VEGETARIANISMO E A BÍBLIA (5) — Edward Maitland e o Vegetarianismo

 

  1. Edward Maitland e o Vegetarianismo

 

Samuel Hopgood Hart

 

 

Este artigo foi publicado em The Vegetarian Messenger, em janeiro de 1932. Ele foi enviado pelo Sr. Brian McAllister, que gentilmente o fotocopiou e enviou para o Site Anna Kingsford, com as seguintes palavras: “Este artigo (Edward Maitland e o Vegetarianismo) de Samuel Hopgood Hart foi fotocopiado da cópia do próprio Sr. Hart em seu Livro de Recortes de Jornais (pp. 85-88). O Sr. Hart escreveu o nome da publicação e a data de publicação de próprio punho.”

 

 

 

Em um artigo recente (*) mencionei Edward Maitland como o “amigo e colaborador” da falecida Anna Kingsford. Meu objetivo atual é trazer ao conhecimento dos leitores de sua revista alguns fatos relacionados à sua vida que deveriam ser de particular interesse para eles, pois ele foi um daqueles grandes homens de nossa época que dedicou sua vida a defender a causa da humanidade em oposição à crueldade e à injustiça, especialmente no que diz respeito à criação animal. Nele, Anna Kingsford encontrou um verdadeiro amigo e um valioso colaborador na grande obra à qual, na época de seu encontro, ela havia decidido dedicar sua vida.

 

Conheci Edward Maitland pela primeira vez em 1894. Ele era então um homem idoso trabalhando arduamente contra o tempo para concluir a biografia de Anna Kingsford, na qual estava então envolvido, e temia não viver para terminá-la. O que mais me impressionou foi que eu havia conhecido um homem que conhecia a verdade e cuja palavra por si só era suficiente para convencer, e eu nunca antes havia conhecido alguém como ele nesse aspecto, nem encontrei depois.

 

Edward Maitland disse que a principal ocupação de sua vida era “a busca, independentemente das consequências, da verdade suprema para os fins mais elevados.” Ele nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich, filho do Reverendo Charles David Maitland, Cura Perpétuo da Capela de São Tiago, em Brighton. Desde cedo, ele tinha consciência de ter uma missão na vida. Quando menino, ele se revoltava com o credo da rigorosa seita evangélica à qual seu pai pertencia e na qual ele foi criado, cujos princípios incluíam “a total corrupção moral do homem e a salvação vicária”, que ele considerava “uma calúnia, nada menos que uma blasfêmia contra Deus e o homem.”

 

Antes de conhecer Anna Kingsford, sua vida, como a dela, havia sido de muito isolamento e meditação. Ele se sentia “um estranho até mesmo entre seus íntimos mais próximos.” Ele se formou em Cambridge em 1847, com a intenção de se tornar sacerdote, mas descobriu que não podia fazê-lo em sã consciência, pois estava “empenhado em penetrar o segredo das coisas em primeira mão e por meio de um pensamento absolutamente livre.”

 

Ansiando por se afastar de seu ambiente, ele se juntou a uma expedição aos depósitos aluviais recém-descobertos na Califórnia e se tornou um membro do grupo dos “Quarenta e Nove” naquele país e, viajando de lugar em lugar, permaneceu no exterior, no continente e ilhas do Pacífico, por cerca de oito anos, durante os quais experimentou “quase todas as vicissitudes e extremos que poderiam servir para aguçar a consciência, fortalecer a fibra e testar a alma do homem.” Mas, acima de tudo, a ideia de uma missão permaneceu com ele.

 

Enquanto estava na Austrália, casou-se “apenas para ficar viúvo após um ano de casamento.” Ao retornar à Inglaterra em 1857, após um intervalo, dedicou-se à literatura, leu muito e conviveu bastante com as pessoas, mas descobriu, em sua busca pela verdade, que só pelo pensamento conseguiria o que buscava, e aprendeu por meio de amargas experiências, por meio de lutas, provações e tribulações, que “a própria capacidade de pensar é aprimorada pelo sentimento tanto quanto pelo pensamento” e que “pelo sofrimento externo, a capacidade interna de pensar se liberta.”

 

Durante todo esse período, ele foi sustentado principalmente pelo pensamento de que seus problemas, “por mais difíceis de suportar que fossem e por mais imerecidos que parecessem, poderiam se revelar bênçãos disfarçadas, contribuindo para a realização da ambição central de sua vida, educando-o para ela.” Ele estava determinado a construir “um sistema de pensamento ao mesmo tempo científico, filosófico, moral e religioso, e reconhecível pelo entendimento como indubitavelmente verdadeiro por estar embasado em princípios fundamentais.”

 

Em janeiro de 1874, em circunstâncias relatadas no meu artigo anterior, ele conheceu Anna Kingsford pela primeira vez e, no mês seguinte, a convite dela e do marido, visitou-os em sua casa em Shropshire. Durante o período que se passou desde seu retorno do exterior, ele se tornou famoso como autor de O Peregrino e o Santuário, A Lei Superior e By and By, um Romance Histórico do Futuro; e, na época do encontro, estava escrevendo As Chaves dos Credos, que foi publicado no ano seguinte.

 

O encontro de Anna Kingsford e Edward Maitland marcou um ponto de virada na vida de ambos. Eles reconheceram que tinham uma missão conjunta a qual representava um trabalho divino. Suas simpatias foram imediatamente conquistadas em favor dos animais no que diz respeito ao tema da vivissecção, da qual ele então ouviu falar pela primeira vez, e a partir daquele momento, por razões morais, bem como por outras, ele se tornou um dos principais oponentes da vivissecção, que ele considerava o resultado lógico e inevitável do materialismo, que até então ele havia rejeitado apenas por razões intelectuais.

 

Os primeiros frutos de sua colaboração com Anna Kingsford foram algumas cartas que ele escreveu sobre “Os Médicos e o Projeto de Lei da Vivissecção” e que foram publicadas no Examiner em junho de 1876. A aceitação foi imensa. Essas cartas foram reimpressas por diversas sociedades e particulares e distribuídas em dezenas de milhares. Outro efeito de seu encontro foi a adoção por ele do modo de dieta de Anna Kingsford – ela era vegetariana. Ele “nunca estivera totalmente satisfeito com o modo predominante de sustentar nossos organismos.” Sempre lhe parecera “incompatível com a perfeição possível que o homem, o produto mais elevado do mundo visível, fosse constituído de tal forma que só pudesse sustentar-se praticando violência, não apenas contra os animais, seus semelhantes sensíveis, mas também contra seus próprios sentimentos mais elevados.”

 

Consequentemente, ele estava favoravelmente disposto a dar atenção prática aos argumentos em favor do vegetarianismo, e havia uma outra consideração que, segundo ele, foi um fator potente para provocar essa mudança: ele sentia que “somente abstendo-se de carne poderia com total coerência opor-se à vivissecção.”

 

Em 1875, ele estava estudando os vários sistemas religiosos da antiguidade com o objetivo de averiguar até que ponto eles possuíam alguma ideia central dominante em comum.

 

Ele havia descoberto em Anna Kingsford alguém que possuía uma faculdade que lhe permitia alcançar uma “percepção plena e direta de conclusões às quais ele só havia chegado após uma longa e árdua busca”, e que em sua missão conjunta, a plena manifestação daquele dom especial que ela possuía dependia do desenvolvimento nele de uma faculdade semelhante. Enquanto seguia firmemente, e como um efeito de seu modo reformado de dieta, ele diz: –

 

“Descobri, para meu indizível deleite, que passei a possuir uma faculdade de ideação estranhamente aprimorada, que se manifestou em um poder de discernimento sobre problemas que até então me haviam intrigado. Era como se minhas superfícies mentais tivessem sido limpas e sensibilizadas de tal maneira que se tornaram acessíveis a impressões e sugestões que antes eram sutis demais e refinadas demais para serem reconhecidas.”

 

Seu trabalho exigia o desenvolvimento da compreensão e a elevação do ponto de percepção da sua mente até os mais altos níveis de pensamento, e o meio supremo para esse fim era “a purificação e a intensificação da consciência e da vontade.” Ele considerava que o primeiro e mais essencial passo para a realização da consciência espiritual do homem era a purificação do corpo e da mente.

 

Isso demonstra a importância a ser atribuída à qualidade da alimentação, bem como à disposição dos sentimentos. Na Vida de Anna Kingsford, afirma-se que “a dieta perfeita do homem é composta de grãos, suco de frutas e óleo de nozes.”

 

Em 1880, após Anna Kingsford concluir seu curso de estudante e obter seu diploma de Medicina, ela e Edward Maitland estavam livres para assumir o trabalho de sua missão conjunta. No ano seguinte, eles iniciaram sua campanha proferindo “algumas palestras para audiências selecionadas” sobre o Cristianismo Esotérico, que foram posteriormente publicados sob o título de O Caminho Perfeito, ou, a Descoberta de Cristo. Um relato completo da produção desse maravilhoso livro e de sua recepção é apresentado em A Vida de Anna Kingsford.

 

Em O Caminho Perfeito, a renúncia à carne é enfatizada como “essencial para a plena apreensão e realização do ideal designado pelo termo Cristo” – entre outras razões por sua influência sensibilizadora nos planos superiores da consciência; e o consumo de carne é condenado como incompatível com a religião de Jesus Cristo.” Em resposta a alguns de seus críticos a esse respeito, Edward Maitland escreveu o seguinte: –

 

“Como reguladora da conduta, a religião é necessariamente a reguladora da dieta. Pois a dieta é um aspecto da conduta, e isso diz respeito à qualidade, bem como à quantidade. Negar a relação em questão é repudiar a prática da temperança, seja na alimentação ou na bebida, como um dever religioso, e admitir canibais, glutões e bêbados ao Reino dos Céus. As condições de admissão a esse Reino dependem da atitude mental e do estado de coração.

A questão entre nós é se essas condições são cumpridas por alguém que, pessoalmente ou por procuração, esmaga o crânio ou corta a garganta de uma criatura gentil, inocente e altamente sensível, para devorar sua carne, quando a terra ao seu redor fornece em abundância alimento saudável e legítimo. Nem a crueldade contra os animais é a pior parte do mal envolvido em tal prática. Os próprios homens são indizivelmente degradados por ela e impedidos em seu progresso. Não é o lobo ou o tigre, mas o cordeiro que é representado nas Sagradas Escrituras, como o símbolo daquele que finalmente vence o mal e alcança a perfeição e a bem-aventurança. E há razões abundantes para crer que somente de alimentos puros em si mesmos e obtidos de forma justa, o Espírito interior (o ‘Deus do homem’, como o denominei) pode extrair os elementos necessários para a edificação do indivíduo até a plena estatura de sua devida perfeição.”

 

Durante o restante da vida de Anna Kingsford, além de seu outro trabalho como médica, Edward Maitland a acompanhou e participou ativamente de suas turnês de palestras contra a vivissecção e a favor do vegetarianismo, tanto aqui quanto no exterior, e muito trabalho bom e útil foi realizado por eles nessas causas.

 

Após a morte de Anna Kingsford, que ocorreu em fevereiro de 1888, ele passou os anos restantes de sua vida escrevendo e dando palestras, sua obra literária inclui (entre outras) A Vida de Anna Kingsford, já mencionada. Em todo esse trabalho, ele estava consciente de ser continuamente ajudado e apoiado por Anna Kingsford.

 

Edward Maitland ensinava que: “A raiz de todo progresso deve estar dentro do próprio homem, e enquanto ele se alimentar como um carnívoro, não se pode esperar que ele seja humano. É tão somente uma regeneração espiritual que pode melhorar o mundo, uma reforma dos próprios homens, e não apenas das instituições.”

 

Ao falar sobre a causa de nossas dificuldades, perigos e defeitos sociais, ele disse que “nosso modo de viver estava na raiz de tudo, e o remédio estava em retornar ao modo natural de sustentar a vida”, e que nossos hábitos carnívoros pecavam contra as leis da natureza, físicas e morais, e o mal de nossas condições sociais era consequência da violação dessas leis, que não podiam ser ultrajadas impunemente, mas que seriam sempre punidas.

 

Se alguém pode ser considerado como tendo “lutado o bom combate”, isso pode ser dito de Edward Maitland. No final de sua vida, referindo-se ao seu trabalho em colaboração com Anna Kingsford, ele disse: –

 

“Posso afirmar com confiança que, por mais obscuro, difícil e doloroso que tenha sido nosso caminho, nunca houve um instante em que eu estivesse disposto a vacilar ou retroceder, tão absoluta era minha confiança na divindade de nossa missão, tão grande a alegria que me aguardava em sua conclusão.”

 

Ele faleceu em 2 de outubro de 1897, ao completar 73 anos. Ele seguiu um caminho com inocência e viveu fiel às suas intuições, e “a geração dos fiéis será abençoada.”

 

 

NOTA

 

(*) The Vegetarian Messenger, abril de 1931, p. 106.