- A Bíblia e o Hábito de Comer Carne (1)
Bertram McCrie
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Há muitos cristãos dignos no mundo de hoje que consideram a Bíblia como uma espécie de cidade de refúgio divinamente designada, para a qual podem fugir em diferentes épocas inconvenientes. Por mais que ignorem a Bíblia em assuntos cotidianos, prontamente recorrem a ela quando perseguidos por algum vingador da verdade distorcida ou da razão assassinada e, entrincheirados atrás de suas sessenta e seis muralhas, preparam-se para lançar sobre a cabeça do perseguidor uma saraivada de textos.
Nenhuma objeção séria a esse procedimento seria levantada por aqueles que se esforçam apenas para conhecer e fazer a vontade de Deus, não fosse o fato de que, por tal uso, a Bíblia é inevitavelmente rebaixada ao nível de um mero dicionário de citações e forçada a sancionar atos e hábitos para os quais a razão, a justiça e o bom senso não encontram autoridade nem necessidade.
Quando um homem não encontra nada além de costumes e convenções para justificar sua ação, e, por isso, busca sustentar sua posição citando frases de uma coletânea de escritos que tenta colocar acima de qualquer crítica, chamando-a de “Palavra de Deus”, é provável que sua única preocupação seja evitar usar a razão que Deus lhe deu e se eximir do trabalho de fazer quaisquer mudanças em seus costumes ou moral. Para tal, a questão não é: “Estou fazendo certo ou errado nisso?”, mas: “Onde encontrarei algo que me justifique continuar como tenho feito?”, e quem busca justificativas desse tipo geralmente não tem dificuldade em encontrá-las.
A prontidão com que muitos cristãos se dirigem à sua cidade de refúgio é muito marcante em sua atitude em relação ao grande tema da Reforma Alimentar. Como uma poderosa inundação, as águas purificadoras deste Movimento estão varrendo a terra, prometendo afogar o refugiado se ele não aprender a viajar com elas; ainda assim, ele salta de pináculo em pináculo, encontrando sempre algum texto ou passagem mais atenuada para lançar contra as ondas que avançam, com uma energia digna de uma causa muito melhor do que a defesa do carnivorismo.
A ciência afirma sem hesitação a natureza e a constituição estritamente frugívoras do homem; a história afirma que seu alimento tem sido os frutos da terra e atesta a eficiência e a preponderância de seus ancestrais e contemporâneos não carnívoros; a ética aponta para a imoralidade de privar seres sencientes da vida sem a menor necessidade disso; a arte não é encontrada nos matadouros; a higiene reside longe da putrefação de cadáveres não destruídos; a economia, seja política ou doméstica, nada tem a dizer em favor do pastoreio e da carne de açougue; a humanidade denuncia a crueldade implacável e a degradação de tudo o que está implícito na carnificina; e estranho e terrível seria se a Religião defendesse uma prática a qual todos esses princípios anteriores unanimemente condenaram.
O apologista bíblico do consumo de carne deve tomar cuidado para que tal ação não desacredite não apenas a si mesmo, mas também sua autoridade, aos olhos daqueles que consideram a Religião como a harmonia da vida.
É somente quando seguimos tal defensor do hábito de comer carne em sua cidadela que descobrimos quão grande é sua determinação em justificar seus hábitos, e quão pequena é sua aspiração de entrar no espírito de toda a verdade.
A Bíblia não proíbe expressamente o consumo de carne e, em muitos lugares, aparentemente sanciona e encoraja essa prática. “Portanto”, diz o bibliófilo, “Deus e a Bíblia estão comigo!” e ele se senta para comer seu bife tostado com a consciência tranquila. Mas ele não se detém para refletir que existem muitas outras práticas repreensíveis que a Bíblia não denuncia ou sequer menciona, mas que todo indivíduo sensato sabe serem moralmente indefensáveis.
A Bíblia não proíbe a escravidão; de fato, durante a luta antiescravista na América, muitos “teólogos” encontraram textos nos quais basear sermões em apoio ao tráfico de escravos.
Ela não proíbe a guerra; e assim o clero estava pronto para elogiar a guerra na África do Sul e pode formalmente abençoar exércitos, armas e navios de guerra.
Ela não proíbe a Vivissecção; que, portanto, encontra defensores entre os dignitários da Igreja e nenhuma oposição dos dirigentes em geral.
Ela não proíbe a intemperança, o jogo, o fumo de ópio, a prostituição, as touradas, as indústrias exploradoras e muitas outras doenças sociais dessa época. [N.E: Final do século XIX] No entanto, qualquer pessoa que tenha uma cabeça para pensar e um coração para sentir sabe que essas coisas são indesculpáveis e perversas.
A questão é que, embora a Bíblia possa parecer omissa sobre alguns dos males que eram praticamente inexistentes quando foi escrita (e isso deve ser observado em relação ao crescimento do tráfico de carne), e possa parecer tolerar com a mesma frequência que condena outras barbaridades, isso é apenas o resultado de uma leitura e apreensão superficial e ilógica de sua mensagem.
Seu plano e propósito não é enumerar uma lista de pecados específicos que foram, estão sendo ou podem vir a ser cometidos, e então pronunciar julgamento sobre eles, mas estabelecer certos princípios e verdades cuja adoção efetiva tornaria todos esses pecados impossíveis.
O literalista mais empedernido dificilmente contestará isso e terá que explicar muitas passagens em que Deus parece realmente elogiar a iniquidade. Portanto, embora a Bíblia não censure diretamente o uso de carne pela humanidade em geral, dificilmente seria sensato inferir disso que comer carne seja um costume bom e ordenado por Deus.
Ao considerar o que a Bíblia realmente ensina a respeito de uma prática como o Carnivorismo, não é necessário dedicar muito tempo aos escritos do Antigo Testamento. Eles são, reconhecidamente, um prólogo à história dos Evangelhos e, por si só, não fornecem um sistema de ética absolutamente satisfatório; mas um ou dois pontos podem ser observados de passagem.
Se lidos de forma ortodoxa, eles nos apresentam a história de um povo que está viajando da escuridão da materialidade para a luz da liberdade e da retidão. É a evolução de uma nação que, a princípio, está em dolorosa escravidão aos sentidos, exigindo ritos cerimoniais elaborados e um sistema de sacrifícios que pode parecer ao leitor casual como extremamente brutal. Gradualmente, à medida que séculos de luta e experiência passam por eles, eles aprendem que Deus não tem prazer real em holocaustos e sacrifícios de animais; que o único sacrifício em que Ele se deleita é o sacrifício da natureza animal inferior ao eu superior; que a oferta mais seleta para depositar em Seu altar é um coração purificado e humilde.
Certamente, entre as mais elementares concupiscências sensuais a serem erradicadas nesta jornada em direção a uma Canaã espiritual, a concupiscência por carne e sangue deve encontrar lugar de destaque. As vítimas deste sistema de sacrifícios são numeradas em centenas de milhões anualmente; seu sacerdócio é rebaixado ao nível dos animais que abatem; e as pessoas a quem ministram são marcadas com animalidade e sede de sangue como resultado de seus apetites ilícitos.
Carnivorismo e Cristianismo.
Não incongruente nos dias semibárbaros do Antigo Testamento, o Carnivorismo é, hoje, após dezenove séculos do evangelho de Cristo, uma anomalia espantosa e hedionda. Deixando de lado o tom obviamente mais elevado da mensagem de um defensor do humanitarismo como Isaías e muitos dos profetas posteriores, e a indicação que isso nos dá do despertar da consciência pública e do crescimento da moralidade nacional, podemos chegar imediatamente ao Novo Testamento e à vida e aos ensinamentos que ele consagra.
Quaisquer que sejam as diferenças de opinião a respeito da natureza de Cristo, não há dúvida de que Ele representa para a maioria de nós o tipo de humanidade aperfeiçoada e dá ao nosso mundo um padrão de vida e pensamento que provavelmente não será insuficiente ou superado. E assim se apresenta a questão crucial: o que Cristo gostaria que fizéssemos nessa questão de nos alimentarmos de nossos semelhantes massacrados?
Pode-se imaginar por um momento que Ele, a personificação do amor, da piedade e da pureza, pudesse ficar de pé com o machado erguido diante do boi frenético, ou brandir a faca sobre o cordeiro atordoado? O pensamento é monstruoso; mas será menos terrível pensar Nele realizando esses atos por procuração, e sendo alguém por quem o machado e a faca pingavam sangue?
Lembrando que o alimento cárneo é absolutamente desnecessário para sustentar a vida, e que temos evidências históricas da existência, na época de Cristo, de comunidades de homens que se comprometeram a não poluir seus lábios com carne e sangue, é nada menos que blasfêmia citar Cristo como defensor da carnificina e do carnivorismo, e assim sancionar a impureza e a crueldade.
Dir-se-á que Ele comeu peixe, mas supondo que o tenha feito, há um grande abismo entre o consumo de peixes capturados em redes e o massacre sangrento de animais delicadamente organizados e sencientes; não é o consumo de peixe, mas o consumo de carne que protestamos.
Também pode ser sugerido que Ele comeu o cordeiro pascal, mas o Evangelho de João deixa claro que a ceia com os discípulos ocorreu na noite do dia anterior à Páscoa, o dia dos pães ázimos. A este respeito, pode-se salientar que, como o próprio Cristo era a realização de todas as festas simbólicas da Páscoa, não haveria necessidade de perpetuar um rito do qual Ele era a conclusão e o cumprimento. Não existe qualquer evidência que demonstre que a carne de um animal abatido tenha passado pelos Seus lábios imaculados, e cada uma das Suas palavras e ações estava em oposição ativa ao espírito de selvagem sensualismo que torna possível o consumo de carne.
Poucos, mesmo entre os expoentes oficiais da história sagrada, sabem que os historiadores da igreja primitiva, Eusébio, Clemente de Alexandria, Hegésipo e Agostinho, registram claramente que Mateus, Tiago, o Apóstolo, e Tiago, irmão de Jesus, eram abstêmios estritos de alimentos cárneos; e que também há fundamento para crer que Tomé era da mesma linha de pensamento. A esses pode ser adicionada a partir de sua própria confissão, o Apóstolo Pedro; enquanto o relato que temos de João Batista não sugere que ele fosse alguém para quem o açougueiro exerceu seu ofício medonho. Temos o direito de perguntar se o Mestre realmente deu exemplo menor do que seus próprios discípulos na vivência de uma vida pura e misericordiosa. (2)
É neste estágio que o leitor carnívoro da Bíblia recorre ao seu aliado – Paulo. Talvez, devido à sua maior elasticidade, a doutrina de Paulo tenha mais atração para alguns cristãos do que os ensinamentos de Cristo, mas uma consideração imparcial dos escritos atribuídos a ele mostrará que Paulo, o fariseu, frequentemente escreve sob a assinatura de Paulo, o servo de Cristo.
Um homem que pudesse dizer em um momento: – “Portanto, se a comida faz meu irmão tropeçar, não comerei carne enquanto o mundo existir, para não fazer meu irmão tropeçar” (I Coríntios 8:13); e em outro: “Comei de tudo o que se vende no mercado, sem fazer perguntas por causa da consciência” (I Coríntios 10:25), deve evidentemente ser aceito com algum discernimento como um guia espiritual. O desejo de ser tudo para todos os homens a fim de salvar alguns é heroico, mas se leva um homem a cometer os mesmos pecados dos quais deseja salvar os outros, é claramente um entusiasmo sem maior fundamento.
Por mais valiosos que os escritos de Paulo possam ser como base para dissertações teológicas, devemos dar primeiro lugar aos preceitos e ao exemplo de Cristo em questões relativas à conduta da vida. Os ensinamentos e a influência de Cristo são totalmente contra a prática do carnivorismo; Paulo aparentemente tenta defendê-lo – sob qual bandeira nos posicionaremos?
O dia parece ainda muito distante em que os professos seguidores de Cristo perceberão que em ditos como – “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” e – “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” – estão compreendidos um amor e uma compaixão tão vastos que impedem sua limitação ao reino meramente humano. Somente quando as travas do orgulho e do egoísmo caírem de nossos olhos, discerniremos o pleno significado daquela injunção: “Não matarás.”
O Ensinamento dos Padres (Pais) do Cristianismo.
É razoável supor que os homens que viveram mais perto da época de Cristo teriam a concepção mais clara de qual deveria ser a atitude do cristão em relação a um assunto como o consumo de carne. Vivendo, por assim dizer, no brilho imediato de Sua presença, antes mesmo que as brumas do sectarismo e do preconceito se erguessem em torno de Sua figura.
Eles teriam conhecimento quase em primeira mão sobre muitas das questões que historiadores posteriores só puderam responder por tradição e especulação. E assim, quando nos voltamos para os escritos dos primeiros padres cristãos dos primeiros quatro séculos, é revigorante – para o leitor não carnívoro – descobrir quão fortemente as mentes mais brilhantes daquela época denunciaram o costume bárbaro de profanar o Templo do Espírito Santo com a carne em decomposição.
Tertuliano, Basílio, Clemente de Alexandria, João Crisóstomo, Jerônimo, Orígenes, Marcião e Calístrato, com as seitas dos Encratitas, Ebionitas, Nazarenos, Terapeutas e Essênios, representando várias escolas de pensamento, todos sustentaram a abstinência de alimentos cárneos como essencial e característica do verdadeiro seguidor de Cristo. Só há espaço para duas citações, mas estas são representativas de todo o corpo de testemunho. João Crisóstomo traçou este quadro de homens que estavam se preparando para o ministério cristão: –
“Não há fluxos de sangue entre eles; não há abate e corte de carne; não há culinária requintada; não há peso na cabeça. Nem há cheiros horríveis de carne entre eles, ou fumaças desagradáveis da cozinha. Nada de tumulto, perturbação e clamores cansativos, mas pão e água. … Se, no entanto, desejarem festejar mais suntuosamente, a suntuosidade consiste em frutas, e seu prazer nelas é maior do que nas mesas reais.” (Homilia 79, em Mateus 22, 1 a 14.)
Disso se depreende que Crisóstomo seria considerado um perturbador da paz de Israel hoje, se fosse um Arcebispo ou o Reitor de uma faculdade teológica. Ouça também aquele famoso teólogo do século II, Tertuliano, em sua acusação ao carnívoro cristão de sua época, bem como da nossa: –
“É nas panelas que o seu amor está inflamado – é na cozinha que sua fé se torna fervorosa – é nos pratos de carne que toda sua esperança jaz obscurecida (…) Quem é tão estimado por vocês como o frequente anfitrião de jantares, como o suntuoso anfitrião (…) Vocês, homens de carne, rejeitam consistentemente as coisas do Espírito? Mas se os vossos profetas são complacentes com tais pessoas, eles não são meus profetas.” (De Jejuniis: Adversus Psychios, cap. 17)
Evidentemente, havia cegos liderando cegos dentro da igreja, então como agora; os chamados guias espirituais, indiferentes ao fato de que nenhum homem cujas mãos estejam manchadas de sangue e que não seja autocontrolado e compassivo pode entrar através do véu.
Se não fosse tristemente significativo da atrofia espiritual, seria divertido notar as mudanças desesperadas feitas pelo biblista para sancionar como por autoridade divina a mistura de assassinato, degradação e sensualismo do consumo de carne. Começando com Noé e terminando com Paulo, ele vasculha a Bíblia em busca de exemplos de carnivorismo aprovado. Deus “abençoa” Noé e entrega tudo o que se move em suas mãos para ser alimento para ele, em uma passagem que não sugere um estado de coisas muito alegre em geral; mas mostra, de fato, o medo, a crueldade e a vingança que acompanham apropriadamente o carnivorismo.
Os israelitas clamam por comida de carne e codornas são dadas a eles; mas enquanto a carne ainda estava entre seus dentes, antes de ser mastigada, a ira de Deus se acendeu contra eles e Ele os feriu com uma praga muito grande – um julgamento ainda mais rápido do que resulta hoje de comer carne de porco tuberculosa ou vitela vacinada.
Gideão oferece um cabrito aos seus misteriosos visitantes, mas em vez de ser comido, é consumido pelo fogo; o que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com ele e uma excelente lição para Gideão.
E assim por diante, até o Novo Testamento, onde grande ênfase é dada quanto ao consumo de peixe ali mencionado, o implicado ficando bastante desconcertado quando lhe foi dito para se limitar a comer peixe se ele escolher, mas para discernir entre um peixe e um boi.
O fato de Cristo ter montado em um jumento e o incidente dos porcos Gadareus são citados como demonstrando a autoridade do cristão sobre o reino animal, a qual ninguém contestaria se aquela autoridade fosse usada daquela maneira.
O sonho de Pedro no telhado da casa é frequentemente, por uma curiosa ironia, apresentado como apoio ao carnivorismo, caso em que só podemos refletir que o alimento animal não conduz à perspicácia, e que a abstinência de carne de Pedro poderia muito bem exclamar: “Salva-me dos meus amigos.” Pois a narrativa deixa muito claro que Pedro recusou o convite aparentemente angelical para comer os quadrúpedes, répteis e pássaros que lhe foram oferecidos, porque ele nunca havia comido nada contaminado ou impuro.
Com muitos desses sofismas, o cristão carnívoro busca justificar um costume repugnante e anticristão, oposto a toda humanidade, justiça e razão genuínas, e visto com repulsa pelos adoradores de Deus mais esclarecidos em todos os lugares. Com o martelo da intolerância e o prego do egoísmo, ele prega um texto das escrituras nas paredes salpicadas de sangue do matadouro e segue seu caminho regozijando-se.
Um Apelo à Razão.
Certamente, uma leitura imparcial da Bíblia mostrará que o alimento do homem “não caído” estava livre da mancha do abate, que o alimento do homem “regenerado” certamente não incluirá carne e sangue, e que devemos nos preparar aqui e agora para esse último estado por todos os meios ao nosso alcance. É por isso que nós, que sabemos quão fácil e felizmente a vida pode ser vivida sem os produtos da decadência, nos apresentamos e convidamos nossos irmãos e irmãs a darem este passo elementar, mas extremamente necessário, em direção à obtenção da regeneração individual e coletiva, e à instauração do Reino de Deus na Terra.
Em conclusão, pode-se salientar que nos voltamos para a Bíblia apenas para demonstrar a validade de nossos argumentos, devido à ação daqueles que a citam como sendo contrária aos princípios da Dietética Humana. A Bíblia não se opõe a nenhum Movimento que promova a pureza, a piedade, o amor, a humanidade – em uma palavra, a semelhança com Cristo; e é pela manifestação prática dessas qualidades na vida diária que estamos pleiteando.
O leitor da Bíblia deve ser o último a abandonar essa verdadeira luxúria da carne e viver como convém a um Irmão de Cristo e filho de Deus? A mesma Bíblia e o mesmo Cristo não servem tanto para Arcebispo quanto para o matador, para a mulher comungante quanto para as “mulheres que abriam vísceras dos animais” nos matadouros?
Que o cristão professo vá ver aqueles a quem delegou esse trabalho horrível antes de responder a essas perguntas. Por que ele deveria se esquivar de entrar em um matadouro mais do que de visitar um moinho de grãos ou uma fazenda de frutas, se ele pode se apoiar na palavra escrita de Deus para seu tão necessário apoio?
A prática de comer carne não se sustenta ou cai pelo que é dito em qualquer livro, qualquer que seja sua autoria, antiguidade ou peso. A profunda verdade moral e espiritual não ganha nem perde com o que pode ser escrito sobre ela porque diz respeito principalmente à alma do homem.
A luz que ilumina todo homem que vem ao mundo é o juiz supremo e final da verdade; e no tribunal da Razão, para ser julgado pela alma na presença de suas duas testemunhas, o Intelecto e a Intuição, podemos abandonar com segurança o hábito carnívoro.
Pois, à medida que as Eras passam, a civilização de hoje se torna a barbárie de amanhã, costumes, convenções e imoralidades aparecem por um momento e depois desaparecem, e o que parece cada vez mais imutavelmente fixo é que boas ações trazem felicidade e más ações trazem miséria, enquanto a verdade, o amor e as boas ações desinteressadas são as únicas verdades eternas da vida.
E uma vez que a miséria, o erro, o ódio e o crime estão todos indelevelmente associados à carnificina e ao carnivorismo, essas práticas imundas estão fadadas à extinção total; enquanto aqueles que a tais males festejam devem encontrar uma justa retribuição.
Senhor de toda a Vida! Em quem o homem e o animal vivem, se movem e têm seu ser, concede-nos, imploramos a Ti, a superação das luxurias carnais, e o gradual amanhecer de uma visão mais clara: –
“Que nestas máscaras e sombras nós possamos ver Vosso sagrado caminho,
E por estas íngremes subidas ascender até aquele dia
Que nos conduz a Vós, presente em todas as coisas, embora de forma invisível.”
“That in these masques and shadows we may see Thy sacred way,
And by those hid ascents climb to that day
Which breaks from Thee, Who art in all things, though invisibly.”
NOTAS
(1) Edição original: Herald of the Golden Age – outubro de 1905.
Tradução: Arnaldo Sisson Filho. Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse arquivo pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.
(2) “Mateus, o Apóstolo, vivia de sementes, frutas de casca dura e outros vegetais, sem tocar na carne.” – Clemente de Alexandria – (Paedagogus, ii I)
Eusébio (Ecclesiast. Hist. Ii II III), cita Hegésipo afirmando sobre Tiago, o primeiro chefe da Comunidade Cristã, que “ele nunca comeu comida animal.”
Agostinho (Ad Faustum, xxii, III) repete essa afirmação e também afirma que “Tiago, o irmão do Senhor, vivia de sementes e vegetais, nunca provando carne ou vinho.” – Facobus frator Domini, seiminibus et oleribus usus est, non carne nec vino.