Ligação Entre Religião e Organização da Sociedade


“A LIGAÇÃO ENTRE RELIGIÃO E ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE

(Segunda parte do sexto capítulo da obra A Roda e a Cruz: Uma Introdução ao Cristianismo Budista)

VIVIANE: Qual a ligação entre religião e organização da sociedade?

ARNALDO: Embora hoje haja a tendência para se considerar a religião e a organização sociopolítica como coisas relativamente separadas, por muito tempo foram quase uma coisa só, caminhando juntas. Isso porque uma influencia decisivamente a outra ao longo de toda a história.

O que hoje temos como o chamado Cristianismo, como disse, essa interpretação materializada e idólatra dos ensinamentos de Jesus, com os seus antecedentes, é o que está na base de nosso cruel modelo civilizatório. Naturalmente, não estamos ignorando a tradição greco-romana, ou a judaica. Porém, essas tradições foram modificadas por uma dada interpretação dominante dos ensinamentos de Jesus. É isso que se constitui no que o mundo chama de Cristianismo. E é esse conjunto que está na base da civilização ocidental e de suas principais instituições de organização sociopolítica.

Com o colapso do Império Romano Ocidental, ao longo de toda a Idade Média, foram os mosteiros e depois as primeiras universidades que exerceram essa influência civilizatória de base. Durante toda essa época a religião tinha papel cultural evidentemente dominante. Depois, aos poucos, esse domínio foi enfraquecendo, com todas as transformações que marcaram o advento da chamada Idade Moderna, até que ocorreram as reformas protestantes, e foi ocorrendo o desenvolvimento do que chamamos de ciência moderna. Mas a base do pensamento ainda tem sua origem nessa tradição religiosa deturpada. Na Idade Moderna e Contemporânea, a tradição religiosa foi se modificando; agora está mesclada e, em boa medida, está em conflito e sendo subjugada pelo pensamento dito científico.

Na verdade, foi justamente a materialização, a idolatria religiosa – seja a dita católica, seja a dita protestante – que gerou esse tipo de ciência que hoje é dominante. Uma coisa é filha da outra. A base, a matriz de toda essa civilização continua sendo aquela religião principal do Ocidente, que é o que o mundo chama de Cristianismo.

Apenas, na Idade Moderna e Contemporânea, essa influência se tornou menos explícita e mais indireta, com a intermediação do pensamento laico. Mas ainda a religião dominante no Ocidente é o Cristianismo, isso que se chama de Cristianismo. Muitos chamam a isso de tradição judaico-cristã – e na verdade é, tanto judaico como greco-latina e cristã. E, se falamos também em tradição judaica e em tradição greco-latina, estamos falando daquelas tradições que influenciaram o Judaísmo e a cultura greco-romana. Chegamos então nas culturas da Mesopotâmia e do Velho Egito.

Tudo isso está na base da civilização ocidental, a qual está amplamente dominando o mundo, como é tão claro.

“A fé cristã é a herdeira direta da velha fé romana. Roma foi a herdeira da Grécia, e a Grécia do Egito, de onde se originaram o legado de Moisés e o ritual hebraico.

O Egito foi apenas o foco de uma luz cuja verdadeira fonte e centro era o Oriente em geral – Ex Oriente Lux. Pois o Oriente, em todos os sentidos, geograficamente, astronomicamente e espiritualmente, é sempre a fonte de luz.

Mas, embora originalmente derivada do Oriente, a Igreja de nossos dias e de nosso país é modelada diretamente a partir da mitologia greco-romana, e de lá retira todos os seus ritos, doutrinas, cerimônias, sacramentos e festivais. (…)

Extraindo sua essência-vital diretamente da fé pagã do velho mundo Ocidental, o Cristianismo mais proximamente se parece com seus pai e mãe imediatos, do que com seus ancestrais remotos, e será, então, melhor exposto com referência a suas fontes da Grécia e de Roma, do que com referência a seus paralelos bramânicos e védicos”. [The Credo of Christendom (O Credo do Cristianismo), pp. 94-95; grifos nossos]

Foi essa civilização ocidental – com todas essas influências, mais o pensamento laico científico moderno – que resultou no Liberalismo e no Marxismo, que até hoje são as principais e dominantes filosofias sociais e que, portanto, são as principais matrizes dos modelos de organização sociopolítica.

Essas filosofias, materialistas e materializadas, criaram um novo sacerdotalismo, que até certo ponto combate e domina, como disse, o sacerdotalismo religioso. Sabemos, inequivocamente, que elas são dominantes porque são elas que estão formatando as instituições, as principais instituições que organizam a vida sociopolítica dos principais países, isto é, dos países que dominam a maior parte do mundo. Isso tudo, como disse, tem como base essa degeneração da verdadeira religião cristã, que está fundamentalmente ligada ao Budismo, assim como aos ensinamentos de Pitágoras.

O Cristianismo como está hoje – dominado pela idolatria literalista do sacerdotalismo – com o modelo civilizatório por ele influenciado, com a violência crescente entre os humanos e para com os animais, com a destruição de elementos importantes do meio ambiente natural, está levando o mundo direto para a colisão com o iceberg das catástrofes ambientais e sociais, que talvez se iniciem com as pandemias que, até mesmo segundo o relato de trabalhos científicos, podem ocorrer em um futuro não muito distante.

Chegamos nesse ponto porque esse falso Cristianismo, com seu sacerdotalismo, com seu literalismo, com sua superficialidade e com sua idolatrização das Escrituras Sagradas gerou, direta ou indiretamente, e continua apoiando, instituições incapazes de organizar o mundo de uma forma satisfatória, equilibrada e justa.

Então, é urgente uma re-interpretação, um resgate do verdadeiro Cristianismo, o qual, segundo a Dra. Anna Kingsford, é uma continuação e compõe uma unidade, um todo harmônico, com a base dos ensinamentos sagrados que o antecederam, especialmente, repito, com os ensinamentos genuínos e corretamente interpretados do Buda Gautama e de Pitágoras.

Admitindo essa última afirmação como verdadeira, teremos, necessariamente, que resgatar, que restaurar a verdadeira religiosidade dessa tradição una, pois disso dependeriam as possibilidades de novas instituições, de novos instrumentos de organização sociopolítica que nos permitiriam evitar e superar o iceberg que se aproxima, se é que isso ainda é possível; se é que é possível, depois de tanta crueldade, evitar essa colisão.

Mas, mesmo que isso não seja mais possível, ainda assim, temos o dever e a necessidade de nos preparar para o day after, o dia seguinte. Pois tudo continuará após o iceberg, e temos que trabalhar por tão esperados melhores dias, com ou sem colisão com o iceberg. Temos que, queiramos ou não, semear as boas sementes para antes, durante e depois, pouco importa, das catástrofes, que hoje se afiguram como quase inevitáveis, mais cedo ou mais tarde. Mas, quando os profetas falam essas coisas, quem lhes dá ouvidos? E é justamente essa surdez que torna as catástrofes tão inevitáveis. Paciência e oração…

Repetindo, e tentando resumir, para melhorarmos as bases da civilização ocidental precisamos melhorar o Cristianismo que aí está. Precisamos resgatar, precisamos restaurar, como fizeram Kingsford e Maitland, o verdadeiro Cristianismo, o qual, segundo esses profetas, compõe uma totalidade com o Budismo e com os ensinamentos de Pitágoras. Com esse resgate poderemos ter uma verdadeira visão de Deus, de ser humano, de caminho espiritual e de valores éticos. E, ao externalizarmos essa visão em nossa maneira de viver, individual e coletivamente, ela irá se converter em novas instituições sociais: jurídicas, políticas, educacionais, econômicas e assim por diante. Disso, segundo os profetas Kingsford e Maitland, “nascerá a esperada redenção do mundo”. (The Perfect Way, p. 252)

VIVIANE: O Oriente parece ter uma tradição mais ligada aos símbolos do que o Ocidente. Vemos, por exemplo, a dança indiana, que é toda simbólica. Os orientais aparentemente têm essa ligação maior com os simbolismos religiosos. Esse contato maior com os símbolos facilita seu entendimento?

ARNALDO: Acredito que a maioria do povo oriental, quando interpreta os símbolos, não o faz bem, inclusive os seus próprios símbolos. Por isso a religião oriental está como vemos. O que acontece é que eles aceitam mais – não que entendam mais – porque isso faz parte da sua cultura rigidamente estratificada.

Gostaria de ressaltar que estratificação rígida é diferente de um simples e natural escalonamento. Na sociedade humana não é algo benéfico essa rígida estratificação, no sentido de impor que a pessoa que está aqui não possa chegar ali mais adiante, como ocorre nas degeneradas castas indianas. Nessa cultura, quem é de uma casta deve viver e morrer nessa casta.

Essa é uma degeneração de um princípio sagrado, de uma lei verdadeira e da maior importância que é o ensinamento que deu origem às castas, mas que estão desde tanto tempo degeneradas. Esse escalonamento social não é mais entendido como reflexo do caráter, dos níveis evolutivos das Almas, mas, na degeneração atual, é determinado pela casta em que a pessoa nasceu. Na verdade, o valor interno, o caráter, é que deve determinar o escalonamento; é de dentro para fora e, idealmente, depende do nível de maturidade da Alma. E não determinado de forma rígida, pelo grupamento social em que o ser humano nasceu.

“Acima o céu, abaixo o lago: a imagem da CONDUTA.

Assim o homem superior discrimina entre o alto e o baixo e fortalece desse modo a mente do povo.

O céu e o lago evidenciam uma diferença de altitude inerente à essência dos dois, e que, por isso, não desperta inveja.

Assim também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível. É impossível chegar a uma igualdade universal.

Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes inevitavelmente se seguiriam. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranqüilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem”. (p. 56; grifos nossos) [Lu – A Conduta (Trilhar) – Hexagrama nº. 10 do I CHING: o Livro das Mutações]

VIVIANE: Parece difícil para o ser humano, com o conhecimento que tem, na forma como vê o mundo, fazer essa distinção, determinar o nível externo, social, a partir do interno, do caráter dos indivíduos.

ARNALDO: Realmente é difícil, mas sua importância é decisiva se quisermos uma ordem social justa e com chances de superar os imensos problemas que aí estão, pois disso depende a possibilidade de uma boa escolha dos dirigentes, sem o que não há qualquer possibilidade de uma ordem social harmônica.

No Humanitarismo, o sistema que temos proposto, derivado logicamente de uma razoável base filosófica e religiosa cristã budista, isto é, católica, universal, resolvemos esse problema da excessiva estratificação, ou do excessivo igualitarismo, aceitando um escalonamento sem rigidez, mostrando que podem ser definidos níveis com liberdade, através de eleições, como, em alguma medida, faziam os soviets russos – só que de uma forma mais satisfatória, mais digna, mais coerente com a dignidade humana, porque lá não havia liberdade e nossa proposta é baseada na liberdade. Não numa falsa liberdade absoluta, não na liberdade do tipo “raposa dentro do galinheiro”, porém na liberdade irmanada à fraternidade, que implica num escalonamento harmônico da liberdade e da responsabilidade, de forma proporcional e pertinente.

Como isso é possível, ou seja, criar-se uma ordem harmônica, sem ignorar que existe o escalonamento e sem excessivo igualitarismo? Dando liberdade para as pessoas escolherem seus representantes, só que em pequenos grupamentos sociais, a partir de pequenas populações, ou de uma base micro distrital. Dessa forma as pessoas podem se conhecer pessoalmente e se cria um primeiro colégio de representantes com liberdade, igualdade de oportunidades e adequação entre as capacidades e os níveis de responsabilidade.

Desse modo, esses primeiros representantes micro distritais vão escolher seus representantes municipais (pequenas municipalidades); esses representantes das pequenas municipalidades vão escolher os representantes das micro regiões; a partir daí, analogamente são escolhidos aqueles das regiões (ou estados), e assim chegando às Assembleias Nacionais e, futuramente, até um Governo Mundial.

Em um sistema assim, primeiro você faz a adequação à estrutura da maturidade das Almas, construindo um escalonamento, mas não despoticamente. As pessoas escolhem em liberdade, dentro dos diferentes níveis escalonados. Entre outros fatores cruciais, somente assim se preserva a igualdade de oportunidades, tanto quanto possível, em nosso mundo de tantas limitações.

VIVIANE: Quem determina quem é de que nível?

ARNALDO: A própria população, os próprios indivíduos, ao escolherem livremente seus representantes, em cada nível do escalonamento social, como sinteticamente descrevemos.

VIVIANE: As pessoas mesmas se qualificam?

ARNALDO: Naturalmente haverá regras eleitorais pertinentes a esse novo modelo de escolha dos dirigentes. O decisivo é entendermos a importância fundamental dos pequenos grupamentos humanos e o absurdo das escolhas de grandes massas humanas.

Quando um pequeno grupo social escolhe livremente seus representantes – por exemplo, os representantes de um pequeno micro distrito, onde os indivíduos possam se conhecer pessoalmente sem muita dificuldade – escolhe as pessoas que considera mais capazes de representá-lo, para fazer as leis etc.. Quando se trabalha com uma população eleitoral grande, com muitos milhares, ou mesmo milhões, isso se torna uma imoralidade, é algo injusto e incompetente, porque a igualdade de oportunidades desaparece, entre outros problemas. A injustiça se instala no seio da ordem social. Não se consegue mais harmonia entre o nível interno de maturidade e o nível externo no escalonamento social. A partir disso é só conflito, corrupção, violência, maus exemplos, más decisões. Não há mais solução possível, o conflito segue-se de forma inevitável, como na passagem citada do antiquíssimo I Ching. É só olhar para nossa sociedade, para nosso país. Ou para o mundo.

VIVIANE: Para eleger esse tipo de representante o grupo escolhe entre “x” pessoas que se autodeclararam com capacidade para tal função. Mas essa declaração individual não impede que alguém não capaz seja candidato e eleito, mesmo sem ser capaz. Você acha que o ser humano tem capacidade para fazer esse escalonamento?

ARNALDO: Com certeza tem essa capacidade, desde que haja justiça, ou seja, liberdade e igualdade de oportunidades no processo de escolha. Por isso é humano, por isso a liberdade de escolha é um valor fundamental. O Humanitarismo, como o radical da própria palavra indica, é uma afirmação de confiança no humano. A verdadeira humanidade é divinamente inspirada, pois foi feita à imagem e semelhança de Deus.

O Humanitarismo se preocupa, antes de qualquer outra questão de organização sociopolítica, em oferecer um processo correto e justo de escolha dos representantes. Sim, a humanidade tem essa capacidade, repito, desde que o processo seja justo, ou seja, desde que se preserve a liberdade, a igualdade de oportunidades e a adequação entre níveis de capacidade e níveis de escolha ou responsabilidade social.

O gradiente das consciências e algo como uma pirâmide. E no topo da humanidade estão almas bem próximas da divindade, da verdade e do amor. E esse topo também faz parte da família humana. Assim, como já falava o velhíssimo I Ching – que é considerado como talvez sendo o livro mais antigo conhecido – a questão é a harmonia entre o poder externo e as capacidades internas.

O cerne do problema político, o primeiro problema em ordem de importância, é como escolher bem os representantes, e a solução desse problema crucial, como explica o Humanitarismo, como também já explicava o tão antigo I Ching, entre tantas outras Escrituras inspiradas divinamente, depende necessariamente da existência de um escalonamento digno, que não ofenda a dignidade divina do ser humano. Uma verdadeira religião deve inspirar a solução desse primeiro e mais importante problema político. Pois disso depende vitalmente o bem estar coletivo.

O segundo principal problema político é como dotar esses representantes de suficiente poder para tomarem e sustentarem as decisões necessárias. Podemos ter um bom governante e ele pode não ter em suas mãos o necessário poder. Ou ter alguém com muito poder que é um déspota, que não é um bom governante. O objetivo maior, a primeira e mais importante questão da organização sociopolítica é, como dissemos, escolher bem os nossos representantes. E, depois disso, dotar esses representantes, escolhidos com justiça e competência, do necessário poder para sustentar suas decisões.

VIVIANE: Como fazer isso?

ARNALDO: Já dissemos que o primeiro passo é garantir a liberdade. Sem liberdade as pessoas olham e com razão se questionam: “Quem escolheu isso?” Liberdade é essencial. Até mesmo para uma criança é preciso dar uma boa dose de liberdade – mas não pode ser liberdade absoluta. Esse parece ser o ponto crucial de toda a questão da organização sociopolítica: a liberdade deve estar adaptada ao nível de consciência de cada um. E isso é impossível sem um digno e justo escalonamento. Sem isso, todo o mais fica corrompido, não há mais solução possível.

Em segundo lugar, como também já foi dito, precisamos ter igualdade de oportunidades. Sem a igualdade de oportunidades, é como se em um exame um candidato recebesse o gabarito das respostas e os outros não. Se não houver igualdade de oportunidades o processo está viciado, é injusto, é corrupto e corruptor, como no caso do nosso sistema sociopolítico baseado nos princípios equivocados do Liberalismo, ou daqueles sistemas baseados no Marxismo.

E por último, mas não menos importante, tem que haver adequação entre o nível de escolha e o nível de compreensão daquela população. Por exemplo: em 1993 houve um plebiscito para escolher entre os sistemas de governo presidencialista e parlamentarista. Naquela ocasião, a metade da população eleitoral brasileira não sabia distinguir entre um e outro. Assim, não tem sentido fazer uma escolha desse tipo, ainda mais com voto obrigatório.

O povo não estava capacitado para decidir diretamente sobre aquela questão macro social. Mas estava e está preparado para saber, em sua pequena comunidade, quem pode representá-lo para defender seus interesses em sua vizinhança, ou micro distrito. Toda a vida da organização sociopolítica, necessariamente, deve iniciar por ali, de forma natural, adaptada aos níveis das consciências, de forma digna, justa e competente.

Se não for assim, pode preparar o bote salva-vidas, pois o choque com o iceberg será inevitável. É “simples, doce e lógico”, como na frase atribuída ao Buda Gautama. Mas nossas elites, nossos irmãos de maior poder intelectivo, parecem preferir, por assim dizer, a injustiça, a crueldade e o delírio. Isso acontece, como vimos, por terem suas mentes dominadas pelos sacerdotalismos, quer o sacerdotalismo dito religioso, quer o sacerdotalismo dito científico.

É muito mais fácil, lógico e justo poder escolher numa pequena comunidade quem tem capacidade para lutar por nossos interesses. Se nem isso for possível, muito menos será possível decidir sobre questões muito mais abrangentes. É tão evidente e lógico. É, certamente, um processo de escolha dos dirigentes muito melhor do que os que aí estão. E talvez seja o melhor que possamos fazer em nossa época.

Retornando para uma imagem religiosa, podemos ler no Livro de Jó que: “En los ancianos está la sabiduría, y en largura de días el entendimiento”. Ou seja, a sabedoria está com os “mais velhos” – com aqueles que possuem maior “idade”, e assim maior capacidade da Alma. (Jó, 12:12) Naturalmente, trata-se de uma alegoria àqueles de maior maturidade interna, ou de Alma, e não à mera idade cronológica do corpo, como podemos ler no Livro da Sabedoria: “Velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número de anos; as cãs do homem são a inteligência, e a velhice uma vida imaculada”. (Sabedoria, 4:8-9)

Mas isso só pode ser julgado de forma digna, justa e competente pela comunidade se houver a necessária liberdade e a necessária igualdade de oportunidades. Fora disso, onde poderemos encontrar dignidade e justiça? E sem dignidade e justiça, podemos esquecer a harmonia e a paz. Na Bíblia, entre outras passagens, isso também está implícito no ensinamento da Filosofia Perene contido na passagem que diz: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. (Mateus, 6:33) Naturalmente, essa frase tem muitos níveis de significado, mas ela também se aplica às condições fundamentais da organização social, da organização política das sociedades e, portanto, de um processo justo de como escolher os dirigentes.

Nesse processo, repito, é importante levar em consideração que o colégio eleitoral precisa ser pequeno – se for grande, o dinheiro, os bens e o poder material, a máquina eleitoral, a comunicação de massa e seus vendilhões sempre falarão mais alto.

O colégio eleitoral precisa não ferir a justiça da igualdade de oportunidades, e precisa estar adaptado ao nível de consciência das pessoas, isto é, os problemas e as questões a serem examinadas e decididas precisam não extrapolar a abrangência do nível de compreensão ou do alcance das consciências daquele colégio eleitoral. E isso não pode ser alcançado fora de colégios eleitorais pequenos e gradualmente escalonados, onde essa adequação possa ser mantida, junto com a liberdade e a igualdade de oportunidades. Fora disso, ou seja, sem justiça, podemos esquecer a harmonia social.

Se me permite, vou repetir, por ser tão importante, esse ponto de que, na prática, cada um dos colégios de representantes escolherá os representantes do nível superior – toda a vida política se iniciando, naturalmente, no nível mais básico, no nível do que podemos chamar de micro distritos eleitorais.

Todo o escalonamento inicia com um micro distrito, como, por exemplo, um conjunto de quadras de uma cidade, onde os indivíduos possam se conhecer pessoalmente sem máquinas eleitorais e perversões desse tipo. A partir daí segue-se para o nível de uma pequena municipalidade, daí segue-se para o nível que não existe em nosso país, mas é importantíssimo para a administração pública, que é o nível microrregional. Ou seja, a base, os níveis da base da pirâmide do escalonamento sociopolítico são os micro distritos, as pequenas municipalidades e as microrregiões.

Nos países economicamente mais avançados há esse nível político-administrativo após a municipalidade, que é chamado, no caso dos EUA, de condado. Um nível político-administrativo intermediário entre o município e os estados. Na França, apenas para citar outro exemplo, entre o município e o país há os départements e o tamanho da França não é muito diferente do tamanho do nosso estado de São Paulo, por exemplo.

Todo esse processo vai qualificando naturalmente os representantes e cria um sistema que é lógico, justo, que não fere mortalmente a igualdade de oportunidades, e que segue o escalonamento que é inerente às diferenças das idades das Almas humanas. Como já dissemos, é condição sine qua non para a justiça que haja igualdade de oportunidades na escolha dos representantes – igualdade de oportunidades nas disputas eleitorais.

Há outro aspecto complementar importantíssimo – que muitos não compreendem claramente – que é a consideração desse sistema em relação ao poder das grandes corporações que hoje dominam o mundo, ao dominarem os principais países do mundo.

Esse poder das grandes corporações é simplesmente avassalador na atualidade. Se examinarmos, por exemplo, os Produtos Internos Brutos, os PIBs dos 100 maiores países e compararmos com o Produto gerado pelas maiores corporações econômicas, veremos que há no mundo muitas corporações com Produtos maiores do que muitos desses países, que figurariam nessa lista dos 100 maiores. Isso, é claro, significa um enorme poder de influência, sobretudo em um sistema tão injusto e que privilegia o dinheiro e as máquinas eleitorais.

Nesse sistema, das ditas “democracias” liberais da atualidade, as grandes corporações possuem um poder descomunal e o Estado se torna uma organização à mercê dessas grandes corporações. Os estados, as organizações estatais, em nossos dias, não têm como equilibrar e regular o poder dessas corporações que defendem interesses privatistas, e não públicos, não o bem estar de todos.

O sistema proposto pelo Humanitarismo tem a propriedade de organizar a população inteira de um modo que, por exemplo, dificilmente possa ser reprimido. Da forma que o sistema está hoje, se as corporações militares apoiadas pelas grandes organizações econômicas privadas quiserem intervir com golpes de estado, não há defesa contra isso, como se tem visto em tantos exemplos.

A população está mal organizada, fragmentada, frouxa, pois a distância dos colégios eleitorais é imensa. Há um enorme abismo entre o povo e os representantes nacionais, sem falar na qualidade dos dirigentes. Ou seja, além de escolher muito mal os representantes, que é sua maior falha e fraqueza, esse sistema, ao deixar a população tão distante dos seus representantes, gera uma debilidade diante, sobretudo, das grandes corporações.

No sistema aqui proposto não há esse vazio, esse vácuo. As assembleias são pequenas, podem se reunir praticamente em uma sala; os representantes e os representados estão sempre próximos e, assim, cria-se uma coesão social, uma força sociopolítica que é capaz de fazer frente, de equilibrar e regular o poder das grandes corporações.

Novamente, é tão simples e lógico. Pelo menos deveríamos compreender que se esse sistema proposto pelo Humanitarismo não for capaz de selecionar lideranças competentes, e de gerar o vigor, a força política suficiente para regular o poder das grandes corporações, muito menos o será o atual sistema, injusto, incompetente e débil.

VIVIANE: Do modo como você desenha o panorama, vemos que a política reinante é a do poder econômico. Você acredita que no sistema atual é difícil para o povo se defender, para os governantes se defenderem. Não teria como, de algum modo, adaptar essa situação?

ARNALDO: Do modo como os países estão hoje organizados o mundo não tem nenhuma possibilidade de evitar as grandes catástrofes, de superar a imoralidade e a violência na qual vivemos. Os grandes problemas mundiais não têm soluções consistentes e os governantes são bedéis das grandes corporações. O mundo hoje é, já disse, como um Titanic, orgulhoso de seus inegáveis avanços científicos e técnicos, porém seguindo firme em direção ao iceberg das catástrofes, e não temos sequer os instrumentos organizacionais para evitar isso. É a situação do mundo hoje.

Nesse sistema proposto, que é a derivação lógica de todos esses princípios filosófico-religiosos, encontra-se o esboço de um instrumento social, de instituições sociais capazes de gerar soluções consistentes para os grandes problemas.

Não sei se conseguiremos impedir o desfecho das grandes catástrofes, porque muitas vezes o ser humano precisa ir ao fundo do poço para então buscar sua regeneração. O fato, contudo, é que hoje não existe uma solução consistente para os grandes problemas, e a tendência clara é que esses aumentem, até chegarmos às situações catastróficas.

Assim, precisamos melhorar, resgatar a verdadeira base filosófico-religiosa, porque essa base religiosa que hoje predomina está grandemente corrompida pela idolatria e pelo materialismo dos sacerdotalismos, quer religiosos propriamente, quer ditos científicos.

O estado atual das religiões não permite o advento de instituições justas e das consequentes soluções consistentes; são idólatras e materializaram os símbolos sagrados. Pegam uma frase como aquela de Jesus “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João, 14:6) e personalizam, dizendo que aquele ser que viveu na Palestina é o único caminho, a única verdade e a única verdadeira vida. Não compreendem que esses ensinamentos referem-se a questões muito maiores. Não compreendem, como disse São Paulo, que “a letra mata” (Coríntios, 3:6) – mata primeiro espiritualmente, depois fisicamente, porque gera instituições que levam à morte como as que dominam e formatam o mundo de nossos dias. Estamos, em resumo, caminhando para grandes crises, devido a estarmos semeando dor, violência e destruição. E sem chances, dentro do quadro atual, de evitarmos essas consequências.

O mundo é dominado, hoje, pelas grandes corporações e elas lutam entre si pelos ganhos privatistas. Quando a situação fica difícil, elas então se aliam: é a lei do lucro, do mais forte, é a lei da selva. E quem hoje pode contra isso? Ninguém. Essas organizações são o que há de mais forte no planeta. Por isso é fundamental que criemos as condições para o nascimento de instituições decentes, justas, dignas e competentes, que possam disciplinar os macro-agentes que hoje dominam de forma privatista. Instituições que reflitam e que defendam os valores do bem-estar da humanidade coletivamente considerada, ou seja, instituições humanitaristas, pois essa palavra – humanitarismo – quer dizer isso, preocupação com o bem estar de todos, mesmo no dicionário.

VIVIANE: Você fala em igualdade de oportunidades e da necessidade de levar em conta o nível de maturidade das Almas. Como é feita essa diferenciação?

ARNALDO: A incapacidade do mundo atual de fazer isso, que não é coisa tão complicada afinal, repousa nas falhas de interpretação, nas equivocadas interpretações de seus símbolos e alegorias religiosas e filosóficas. A matriz, a base de nossos principais problemas está justamente nessa carência de corretas interpretações desses principais símbolos e alegorias.

Essa dificuldade existe porque não vemos a humanidade como ela realmente é. Não percebemos a família humana com seus diferentes níveis de maturidade das Almas, como na alegoria do sonho da escada de Jacó. Não percebemos, em resumo, nem a diversidade de capacidades, nem a Unidade Divina subjacente. E sem isso não há soluções consistentes possíveis. É tão simples, mas talvez para ver com clareza essa simplicidade seja necessária certa profundidade, certa elevação na visão. Aí, não havendo essa elevação, havendo, como hoje, o domínio dos sacerdotalismos idólatras ou materialistas, parece que poucos alcançam compreender a importância decisiva desses aspectos simples e fundamentais, como os que transparecem do sonho de Jacó, ou seja: “a Unidade na Diversidade”.

“Partiu, pois, Jacó de Beer-Seba e se foi em direção a Harã; e chegou a um lugar onde passou a noite, porque o sol já se havia posto; e, tomando uma das pedras do lugar e pondo-a debaixo da cabeça, deitou-se ali para dormir.

Então sonhou: estava posta sobre a terra uma escada, cujo topo chegava ao céu; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela; por cima dela estava o Senhor”. (Gênesis, 28:10-13)

Outro exemplo, entre outros tantos, dessa simplicidade fundamental decisiva, está naquela parábola, já citada aqui, do senhor que ia viajar, chamou seus servos e deu a cada um talentos (dinheiro, recursos, poder etc.), a cada um, diz a parábola, segundo suas capacidades. (Mateus, 25:14-29) Quando voltou, cobrou de cada um segundo suas conquistas da Alma, segundo suas capacidades.

Não vemos com clareza, nos símbolos das religiões, essa diferenciação, essas diferenças, com a necessária Unidade subjacente. O sacerdotalismo, quer religioso, quer científico, tem sido vitorioso, até aqui, na sua luta contra os profetas, como o foram, na época, contra o Cristo Jesus. Tem sido vitorioso até aqui, embora, parece, seus dias trevosos estejam caminhando para um final. Até hoje, contudo, tem sido dominante na sua deturpação literal e idólatra dos símbolos sagrados, e em seus sermões vão dando os mesmos falsos conselhos a todos, como nos igualitarismos dominantes.

Na mitologia grega temos a história de Procrustes, mencionado em citação, que ilustra esse mesmo aspecto. Ele recebia peregrinos em sua hospedaria e depois de lhes alimentar, convidava para dormir em sua cama, onde só podiam deitar os que fossem exatamente do mesmo comprimento. Os menores do que a cama de Procrustes eram esticados pelas pernas e braços; os maiores tinham as extremidades cortadas para ficar do mesmo tamanho. Essa é uma representação muito boa das ideias dominantes em nosso atual momento de civilização. Vemos esse comportamento reproduzido nas religiões, na ciência, na política e na educação, que exigem das pessoas a mesma capacidade. É tão cruel quanto real.

A conscientização dessa diferenciação começa com a interpretação correta dos símbolos filosófico-religiosos. Pois a verdadeira religião é a ligação com o Elevado, com o Centro, com o Buda e o Cristo em nós, ou, se quisermos, é a ligação com o Alto e o Profundo, que é o mesmo que Deus.

A base do ensinamento budista, pelo menos dentro do Cristianismo Budista – uma vez que deveria tratar com clareza do Carma e da Reencarnação, que são as duas colunas que nos explicam os diferentes níveis de maturidade das Almas – deveria cumprir essa finalidade fundamental, quanto à interpretação dos símbolos sagrados nessa tradição, que é ao mesmo tempo cristã e budista. Essa que, como vimos, precisa restaurar a sua forma degenerada, a qual está na base da civilização ocidental, que hoje domina o mundo, para o bem e para o mal.

VIVIANE: O Carma e a Reencarnação são a resposta para essa incógnita, da diferenciação dos níveis das Almas?

ARNALDO: Exato. Essa é a base do Cristianismo verdadeiro, o Cristianismo que está unido numa mesma corrente ao Budismo. Que pode, assim, interpretar corretamente o Sermão da Montanha, as alegorias do Gênesis, dos Profetas, do Novo Testamento, das Cartas e do Apocalipse. É preciso a base do Budismo para entender a linguagem dos profetas, do Gênesis ao Apocalipse. Sem a base filosófica do Budismo, não é possível entender satisfatoriamente as Escrituras cristãs. E sem esse complemento do Cristianismo essa tradição fica incompleta. Fica carente, sobretudo, dos ensinamentos acerca dos Mistérios e das Iniciações, que são como pontes que unem, de forma razoável e lógica, as etapas finais da evolução das Almas, até a fusão consciente com a Realidade Divina, ou, com o Reino de Deus. Por essas razões, iniciamos essa obra com a citação dos profetas que foram a Dra. Kingsford e Maitland, citação que nos diz, na sua simplicidade, que: “Da união espiritual na fé una do Buda e do Cristo nascerá a esperada redenção do mundo”. (The Perfect Way, p. 252)

VIVIANE: Sem essa complementação tudo fica muito literal.

ARNALDO: E se fica literal, como ensina São Paulo, “a letra mata”.

VIVIANE: Você acha que a globalização facilita para as pessoas entenderem essa ligação cristã budista? Tempos atrás parece que era mais difícil.

ARNALDO: Como instrumento, como ferramenta, a globalização deve facilitar. As coisas não são por acaso – tudo tem seu momento. Mas eu não estou falando, como os materialistas, que por causa da globalização o entendimento possa acontecer. A globalização está gerando meios, instrumentos, ferramentas, por assim dizer. E como toda ferramenta, tanto pode ajudar quanto pode atrapalhar. Quanto mais poderosa é a ferramenta, mais perigosa ela é. E como a globalização é um processo que está gerando ferramentas muito poderosas – tanto pode ajudar muito, quanto prejudicar muito. Não é o que podemos observar em nossos dias?” (Arnaldo Sisson Filho; com Viviane Pereira. Segunda parte do sexto capítulo da obra A Roda e a Cruz: Uma Introdução ao Cristianismo Budista, pp. 217-239)