VEGETARIANISMO E A BÍBLIA (4) — Anna Kingsford e o Vegetarianismo

 

  1. Anna Kingsford e o Vegetarianismo (1)

 

Samuel Hopgood Hart

 

 

 

ANNA KINGSFORD nasceu em Maryland Point, Stratford, em Essex, em 16 de setembro de 1846. Tendo falecido em 22 de fevereiro de 1888, com a idade relativamente precoce de quarenta e um anos. Mas, durante sua curta vida, que obra ela realizou! Os benefícios dessa obra estamos colhendo hoje, embora muitos não saibam disso.

 

Meu objetivo ao escrever este artigo é trazer ao conhecimento dos leitores desta Revista alguns fatos relacionados à vida de Anna Kingsford, que para eles deveriam ser de especial interesse, e, de modo geral, chamar a atenção para seus ensinamentos a respeito dos direitos da Criação Animal e nossos deveres para com nossos irmãos menores. Como Apóstola da Humanidade, Anna Kingsford é incomparável. Sua atitude em relação ao movimento vegetariano em particular está resumida em suas próprias palavras inesquecíveis, como segue. Ela disse:

 

“Considero o movimento vegetariano o movimento mais importante da nossa era. Acredito nisso porque vejo nele o início da verdadeira civilização. Minha opinião é que, até o momento presente, não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres de animais, inteiros ou cortados, que, com molhos e condimentos, são servidos em nossas mesas, não refletimos sobre o ato horrível que precedeu esses pratos; e, no entanto, é algo terrível saber que cada refeição à qual nos sentamos custou uma vida.

Acredito que devemos à civilização a elevação de toda essa classe de pessoas profundamente desmoralizada e barbarizada, açougueiros, tropeiros e todos os outros que estão ligados a esse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pelo matadouro em sua vizinhança, que condena classes inteiras a uma ocupação degradante e desumana.

Aguardo o momento em que a consumação do movimento vegetariano terá criado homens perfeitos, pois vejo neste movimento os fundamentos da perfeição. Quando eu percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, estou convencida de que ele se provará o redentor do mundo.”

 

O que Anna Kingsford fez pela causa vegetariana e tudo o que ela representa jamais deve ser esquecido por aqueles que estão colhendo os benefícios de seu trabalho e que, como valentes cavaleiros, continuam sua luta contra a crueldade e a injustiça, pois “a justiça entre homens e mulheres, humanos e animais, eram seus principais objetivos. Toda injustiça era crueldade, e a crueldade era, para ela, o único pecado imperdoável.”

 

Felizmente, seu amigo e colaborador, o falecido Edward Maitland, deixou para nós, em sua última e maior obra, A Vida de Anna Kingsford, publicada alguns anos após sua morte, um registro de sua vida e ensinamentos, cujo valor e importância são incalculáveis. É a história de uma alma, um livro que Edward Maitland tinha certeza de que “educaria o mundo mais do que qualquer outra coisa, ao mostrar como a vida divina pode ser vivida e as faculdades abertas à verdade divina, e que para obter essa verdade, a vida divina deve ser vivida”. Que “a vida divina” aqui mencionada não é vivida por aqueles que derramam sangue ou comem carne foi afirmado de forma muito clara e contundente por Anna Kingsford em uma de suas palestras na obra O Caminho Perfeito, na qual ela disse:

 

“O Paraíso jamais poderá ser recuperado, a Regeneração jamais será completada, o homem jamais será totalmente redimido, até que o corpo seja submetido à lei do Éden e tenha se purificado completamente da mancha de sangue. Ninguém jamais conhecerá as alegrias do Paraíso se não puder viver como os homens do Paraíso; ninguém jamais ajudará a restaurar a era de ouro do Mundo se não a restaurar primeiro em si mesmo. Nenhum homem, sendo um derramador de sangue ou um comedor de carne, jamais tocou o segredo central das coisas ou se apoderou da Árvore da Vida. Por isso está escrito a respeito da Cidade Santa: ‘Lá fora estão os cães’. Pois o pé da besta carnívora não pode pisar o chão dourado; os lábios poluídos com sangue não podem pronunciar o Nome Divino.” Ela tinha certeza de que: “Estão miseravelmente enganados aqueles que esperam a vida eterna e não afastam suas mãos do sangue e da morte”.

 

Anna Kingsford (nascida Bonus) era a mais nova de doze filhos. Era filha de John Bonus, um próspero comerciante e armador da cidade de Londres. Herdou uma constituição frágil desde o nascimento, mas nasceu com uma missão. Em sua infância, marcada pela solidão e isolamento, seu maior deleite era se perder no jardim onde, como nos é dito:

 

“Ela se associava às flores em termos equilibrados, conversando com elas como seres sencientes e colocando em suas pétalas pequenos bilhetes endereçados às fadas com quem sua imaginação convivia, e com quem, em virtude de sua própria forma feérica, ricos cabelos dourados e profundos olhos castanhos, ora ansiosos, ora sonhadores, ela bem poderia alegar afinidade.”

 

Quando menina, Anna Kingsford lia muito e voltou sua atenção para a escrita. Mesmo criança, ela havia escrito poesia que havia sido admitida em várias revistas. Seu primeiro livro foi escrito aos treze anos. Seus escritos, ela disse, já vinham prontos, bastando apenas escrevê-los.

 

A faculdade de vidência, que se manifestara desde muito cedo, trouxe-lhe problemas com os pais, que a censuravam como se fosse responsável por eventos que ela havia previsto, e “demonstrações de faculdades anormais implicavam referências ao médico da família, com resultados ao mesmo tempo desagradáveis e ofensivos para ela”.

 

Quando, alguns anos depois, ela conheceu alguém em quem podia confiar, contou-lhe sobre as visões que tivera durante toda a vida e como os médicos haviam declarado que eram devidas à superexcitação do cérebro; e como ela, como muitos outros, sofrera muito com os médicos e não recebera benefício de nenhum. “Mas”, disse ela, “eu sei que não é fantasia. Tenho certeza de que vejo todas essas coisas; e não é causado por doença.”

 

Em 31 de dezembro de 1867, Anna Kingsford casou-se com seu primo, Algernon Godfrey Kingsford, que, pouco depois, recebeu ordens na Igreja da Inglaterra e posteriormente se tornou o Vigário de Atcham, perto de Shrewsbury; mas, por não simpatizar com o sistema religioso no qual ela havia sido criada “por sua dureza, frieza e mesquinharia, e sua total falta de relação com suas próprias necessidades espirituais, intelectuais ou emocionais”, e por ter sido receptora de algumas experiências psico-espirituais que a levaram nessa direção, ela, em 1870, ingressou na Igreja Católica Romana. Edward Maitland diz: –

 

“Deve-se afirmar, no entanto, em vista de seus desdobramentos subsequentes, que nenhuma questão havia surgido para ela entre as duas apresentações do Cristianismo: a eclesiástica e a mística. Ela aceitou a da Igreja Romana em oposição à Protestante, a Católica em oposição à sectária, a estética e emocional em oposição à inartística e formal; não ainda a eclesiástica e objetiva em oposição à espiritual e subjetiva. Pois acerca da existência dessa última apresentação alternativa ela ainda não havia se dado conta. Enquanto isso, ela manteve completa independência, tanto em mente quanto em ação, declinando de qualquer direção espiritual, e somente quando sua motivação interior assim indicou ela começou a participar dos ofícios da Igreja.”

 

Três anos depois, em uma carta a Edward Maitland, ela disse: “Por adoção e profissão, sou membro da mais conservadora das Igrejas, a Católica Romana, mas por convicção sou mais uma panteísta do que qualquer outra coisa, e meu modo de vida é o de uma frugívora.” Estando imbuída da ideia que a dominava a respeito de um trabalho que lhe estava reservado, ela impôs, ao se casar, como condição especial, que isso não a impedisse de seguir qualquer carreira que pudesse ser impulsionada na vida futura – uma condição que, deve-se notar, foi observada com a maior honra por seu marido durante toda a vida de casados.

 

Atcham, situada às margens do Severn e sujeita a inundações, revelou-se, em certas estações, um local de residência impossível para Anna Kingsford, que sofria de asma. Achando impraticável a residência permanente no presbitério e sendo impelida irresistivelmente a atividades para as quais a vida no campo não oferecia oportunidade, por volta de 1872, ela se tornou proprietária do The Lady’s Own Paper (O Jornal da Própria Mulher), editando-o ela mesma e dividindo seu tempo entre Londres e sua casa. Por esse meio, ela procurou dar expressão às suas ideias.

 

Foi no exercício de suas funções como editora deste jornal que ela tomou conhecimento da existência da vivissecção, e foi nas colunas de seu jornal que soou a primeira nota da cruzada que desde então tem sido travada contra as atrocidades do laboratório fisiológico. A partir de então, a supressão desta “Inquisição moderna” tornou-se um dos principais objetivos de sua vida.

 

Ela encontrou, assim, o que provou ser uma parte importante de sua missão e, para ela, o jornal havia cumprido seu propósito. Não havia sido um sucesso financeiro, e ela decidiu abandoná-lo. Ela já havia decidido dedicar-se aos estudos de medicina, com o objetivo direto de se qualificar para realizar a abolição da vivissecção, “que ela considerava com horror apaixonado como a mais vil das práticas, seja em relação à sua natureza ou aos seus princípios”. A questão da reforma alimentar também era um objetivo que ela tinha em vista ao tomar uma decisão sobre seu trabalho futuro.

 

Pouco tempo antes, sob a tutela de seu irmão, Dr. John Bonus, ela adotara o regime pitagórico de abstinência de carne, com tão manifesta vantagem para si mesma, física e mentalmente, que a levou a ver nele o único meio eficaz para a redenção do mundo, tanto em relação aos próprios homens quanto aos animais.

 

O homem, carnívoro e sustentando-se por meio de matança e tortura, não era, para ela, Homem em nenhum sentido verdadeiro do termo. Ela sustentava que “o que é moralmente errado não pode ser cientificamente certo”, e que buscar o próprio benefício, independentemente do custo para outros seres sencientes “é renunciar à própria humanidade – na medida em que não é a forma, mas o caráter que realmente faz o homem – ao ponto de rebaixar aqueles que o fazem ao nível sub-humano e ao infernal.”

 

Encontramos agora Anna Kingsford trabalhando seriamente para se qualificar e passar nos exames que tinha pela frente, e que precisava ser aprovada para obter o diploma de medicina que buscava em prol de seu trabalho. Era a primavera de 1873. Ela então morava em Hinton Hall, perto de Pontesbury, em Shropshire, quando recebeu de uma senhora que morava longe, uma estranha para ela, uma carta dizendo que ela – a autora da carta, que assinava como “Anna Wilkes” – havia lido com profundo interesse e admiração uma história escrita por Anna Kingsford e publicada no jornal The Lady’s Own Paper e, após lê-la, recebera do Espírito Santo uma mensagem para ela, que deveria ser entregue pessoalmente. E perguntava se a Sra. Kingsford a receberia e quando? Após um pouco de hesitação, a permissão desejada foi concedida e um encontro foi marcado.

 

Um relato do encontro foi feito por Anna Kingsford da seguinte forma: –

 

“Na hora e local combinados, encontrei-a no caminho que nos leva até a estação, e fiquei imediatamente impressionada com seus modos e aparência e, posteriormente, por sua conversa, tanto quanto eu havia sido por sua comunicação anterior.

Ela era alta, ereta, de aparência distinta, com cabelos grisalhos e olhos estranhamente brilhantes. Ela me disse que havia recebido uma mensagem específica do Espírito Santo, e que fora tão fortemente impressionada a vir e entregá-la pessoalmente que não conseguiu evitar de assim fazer.

Sua mensagem era no sentido de que, pelos próximos cinco anos, eu deveria permanecer reservada, continuando os estudos em que estava engajada, quaisquer que fossem, e o modo de vida em que havia ingressado, não permitindo que nada nem ninguém me afastasse deles, e quando esses cinco anos probatórios e preparatórios passassem, o Espírito Santo me tiraria da minha reclusão para ensinar e pregar, e que uma grande obra me seria dada para fazer.”

 

No mesmo ano, Anna Kingsford, tendo lido na revista Examiner uma notícia sobre um conto escrito por Edward Maitland, que a interessou, escreveu-lhe; e após alguma correspondência, ele aceitou um convite para a casa paroquial de Shropshire. A visita ocorreu em fevereiro de 1874 e provou ser um ponto de mudança na vida de ambos. Havia simpatia entre eles no plano espiritual. Eles viam a verdade da mesma forma. Haviam sido unidos por um poder que ambos reconheciam como divino, e para uma obra não menos divina que deveriam realizar juntos. Ambos sentiam que tinham uma missão e, como os eventos provaram, era uma missão conjunta.

 

Os detalhes da vida de Anna Kingsford como estudante de medicina na Universidade de Paris, para onde ela teve que ir para obter seu diploma, estão registrados na íntegra em The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford) e, em menor extensão, em meu Prefácio Biográfico para a obra Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo) de Anna Kingsford e Edward Maitland. Em uma carta, escrita em 1876, a Edward Maitland, relatando algumas de suas experiências no hospital, ela disse: –

 

“Ontem no hospital de La Pitié – no consultório cirúrgico – havia um homem com um perônio quebrado, que tive que atender em minha cota.

‘Descreva-me o acidente que causou isso’, eu disse. ‘Eu escorreguei, minha perna escorregou e eu caí.’ ‘Como você escorregou?’ ‘O chão estava nadando em sangue, e eu escorreguei no sangue.’

‘Sangue!’, gritei, ‘Que sangue?’

‘Senhora, sou um açougueiro de profissão. Eu tinha acabado de matar, e todo o matadouro estava coberto de sangue.’

Oh, então meu coração endureceu. Olhei para o rosto do homem. Era do tipo mais baixo, sobrancelhas profundas e finas, uma boca larga e grossa, uma pele vermelha – “selvagem” estava estampado em cada detalhe dele.

O mundo me revolta. Meu negócio não é aqui. Toda a terra está cheia de violência e de habitações cruéis. Em outros lugares encontrarei paz. (…) O que me resta de vida, viverei fazendo o máximo que puder contra toda forma de crueldade.”

 

Ao concluir seu curso de Medicina, Anna Kingsford obteve seu diploma e o direito de exercer a profissão de médica na Faculté de Paris, o que, como demonstra “A Vida de Anna Kingsford”, foi um privilégio que ela obteve por meio de enorme custo de trabalho e sofrimento, tanto físico quanto mental. Se não tivesse tido, durante seu curso, o benefício da ajuda e da companhia de Edward Maitland, que, a pedido de seu marido, lhe eram feitas de tempos em tempos, livre e altruisticamente, ela não teria aguentado a tensão, suportado as dificuldades e superado as tribulações que, por vezes, pareciam insuperáveis – que se interpunham em seu caminho.

 

Ao obter seu diploma de Medicina, ela, com a ajuda e o apoio de Edward Maitland, logo se tornou reconhecida como a principal oponente da vivissecção em sua época; e como a principal defensora de uma dieta humana, pura e sem sangue. Todos deveriam ler Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo), de Anna Kingsford e Edward Maitland, um dos melhores livros sobre os princípios do vegetarianismo já escritos.

 

A respeito dos malefícios do consumo de carne, em uma nota a “Asclépio Sobre a Iniciação” em The Virgin of the World (A Virgem do Mundo), Anna Kingsford diz: –

 

“O primeiro resultado da Queda, ou Degeneração, é o derramamento de sangue e o consumo de carne. A licença para matar é o atestado do ‘Paraíso Perdido’. E o primeiro passo em direção ao ‘Paraíso Reconquistado’ é dado quando o homem retorna voluntariamente ao modo de vida indicado por seu organismo como o único que lhe convém, e assim se reúne à harmonia da natureza e à vontade de Deus.

Nenhum homem que siga esse caminho e o siga fielmente deixará de encontrar finalmente o Portão do Paraíso. Não necessariamente em uma única vida, pois o processo de purificação é longo, e as experiências passadas de alguns homens podem ser tais que os impeçam por muitas vidas (2) de alcançar a terra prometida. Mas, não obstante, cada passo fiel e firmemente trilhado os aproxima da meta, cada ano de vida pura fortalece cada vez mais o espírito, purifica a mente, liberta a vontade e aumenta sua realeza humana.

Por outro lado, é inútil buscar a união com Deus no Espírito, enquanto o organismo físico e magnético permanece rebelde contra a Natureza. A harmonia deve ser estabelecida entre o homem e a Natureza antes que a união possa ser realizada entre o homem e Deus. Pois a Natureza é o Deus manifesto; e se o homem não estiver em perfeita caridade com o que é visível, como amará o que é invisível?

A doutrina hermética ensina o parentesco e a solidariedade de todos os seres, redimidos e glorificados no homem. Pois o homem não se mantém distante e separado das outras criaturas, como se fosse um anjo caído lançado de algum mundo celestial sobre a Terra, mas é filho da Terra, produto da evolução, irmão mais velho de todas as coisas conscientes; seu senhor e rei, mas não seu tirano.

É seu papel ser para todas as criaturas um Bom Destino; ele é o guardião, o redentor, o regenerador da Terra. Se necessário, ele pode convocar seus súditos para servi-lo como seu rei, mas nunca pode, sem perder seu reinado, maltratá-los e afligi-los. Todos os filhos de Deus, em todas as terras e épocas, abstiveram-se de sangue, em obediência a uma lei oculta que se afirma no peito de todos os homens regenerados.”

 

Em um sermão escrito por ela para o marido, cujo texto é “Fale pelos que não tem voz” (Provérbios 31, 8), a respeito dos direitos dos animais em geral a um tratamento humanitário, ela disse:

 

“Há muitas pessoas que parecem pensar que os deveres do homem começam e terminam com o homem; e que, se disserem a verdade habitualmente, se abstiverem de prejudicar o próximo e evitarem o roubo, a desonestidade e coisas semelhantes, nada mais lhes será exigido por Deus em sua relação com outras criaturas. Mas não apenas todo ser humano, mas todo ser vivo tem seus direitos; e a justiça, em sua forma mais elevada, deve ser aplicada a todos os nossos atos. Eu digo que um cavalo coxo ou enfermo tem o direito de reivindicar que não seja usado para trabalho; e assim como um homem deve ser protegido de maus-tratos por outro, assim, pelo mesmo princípio, todos os animais devem ser protegidos de maus-tratos.”

 

Sobre as provações e dificuldades que a acompanharam em seu curso na Universidade de Paris, acima mencionado, Edward Maitland afirma: –

 

“O que a sustentou e a conduziu ao longo de seu curso universitário foi a consciência de que sua missão era uma missão de redenção, e que tal missão é confiada somente àqueles que foram, eles próprios, mais ou menos ‘aperfeiçoados pelo sofrimento’.”

 

Alguns dos ensinamentos de Anna Kingsford derivaram da Iluminação Espiritual e outros de sonhos. As mais importantes de suas iluminações estão publicadas no livro: Vestida com o Sol (Clothed with the Sun); e de seus sonhos, em Dreams and Dream Stories (Sonhos e Histórias de Sonhos). Em certa ocasião, sob iluminação, foi-lhe dito que a salvação do mundo é impossível enquanto as pessoas se alimentarem de sangue. Em 1881, ela recebeu uma visão sobre Os Três Véus Entre o Homem de Deus, um dos quais era o “Sangue”, e em sua visão, foi-lhe dito que lhe fora dado retirá-los. Ela foi exortada a ser “fiel e corajosa”, pois “o tempo havia chegado” – e a ordem dada foi: “Afastai o Sangue do meio de vós!”

 

No mesmo ano, foi publicada uma edição em inglês da tese que Anna Kingsford havia escrito em francês ao final de seu curso em Paris. Foi publicada sob o título The Perfect Way in Diet (O Caminho Perfeito na Dieta), um livro que, embora tenha demorado alguns anos para ser publicado, foi, ao ser impresso, amplamente reconhecido como o melhor livro já escrito a defender uma dieta pura e sem sangue. Trechos dele estão contidos em Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo), acima mencionado, que agora o substituiu. [NE: Os dois se encontram na íntegra, gratuitamente, no site www.annakingsford.com]

 

 

A última parte de sua vida foi dedicada a escrever e palestrar em nome dos ideais (incluindo o vegetarianismo) que sua missão, a qual sempre estava em sua consciência, implicava. Em 1883, ela e Edward Maitland empreenderam uma viagem apresentando uma séria de palestras em nome da Sociedade Vegetariana (Manchester), na qual visitaram muitas cidades, semeando a boa semente de seus ensinamentos – semente que agora está produzindo o que está se tornando uma grande colheita. Edward Maitland diz: –

 

“As características mais notáveis desta viagem foram, em primeiro lugar, o entusiasmo indescritível despertado por Anna Kingsford em todos os lugares, devido à eloquência e à luminosidade de suas exposições e ao charme de sua personalidade; e, em segundo lugar, à intensidade de seus sofrimentos físicos, e a maneira pela qual seu espírito se elevou acima deles e a fez superá-los de forma triunfante.”

 

Em 1887, problemas de saúde obrigaram Anna Kingsford a abandonar seu trabalho na imprensa, e em 22 de fevereiro do ano seguinte, em seu quadragésimo segundo ano, esta “boa e fiel serva” de Deus faleceu para continuar seu trabalho em outra esfera. Um obituário sobre ela e seu trabalho foi publicado no The Vegetarian Messenger de abril de 1888 (p. 96), e em agosto seguinte (p. 261) um poema In Memoriam (com ilustração) do falecido Dr. W.E.A. Axon.

 

Nesse artigo, procurei expor a posição de Anna Kingsford como vegetariana. Concluirei com um trecho de uma carta que ela escreveu para a revista Light em 1882, na qual dizia: –

 

“Se desejamos verdadeira e sinceramente recuperar a era de ouro e nos tornarmos cidadãos do céu, devemos começar adotando a nova vida e retornando aos modos naturais e humanos de sustento. A alimentação com sangue e o hábito de matar fazem parte da queda e vieram com ela.

Nós, da nova Vida, desejamos retornar ao Éden e, como primeiro passo para lá, abandonamos aquele costume horrível e degradante que por tanto tempo conduziu nossa raça àquele tipo mais baixo e bestial de existência; rejeitamos as vísceras as quais deleitam o lobo e o porco e, em lugar disso, nos voltamos para as frutas e grãos puros criados pelo sol, dádivas não sanguinolentas de perfumados campos e árvores, tão somente aos quais é adequada a anatomia do homem. Não podemos errar ao seguir as indicações – ou melhor, os mandamentos – da natureza, pois essas são com toda a certeza palavras de Deus.”

 

 

NOTAS

 

(1) Esse artigo foi publicado na revista The Vegetarian Messenger & Health Review, April 1931, p. 106.

Tradução: Arnaldo Sisson Filho. Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse texto pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.

(2) Anna Kingsford acreditava na doutrina da Reencarnação.