IX – CAUSA E EFEITO

IX – CAUSA E EFEITO

 

 

Nos capítulos anteriores tivemos constantemente que levar em consideração essa poderosa lei de ação e reação, sob a qual todo homem necessariamente recebe aquilo que é justamente merecido; pois, sem essa lei, o restante do esquema Divino seria incompreensível para nós. Vale a pena tentar obter uma apreciação verdadeira dessa lei, e o primeiro passo em direção a isso é “desacostumar” totalmente nossas mentes da ideia eclesiástica de recompensa e punição como consequências de cada ação humana.

 

É inevitável que liguemos a essa ideia o pensamento de um juiz administrando tal recompensa ou punição, e que logo após surja a possibilidade de que o juiz possa ser mais leniente em um caso que em outro, que possa ser abalado pelas circunstâncias, que um apelo lhe possa ser feito, e que desse modo a incidência da lei possa ser modificada ou até mesmo não observada totalmente.

 

Cada uma dessas sugestões é desencaminhadora no mais alto grau, e todo o corpo de pensamento ao qual pertencem deve ser cortado e totalmente abandonado antes de podermos chegar a qualquer real compreensão dos fatos.

 

Se um homem coloca sua mão sobre uma barra de ferro incandescente, sob circunstâncias ordinárias ele deveria queimar-se seriamente; todavia, jamais lhe ocorreria dizer que Deus o tivesse punido por colocar a mão sobre a barra. Ele compreenderia que o que se passou foi precisamente o que podia ter sido esperado sob a ação das leis da Natureza, e aquele que entendesse o que significa o calor e como ele age poderia explicar exatamente como foi produzida a queimadura.

 

Deve ser observado que a intenção do homem de modo algum altera o resultado físico; se ele tivesse segurado aquela barra de ferro muito quente para causar algum mal com ela ou para evitar que alguém se machucasse, iria se queimar da mesma maneira.

 

Certamente, em outras e mais elevadas esferas os resultados seriam bastante diferentes; em um caso ele teria cometido uma ação nobre e teria a aprovação de sua consciência, enquanto no outro ele sentiria apenas remorso. Mas a queimadura física estaria lá, tanto em um caso quanto no outro.

 

Para obter uma concepção verdadeira do funcionamento dessa lei de causa e efeito, devemos pensar nela como agindo automática e exatamente da mesma maneira. Se temos algo pesado pendurado no teto por meio de uma corda, e eu exerço uma certa quantidade de força contra o objeto, empurrando-o, sabemos, pelas leis da mecânica, que o peso fará pressão idêntica contra a minha mão com exatamente a mesma quantidade de força; e essa reação se realizará sem a mínima referência à minha razão para perturbar o seu equilíbrio. De modo semelhante, um homem que comete um ato vil perturba o equilíbrio da grande corrente de evolução, e essa poderosa corrente invariavelmente ajusta o equilíbrio às custas do homem.

 

Portanto, não se deve supor por um só instante que a intenção da ação não faça diferença; pelo contrário, é o fator mais importante a ela ligado, embora não afete o resultado no plano físico. Temos a tendência de esquecer que a intenção é em si mesma uma força, e uma força que age sobre o plano mental, onde a matéria é tão mais sutil e vibra tão mais velozmente que no nosso nível inferior, que a mesma quantidade de energia produzirá um efeito imensamente maior.

 

A ação física produzirá seu efeito no plano físico, mas a energia mental da intenção produzirá seu próprio resultado simultaneamente na matéria do plano mental, totalmente independente do outro; e o seu efeito certamente será o mais importante dos dois.

 

Desse modo, pode-se ver que um ajuste absolutamente perfeito sempre é alcançado; por mais mesclados que possam estar os motivos, e por mais que o bem e o mal possam estar misturados nos resultados físicos, o equilíbrio será sempre perfeitamente reajustado, e ao longo de qualquer linha a justiça perfeita deve prevalecer.

 

Não devemos esquecer que é o próprio homem, e ninguém mais, que constrói seu caráter futuro e que produz suas circunstâncias futuras. Falando de maneira muito genérica, pode-se dizer que, enquanto suas ações em uma vida produzem o seu ambiente na próxima, os seus pensamentos numa vida são os fatores principais da evolução do seu caráter para a próxima vida.

 

O modo como tudo isso funciona pode ser objeto de um estudo extremamente interessante, mas nos tomaria tempo demais detalhá-lo aqui; ele pode ser encontrado de modo bastante elaborado no livro de Annie Besant sobre o Karma; e no capítulo referente a esse assunto em seu livro A Sabedoria Antiga.

 

É óbvio que todos esses fatos nos fornecem uma razão mais do que suficiente para fundamentar muitos dos nossos princípios éticos. Se o pensamento é um poder muito forte que, em seu próprio plano, é capaz de produzir resultados muito mais importantes do que qualquer outro que possa ser alcançado na vida física, então a necessidade de controlar essa força torna-se de imediato evidente. Não apenas o homem está construindo o seu próprio caráter futuro por meio de seus pensamentos, mas também está constante e inevitavelmente afetando as pessoas ao seu redor por meio deles.

 

Daí recair sobre ele uma responsabilidade muito séria quanto ao uso que faça desse poder. Se surgir o sentimento de aborrecimento ou de ódio no coração do homem comum, o seu impulso natural é expressá-lo de alguma maneira em palavras ou em ações. As regras comuns da sociedade civilizada, porém, o proíbem de assim agir, e ditam que ele deve reprimir tanto quanto possível todos os sinais exteriores de seus sentimentos. Se é bem sucedido nisso, está apto a congratular-se e considerar que fez tudo o que seu dever lhe competia fazer.

 

O estudante da Filosofia Perene (Esotérica, Hermética ou Oculta), no entanto, sabe que quanto a si mesmo é necessário manter o autocontrole muito mais além disso, e que deve, de modo absoluto, subjugar tanto o pensamento de irritação quanto a sua expressão exterior. Ele sabe que seus sentimentos põem em marcha uma força tremenda no plano astral, e que estas agirão contra o objeto de sua irritação com tanta certeza quanto um soco dado no plano físico, e que em muitos casos os resultados serão muitíssimo mais sérios e duradouros.

 

É verdade, em um sentido muito real, que os pensamentos são coisas. Na visão clarividente, os pensamentos assumem forma e cor definidas, sendo que a cor certamente depende da vibração ligada a elas. O estudo dessas formas e cores é de grande interesse. Uma descrição delas, ilustradas com desenhos coloridos, poderá ser encontrada no livro intitulado Formas de Pensamento (Annie Besant e C.W. Leadbeater).

 

Essas considerações nos abrem possibilidades em várias direções. Uma vez que é facilmente possível causar malefícios com o pensamento, também é possível fazer o bem com ele. Podem ser postas em movimento correntes que levarão ajuda e conforto mental para muitos amigos que estejam sofrendo, e desse modo todo um novo mundo de utilidade se abre diante de nós.

 

Muitas almas ao sentirem gratidão, ficam oprimidas pelo sentimento de que, por falta de riqueza material, foram incapazes de fazer alguma coisa em retribuição à gentileza que lhes foi dispensada por outras pessoas; mas aqui está um método pelo qual elas podem se tornar utilíssimas para outras pessoas, numa região onde a riqueza física ou sua ausência não fazem diferença.

 

Todo aquele que pode pensar pode ajudar os outros; e todos os que podem ajudar os outros devem fazê-lo. Nesse caso, como em todos os outros, saber é poder, e aqueles que compreendem a lei podem fazer uso dela. Sabendo que efeitos serão produzidos por certos pensamentos sobre si mesmos e sobre os outros, podem deliberadamente fazer ajustes para produzir esses resultados. Dessa maneira, um homem pode não apenas moldar firmemente o seu caráter na presente vida, como pode também decidir o que ele será na próxima.

 

Pois o pensamento é uma vibração na matéria do corpo mental, e o mesmo pensamento persistentemente repetido evoca vibrações correspondentes (uma oitava acima, por assim dizer) na matéria do corpo causal (mental superior). Desse modo, as qualidades são gradualmente construídas dentro da própria alma [NE: a qual é composta pelos veículos dos níveis mental superior-abstrato, intuicional e da vontade espiritual], e certamente reaparecerão como parte do estoque com o qual ele começa sua próxima encarnação.

 

É dessa maneira, por meio do trabalho de baixo para cima, que as faculdades e qualidades da alma são gradualmente desenvolvidas, e assim o homem toma sua evolução em suas próprias mãos e começa a cooperar inteligentemente com o grande esquema da Deidade. Para mais informações sobre esse assunto, o melhor livro para estudo é O Poder do Pensamento, Seu Controle e Cultura, de Annie Besant.