caminho que é praticamente um círculo sem fim, e que sempre o deixará insatisfeito e nunca lhe dará a bem-aventurança que é o objetivo natural do Espírito no homem.
E assim, depois de um tempo, por essa ausência de satisfação, que é dor, a Alma alcança a compreensão que esse não é o caminho, e ela se cansa dessa interminável mudança. Todos esses objetos externos do corpo e da mente perdem sua força atrativa; cansada da mudança que ela encontra em todo lugar no mundo inferior, ela não mais busca o exterior, mais volta seu rosto para o interior e para o alto.
Ela se dirigiu para o exterior para os sentidos e falhou; então se voltou para a mente, mas a mente é externa do ponto de vista do Espírito, e novamente ela falhou; sempre derrotada pela dor, sempre derrotada pela insatisfação que é a dor mais cansativa de todas. E então, finalmente, ela aprende sua lição e se afasta daquilo que é externo; ela se volta para o interior; e então ela encontra o início da paz, o primeiro toque da real e essencial satisfação.
E outro uso da dor, uma lição mais interna agora: pois chegamos ao ponto em que a Alma se distinguiu do corpo do desejo e até mesmo da própria mente. E ainda assim, ela não se libertou completamente da dor, pois ainda não encontrou seu centro, está apenas buscando-o; e embora saiba que esse não está no corpo, nem nos sentidos, nem na mente, ela ainda se vê suscetível à dor que vem de dentro, de contatos que se traduzem como dor. E ao entrar em contato com os outros – com os pensamentos, os sentimentos e os julgamentos dos outros – ela constantemente se vê afligida por julgamentos e interpretações equivocadas, por pensamentos e sentimentos rudes; e se a Alma já tiver adquirido sabedoria, como deve ter se seguiu o caminho que temos traçado para ela, então começará a se perguntar: Por que ainda sinto dor? O que está lá, não no exterior, mas em mim, que dá origem à dor? Pois ela agora ultrapassou a ignorância que faz com que essa coisa externa pareça como a causadora da dor, e ela relaciona consigo mesma o elemento que causa a dor, e percebe que nada pode tocá-la senão ela mesma, que é, na verdade, responsável por tudo.
E se ela sente dor, a causa da dor deve estar nela própria, e não, afinal, no objeto externo; pois se a Alma fosse perfeita, nada que estivesse fora poderia lhe causar dor; e se ela sente dor, é um sinal de imperfeição, que ela não está totalmente afastada da natureza inferior que não é ela mesma. E então ela começa a usar a dor em vez de apenas senti-la; e há uma diferença entre as duas coisas. Ela não está mais à mercê da dor, mas toma a dor em suas próprias mãos como um instrumento e a usa para seu próprio propósito; quando ela encontra essa dor – nós diremos que essa provém de ação não caridosa, ou de julgamento errôneo quanto à motivação ou à conduta – a Alma toma a dor em suas mãos como um escultor tomaria um cinzel, e com esse instrumento de dor golpeia sua própria personalidade, pois sabe que se não fosse por essa personalidade que é egoísta, não sentiria dor alguma, e que pode usar a dor como um cinzel para cortar essa fraqueza pessoal, e assim permanecer serena e tranquila em meio aos conflitos do mundo.
Pois assim tem sido com todos aqueles que se elevaram acima da personalidade, aquelas grandes e libertas Almas de quem falamos como Mestres, que sempre trabalham para o mundo, não importa como o mundo Os julgue mal. Um Deles disse: “Sentimos as calúnias e as críticas da humanidade tanto quanto as alturas do Himalaia sentem o sibilar das serpentes que deslizam ao redor de seus pés.” Não há lá nenhuma personalidade que possa ser ferida por um julgamento errôneo, nenhuma personalidade que possa sofrer por uma interpretação errônea. Eles concedem uma bênção, e o homem que a recebe não sabe de onde ela vem; em sua ignorância, ele reclama ou zomba, ou acusa os Mestres, desconhecendo o que Eles são, e Os interpretando a partir de si mesmo, como se ele fosse Eles.
Eles se sentem feridos? Não; à interpretação errônea, Eles respondem com piedade, ao insulto, Eles respondem com perdão, pois Neles não há nada que possa ser ferido por qualquer má interpretação; somente Eles podem sentir piedade por aquele que está cego e que não pode ver – piedade pelo irmão cego que por seu pensamento errado está ofendendo sua própria Alma. A lua não é ferida por ninguém que jogue lama contra ela; a lama cai de volta sobre quem a joga e suja suas vestes; a luz da lua permanece pura e intocada pela lama da terra.
E assim, à medida que a Alma cresce em direção à luz, ela usa a dor como instrumento para destruir a personalidade e aquelas coisas sutis da personalidade que até mesmo a Alma forte pode não perceber; ela toma a dor como a mensagem mais misericordiosa para lhe falar de sua própria fraqueza, de sua própria falta, e de seu próprio engano. Pois à medida que você cresce em conhecimento, você compreende que seu pior inimigo não é o erro externo que você reconhece, mas a cegueira interior que não vê o lugar do perigo, e não sabe que não vê. Quando você cai e sabe que caiu, então o perigo é apenas pequeno; é quando você cai e não sabe que caiu, que os inimigos da Alma se alegram. E se houver dor na queda, então a dor é bem-vinda; pois isso indica o perigo e pode abrir nossos olhos para o deslize que foi cometido. Dessa forma, a dor, como eu disse, não é mais uma aflição; ela é bem-vinda como um aviso e como um instrumento que a Alma pode usar; ela é agora como o bisturi do cirurgião que corta o ponto do perigo; não mais para ser resistido como um inimigo, mas para ser acolhido como um amigo.
E ainda a dor tem outro uso, sendo agora uma questão de escolha da Alma livre, a Alma que busca ser forte, não para si mesma, mas para ajudar o mundo, a Alma que compreende que tem que viver para os outros e sabe que ela só pode aprender a viver para os outros se for forte em si mesma; então ela escolherá a dor porque só assim poderá aprender a persistência: escolherá a dor porque somente assim poderá aprender a paciência. Aqueles que nunca sofrem devem sempre permanecer fracos, e somente no estresse e na agonia do combate a Alma aprenderá a resistir, embora o combate, lembrem-se, ainda seja um sinal de fraqueza. Se fôssemos fortes, não necessitaríamos lutar; mas nós somente podemos alcançar a força que não necessita da luta na agonia da luta, pois então, gradualmente, a força se incorporará à Alma, e aquilo que antes era ansiedade e luta alcançará a calma serenidade da força perfeita.
E por mais uma coisa a Alma escolherá a dor – para que possa aprender a empatia. Pois mesmo a Alma forte seria inútil se não tivesse aprendido a empatia (compaixão). Aliás, a Alma forte poderia ser mais perigosa do que qualquer outra coisa se ela tivesse se tornado forte sem compaixão, e tivesse aprendido a desenvolver força sem ter aprendido a guiá-la corretamente. Pois a força que é apenas forte e não compassiva pode ferir em vez de elevar, e entre todas as coisa é essa que quebraria, por assim dizer, o coração da Alma que anseia por se elevar.
A força, não tendo aquele toque de empatia que é mais aguçada do que toda a visão e é a própria intuição do Espírito, poderia ser usada para prejudicar e não para ajudar. Ela poderia ferir quando desejava ajudar, e esmagar quando desejava elevar. E assim, quanto mais forte ela for, tanto mais avidamente a Alma buscará essa lição da dor, para que, sentindo, ela possa aprender a sentir, e que, por sua própria dor, ela possa aprender como as dores do mundo serão curadas; pois, de outra forma, não podemos aprender.
Não de fora, mas desde o interior nós temos que ser construídos, e todas as dores que temos em nossas imperfeições são, por assim dizer, as pedras com as quais o templo do Espírito perfeito é finalmente construído. Dor no fim não haverá; mas dor na construção deve haver; portanto, o Discípulo escolhe o Caminho da Dor, pois somente pela aflição ele pode aprender compaixão, e somente ao vibrar a cada toque do universo exterior, ele, que deve se tornar o coração do universo, será capaz de enviar empáticas vibrações de cura, que passarão através de toda a vida manifestada e carregarão consigo a mensagem de auxílio e força.
Vemos assim a utilidade da dor, embora vocês possam encontrar muitos outros usos. E embora eu tenha apenas citado alguns exemplos óbvios e bem simples, eles podem ajudar na compreensão. Mas é esse o fim? Será esse o destino final da Alma? Será a dor algo mais do que um meio? Será a dor a atmosfera natural do Espírito? Erram aqueles que acreditam que a tristeza é o fim de todas as coisas; erram aqueles que acreditam que a dor e a tristeza são realmente a atmosfera na qual o Espírito vive. O Espírito é bem-aventurança, não é tristeza; o Espírito é alegria, não é dor; o Espírito é paz, não é luta; a essência e o coração de todas as coisas é amor, é alegria, é paz; e o caminho da dor é o caminho e não o objetivo, o Caminho da Dor é apenas o meio e não o fim. Pois desse Oceano de Bem-Aventurança de onde o universo surgiu, brotam amor, paz e alegria incessantes, e essa é a herança do Espírito manifestado. A dor reside nas vestes que o revestem, e não em sua natureza essencial.
Nunca se esqueça disso na luta da vida! Nunca deixe que a dor cegue seus olhos para a alegria, nem deixe que as ansiedades passageiras o tornem inconsciente da bem-aventurança que é o núcleo e o coração do Ser. A dor é passageira, a bem-aventurança é eterna; pois a bem-aventurança é a essência interior de Brahman, o Eu de todos. Portanto, à medida que o Espírito avança, à medida que o Espírito se torna mais livre, a paz toma o lugar da luta, e a alegria toma o lugar da dor. Contemple a face mais elevada: ali está, de fato, a marca da dor, mas de uma dor que passou e que foi transformada em força, empatia e compaixão, e uma alegria profunda e infinita. Pois a palavra final do universo é Bem-aventurança; o resultado final da Humanidade é o repouso, o repouso consciente na felicidade. E todas as mensagens de dor servem para que o Espírito possa alcançar sua libertação; o fim é a paz, e o lado manifesto da paz é alegria.
NOTA:
(1) Theosophical Publishing Society, Benares e Londres, 1910. Theosophical Publishing House, Adyar, 1986, Segunda Reimpressão. 20 pp.