Um Esboço da Filosofia Perene (ou Esotérica)

 

Um Esboço da Filosofia Perene (ou Esotérica)

 

C.W. Leadbeater

 

 

Adaptação, prefácio e edição: Arnaldo Sisson Filho

 

 

Adaptação baseada na seguinte obra de C.W. Leadbeater:

An Outline of Theosophy (Um Esboço da Teosofia)

Theosophical Publishing House,

Adyar, Chennai, Índia.

 

Primeira impressão: 1902

Segunda até oitava impressão: 1905-1977

Nona impressão: 1987

 


 

CITAÇÕES INICIAIS

 

Teosofia É a “Grande Renúncia do Eu”, É ALTRUISMO

 

“Que eles saibam de uma vez por todas e recordem sempre que verdadeiro Ocultismo ou Teosofia é a “Grande Renúncia do EU”, de forma incondicional e absoluta, tanto em pensamento quanto em ação. É ALTRUÍSMO (…).” [Helena Blavatsky. Practical Occultism (Ocultismo Prático), p. 43; grifos nossos]

 

 

Bons Atos Serão Teosofia

 

“Por mais insignificante e por mais limitada a linha de bons atos, esses terão sempre mais peso do que a conversa vazia e vangloriosa, e serão Teosofia, enquanto que teorias sem qualquer realização prática são na melhor das hipóteses filosofia. [Helena Blavatsky. The Original Programme of the Theosophical Society (O Programa Original da Sociedade Teosófica), p. 44; grifos nossos]

 

 

 

 

A Escada de Ouro

 

“Vida limpa, mente aberta, coração puro, intelecto ardente, clara percepção espiritual, afeto fraternal para com todos, presteza para dar e receber conselho e instrução, leal senso de dever para com o Instrutor, obediência voluntária aos preceitos da VERDADE, uma vez que nela pusemos nossa confiança e cremos que o Instrutor a possui; ânimo valoroso para suportar as injustiças pessoais, destemida declaração de princípios, valente defesa daqueles que são injustamente atacados, e mira constante no ideal de progresso e perfeição humana que a ciência secreta (Gupta-Vidya) nos revela – eis a Escada de Ouro por cujos degraus o aspirante pode galgar ao Templo da Sabedoria Divina.” [NE: A verdadeira Teosofia. Helena Blavatsky. Collected Writings (Obras Completas), Vol. XII (1890), p. 591; grifo nosso]

 

Credos Exotéricos Geram Opressão e Luta. Somente Filosofia Esotérica Pode Gerar Estado Intermediário e Consequente Alívio do Sofrimento

 

“Sob a dominação e a influência dos credos exotéricos, sombras grotescas e distorcidas de realidades (…), sempre haverá a mesma opressão dos fracos e dos pobres e a mesma luta tempestuosa dos ricos e poderosos entre si mesmos. É somente a filosofia esotérica, [NE: A Filosofia Perene, ou Esotérica] a harmonização espiritual e psíquica do homem com a natureza, que, através da revelação de verdades fundamentais, pode trazer aquele tão desejado estado intermediário entre os dois extremos do Egoísmo humano e do Altruísmo divino e, finalmente, conduzir ao alívio do sofrimento humano.” [Adepto. Letters from the Masters of the Wisdom (Cartas dos Mestres de Sabedoria), 2nd Series, n. 82, p. 157; grifos nossos]

 

 

A Importância do Estudo Comparado

 

“Pois é somente através do estudo das várias grandes religiões e filosofias da humanidade e da comparação desapaixonada delas com uma mente sem preconceitos, que os homens podem esperar alcançar a verdade. E é especialmente descobrindo e percebendo seus vários pontos concordantes que podemos alcançar esse resultado. Pois tão logo alcancemos (…) seu significado interno, descobrimos, quase que em todos os casos, que ele expressa alguma grande verdade da Natureza.” (Helena Blavatsky. A Chave para a Teosofia, p. 63; grifo nosso)

 

A Interpretação de Suas Bíblias

 

Aquilo que vocês precisam na Terra é a interpretação de suas Bíblias, e de todas as Escrituras que contém a sabedoria oculta, o mistério de que São Paulo tão frequentemente mencionava como existindo desde os primórdios do mundo.” [P. ex: Romanos 16:25] (Edward Maitland, editor. Uma Mensagem à Terra, p. 69; grifo nosso)

 

Cavalo É o Símbolo da Inteligência: Ordem Divina da Cavalaria É a Ordem do Cristo

 

“A divina Ordem da Cavalaria é a inimiga do isolamento ascético e do indiferentismo. É a Ordem do Cristo que anda pelo mundo fazendo o bem. O cavaleiro cristão, montado em um valente corcel (pois o cavalo é o símbolo da inteligência), e equipado com a armadura de Miguel, é o modelo da vida espiritual – a vida de ativa e heroica caridade.” [Anna Kingsford. Dreams and Dream-Stories (Sonhos e Estórias de Sonhos), p. 278; grifos nossos]

 

 

“Sem a verdade e a justiça não pode haver Sabedoria.” (Helena Blavatsky. A Doutrina Oculta, p. 145, ou Collected Writings, Vol. XII, p. 310)

 

 

“Sabedoria e Verdade são sinônimos e aquilo que é falso ou pernicioso não pode ser sábio.” (Helena Blavatsky. A Doutrina Oculta, p. 153, ou Collected Writings, Vol. XII, p. 316)

 

 

“A SABEDORIA DIVINA, Theosophia – é a Sabedoria “cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia.” (Tiago, 3:17)” (Helena Blavatsky. A Doutrina Oculta, p. 158, ou Collected Writings, Vol. XII, p. 320) [NE: Um versículo chave, descreve a sabedoria divina como sendo pura, pacífica, gentil, amigável, cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade ou hipocrisia, contrastando-a com a sabedoria terrena. Ressalta que essa sabedoria não pode ser reduzida apenas ao aspecto intelectual, mas também fundamentalmente é prática, manifestando-se necessariamente em conduta que promove a paz, a misericórdia e a bondade, sendo verdadeira e voltada para o bem do próximo.]

 


 

 

SUMÁRIO

 

I – Prefácio do Editor e Introdução

II – Princípios Gerais

III – A Deidade

IV – A Constituição do Homem

V – Reencarnação

VI – A Perspectiva Mais Abrangente

VII – A Morte

VIII – O Passado e o Futuro do Homem

IX – Causa e Efeito

X – O Que a Filosofia Perene Faz por Nós

Anexos:

XI – A Existência da Filosofia Perene

(Arnaldo Sisson Filho)

XII – O Aspecto Dual da Sabedoria

(Helena Blavatsky)

XIII – A Dor: Seu Significado e Utilidade

(Annie Besant)

XIV – Bibliografia Citada

 


 

I – PREFÁCIO DO EDITOR E INTRODUÇÃO

 

 

PREFÁCIO DO EDITOR

 

 

Para o leitor interessado em uma breve introdução à Filosofia Perene (ou Esotérica) esse prefácio não seria necessário, uma vez que o texto básico do senhor Charles W. Leadbeater já é suficiente como uma introdução a esse assunto da maior importância.

 

Já para o leitor interessado em uma visão mais profunda e crítica relacionada aos vários livros da importante e vasta obra do Sr. Leadbeater esse prefácio poderá ser real valor.

 

Por exemplo, será útil para compreender a razão pela qual o título da obra foi alterado, bem como todas as vezes em que foi trocada a palavra Teosofia por Filosofia Perene (ou Esotérica) ao longo de todo o texto.

 

Como se trata de uma obra introdutória, não parece oportuno uma loga explicação a esse respeito. Assim sendo, trazemos a seguir, como explicação sintética, alguns parágrafos da obra Teosofia, a Lei da Fraternidade Universal e os Problemas Mundiais, a qual recomendo para os leitores que desejarem aprofundar seus conhecimentos sobre esse assunto. Essa obra se encontra na íntegra e gratuita no site www.ideiasmundomelhor.com:

 


 

Mero Conhecimento Intelectual Não É Teosofia

 

Podemos ver claramente que há uma grande diferença entre essa interpretação (da Teosofia como uma doutrina filosófica, ou filosófico-religiosa) e o entendimento que a Sabedoria Divina ou Teosofia jamais pode estar dissociada da verdade viva, ou seja, de um modo de ser, ou de uma vida justa, compassiva e beneficente.

 

À luz dessa compreensão, a Teosofia jamais poderia ser confundida com um conhecimento meramente intelectual, o qual sempre pode ser usado tanto para construir quanto para destruir. Não bastasse isso, não raro o conhecimento puramente intelectual é mesmo mais um impedimento do que um auxílio para a evolução espiritual do ser humano, conforme é afirmado nas citações abaixo:

 

“As faculdades espirituais necessitam mais de instrução e controle do que de nossos dotes mentais, pois o intelecto assimila o erro e o mal muito mais facilmente do que a verdade e o bem.” (K.H., Letters from the Masters of the Wisdom, 1st Series, n. IV, p. 150)

 

“Para a evolução espiritual do homem, o crescimento puramente intelectual é frequentemente mais um impedimento do que um auxílio.” (Helena Blavatsky. Collected Writings, Vol. V, p. 145)

 

Essa dupla possibilidade que, de um lado, significa uma concepção gloriosa da Teosofia e, de outro, uma concepção no mínimo limitada e inferior ao seu verdadeiro significado, foi aludida por um dos Sábios (Adeptos) que inspiraram a fundação da Sociedade Teosófica, conforme podemos ler abaixo:

 

Sinto muito ao vê-lo comparando a Teosofia a uma casa pintada em um palco, enquanto que nas mãos de verdadeiros filantropos e teósofos ela poderia se tornar tão forte quanto uma fortaleza inexpugnável.” (M., The Mahatma Letters to A.P. Sinnett, n. 38, p. 251; grifos nossos)

 

Um exemplo de testemunho muito claro a respeito dessas possíveis diferenças e dos problemas por elas acarretados na vida da Sociedade Teosófica é o seguinte trecho de um artigo de Jeanine Miller, publicado em O Teosofista (Jun/93):

 

“A fonte da verdade espiritual não está contida em qualquer livro, mas é extraída através da alma do homem. O ponto crucial da teosofia, a sabedoria divina, foi expresso por H.P. Blavatsky da seguinte maneira:

 

‘A verdadeira Teosofia é ALTRUÍSMO, e não podemos repeti-lo demasiadamente. É amor fraterno, auxílio mútuo, devoção incansável à verdade.’ (Lucifer, Vol. IV, n. 21, p. 188, maio/1889, ou Collected Writings, Vol. XI, p. 202)

 

Essa observação quanto à devoção à verdade e não a qualquer personalidade ou conjunto de doutrinas ou conceitos (…) não é devidamente levada em consideração. (…)

 

Nossa presidente internacional [Radha Burnier, 1923-2013] em seu artigo intitulado ‘O Desafio de Krishnaji’ na edição do outono de 1987 da revista The American Theosophist, enfatizou esse ponto de uma maneira semelhante:

 

‘Na realidade a teosofia é a sabedoria viva que penetra em nosso ser através da observação e compreensão do processo da vida, não meramente no nível físico mas também no nível psicológico e nos outros níveis mais sutis da existência. A sabedoria nasce quando a mente se liberta dos seus preconceitos e limitações e se desloca em uma dimensão diferente.’ (p. 346)

 

Ela acrescenta e isto é de fundamental importância para nós, aqui e agora:

 

‘A Sociedade Teosófica pode continuar a ser uma força para o bem apenas na extensão em que a teosofia não se tornar um outro conjunto de conceitos ou de crenças.’ (p. 345)

 

Na minha experiência com membros da Sociedade Teosófica – e eu viajei ao redor do mundo – a teosofia passou a ser apenas mais um conjunto de conceitos e crenças. Com demasiada frequência os membros colocam a teosofia no mesmo pé das doutrinas que surgiram no fim do século XIX através das obras principais de HPB e dos outros autores e não como a sabedoria divina. (…) Que mutilação terrível da mente! Alguns de nós em décadas passadas transformaram a reformulação do século XIX em um dogma que é oferecido como a fonte pura da verdade espiritual.

 

O perigo da Sociedade Teosófica tornar-se enredada em um padrão específico de pensamento que gira ao redor de determinadas reformulações de verdades está dolorosamente demasiado presente conosco aqui e agora, e a maioria de nós nem mesmo está consciente dessa ocorrência.” (pp. 17-18; grifos nossos)

 

Para Jeanine Miller, portanto, quando a Teosofia é vista como uma dada doutrina haverá sempre o problema “da Sociedade Teosófica tornar-se enredada em um padrão específico de pensamento.”

 

Outro exemplo de testemunho a respeito dessa diferença fundamental e dos problemas por elas acarretados na vida da Sociedade Teosófica é o seguinte trecho de um artigo de Aryel Sanat, publicado em The American Theosophist (Maio/1988):

 

“Outra implicação disso é que qualquer um que acredite ou que apresente a Teosofia para os outros como se ela fosse uma série de ensinamentos fixos estaria, a despeito de boas intenções, muito lamentavelmente mal representando a verdade e provavelmente estaria fazendo um desserviço ao ensinamento esotérico.” (The Secret Doctrine, Krishnamurti and Transformation, p. 143)

 


 

Essa questão e os problemas aludidos por Jeanine Miller e por Aryel Sanat talvez possa parecer uma questão meramente terminológica e, assim, pouco significativa. No entanto, para uma organização denominada Sociedade Teosófica, a maneira como essa palavra é definida faz claramente uma grande diferença.

 

Por força de sua denominação, ao entendermos a Teosofia como uma dada filosofia, ou seja, como uma dada doutrina filosófica-religiosa, essa Sociedade torna-se centralmente atrelada a essa doutrina, por mais verdadeira que ela possa ser, e mesmo que essa doutrina não seja apresentada como uma crença obrigatória para a filiação a essa Sociedade.

 

Para os leitores que não conheçam os objetivos dessa Sociedade, cabe mencioná-los:

 

I – Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.

 

II – Encorajar o estudo de Religião Comparada, Filosofia e Ciência.

 

III – Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes no homem.

 

Não deveria ser muito difícil de se perceber que a compreensão e a realização desses objetivos fica muito dificultada, ou mesmo impossibilitada, quando a Teosofia é definida como uma dada doutrina. Nesse caso, de imediato há uma evidente contradição com o proposto pelo seu primeiro e maior Objetivo, que propõe a não se fazer distinção de credo. Quanto à dificuldade da compreensão desses três Objetivos, parece oportuno um citação de um dos Sábios que, segundo a Sra. Blavatsky, inspiraram a fundação desse organização:

 

“Julgamos conhecer mais acerca da causa secreta dos eventos do que vocês homens do mundo. Digo, então, que é a calúnia e a ofensa aos fundadores, e a má compreensão generalizada das metas e objetivos da Sociedade que paralisam o seu progresso – nada mais. Não há nenhuma necessidade de maior definição nesses objetivos, desde que eles sejam tão somente explicados de forma apropriada.” (M., The Mahatma Letters to A.P. Sinnett, n. 38, p. 251; grifos nossos)

 

Ainda nesse sentido, uma citação do último capítulo daquela que foi uma das últimas, senão a última obra (A Chave para a Teosofia) da principal fundadora dessa organização, a Sra. Helena Blavatsky:

 

“Todos os intentos parecidos ao da Sociedade Teosófica fracassaram até agora; porque cedo ou tarde degeneraram em seitas, formulando dogmas fechados e perdendo dessa maneira, por graus imperceptíveis, aquela vitalidade que apenas a verdade viva pode dar.

Devemos não esquecer que todos os nossos membros nasceram e foram criados em algum credo ou religião; que todos pertencem, mais ou menos, tanto física quanto mentalmente, a uma dada geração, e consequentemente seus julgamentos mais do que provavelmente poderão ser deformados e inconscientemente determinados por algumas ou por todas essas influências. Se, portanto, eles não puderem livrar-se desses preconceitos inerentes, ou pelo menos serem ensinados a reconhecê-los instantaneamente e, assim, evitar que sejam desencaminhados por eles, o único resultado possível é a Sociedade ficar à deriva e ser arrastada para algum banco de areia mental e permanecer ali como uma carcaça encalhada para morrer e apodrecer.” (p. 260; grifos nossos)

 

Concluindo esse breve prefácio, cabe ainda esclarecer que foram acrescentados três anexos complementares. Os dois primeiros tratam dessas questões da conceituação e da grande importância para o mundo da Filosofia Perene (ou Esotérica, Hermética, Oculta etc.) e da Teosofia (Sabedoria Divina, do Alto, Noética etc.), sendo o segundo anexo extraído de artigo da Sra. Helena Blavatsky (O Aspecto Dual da Sabedoria), que foi a principal fundadora da Sociedade Teosófica.

 

Quanto ao terceiro anexo, uma palestra da Dra. Annie Besant (A Dor: Seu Significado e Sua Utilidade); foi incluído porque a experiência vivida tem nos mostrado que essa é uma questão (e uma dúvida) difícil de ser respondida para os que iniciam estudos da Filosofia Perene, que é a aparente contradição entre a existência de tanta dor, conflitos etc. no mundo, e a afirmação de que o Ser, Criador Divino de todas as coisas, é ao mesmo tempo Verdade, Amor e Bem-aventurança (Indescritível Felicidade).

 

Que esse pequeno esboço da Filosofia Perene possa em alguma medida contribuir para a Verdade, o Altruísmo e a Harmonia em nossas vidas.

 


 

INTRODUÇÃO

 

 

O Que É a Filosofia Perene (ou Esotérica)?

 

Por muitos anos os homens têm discutido, arguido, inquirido a respeito de grandes questões fundamentais como: – a existência e a natureza de Deus, a Sua relação com o homem, o passado e o futuro da humanidade.

 

Eles têm discordado de forma tão radical sobre esses assuntos, e tão severamente têm sido atacados e ridicularizados quanto às suas crenças, que chegou a se criar uma firme opinião popular de que, com referência a esses tópicos, não há certeza disponível – nada a não ser uma vaga especulação em meio a uma nuvem de deduções, sem fundamentos, extraídas de premissas mal estabelecidas. E isso apesar das afirmações muito bem definidas, embora frequentemente incríveis, feitas sobre esses assuntos por conta das várias religiões.

 

Essa opinião popular, ainda que não deixe de ser natural nessas circunstâncias, é inteiramente falsa. Isso porque há fatos bem definidos disponíveis – na verdade há muitos deles.

 

A Filosofia Perene nos fornece esses fatos; porém não como o fazem as religiões, apresentando-os como matéria de fé, mas sim trazendo-os como material para estudo. Ela mantém com respeito às religiões a mesma relação que as filosofias antigas mantinham. Não as contradiz, e sim as explica. A Filosofia Perene rejeita o que quer que seja absurdo, como sendo algo depreciativo e não necessariamente digno da Divindade; porém reúne o que quer que seja razoável em cada uma e em todas elas, explica e enfatiza, e assim combina tudo em um todo harmônico.

 

Ela sustenta que a verdade sobre todos esses pontos de suma importância é atingível – e que já existe uma grande gama de conhecimento sobre eles. Considera todas as várias religiões como declarações a respeito daquelas questões fundamentais expressas de diferentes maneiras, em diferentes épocas e lugares; uma vez que, embora diferindo muito quanto à nomenclatura e quanto aos artigos de fé, todas praticamente concordam quanto aos assuntos que são de real importância: – o tipo de vida que um homem bom deve levar, as qualidades que deve desenvolver, os vícios que deve evitar. Sobre esses pontos práticos o ensinamento é muito similar no Hinduísmo e no Budismo, no Zoroastrianismo e no Islamismo, no Judaísmo e no Cristianismo.

 

A Filosofia Perene pode ser descrita para o mundo exterior como uma teoria inteligente do universo. Todavia, para aqueles que a têm estudado profundamente, ela não é uma teoria, mas descreve fatos; pois é oriunda de um conhecimento definido, ela é passível de ser estudada, e os seus ensinamentos são verificáveis pela investigação e experimentação por aqueles desejosos de se dar o trabalho de qualificarem-se para tal investigação. É uma declaração dos grandes fatos da natureza até onde são conhecidos – um esboço do esquema do nosso canto do universo.

 

 

Como a Filosofia Perene É Conhecida?

 

Pode-se perguntar como esse esquema se tornou conhecido e por quem foi descoberto. Mas, na realidade, ele sempre foi conhecido, embora às vezes tenha sido temporariamente esquecido em certas partes do mundo.

 

Sempre existiu um certo grupo de homens altamente desenvolvidos, não de uma nação em particular, mas de várias nações, que detinham essa verdade em sua totalidade; e sempre houve discípulos desses homens, que estiveram especialmente estudando a Verdade, enquanto os seus vastos princípios sempre foram conhecidos no mundo externo. Esse grupo de homens altamente desenvolvidos existe tanto agora quanto existiu no passado, e o ensinamento da Filosofia Perene foi trazido ao Ocidente por inspiração desses seres, através de uns poucos discípulos.

 

Aqueles que ignoram isso têm insistido, às vezes clamorosamente, que, se assim é, essas verdades deveriam ter sido publicadas há muito tempo; e de maneira bastante injusta acusam aqueles que possuem tal conhecimento de serem excessivamente reservados, sonegando-o ao mundo em geral.

 

Eles se esquecem de que todos os que realmente buscaram essas verdades sempre foram capazes de as encontrar, e que é somente agora que nós no Ocidente estamos verdadeiramente começando a procurá-las. Por muitos séculos a maior parte da Europa esteve satisfeita em viver na superstição mais grosseira; e quando uma reação finalmente se estabeleceu devido ao absurdo e fanatismo dessas crenças, fez surgir um período de ateísmo que foi igualmente vaidoso e intolerante, em outra direção. De modo que somente agora é que algumas das pessoas mais humildes e moderadas estão começando a admitir que nada conhecem, e a indagar se não existe informação real disponível em algum lugar.

 

Nós não estamos de modo algum sob a ilusão do fanático religioso arrogante que ousa condenar todo aquele que não aceitar sua pequenina crença provinciana; estamos perfeitamente cientes de que tudo no fim estará bem para aqueles que ainda não podem em seu caminho buscar a verdade, como também para aqueles que a procuram com avidez.

 

Mas esses conhecimentos tornaram a vida para nós e para milhares de outros mais fácil de suportar, e a morte mais fácil de enfrentar. E é apenas o desejo de partilhar esses benefícios com nossos irmãos que faz com que nos devotemos a escrever e dar palestras sobre esses assuntos. Os amplos esboços de grandes verdades têm sido amplamente conhecidos no mundo há milhares de anos, e também o são hoje em dia.

 

Apenas nós no Ocidente, com nossa incrível auto suficiência, é que temos permanecido ignorantes dessas verdades, zombando de qualquer fragmento delas que possa ter chegado até nós. Como no caso de qualquer outra ciência, também nessa ciência da alma os detalhes completos são conhecidos apenas por aqueles que devotam suas vidas à sua procura.

 

Os homens que a conhecem a fundo – aqueles que são chamados de Adeptos – pacientemente desenvolveram dentro de si os poderes necessários para a perfeita observação. Pois a esse respeito há uma diferença entre os métodos de investigação esotérica e os das formas mais modernas de ciência; os últimos devotam toda sua energia ao aperfeiçoamento de seus instrumentos, enquanto os primeiros visam preferencialmente o desenvolvimento do observador.

 

 

O Método de Observação

 

O detalhe desse desenvolvimento tomaria mais espaço do que lhe pode ser dedicado num manual preliminar como este. O esquema inteiro poderá ser encontrado com explicações completas em outras obras, (1) por enquanto basta dizer que é inteiramente uma questão de vibração.

 

Toda informação que chega ao homem vinda do mundo exterior alcança-o por meio de vibração de algum tipo, quer seja pelo sentido da visão, da audição ou do tato. Consequentemente, se um homem puder tornar-se sensível a vibrações adicionais, ele adquirirá informação adicional; ele irá tornar-se o que é comumente chamado de clarividente.

 

Essa palavra, como é comumente usada, significa nada mais que uma leve extensão da visão normal; mas é possível para um homem tornar-se mais e mais sensitivo às vibrações mais sutis até que sua consciência, agindo através de outras faculdades despertas, funcione livremente em novos e mais elevados caminhos.

 

Ele então encontrará novos mundos, ou níveis, de matéria mais sutil abrindo-se diante dele, embora na realidade sejam eles apenas porções novas do universo que ele já em parte conhece. Desse modo ele aprende que existe um vasto mundo invisível à sua volta durante toda a sua vida, e que o está afetando constantemente de muitas maneiras, embora ele possa estar inconsciente desse fato.

 

Mas quando desenvolve faculdades através das quais pode sentir esses outro níveis, ou mundos, torna-se possível para ele observá-los “cientificamente”, repetir suas observações muitas vezes, compará-las com as dos outros, organizá-las e tirar deduções a partir delas.

 

Tudo isso tem sido feito – não uma vez, mas milhares de vezes. Os Adeptos sobre os quais falei têm assim agido até o grau mais elevado possível, mas muitos esforços nessa mesma direção têm sido realizados pelos nossos colegas da Sociedade Teosófica. O resultado de nossas investigações tem sido não apenas verificar muitas das informações que nos foram passadas inicialmente por esses Adeptos, mas também explicá-las e ampliá-las consideravelmente.

 

A visão dessa porção geralmente invisível do nosso mundo traz de imediato ao nosso conhecimento um vasto conjunto de fatos inteiramente novos que são do mais profundo interesse. Gradualmente ele soluciona para nós muitos dos mais difíceis problemas da vida; esclarece muitos mistérios, de modo que agora os vemos como tendo sido mistérios para nós por tanto tempo, apenas porque até aqui víamos uma parte bem pequena dos fatos, porque olhávamos de baixo, para os vários assuntos, como fragmentos isolados e desconectados, em vez de nos elevarmos acima deles até um ponto de observação de onde eles apresentam-se como partes compreensíveis de um poderoso todo.

 

Isso de imediato soluciona muitas questões que foram bastante discutidas, como, por exemplo, a da existência contínua do homem após a morte. Fornece-nos a verdadeira explanação de todas as afirmações totalmente impossíveis feitas pelas igrejas a respeito do céu, inferno e purgatório; dissipa nossa ignorância e remove nosso temor do desconhecido, trazendo-nos um esquema racional e metódico.

 

(1) Ver, por exemplo, A Sabedoria Antiga, de Annie Besant, Ed. Teosófica, 2004.

(N.E.: A palavra “sabedoria”, no título da obra acima, é empregada como significando uma doutrina filosófico-religiosa, sentido no qual o título é quase um sinônimo de “doutrina, ou filosofia, perene, ou antiga”. Ao nosso ver, trata-se de algo lamentável que a palavra “sabedoria” seja assim empregada, numa obra importante como essa da Dra. Annie Besant. Isso porque uma pessoa pode conhecer muito bem intelectualmente essa obra, ou ser um grande erudito, conhecedor de muitas obras sobre a doutrina que denominamos de Filosofia Perene, e estar muito longe de ser um sábio. Não merece ser chamado de sábio alguém que não exemplifique em sua vida virtudes como verdade, justiça, beneficência ou altruísmo. Vide a esse respeito o livro Sabedoria, [p. ex. 7:22-23], na Bíblia:

“Nela (na Sabedoria) há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, sereno, tudo podendo, tudo abrangendo, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros, os mais sutis.”)